31/12/2007

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04/09/2007

Cap 93: Final

Trilha sonora da cena (clique aqui)


(6 meses depois...)


Abri a porta do meu carro e olhei para o salão de festas. Respirei fundo, hoje seria um dia tão cheio! Teríamos muitas coisas para fazer. Aprendi a ser extremamente exigente com todos os detalhes.

_Eu quero ver isso tudo pronto antes das quatro! Põe essa panela para ferver, pessoal! _ bati palmas na cozinha e, como de costume, cumprimentei um por um. Todos os meus funcionários deveriam ter o prazer de trabalhar para mim, nunca uma obrigação.

Verifiquei os outros itens marcados na minha agenda e isso levou até as três horas, momento em que parei para comer alguma coisa, senão ia desmaiar. Essa compulsão por trabalho me fazia esquecer das necessidades vitais, às vezes.

Respirei fundo. Todo o ambiente estava iluminado, repleto de flores e véus por toda parte.

_Gente, nada pode sair errado hoje, essa noiva merece! _ repeti a frase para cada um. Alguns riam e repetiam comigo, antes de eu terminar. Esse bordão virou piada entre nós!

Para alguns, eu só piscava o olho e fazia um sinal de ok com o dedão.

Pensei em Caio, senti saudade, eu lembrava dele toda hora. Mas eu tinha que me concentrar no trabalho, nada de misturar com o coração!

***

_ Os músicos estão a postos? _ perguntei no rádio.

_Sim senhora! _ respondeu do outro lado minha assistente.

_Eu acho que isso fica comigo agora... _ uma mão tomou o rádio de mim.

_Tio Paulo!_ senti um alívio por vê-lo.

_Se não me deixar fazer isso, vou ficar inútil aqui!

_Que isso... _ ri.

_Só estou um pouquinho nervosa... _ sorri.

_É coisa de noiva. _ me passou uma taça. Bebi o líquido em um gole só.

_Que isso?! _ fiz uma careta. _ Guaraná?

_Não quero você de pilequinho. _ riu.

_Como estou? _ perguntei.

Ele olhou-me de baixo a cima. Eu estava com um vestido branco tomara que caia, todo bordado em pérolas e com rendas. Usava luvas brancas até os cotovelos e segurava um buquê de rosas vermelhas. No meu cabelo um véu muito comprido.

Aquele não era um casamento qualquer, era a minha vez. Eu era a peça principal daquela grande noite e por isso Tio Paulo estava ali para assumir o controle da festa por mim.

_Você está lindíssima! _ beijou-me a testa.

Meu pai me ofereceu o braço e sorriu orgulhoso.

_Pode começar a música. _ o tio ordenou pelo rádio.

Quando entrei, todos se levantaram e viraram para trás. Caio olhou-me apaixonado e feliz do altar. Estava perfeito em sua roupa de oficial. Meu coração disparou e meus olhos se encheram de lágrimas.

Me veio a cabeça tudo como um filme em flash:

Nós demos o melhor de nós.
Eu abdiquei dos abraços e beijos e nós vencemos
Eu briguei com o orelhão toda vez que ninguém atendeu o telefone na ala e nós vencemos
Eu fiquei sozinha em nossos aniversários de namoro e nós vencemos
Eu enfrentei a crítica dos meus familiares e nós vencemos
Eu te vi partir a cada fim de semana, levando meu coração contigo e nós vencemos.
Eu entendi seus serviços e nós vencemos.
Eu entendi suas punições e nós vencemos.
Eu entendi seus campos e nós vencemos.
Eu enlouqueci e voltei a ficar bem e nós vencemos.
Eu engordei e emagreci e nós vencemos.
Eu enfrentei sua mãe e nós vencemos.
Eu juntei dinheiro para viajar e te ver e nós vencemos.
Eu agüentei as piadinhas dos falsos amigos e nós vencemos.
Eu te ajudei na sua monografia e nós vencemos.
Eu te acolhi na minha casa e nós vencemos.
Eu esperei 4 anos e nós vencemos.
Eu sofri noites de insônia e nós vencemos.
Eu senti sua falta e, mesmo assim, esperei e nós vencemos.

Havia ali tantos rostos familiares, amigos, parentes, conhecidos de Caio me admirando. Sua mãe e avó estavam emocionadíssimas, pois faziam muito gosto com nosso casamento.

Meu pai entregou-me para Caio, que beijou minha testa. Sorrimos e fizemos o juramento de cuidaríamos um do outro em quaisquer circunstâncias.

Passamos pelo teto de aço, recebemos a chuva de arroz e brindamos nossa felicidade com muito champanhe. Enquanto nossos amigos se divertiam, Caio me puxou para um canto do salão:

_Eu nem acredito que eu, aquele menino desengonçado e feio...

_Você não era feio! _ briguei.

_Que eu, aquele menino desengonçado e ajeitadinho...

_Caio!

_Ok, que eu, seu amigo, iria ganhar a menina mais linda de toda a escola. Que eu, que fui capaz de quase acabar com nosso amor, tive forças para voltar e lutar por você... E agora você está aqui tão linda... _ acariciou o meu rosto e me beijou.

Meu celular começou a tocar.

_Bela...

_Desculpa, amor!_ tirei o meu minúsculo celular entre os seios, de dentro do vestido. _ Alô?

Caio tomou delicadamente o telefone da minha mão:

_Alô? _ atendeu ele.

_Caio!

_Quem fala? Ah! Você é um vendedor. Entendi, olha, aqui quem está falando é o marido da Bela. Sabe o que é, ela não vai poder atender agora, está em Lua de Mel. Pois é, justo, justo, você ligou na hora em que o noivo beija a noiva. Obrigado pelos votos de felicidade, obrigado, tchau.

Eu olhei para ele de bico.

_Pronto, eu sou mais rápido.

_Me dá o meu celular.

_Para quê? Você acabou de entrar em Lua de Mel. _ colocou-o no bolso.

Comecei a rir e ele riu também e me beijou.

_Oooohhh, que lindo! _ouvimos alguns amigos, que estavam prestando atenção em nós.

Eu abracei Caio e eles tiraram várias fotos nossas. Uma delas acabou ao lado dos porta-retratos no meu apartamento.

A minha vida era perfeita. Eu tinha meu trabalho e um homem que me amava. Caio ficou ainda por mais um ano no sul e depois veio para cá.

Chegamos a um acordo de que nenhum dos dois deixaria de fazer o que gostava e que nosso amor lutaria para ficar sempre aceso, apesar de qualquer distância.

Ah! Débi? Ela se formou e seguiu com Ribeiro. Eles finalmente descobriram o ponto de equilíbrio e maturidade.

_Amor? Cheguei. _ ouvi a voz de Caio, que acabara de abrir a porta.

_Oi. _ recebi seu beijo.

_Eu estava sentindo o cheiro do seu macarrão lá do quartel e vim correndo.

_É? Mentiroso você... _ ri.

Ele deixou sua boina ao lado do porta-retrato e foi tomar banho. Aquele era um dos meus dias de folga, nesses momentos sagrados, nós aproveitávamos cada segundo.

Eu não era a mulher convencional, pelo contrário, não tinha tanto tempo para viver ao lado dele à cada formatura. Mas nós fazíamos um esforço diário de tolerar a vida profissional um do outro. Ele brigava, como eu também brigada por atenção, mas de monotonia a gente não vivia por certo.

Esse não é o caminho certo, ou errado. É o meu caminho e cada um descobre a melhor maneira de ser feliz. Não há um mapa, nem guia, ou manual de instruções.

A única coisa que é inviolável é a nossa união, porque para mim Caio será o meu amor eterno, além da vida.
Autora:


Obrigada a todos vocês que chegaram até aqui junto comigo, acompanhando as aventuras da Bela e do Caio e se emocionando juntos.

Quando comecei este livro, assumi os riscos e me propus a preencher a lacuna da nossa literatura sobre a vida de uma namorada de cadete. Pouco se fala ainda a respeito das dificuldades, desventuras e também alegrias de se namorar um militar.

O modelo serial atenuou as tenções e resultou em uma novela divertida e emocionante. Acabei ganhando um público vibrante, que quero levar comigo para outras e outras estórias!

Meu agradecimento especial a Lucy, que todos os dias fazia a revisão dos capítulos com muito carinho, apesar do seu tempo tão curto. Você não existe!

A Bela foi um pouco de muitas histórias reais que ouvi. Muitos personagens aqui presentes de fato existiram, em outros tempos e em outros contextos, que só eu saberei e guardarei como segredo de Estado.

Muita gente diz: "Como pode dar errado para Bela? Comigo é tudo tão fácil e dá tão certo, não entendo por que esse alarde." Bom, o livro não era para contar uma estória fácil, era para narrar a angústia de Belas e Caios pelo Brasil. Pode-se dizer que nem tudo entrou no livro e cada uma sabe o que quero dizer... Mas eu não queria trazer tristeza e sim alegria, divertimento. O difícil era equilibriar isso. Mas imagino que consegui.

Ficou aquela sensação ruim de ahhh, acabou?! Bom, então, vamos começar uma outra aventura.

Vem comigo! E vamos ver o amor, que mora no quarto ao lado!


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03/09/2007

Cap 92: Você tem dois segundos

Trilha sonora da cena (clique aqui)

O telefone chamou por mais três vezes e Caio atendeu do outro lado. Nesse momento, dei-me conta de que não sabia por onde começar. Eu havia dito tantas indelicadezas que não tinha palavras para estabelecer qualquer diálogo amistoso.

_Oi, é a Bela.
_Hum. Esqueceu alguma coisa para dizer? _ perguntou. Pelo barulho ao fundo deveria estar no trânsito dirigindo.

_Li sua carta. _ disse-lhe na esperança de que entendesse ser aquela a minha rendição.

_E aí? _ perguntou, agora na posição de quem está no direito de fazer jogo duro.

_Eu... _ passei a mão na nuca, pensei por alguns segundos. _ Queria marcar para a gente conversar. Pode ser hoje?

_Que horas? _ perguntou.

_Hum. _ Olhei o relógio e ri. _ Você vai estar fazendo alguma coisa importante a uma e meia da madrugada? _ perguntei em tom de brincadeira.

_Bom, talvez eu esteja indo pegar água na geladeira ou, não sei, indo ao banheiro.

_Eu sei que é muito tarde. Mas, é a hora que eu saio do trabalho, tenho uma vida noturna de morcega. Tudo bem, deixa...

_Não foi essa a Bela que eu conheci. Você não costumava entregar os pontos tão fácil.

Revirei os olhos. Santa paciência!

_É que eu sei que você não gosta de joguinhos. Bom, então, deixa eu desligar porque tem algumas pessoas aqui me chamando e...

_Tá, então.

Desligamos.

_Ai! _ fiz uma careta olhando para o telefone ainda na minha mão. _ Como você me irrita, garoto!

Expirei e os fios do meu cabelo voaram no ar e depois caíram de volta na testa. Levantei-me para esticar as pernas, eu parecia pensar as coisas melhor em pé. Pus as mãos na cintura.

O telefone tocou mais uma vez.

_Eu sabia! _ ri, mas não atendi de imediato. No terceiro toque apertei o botão. _ Alô?

_Ok, uma e meia eu passo aí. _ disse-me ele.

_Te espero. _ dei um soquinho silencioso no ar em comemoração.

Desligamos.

E a noiva demorou para querer casar, não parecia nem um pouco com pressa para acabar a festa.

Quando, finalmente, o pessoal da limpeza entrou em ação, eu vesti o meu sobretudo e pequei minha bolsa. O frio de julho estava pouco convidativo para esperar lá fora, mas fiquei na porta, aguardando Caio chegar.

Olhei o relógio cravando uma e meia por baixo da manga. Caio estacionou o carro na frente do salão e saiu.

Estava com uma outra camisa, agora preta e muito cheiroso. O cabelo molhado com gel mostrava que tinha tomado banho recentemente.

Tudo isso era para mim?

_Boa noite, Cristóvão. _ eu disse ao porteiro, desci os dois degraus que davam para a saída.

Pus as mãos dentro dos bolsos do sobretudo e encolhi os ombros.

_Oi. _ cumprimentei-o com um simples sorriso tímido.

_Suas bochechas ficam coradas com o frio. _ comentou.

Abaixei a cabeça e a levantei de lado. A luz do poste dava um colorido no seu rosto próximo ao meu agora. Nossas respirações formavam leves nuvens de fumaça branca.

_Eu estou com fome, pensei em sair para comer alguma coisa. _ sugeri.

_Com fome aqui? _ apontou para o salão.

Olhei para trás e sorri:

_É... Não falta comida, mas se eu viver à base de salgadinhos, vou terminar no formato de uma coxinha, fina em cima e bojuda na barriga.

_Trocar salgadinhos por pizza melhora bastante também... _ ponderou.

_Tá bom, você me venceu! _ ri e toquei no seu braço.

Foi o nosso primeiro contato, depois de 6 meses separados.

Ele pegou minha mão entre seus dedos e dedilhou-a, até que esta soltou-se no ar.

_Então, onde você propõe a gente comer um pé de alface?

_Bom, já que não tem pé de alface, vai de pizza mesmo. Eu, particularmente, ... _ colocou a mão em seu peito irônico. _ ... não trocaria um pé de alface por iguaria nenhuma nesse mundo, mas já que não tem, vou fazer esse sacrificiozinho e comer pizza.

_Puxa, obrigada! _ dramatizei também.

_Onde pode estar aberto a essa hora? _ perguntou.

_Parece que já esqueceu que morou por aqui. _ comentei.

Ele ficou me olhando e eu senti uma pontada de tristeza por isso. Do que mais ele teria se esquecido?

_Vamos à “Pizza da casa”, lá perto da casa da Cris.

Ele abriu a porta do carro para eu entrar.

_O meu está ali. _ apontei. _ Você pode vir atrás de mim.

_Claro, eu esqueci que você é uma mulher independente. _ senti um tom de ironia em sua voz.

_Pensei que já tivéssemos selado o acordo de paz.

_Selado como? _ ele olhou em cheio para os meus lábios.

_A gente pode brindar daqui a pouco. _ sugeri e abri a porta do meu carro.


***

_O que vocês vão pedir? _ perguntou a balconista da pizzaria.

_O de sempre? _ ele olhou-me, buscando minha opinião.

Era como se nada tivesse acontecido e aquele fosse mais um encontro. Por mim, qualquer coisa servia, até pizza de jiló e suco de boldo, mas era melhor eu demonstrar rapidinho que não tinha esquecido de nossos hábitos e gostos:

_Metade quatro queijos, metade frango com catupiry. Uma Coca-Cola de 500 ml pra ele e para mim, guaraná.

_Mais alguma coisa? _ ela perguntou.

_Uma pizza mini de chocolate para sobremesa. _ ele acrescentou para me indicar que não havia esquecido minha “tara” por pizza de chocolate com morangos.

_Nós vamos fechar daqui a quarenta minutos. _ avisou. _ Preferem levar para a viagem?

Caio olhou-me, a resposta dependeria de um convite meu.

_Bom, podemos ir para o meu apartamento. _ falei baixinho para ele. _ A Débi e o Ribeiro estão lá. _ comentei, para que ele não pensasse que a mudança de planos significava um convite íntimo.

Sentamos para esperar que o pedido ficasse pronto.

_No telefone, você disse que leu a carta. _ puxou o assunto.

_É, li. _ olhei para o lado e depois para ele.

_Eu acho que já falei tudo o que sinto ali. Bela, eu sei que errei em ter me precipitado em acabar o namoro. Quem sabe, eu tinha medo do golpe de você fazer isso... _ ele tirou uns fios de cabelo do meu rosto, colocou atrás da orelha, mas estes resistiram e caíram outra vez. _ Bela, você me esqueceu?

_Esqueci.

Fiz uma pausa e expliquei:

_Todo santo dia eu te esqueço.

_Isso significa que eu ainda tenho uma chance?

_Pizza da mesa nove! _ gritou a balconista.

Levantamos para receber o pedido e Caio adiantou-se, pegou a caixa de papelão e equilibrou os dois copos em cima.

***

Senti seus olhos percorrendo todos os cantos do apartamento quando abri a porta da sala.

_Parece que todos estão dormindo. _ eu sussurrei.

Ele olhou para os porta-retratos e tenho certeza que sentiu falta de alguma foto sua no móvel.

_Vem... _ convidei-o para entrar na cozinha.

Sentamos à mesa e eu distribui pratos e talheres. Coloquei o guardanapo à disposição.

_Isso aqui é tudo que você sonhou, lembro de como você vivia contando que sua casa seria assim, assado... _ ele serviu-se da pizza.

_Eu pensei que nunca tive escutado o que eu falava...

_Eu sempre escutei, só que tudo isso me dava muito medo. _ confessou.

_Mas está tudo aqui como eu sonhei, conquistado com muito suor. Meu trabalho é incrível. Amo lidar com pessoas, com festas, com... Desculpe, não me deixe falar só de trabalho... _ bebi um gole do refrigerante.

_Continue. Você escutou anos eu falando da Academia, por que não te ouvir agora?

_Eu estou estudando para o mestrado agora, quero seguir aprendendo, me aprofundando. _ comentei.

_Muito bom! O que mais? _ perguntou, antes de morder mais um pedaço. _ Não vai comer?

_Vou! É que te ver comer me dá gosto. _ sorri e apoiei o queixo no meu ombro, vendo-o de lado. _Nossos amigos ficaram com meu quarto e só restou o outro da Débi com uma cama de solteiro, mas acho que consigo te alojar na sala... _ lembrei-me deste detalhe.

_Qualquer pedaço de chão para mim está bom. Você sabe que eu não tenho dificuldade de dormir.

_Eu vou ver o que faço... Aproveita a pizza.

_Você tem certeza disso?

_Claro, pode comer. _ sorri e me levantei.

Passei pela sala, liguei o som e coloquei um CD que eu havia gravado com músicas que gostava. Volume baixinho para ficar um som ambiente.

_”Olha aqui/ Preste atenção/ Essa é a nossa canção/ Vou cantá-la seja aonde for/ Para nunca esquecer o nosso amor/ Nosso amor
Veja bem Foi você/ a razão e o por quê/ De nascer esta canção assim/ Pois você é o amor que existe em mim...”

Senti a presença de Caio. Virei o rosto para o lado e o vi escorado na porta da cozinha, com as mãos no bolso.

_ “Você partiu e me deixou/ Nunca mais você voltou/ Pra me tirar da solidão/ E até você voltar/ Meu bem eu vou cantar/ essa nossa canção”.

Desliguei o botão.

_Pode deixar. _ ele pediu.

Eu apertei o botão outra vez.

_É... _ não sabia onde colocar minhas mãos. _ Eu preciso tomar um banho. _ retirei o sobretudo e o deixei em cima do sofá. _ Você pode dormir no sofá. Vou trazer um cobertor...

Caio não falou nada, só me olhava.

Fui para o banheiro e senti seus passos atrás de mim. Quando fechei a porta, sua mão a forçou.

Ele olhou-me e não estava mais com paciência para resistir.

Meu coração disparou e eu dei dois passos para trás.

Caio segurou meu rosto e encostou sua testa na minha. Sua respiração estava ofegante e seu cheiro maravilhoso tirou-me a lógica do pensamento.

Minhas mãos se seguraram na borda da pia atrás de mim.

_Você tem dois segundos para me mandar embora. _ disse ele.

Fechei os olhos e meus lábios se entreabriram para receber os dele em resposta. Caio inclinou o rosto para o lado e beijou-me. Senti sua língua, os lábios entre os meus. Minhas mãos procuraram seu cabelo.

Ele fechou a porta do banheiro e voltou a beijar-me, agora o pescoço, o colo dos seios, abriu os botões da minha blusa e eu puxei a sua. Beijamo-nos com uma saudade explosiva e o doce reencontro dos corpos sedentos.

Deixamos a água quente cair sobre nós e esquecemos o tempo, imersos na fumaça branca que nos envolvia.

Não importa o tempo que ficamos separados, não paramos de nos querer, de sentir esse ardor de vida. A prova disso era a vontade cada vez mais forte de abraçá-lo, puxá-lo todo, como uma onda que engole e traga tudo para si, eu o queria inteiro, entre os limites da epiderme e do pêlo, completo.

Minhas mãos apoiadas no azulejo embaçado escorregaram, deixando um rastro de meus dedos úmidos, quando sentimo-nos finalmente um só.

Depois, descobrimos que não precisávamos de sofá porque a cama de solteiro da Débi era suficiente.

Ele acariciou meu corpo debaixo do edredom, enquanto seus lábios não desgrudavam-se dos meus. Segurei seu rosto com uma das mãos para ver melhor seus olhos lindos e sorri:

_Eu te amo, Caio.

_Eu também te amo, Bela. _ ele me beijou mais uma vez, como se cada beijo quisesse saciar a lembrança de um desejo já contido no fim do anterior.

O dia amanhecia quando nossos corpos já estavam fadigados de se amar.

Deitei-me contra seu peito e encaixei-me na concha do seu corpo. Senti a sonolência chegar com toda força.

_Bela? _ ouvi sua voz doce a me chamar perto do ouvido.

_Hum. _ mantive os olhos fechados.

_Quer casar comigo?

Autora: Li

Amanhã, o capítulo final, espero todas vocês!

02/09/2007

Cap 91: Eterno Retorno

Trilha sonora da cena (clique aqui)

Débi se recuperou bem. Acho que o melhor remédio foi o retorno ao seu lugar de origem. Ela quis morar comigo, ao invés de voltar para casa da mãe. Isso corresponderia a ser, outra vez, a ”filhinha da mamãe”. Entendi sua posição. Afinal, agora ela era uma mulher casada.

Mas, precisei estabelecer algumas regras. Usar um anel no dedo não lhe dava alguns miolos a mais, suas atitudes ainda eram, em boa parte, as de uma estudante sem muitas responsabilidades.

Primeiramente, incentivei-a para arrumar um emprego a fim de ocupar seu tempo e, também, ajudar nos custos da manutenção da casa: aluguel, água, luz, telefone, internet banda larga, comida. Não que eu realmente precisasse financeiramente do seu apoio, mas ela tinha que sentir a sensação de sustentar-se e não de que recebia um favor. A última coisa que eu fiz foi ratificar o papel de “pobrezinha”.

Depois, falei-lhe que o assunto “mundo militar” dentro daquele apartamento deveria ser evitado, em consideração a mim. Débi, no início, só sabia falar a mesma ladainha de que as mulheres conseguiram se adaptar muito bem e ela, não. Eu até queria dar-lhe ouvido, mas sinceramente, esse tema trazia-me sensações ruins.

Débi compreendeu e parou de bater na mesma tecla. Nesse tempo de mudança, ela ganhou peso, uma cor bronzeada e um belo sorriso no rosto. A saudade do marido era saciada no msn, skype e telefone todos os dias. Por isso, foi também preciso colocar o computador no quarto dela, já que não dava para todo dia ficar ouvindo aqueles dois enquanto eu tentava dormir.

Minha amiga adquiriu, dessa maneira, uma nova rotina: trabalhar, estudar muito, colaborar com as tarefas domésticas e se divertir. Aproveitamos para ver peças de teatros, alugar todos os filmes que ela tinha perdido e ficar horas ouvindo as músicas das paradas de sucesso. Tinha muita coisa a tirar o atraso. Era isso que ela tanto sentia falta, o cheiro de cultura que o Rio de Janeiro tinha no ar.

A faculdade estava de vento em popa e seus trabalhos, muito reconhecidos no meio acadêmico. Pelo menos, os livros continham sua fome de recuperar o tempo perdido e dava-me uma brecha para respirar e cuidar das minhas coisas.

Eu tinha minhas manias de, antes de dormir, tomar banho de cremes, passar óleo no corpo enquanto tomava banho, enfim, era o meu momento sagrado comigo mesma, à noite.

Mas, acho que não deixei a regra clara quanto ao horário da manhã. Ela entendera que, ao chegar do trabalho, eu não gostava de desperdiçar meu tempo de relaxar com qualquer assunto ou problema. Contudo, ao acordar, eu também não queria ser empurrada da cama, isso me despertava um humor do cão.

_Bela, Bela! _ ela pulou em cima da minha cama, quase me matando do coração.

Sentei-me e afastei o cabelo do rosto:

_Que aconteceu? Ficou maluca!? _ reclamei irada por ver em seu sorriso que não era nada sério. Aliás, sua cara era de travessura, então, eu só tinha a temer.

_Adivinha quem vem ao Rio de Janeiro? _ Débi abriu as cortinas, deixando o sol entrar e iluminar meu rosto.

Eu respirei fundo e tentei não ter um ataque.

_Não, eu não sei.

_O Caio!

_Quê?! _ Quase dei um grito, controlei-me e fingi que não foi nada, coloquei o cabelo atrás da orelha e cruzei os braços. _ E daí?

_Como “E daí?” Aloooou? _ ela estalou os dedos e ficou de joelhos na cama. _ Belinha, o amor da sua vida está desembarcando hoje, no Rio de Janeiro e...

_Que "amor da sua vida"?! _ franzi a testa. _ Você está louca? Ele foi embora...

_Então, por que seu coração está disparado?

_Meu coração não está disparado!

_Deixa eu ver?

_Débi, isso é ridículo.

_Deixa?

_Tá. _ revirei os olhos e ela colocou a mão no meu peito.

_Bela, querida, você está tendo um ataque cardíaco, eu vou ligar para o Caio para vir fazer uma respiração boca a boca. _ Débi me empurrou na cama e eu caí de costas. Ela estava se matando de rir da minha situação.

_Presta atenção! _ Sentei-me outra vez, tentando recuperar a moral. _ Eu só estou assim porque... você... _ apontei para ela. _ ... entrou no quarto feito uma louca e me deu um susto.

_Humhum. Tá bom. _ Ela ficou olhando o teto.

_E sabe quem vem junto?

_Essa é fácil: Ribeiro! _ respondi.

_Isso mesmo! Parabéns, menina esperta! _ riu. _ Não é o máximo? Ele conseguiu uma passagem de 50 reais na Internet, se cadastrou no site e comprou! É um milagre mesmo. As coisas tinham que acontecer assim. E, ah! O Caio também conseguiu pegar um avião da FAB e vir para cá. Bom, os dois não vão poder ficar aqui até a hora que quiserem porque não depende deles o retorno... _ Débi falava tudo tão rápido como se estivesse ligada em uma tomada, fazendo gestos amplos com as mãos. _ Eu sinto que não é por acaso! Júpiter deve ter se aliado com Vênus, com o sol e a lua...

_Débi? Você confundiu aquele pote que fica ao lado do de açúcar e colocou pó de guaraná no seu café?

_Não! _ ela se matou de rir, parecia em transe. _ Bela, o Ribeiro me disse que o Caio disse que... Eu não sei se digo o que disse...

_Disse, disse, disse o quê, criatura? _ interrompi-a, já aflita.

_Ah! Você não queria saber mesmo. _ ela pulou da cama, calçou o chinelo e saiu do quarto.

_Débora, volta a aqui! O que ele disse? Eu vou contar... 1, 2 e...

_Tá bom, eu conto. _ ela voltou correndo e pulou sentada na cama, fazendo-me quicar no colchão de molas. _ O Caio disse para o Ribeiro que vem te ver.

_Ãnh? _ fiz uma careta, agora sim eu precisava de uma respiração boca a boca!

_Humhum, queridinha, ou você acha que eu vim te acordar para quê? Precisa fazer as unhas, se arrumar... Parece que esqueceu como é isso. Bela, tudo vai voltar a ser como nos velhos tempos!

_Débi, eu acho que você não está entendendo... _ eu ri da situação toda e tentei mostrar-lhe que não era tão simples assim. Talvez eu estivesse ficando pragmática demais. _ ... O Caio e eu perdemos contato há 6 meses porque ELE terminou comigo. Agora, do nada, ele vem aqui ME ver?

_É, pura e simplesmente assim! Bela, você complica demais a vida... Iiiiih, me cansa a beleza.

_Então, deixa eu entender. O Caio estava sonâmbulo todo esse tempo. Ai, na manhã de ontem, bateu com a testa no box do banheiro e plá! Acordou e se deu conta: “Caramba, a Bela não está aqui comigo?!”.

_Eu não sei onde ele bateu a testa, mas o seu gatinho está a caminho! _ esfregou uma mão na outra.

Gatinho? Eu estava fazendo uma terapia comigo mesma para não pensar em Caio e ela me pula na minha cama e me faz sentir como no dia que ele me beijou pela primeira vez, cheia de medos, expectativas e com friozinho na barriga?! Isso era colocar por água à baixo toda a transformação lenta e gradual em questão de segundos.

_E onde o Ribeiro vai ficar?

_Tem algum problema dele ficar aqui? É só por um ou dois dias.

_Tudo bem. Mas, e o Caio?

_Bom, aí é contigo. O homem é teu! _ deu de ombros. _ Bela, eu tenho que correr para a faculdade. Se cuida amiga porque... _ colocou as mãos no meu ombro. _ você está feia. Vai por mim. Horrorosa! _ falou, se agüentando para não rir.

_Eu fiz a unha ontem!

_Deixa eu ver! _ pediu, desacreditando.

_Aqui ó. _ mostrei com as mãos estendidas no ar.

_Querida, para uma doméstica, está ótima. Esse branquinho cru e sem graça fica perfeito. Põe um vermelho nisso, um ruge nessa cara... _ ela apertou os seios e fez uma cara de “tara” divertidíssima. _ ... e joga todo esse sex appeal para fora! _ balançou o cabelo no ar, teatralizando. Depois, piscou o olho para mim e saiu.

Eu fiquei ainda meio zonza, sentada na minha cama. Nem com Lexotan eu conseguiria dormir depois dessa notícia.Respirei fundo e fui até o banheiro fazer xixi.

Olhei-me no espelho e, em seguida, verifiquei minhas unhas. Débi talvez estivesse certa, eu merecia um cuidado especial. Mas, tinha tanto medo de estar criando um monte de expectativas para depois me frustrar.

Só que não podia negar que a alegria explosiva dela me entusiasmara. Minha amiga conseguiu trazer-me de volta àquela Bela alegre, feliz e adolescente. Acho que a vida permitiu que ela e eu nos reencontrássemos porque, no fundo, eu estava precisando de ajuda também.

***

Trilha sonora da cena (clique aqui)

_Dona Isabela. _ o rádio tocou na minha mesa, eram seis horas da tarde.

_Pode falar, Cristóvão. _ reconheci sua voz.

Continuei escrevendo no computador o e-mail para uma cliente que queria contratar nossos serviços.

_O senhor Caio quer falar com a senhora, posso deixar subir?

Meus dedos travaram no teclado e meu corpo inteiro parou, até me coração estancou. Parecia que tinham derrubado um balde de cera sobre mim e eu mumificara.

_Dona Bela?

_Oi, na escuta. _ peguei o rádio. _ Pode mandar subir. _ autorizei e desliguei.

Era verdade, a Débi estava certa, ele viera me ver.

_Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! _ fiquei de pé, dei uma volta na sala, estava absurdamente sem ar, com calafrios, os pêlos da nuca, dos braços, do corpo todinho arrepiados, tudo em pé de tanta excitação. _ Ai, socorro!!! _ corri para minha mesa e sentei novamente.

Não podia aparentar desespero. O que ele ia pensar? Que eu tinha ficado todo aquele tempo à sua espera!

Ouvi três toques na porta.

Fechei os olhos e respirei profundamente. Seis meses e ele estava à minha porta.

_Pode entrar... _ falei, pegando uma caneta e fingindo escrever alguma coisa “sem noção” no primeiro papel que achei na mesa para dar uma de “mulher super ocupada” e que não está nem aí para sua chegada.

Só vi aquele vulto entrar pela minha esquerda e ficar bem na minha frente. Meus olhos se levantaram do papel e senti a veia pulando no meu pescoço. Lentamente, fui visualizando sua figura, como um scanner que faz a leitura gradual da imagem de baixo para cima.

Ele estava de calça jeans e uma blusa azul clara. Aquilo para mim significou muito mais tempo do que realmente foi, o mundo parecia ter parado de girar. Mordi a parte interna dos lábios e meus olhos se encontraram com os seus, brilhantes, profundos, fitados em mim.

_Oi. _ disse-me e sua voz nos meus ouvidos despertaram-me alma.

Seis meses não foram suficientes para deixar-me imune à sua voz grave e familiar. Nem a eternidade, creio eu, seria capaz.

_Oi, você estava andando pela rua e pensou: "puxa, vou virar aquela esquina e dar um pulo lá na Bela"? _ perguntei, sem deixar nada fácil para o lado dele.

_Não, na verdade eu estava andando na rua e pensei: "puxa, vou pegar aquele avião, atravessar o Brasil e ver a Bela". _ foi rápido também.

_E... o que te motivou a dar um pulo acolá no Brasil? _ recostei-me na cadeira, em posição de defesa.

_Eu já disse: ver a Bela.

_E...? _ franzi a testa.

_Eu senti sua falta.

_Caramba! Demorou um pouquinho, hen? _ alfinetei.

_Bela, eu estive pensando...

_Engraçado.. _ levantei-me e fui para perto dele. Ficamos frente a frente. _ A última vez que nos falamos você me disse exatamente isso, acho que foi no baile. Vem cá, você está pensando até agora? Que pensamento colossal. Escreve uma tese sobre isso! Falo sério! Agora eu estou tentando a prova para o mestrado e estou vendo que não importa o tema, se você tem uma boa idéia e embasamento... tudo se resolve. Embasamento não vai te faltar, eu acho...

_Pelo visto, tudo que você guarda de mim é rancor. _ sua voz saiu triste e, por um triz, aquilo quase me quebrou.

_Rancor? _ eu não conseguia sair da linha “sarcástica-ácida”. _ Por que eu teria motivos? Eu te esperei por quatro anos e quando achei que você podia pensar em uma maneira de ficarmos juntos, você decidiu por nós dois que era melhor seguir sem mim. Ótimo, Caio. Mas como vê, eu não morri, estou bem, sobrevivi.

Caio riu sozinho, olhou para o lado e balançou a cabeça.

_Como eu sou um idiota.

_Aonde vai? _ perguntei, quando ele caminhou para porta.

_Eu vim para conversar com você, não para ficar a tarde toda em um estratagema verbal. Não gosto muito desses RPG's com meus sentimentos. Você sempre soube disso, aliás, você deve ter esquecido tudo sobre mim, grande mulher bem sucedida. _ ele tirou do bolso de trás da calça jeans um envelope branco e jogou em cima da minha mesa. Aquela cena lembrou-me uma vez no colégio, quando ele fizera um trabalho de casa para mim e jogara na minha carteira. _ Lê e depois joga fora, se quiser.

Caio saiu.

Eu ainda dei três passos, mas a porta se fechou na minha frente. Droga! Como eu podia ter deixado a raiva me dominar? Era muita coisa acumulada na garganta!

Peguei o envelope e sentei no sofá.

“Aos cuidados de Isabela”, dizia unicamente no verso do envelope. Abri-o, tendo que rasgar a parte lateral. Era uma folha digitada no computador.

“_Bela, são onze horas da madrugada e eu estou aqui em casa tentando te escrever. Já gastei meio caderno, mas percebi que estava devastando as pobres árvores na tentativa de fazer um começo decente, então parti para a tela do computador, onde posso apagar e ainda ser ecologicamente responsável...”

(Aquele seu tom de amigo já fazia o meu corpo aquecer e as lágrimas virem aos olhos, não importava a continuação daquele primeiro parágrafo).

_"Você pode se perguntar porque está com essa folha nas mãos e não lhe enviei por e-mail. Mas eu vou me propor entregá-la em suas mãos eu mesmo, não por intermédio do correio. Nem que eu deixe com alguém da portaria do seu trabalho, só quero que saiba que vim trazer o meu coração de volta para você dentro desse envelope pessoalmente. "

(Levei a mão à boca e tentei não chorar.)

"_Eu sei que você deve estar se perguntando o que deu em mim agora. E eu vou ser muito franco com você e contar tudo exatamente como aconteceu. Eu estava muito cheio de expectativas no aspirantado. Achava que tudo tinha que ser daquele jeito: você vir comigo, largar tudo e pronto, porque a minha carreira era mais importante. Eu pensava ainda assim até antes de ontem.

Aqui no quartel tínhamos um sargento muito amigo, que morreu em um acidente e nosso capitão Ruan tentou de tudo para salvá-lo. Eu acabei passando por todo esse transtorno ao lado dele e em um dado momento, começamos a conversar sobre a vida. Contei um pouco da minha, ele um pouco da dele.

Foi aí que ele me perguntou:

_Se estivéssemos na guerra agora e o seu melhor amigo se ferisse, você o largaria no meio do caminho, sabendo que ele teria chance de sobreviver se o carregasse nos ombros?

Eu respondi que lógico que daria minha vida para trazê-lo nos ombros. Foi aí que o que ele me disse me atingiu como um soco na boca do estômago.

_Você já foi mandado para guerra faz muito tempo, meu caro. Só que abandonou a pessoa mais importante para trás e só pensou na sua vida. Pode ser que ela tenha sobrevivido, mas será que você merece dela o mesmo respeito, depois de tê-la abandonado à própria sorte?

Eu entendi naquele momento que a pessoa a qual ele se referia era você e me senti a pessoa mais burra e incompetente do mundo.

_Para que serve tudo que aprendeu? Onde esperava aplicar? No front? Olha a sua volta? Não está vendo as minas? Elas estão armadas para te pegar, só que o colorido da paisagem ilude, deturpa. Você ainda não enxergou que as decisões que tem que tomar são essas minas?

Eu fiquei sem palavras e ele percebeu isso e só me deu um conselho:

_Filho, vai atrás do "seu soldado", pode ser que ele ainda não tenha morrido.

É por isso que estou escrevendo essa carta, eu quero você de volta para mim. Vi por aqui dezenas de casos diferentes. O comandante dessa unidade tem uma esposa que é desembargadora em São Paulo, ela nunca largou a vida dela e nem por isso eles deixaram de casar e ter filhos. São muitos e muitos casos de maneiras diferentes de se viver esse amor. Eu queria descobrir a nossa maneira, mas dessa vez, sem que ela te faça abdicar dos seus sonhos para seguir o meu.

Eu só quero estar em alguma missão bem longe e saber que o seu coração é só meu. Bela, nada teve sentindo sem você. Pode não acreditar, fiz tudo isso pensando no seu bem e só fiz mal a mim mesmo. "

(A mim também, falei baixinho.)

"_Se quiser me dar essa chance, aí está o meu telefone. "

Eu limpei as lágrimas do rosto e pensei na maneira horrível que o tratei.

_Dona Bela. _ era a voz de Cristóvão de novo.

Será que era Caio outra vez na portaria? Será que voltara arrependido de não ter dito pessoalmente o conteúdo da carta... e...?

_Dona Bela, a noiva do casamento não quer sair do carro, ela está em prantos... vem para cá.

Revirei os olhos, eu, louca para cuidar da minha vida e me aparece uma “noiva em fuga”?

Deixei a carta na minha mesa e corri para ver qual era o problema dela. Não podíamos deixar que os convidados percebessem a situação.

Entrei no carro pela outra porta e passei-lhe a taça de champanhe que eu havia pegado na cozinha. Eu já era profissional em resolver situações críticas.

_Beba. Vai te fazer bem. Toda noiva passa por isso.

_É? _ ela engoliu o choro.

_Teve uma que precisou de uma garrafa de conhaque. _ disse-lhe.

_Obrigada. _ ela bebeu tudo e respirou fundo. _ A mãe dele me odeia e diz que não vou fazê-lo feliz, estou morrendo de medo e...

_Ei... _ coloquei as mãos no seu rosto e o acariciei. _ Ninguém está preparada... Mas, quando surgirem os problemas, você mesma vai descobrir a força que tinha em você e não sabia. Você não o ama? Então, lute por isso. Vá e suba naquele altar. Nunca vi uma noiva tão linda como você! Imagina o quanto todos estão curiosos para te ver, ãnh?

Ela sorriu e eu retoquei sua maquiagem com um pó que eu trouxera. Já tinha passado por aquilo algumas vezes para ter meu próprio kit “desespero de noiva”.

Bati a porta do carro e sai de dentro. Respirei fundo. Ufa, ela não ia jogar por água a baixo toda a big festa que eu preparara. Nem que eu precisasse hipnotizá-la para ela só acordar na lua de mel.

_Pode mandar tocar a música para a noiva entrar. _ ordenei pelo rádio à minha assistente e voltei para minha sala.

Peguei a carta.

Respirei fundo.

“Lute por isso”, era a vez de eu falar para mim mesma.

Disquei o número.

Começou a chamar.



Autora: Li

Faltam dois capítulos!!! Não percam!!!

01/09/2007

Cap 90: Vida nova, casa nova

Trilha sonora da cena (clique aqui)

(6 meses depois...)


_O apartamento é o melhor que temos para alugar. Vista ampla da sacada, uma sala em L espaçosa e os dois quartos já estão com armários modulados. _ avisou-me o corretor por telefone.

Mesmo assim preferi conferir tudo de perto. Queria ver com meus próprios olhos o meu futuro canto. Seria uma espécie de quarto em grandes proporções, a minha casa, o meu lugar onde posso fazer o que quiser e ser dona de mim, independente. Era a realização de um grande sono.

Realmente era como eu queria. Muito aconchegante. Levei algum tempo para decorá-lo, pois queria cuidar com muito carinho de cada detalhe. Sempre fui de me empenhar em tudo que faço, gosto de pesquisar antes para ter uma gama de escolhas. Comprei revistas de decoração, entrei em sites e fui montando meu estilo.

Para começar, a sala. Coloquei dois sofás brancos muito fofos e com almofadas aconchegantes. Um era de cinco lugares, ótimo para eu me esticar e ler um livro. Sobre ele, coloquei uma manta mostarda bem chique. Em uma das paredes, fiz uma textura em vinho escuro e coloquei quadros de tons claros para contrastar. Fui, pessoalmente, escolher uma planta grande para colocar em um dos cantos, ela seria ótima para absorver as energias do ambiente. Que dia delicioso aquele passeando pela floricultura.

Eu não queria nada caro... Eu queria sofisticação. Fui em um antiquário e consegui um aparador antigo, com um design maravilhoso. Coloquei-o encostado na parede vermelha e, em cima, um vaso com folhagem seca e dos dois lados deste alguns porta-retratos de pessoas queridas: Débi, minha mãe, meu pai e irmão, os amigos da faculdade, meu tio, os profissionais da empresa.

Não havia foto dele, estavam todas junto com as coisas que eu ainda tinha dele na casa dos meus pais. Não trouxe comigo. Eu decretara que começaria uma vida nova, não podia trazê-lo para dentro de casa, por mais que ele cismasse em me seguir dentro do meu coração.

Então, como eu ia dizendo, a sala era meu ninho. Coloquei um tapete bege claro e em cima uma mesa de centro grande de madeira decorada com livros e umas velas coloridas que comprei em uma casa esotérica. Eram aromáticas e coloridas.

Ao invés de comprar um estante, fiz diferente. Coloquei uma enorme prateleira de ponta a ponta de uma parede e duas menores embaixo, pegando de um canto até um espaço no meio, de maneira que a televisão ficou encaixada entre elas. Um pouco mais abaixo, mandei fazer uma pequena estante pequena, só com portas, para eu guardar coisas que eu teria no futuro, já que era só o começo da minha vida de solteira independente.

Na varanda, uma rede, claro. E uma cortina estilo romântica, salmão, maravilhosa, que faz sentir-me em uma casinha de bonecas.

O meu quarto era amplo, com uma cama de casal para eu me espalhar entre oito almofadas e travesseiros muito fofos. Apenas coloquei uma mesa para comportar meu computador novo e cadernos da faculdade. Queria uma coisa clean mesmo, sem muitos móveis.

A cozinha já estava com armários, só tive mesmo que comprar o basicão dos eletrodomésticos. Mas, não queria que fosse um lugar frio. Coloquei quadros pequenos na parede, enfeitei com potes de vidros, flores e coisas que me fizesse lembrar de que aquele era um lugar acolhedor.

Podem ficar pasmos, mas aprendi a cozinhar. Claro, às custas da paciência das cozinheiras do salão de festas que me aturavam em seus ombros, fazendo mil perguntas e apontando para as panelas. Acho que até engordei um pouquinho de tanto provar os pratos.

Minha rotina era faculdade, trabalho e minha casa. Mas, logo vi que precisava de mais fôlego e decidi, então, me matricular na academia. Finalmente, eu estava em equilíbrio de corpo, mente e coração.

Pode parecer muito estranho eu dizer isso, mas eu sobrevivi à separação. No princípio, parecia que o mundo ia acabar, eu não conseguia parar de chorar e me sentia alguém muito ruim, como muita gente me fazia crer que eu era. Mas depois, voltei a lembrar do que sou de verdade, focalizei minha atenção nas coisas que eu gostava e segui meu rumo.

Ele não é algo que eu possa esquecer, simplesmente vem em meu pensamento para onde quer que eu siga, mas agora sem me atrapalhar. Simplesmente, está ali quieto em meu coração, sem trazer turbulências.

Às vezes, me perguntam como ele está, mas eu digo o que de fato aconteceu: não procurei saber. Eu queria ficar bem e esforcei-me para isso.

Não posso dizer que não me sinto solitária em certos momentos, mas isso também não me faz infeliz. Vivo rindo, de alto astral, tentando passar coisas boas para as pessoas, não posso amargar um rompimento do passado e tornar a vida de todos um inferno.

Ao mesmo tempo que estou terminando minha graduação, estou estudando para a prova do mestrado, que espero passar. Por isso, hoje, na hora do almoço, eu tinha duas tarefas, além de comer no shopping, comprar umas roupas legais para malhar e passar na livraria.

Sentei-me em uma mesa e pedi um pedaço de torta. Seria minha sobremesa, eu amava comer doces e guloseimas naquela parte da livraria. Era tão aconchegante! Luz baixa, fotos antigas da cidade do Rio de Janeiro nas paredes, um ambiente acolhedor que tocava mpb e jazz.

Era quase terapêutica aquela sessão de café com bolinhos e livros. Nem sempre eu vinha para comprar, só queria me sentir naquela deliciosa atmosfera. Abri minha bolsa e tirei uma carta. Era de Débi.

Débora fora morar no norte com Ribeiro e viver sua vida de casada, mas nem tudo saiu como ela sonhava. Semanalmente quase me escrevia. Eu tentava responder sem interferir muito em suas decisões, pois não queria ser a “amiga que a coloca a perder”, eu já estava suficientemente mal vista por não ter querido seguir com meu ex para o sul. Já estava bom de inimigos.

Aos poucos, as cartas começaram a me fazer mal, pois elas a todo momento relembravam-me de uma agonia que eu só queria esquecer, porém, por amizade, eu as abria e lia com paciência. O meu blog já havia sido fechado há muito tempo e ela, por não ter computador em casa, também desistira.

Era duro saber que minha amiga não se adaptara a nova vida. Eu achei que era só um pânico inicial de estar longe de tudo, mas cada carta reiterava a sua infelicidade diante das circunstâncias.

Hoje fora uma das vezes em que adiei a leitura da carta que pegara no correio de manhã. Pensei que, talvez, o ambiente gostoso da livraria proporcionaria boa paz de espírito que eu pudesse acolhê-la.

“Bela.

Fiquei muito feliz por saber que você está firme e forte estudando para a prova do mestrado. Muito bom para você. Eu ainda não consegui retomar os estudos. Achei que seria tudo muito simples, chegaria aqui, ingressaria em uma faculdade e pronto. Mas, não estamos podendo ainda porque os móveis foram muito caros, gastamos bastante com tanta coisa... que meus estudos tiveram que esperar. Isso me deixa mal, sabe? Fico com aquela sensação de que tudo está passando por mim e eu estou no mesmo lugar.

O Ribeiro vive em missões, no trabalho... e eu? Sozinha em casa. Eu tento sair, fazer amizades, mas a vontade que dá é só voltar para meu quarto e ficar deitada na cama. Como lhe falei, comecei a ir a psicóloga. Ela me passou uns remédios. Nunca pensei que eu precisaria disso.

Eu tive a idéia de dar aulas, procurei uma escola particular aqui perto, mas o diretor disse que não podia me dar à preferência, já que eu não tinha estabilidade, que daqui a pouco iria embora e o dinheiro que investiria em mim seria perdido. Aquilo contribuiu para uma crise que fez a minha psicóloga entrar com os remédios.

Vejo as fotos da formatura do fim do ano passado. A maioria daquelas meninas não estão mais com seus namorados, sabia? Talvez você não saiba, pois preferiu se afastar... mas a vida é dura, encarar isso não é brincadeira. Não é como eu pensei, eu tinha sonhos, castelos construídos em minha mente.

Agora as que estão aqui estão bem felizes. A maioria não trabalha, fica em casa fazendo artesanato, tentando contribuir de alguma forma com a renda. Mas elas parecem que tem a vida que pediram a Deus, dá para ver em seus olhos a alegria que eu não vejo nos meus.

O Ribeiro fica triste com isso... Ele sabe que eu não estou bem, pois tirou a arma de casa. Imagino que tenha sido um pedido da psicóloga... Algo me diz que foi ela.

Eu queria poder dizer para algumas meninas que ainda estão achando que a melhor coisa é jogar a sua vida para o alto para pensar melhor, porque pode não ser ainda a hora. Eu disse isso a minha psicóloga e ela falou que se as pessoas que eu conheço são felizes, eu não precisaria dizer isso a elas, mas só a uma pessoa: a mim mesma.

Exatamente isso... Eu queria poder voltar no passado e dizer a mim mesma para pensar melhor. Porque, agora, eu não posso abandonar o meu marido. Mas eu não estou bem, Bela.

Eu sinto falta de tudo e nada daqui me satisfaz. As pessoas amam esse lugar, é perfeito para elas, mas não tem nada a ver comigo, não me reconheço em nada. E isto está se refletindo no meu físico, emagreci 10 quilos.

Bela, o que devo fazer? Me ajuda.

Débi.”

Realmente, nem o ambiente, a música ou os bolinhos da livraria me faziam digerir o soco no estômago que eram aquelas palavras da pessoa que eu tanto amava. Débi era quase parte de mim.

Respirei fundo e guardei a carta. Eu tinha a resposta que ela queria, mas não podia dá-la. Não seria justo com Ribeiro, mas foi ele mesmo que me permitiu ajudá-la.

À noite, o telefone tocou e eu, que já estava debaixo das cobertas, assistindo um filme que alugara, tive que levantar para ir até a sala. Eu tinha que, urgentemente, providenciar uma extensão, nem que improvisar uma com um fio muito grande para carregar o telefone pela casa.

Atendi, sentando-me no sofá com a perna dobrada.

_Ribeiro? _ franzi a testa. _ Aconteceu alguma coisa...?

_Bela, você deve saber que a Débi não está bem, eu vejo que você manda cartas para ela.

_O que aconteceu?

_Calma, ela não fez nada ainda. Mas eu temo que seja "ainda". _ a voz dele era de quem estava relutando para não chorar. _ Às vezes, eu acho que fiz errado em trazê-la para cá, eu estou feliz, mas ela não consegue ser feliz ao meu lado...

_Ribeiro, ela te ama muito, ela só não gosta do lugar...

_Bela, ela está muito mal, não consegue comer. Ela está no hospital tomando soro. Vou convencê-la a voltar para a casa da mãe. Ela não quer, mas eu vou obrigá-la porque eu estou com medo de ela estar enlouquecendo aqui...

_Ribeiro, escuta. Eu vou mandar o dinheiro da passagem dela, vou esperá-la no aeroporto e diz para ela que ela vai ficar na minha casa, aos meus cuidados.

_Você faria isso? Acho que só você conseguiria trazê-la de volta àquela Débi de antes porque eu estou detonado com tudo isso...

_Ela só precisa voltar para as fontes de referência dela. Voltar a estudar, a trabalhar, a sair, a viver como antes.

_Bela, eu amo tanto essa mulher que, se for para ela estar aí, feliz, e só me ver uma vez nas férias, eu vou estar bem, eu só quero vê-la feliz, não importa o preço da distância que eu pague.

Aquilo para mim foi muito tocante de ouvir porque era justamente esse sentimento de desprendimento que esperei de Caio.

_Mesmo que ela queira arrumar outro... _ prosseguiu com seu desabafo. _ Eu vou superar, eu só quero saber que em algum lugar ela voltou a sorrir, mesmo que não seja por minha causa. Mas, eu tenho medo de chegar um dia em casa e ver que ela cometeu alguma besteira... Bela, me ajuda, eu estou desesperado.

_Calma, Ribeiro. Faz o que lhe falei. Vou depositar na sua conta o dinheiro e o resto aqui é comigo.

_Obrigado. Vou voltar para o hospital. Nossa, estou sem dormir acho que há dois dias. Isso está fazendo mal para mim também. Não entendo por que conosco deu tudo errado.

_Não deu tudo errado. Apenas, quem sabe, foi fora de hora. Ela não estava pronta para isso.

_Foi assim com você e Caio?

_Prefiro não falar dele. _ pedi.

_Como você sabia que não era sua hora?

_Ribeiro, a Débi e eu somos pessoas diferentes. A questão é que ninguém sabe como será até meter a cara. Cada um terá uma reação. Uns vão e, mesmo dando errado, não abandonam o barco. Outros preferem não ir. Outros vão e voltam para se preparar melhor...

_Acho que esse será o caso dela.

_Vamos ver...

Desliguei e mais uma vez me senti mal, com aquela carga pesada. Essa coisa toda de se sacrificar tinha um quê de intoxicante. Só de relembrar me tirava o fôlego. Mesmo assim, eu me odiava por ainda ter uma absurda vontade de rever o Caio. Detestava-me por ter saudade de alguém que eu comecei a sentir raiva. Tudo se misturava. Basta!

Larguei o telefone, balancei a cabeça para os lados e respirei muito fundo, fechando os olhos. Eu voltaria para o meu filminho de comédia, meu edredom e minha paz.

***

Quando fui buscar Débi no aeroporto, estava muito ansiosa para revê-la. Mas meu sorriso de felicidade se desfez quando reconheci aquela garota de cabelo preso, magrela e cheia de olheiras, vindo a mim de cabeça baixa.

Eu simplesmente abri os braços e ela se encolheu como quem, finalmente, encontra um porto e desatou em um choro desmedido.

_Eu não consegui, eu não consegui... _ repetia isso.

Olhei para as pessoas ao redor nos observando.

_Débi, olha para mim? _ levantei seu rosto. _ A Bela, lembra? Sua amiga de todas as horas.

Ela engoliu o choro.

_O Rio de Janeiro maravilhoso. _ sorri. _ E os cariocas tirando todos os casacos breguíssimos do armário para não sentirem frio!

Ela riu.

_Você está de volta, garota! _ pisquei.

Ela mal imaginava o que a esperava no meu apartamento. Eu consegui reunir sua família, os nossos amigos em comum e fiz uma pequena festa de boas vindas com balões coloridos, comidas, bebidas.

_Bem vinda! _ todos gritaram quando eu acendi a luz.

Débi começou a chorar, ela ainda estava muito frágil para fortes emoções.

_Obrigada, obrigada. _ repetiu de longe e eu li seus lábios.

Naquela noite, ela dormiu na minha cama e eu a obriguei a comer todos os doces e salgadinhos deliciosos que encomendara. Era o fim da sua falta de apetite!

_Como será que meu marido está?

_Ele está bem! Ele é um guerreiro da selva!

_E o seu cavaleiro? _ perguntou.

_Eu não tenho mais cavaleiro. Estou vendo que daqui a pouco vou ter que me contentar com um motorista de ônibus ou um taxista. Quem sabe um motoboy? _ franzi a testa, bati no travesseiro e o arrumei para deitar. _ Mas se me aparecer um Jama eu aceito.

_Jama? _ ela riu.

_Se aparecer um jamaicano bem grande com um... _ fiz o tamanho com a mão. _ bem grande, eu gamo!

Ela deu uma gargalhada longa com minhas palhaçadas e eu senti que estava começando a cumprir minha promessa de salvar a mulher da vida de Ribeiro.

_Estou cansada... Amanhã vamos sair para comprar uma cama de solteiro para você e ir à faculdade para reabrirmos sua matrícula!

_Tudo bem... _ ela sorriu e fechou os olhos.


Autora: Li



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31/08/2007

Cap 89: Casamento da minha melhor amiga

Trilha sonora da cena (clique aqui)

Eu tinha preparado aquela festa como se fosse minha, afinal, era nada menos que o casamento da minha melhor amiga.

Cheguei bem cedo no salão e conferi tudo. Dos docinhos às mesas. Não admitiria que nada saísse errado. Provei cada comida da cozinha, olhei com meus próprios olhos todos os detalhes. O tempo passou muito rápido.

Assim que eu cheguei de manhã, senti a atenção das pessoas sobre mim. Alguém descobrira que eu tinha terminado meu relacionamento com Caio. Já até sabia que língua havia se soltado: a do tio Paulo. Como eu era madrinha do casamento, precisei pedir seu auxílio à noite para que eu pudesse coordenar a festa e ao mesmo tempo participar dela.

Expliquei-lhe o grau de delicadeza da cerimônia, já que Caio estaria presente. Nem eu, nem ele, desistimos do convite que nos fizeram, porém, continuávamos sem nos falar desde o baile.

Os funcionários olhavam-me com pena, como se eu fosse o ser mais infeliz do mundo e a todo o momento tentavam me agradar ou me vigiavam para ver se conseguiam pescar algum sinal de tristeza.

Mas, eu era extremamente profissional e consegui desempenhar muito bem o meu trabalho, de maneira fria e o mais imparcial possível.

Só pude relaxar mesmo, quando vi aqueles dois no altar, prontos para dizerem sim.

A presença de Caio perto de mim me trouxe um grande desconforto. Não havia como colocar uma pedra em cima de tudo com ele ao alcance dos meus olhos.

Passado o baque inicial, eu racionalizei toda a nossa situação. Quem olhasse de fora poderia considerá-lo o vilão. Mas, não havia vilão naquela história. Se eu abdicara de muita coisa por ele, Caio também se privara de muitas outras para estar comigo, dividido sua atenção entre mim e sua família.

Mas, por mais que meu amor por ele fosse uma força imutável dentro de mim, eu estava certa de que não queria me mudar, nem largar tudo para seguí-lo. Eu amava aquele homem, mas não o seu destino.

Não podia medir ainda o quanto estava perdendo ou me arrependeria, mas não me sentia um monstro como as pessoas me pintavam. Ouvi de muitas “amigas” que conheci na Internet que eu era egoísta e só pensava em mim, ou que era uma patricinha mal resolvida.

Ribeiro e Débi passaram por debaixo do teto de aço formado pelas espadas dos aspirantes amigos deles. A chuva de pétalas de rosas vermelhas que programei emocionou a todos.

Quando a atenção estava voltada para o casal e começaram a cumprimentá-los, eu fugi para respirar. Estava sentindo um ligeiro estado de sufocamento. Passei a mão no peito.

Levantei o meu vestido azul claro para andar mais rápido e não pisar na sua barra. Encontrei um garçom no meio do caminho e peguei uma taça de champanhe.

Fechei a porta da minha sala atrás de mim.

Sentei no sofá sozinha e olhei a taça molhando meus dedos com o suor do líquido gelado no vidro. Bebi de um gole só e fiz uma careta. Larguei a taça no chão e deitei-me encolhida, em posição fetal.

Lembrei da frase do meu tio, quando me delegou a primeira tarefa de ficar no banheiro auxiliando os convidados da festa. Ele me dizia para chamá-lo no rádio quando precisasse de sua ajuda.

Peguei o rádio que trouxera comigo e apertei o botão. Ele atendeu. Eu fiquei muda.

_Bela, é você? _ perguntou.

_É... Eu estou precisando de ajuda. _ falei baixinho.

_Onde você está?

_Na sala. _ respondi.

_Fique aí. _ desligou.

Tio Paulo entrou na sala um minuto depois, fechou a porta e se agachou na minha frente.

_Acho que você já agüentou demais... _ passou os dedos no meu cabelo e fez um afago.

Fechei os olhos e duas lágrimas caíram.

_Está na hora de você tirar uns dias. _ disse-me. _ Isso não é um pedido, é uma ordem.

Fiz que sim com a cabeça e ele beijou minha mão.

_Vou chamar um táxi para te levar para casa. Deixe o seu carro estacionado aqui. _ falou e foi até o telefone.

_Eu tenho que me despedir dos meus amigos... _ disse-lhe, sentando.

_Agora é hora de pensar em você. _ anunciou e me pegou pela cintura, eu me senti fraca. _ Vamos passar por dentro da cozinha e sair pelos fundos, tente fazer isso o mais rápido possível, sem que percebam.

_Tudo bem... _ sequei as lágrimas com as costas das mãos e fiz que sim com a cabeça.

Tio Paulo colocou-me dentro de um táxi e, antes de bater a porta, disse:

_Fique o tempo que precisar.

_Obrigada. _ sorri um sorriso triste.

Cheguei em casa e minha mãe perguntou por que eu havia voltado tão cedo. Falei-lhe de uma maneira maquinal que o trabalho havia acabado antes da hora e fechei a porta do meu quarto. Abri o zíper do vestido e deitei debaixo do meu edredom, sem roupa.

Eu podia agora começar a hibernar e só acordar quando a avalanche que me assolara tivesse derretido.

Fechei os olhos e dormi um sono pesado e escuro.

Autora: Li



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30/08/2007

Cap 88: 000 dias. Eu te dei o melhor de mim

Trilha sonora da cena (clique aqui)

_Você tem certeza disso? _ Débi segurou minha mão e falou baixinho.

_Tenho... Eu tenho que tentar...

Estávamos no quarto de hotel. Parece que o tempo não passou, que ontem foi o Espadim e estávamos as duas com esperanças e expectativas sobre tudo que iria acontecer. Mas, amadurecemos e mudamos muito. Foi um duro trajeto e lá estávamos para o grande dia do aspirantado.

000 dias.

_Ele não quer falar comigo, mas eu não posso perdê-lo. _ mordi o lábio inferior e olhei para o alto para as lágrimas não correrem.

_Eu o entendo. _ Débi disse com a voz hesitante. _ Ele está sendo um pouco egoísta, eu sei... Mas ele só quer sua atenção. O Caio precisa de você e você só tem tempo e dedicação para o seu trabalho...

_Não é verdade...

_Bela, você é que não está conseguindo ver isso.

_Mas, eu preciso trabalhar. Ele não tem que se dedicar ao trabalho dele? Esse é o meu.

_Você não veio ao culto ecumênico, nem a colação de grau, nem a entrega da espada por causa do seu trabalho.

_Mas, eu vim ao baile! Eu só consegui sair de lá agora de tarde e vim correndo, estou cansada.

_Eu te entendo, mas ele sente sua falta.

_Eu também senti, Débi. Porque, nos meus melhores momentos, ele não esteve lá e nem por isso eu fiz jogo duro e deixei de falar com ele.

_É... _ ela suspirou. _ É complicado.

_Débi, você sabe de alguma coisa que eu não sei?

_Não. _ ela levantou-se e deu as costas. _ Seu vestido é lindo, deve ter sido uma fortuna.

_Um pequeno pecado. _ sorri.

O meu vestido era lindo, rosa escuro de um pano bem maleável. Sem brilhos, muito clean, com as costas nuas e um decote maravilhoso nos seios. Fiz maquiagem e cabelo em um salão próximo ao hotel e, à noite, eu cheguei com Débi e Ribeiro na festa.

Estava tudo mais lindo que no Espadim. Uma noite fabulosa. Meu coração estava batendo muito forte e minhas mãos suavam.

Encontramos Caio com seus familiares. Ele virou-se e me olhou. Sorri e dei uma voltinha tímida.

_Você veio... _ ele sorriu também.

_Nunca perderia esse dia.

Ele me pegou pela mão e fomos dançar na pista.

_Você está lindo... _ disse em seu ouvido.

Ele, realmente, estava muito bonito de roupa cinza, gravata, calça também cinza... Aspirante. Enfim. Eu sentia tanto orgulho porque eu tinha sido parte daquela conquista que era como minha também.

_Bela, preciso falar com você. _ ele novamente me pegou pela mão e me levou para fora do salão.

Ficamos afastados do barulho da música e das pessoas. Procuramos um lugar bem reservado.

_O que houve? _ perguntei.

Caio respirou fundo, coçou a testa. Eu o conhecia, ele estava se preparando demais para falar algo importante.

_Bela, eu pensei muito...

_Caio, se você continuar com esse suspense eu vou ter um filho. _ ri e tentei manter o humor.

_Bela, eu vou para o sul, como você já sabe. Eu pensei e pensei. Você tem razão, tem que seguir com sua vida, eu não tenho o direito de atrapalhar nada.

_Você não atrapalha. _ tentei tocá-lo, mas ele se afastou.

_Por favor, me deixa terminar, não está sendo fácil para mim. _ pediu. _ Bela, eu acho melhor você ficar aqui e eu ir. E... se um dia a vida nos unir de novo...

_Isso significa o fim?

_Não o fim, é como eu falei, quem sabe um dia...

_Caio, você está terminando comigo? Você está tomando essa decisão por nós dois, é isso mesmo?

_Bela, não vai ser fácil... e... eu prefiro as coisas assim.

_Ah! Você prefere assim? _ as lágrimas começaram a cair do meu rosto.

_Não é que gostaria que tudo acabasse desse modo, mas depois vai ver que vai ser melhor, você vai ficar livre...

_Ou você quer ficar livre para encontrar alguma guria na terra da Gisele Bündchen? _ fui irônica, aquilo não estava acontecendo comigo!

_Bela, por favor, vamos manter o nível da amizade.

_Caio, sai daqui, senão eu vou bater em você, sai. _ pedi, fechando os olhos.

_Eu só...

_Sai! _ pedi mais uma vez, mas enfática agora.

Ele foi embora.

Agora eu vou contar a vocês uma história que pouco se fala porque quem perde não conta sua história, esquece-a, rasga todas as páginas do livro da vida e queima os arquivos. Só ficam as versões felizes.

Eu vou contar a vocês o que acontece com aquelas que não tem um happy end neste conto de fadas.

Levei as mãos ao rosto e comecei a soluçar sozinha. Procurei uma escadaria que havia longe do salão e sentei. As lágrimas desciam negras por causa do lápis de olho e manchavam meu rosto.

Eu te dei o melhor de mim.
Eu abdiquei dos abraços e beijos e você desistiu.
Eu briguei com o orelhão toda vez que ninguém atendeu o telefone na ala e você desistiu.
Eu fiquei sozinha em nossos aniversários de namoro e você desistiu.
Eu enfrentei a crítica dos meus familiares e você desistiu.
Eu te vi partir a cada fim de semana, levando meu coração contigo e você desistiu.
Eu entendi seus serviços e você desistiu.
Eu entendi suas punições e você desistiu.
Eu entendi seus campos e você desistiu.
Eu enlouqueci e voltei a ficar bem e você desistiu.
Eu engordei e emagreci e você desistiu.
Eu enfrentei sua mãe e você desistiu.
Eu juntei dinheiro para viajar e te ver e você desistiu.
Eu agüentei as piadinhas dos falsos amigos e você desistiu.
Eu te ajudei na sua monografia e você desistiu.
Eu te acolhi na minha casa e você desistiu.
Eu esperei 4 anos e você desistiu.
Eu sofri noites de insônia e você desistiu.
Eu senti sua falta e, mesmo assim, esperei e você desistiu.

Eu morri e voltei e você desistiu.

Como pode fazer isso comigo? Como pode acabar comigo desta forma? Vamos voltar no tempo. Deixe-me sozinha na beira daquele rio e nunca apareça para aquele encontro. Não me beije, nem me diga nada. Você segue seu curso e eu, o meu.

Mas agora, depois de tudo que fiz por você, não pode desistir, porque eu te dei o melhor de mim.

_Bela?_ ouvi a voz de Débi, que correu até mim.

Suspendeu o vestido e subiu os degraus aos pulinhos.

_Você já sabia, não é? _ perguntei.

_Suspeitava… _ passou a mão no meu rosto. _ Estou aqui... _ abraçou-me.

_Isso não está acontecendo. _deneguei.

_Calma... Calma... Vou te levar de volta para o hotel.

_Não precisa. _ disse-lhe, respirei fundo e levantei.

Ela, ainda agachada, olhou-me de baixo.

_Eu só preciso chamar um táxi. _ abri minha bolsa e procurei o celular, havia anotado o número de um motorista.

_Tem certeza? Eu não quero te deixar sozinha.

_Essa é a sua noite. _ disse-lhe.

Depois de ligar, ela segurou minhas mãos e não soube o que dizer.

_Nem imagino o que é estar no seu lugar.

_Não pode imaginar mesmo...

_Aonde vai? _ ela perguntou-me.

_Eu vou esperar na entrada de frente para o retão.

_Eu vou com você.

_Não precisa, eu quero ir sozinha. _ pedi. _ Não diz a ninguém que me viu chorando.

_Pode deixar. É uma pena. Combinamos um encontrão com as meninas 1 hora da manhã, lembra?

_Lembro. Deixa meu beijo para elas. Melhor, não deixa nada. Eu só quero encontrar uma pessoa, a Bela. Preciso me reencontrar, ainda estou fora de mim.

_Por isso quero ir com você.

_Não, eu vou sozinha.

Caminhei lentamente e esperei o táxi em pé, só, na noite quente e iluminada por uma linda lua.

O carro chegou e, antes de entrar, olhei para o prédio atrás de mim e pensei se tudo tinha valido a pena para ter terminado daquela forma, separando Caio de mim.

_Eu já vi muitas meninas como você chorarem assim, é todo ano. _ disse-me o taxista. _ É por isso que minha filha não namora cadete, se namorar eu expulso de casa.

_Se não se importa, eu não quero ouvir nada. _disse-lhe.

_Desculpe.

Autora: Li



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29/08/2007

Cap 87: Decisão

_ Amor, eu vou para o sul do país. _ disse com uma voz feliz.
Aquilo foi uma faca entrando no meu peito. _ Diz alguma coisa. _ pediu.

_Que bom que sua carreira vai seguir os rumos que você queria e...

_Você vem comigo? _ perguntou.

_Temos que sentar e analisar melhor tudo direitinho... _ foi o máximo que consegui dizer-lhe.

_Claro, esse fim de semana eu vou para aí. Preciso desligar, te amo.

_Também te amo. _ desliguei.

Fiquei em pé, parada, como se meu mundo tivesse parado de girar. As lágrimas desceram fartas pelos meus olhos. Dei três passos de costas e caí sentada na cama, escorreguei junto com o edredom e fiquei no chão. As minhas mãos protegeram meu rosto e eu chorei um soluço sufocado, triste, profundo.

O telefone tocou mais uma vez. Peguei-o e atendi.

_Bela! É a Débi!

_Oi. _ respondi.

_Saíram as vagas! O Ribeiro vai para o norte! Quero dizer, nós vamos para o norte. Estamos felizes, era o que ele queria e o que ele quer é o que quero também. _ sua voz era tão animada e cheia de gritinhos que me fez até sorrir.

_Que bom...

_E Caio, ligou?

_Não, ainda não. _ menti. _ Mas, vai ligar.

_Está tudo bem?

_Está sim.

_Bela, eu te conheço.

_Já disse que está. Tenho que desligar.

Desliguei. Aquele momento era só meu, não queria dividir com ninguém, nem estragar a felicidade dela. Chorei sem medida e, no dia seguinte, meu rosto estava desfigurado. Como eu poderia trabalhar daquela maneira?

Cortei algumas rodelas de batata com um pouco de sal e coloquei no meu rosto. Fiquei deitada na minha cama. Sem forças para me mexer. Mas, era preciso trabalhar. Fiz um sacrifício e me vesti.

Era preciso correr para deixar tudo pronto para o casamento de Débi. Havia muitos preparativos a serem arranjados.

***

Os olhos de Caio só esperavam uma resposta, logo aquela que eu não poderia lhe dar:

_Caio, eu vou ser muito sincera com você. E gostaria que me escutasse primeiro.

_Tá. _ ele sorriu e segurou minha mão. Estávamos no meu quarto, sentados em minha cama.

_Eu amo demais você, descobri que aquele meu amigo de segundo grau era o meu verdadeiro amor. Por você suportei mil coisas... Mas, eu não vou poder largar tudo agora e ir para o sul do Brasil. Não agora. Eu estou terminando minha faculdade, tenho os meus pais, o meu trabalho, minha vida aqui.

_... _ os olhos dele se encheram de lágrimas.

_Não faz isso… _ pedi, passando a mão no seu rosto.

_A minha carreira não terá significado nenhum sem você do meu lado. _ disse ele.

_Eu sei. Mas acha justo eu jogar tudo para o alto agora?

_... _ ele não respondeu, mas pelo que eu o conhecia aquele era o seu “não”.

_Eu pensei, repensei e achei melhor não tomar nenhuma atitude por impulso. Se você me ama de verdade, vai entender meu lado.

_A maioria das namoradas dos meus amigos vão com eles, estão felizes e...

_Caio?! Cada um sabe o tanto que tem a perder e eu tenho muito.

_E me perder?

_Nós passamos tanto tempo separados e não nos perdemos. _ lembrei-o.

_E quanto tempo mais eu terei que esperar para você estar preparada? _ perguntou-me.

_Eu não tenho essa resposta para você. _ disse.

Ele abaixou a cabeça.

Meu celular tocou, era do trabalho. Revirei os olhos, era só o que me faltava agora... Atendi.

_Dona Isabela? O DJ acabou de ligar, o pai sofreu um acidente e ele não vem tocar. E agora?

_Calma, para tudo se dá um jeito. _ fiquei de pé, andei pelo quarto e pensei. _ Já sei, vou ligar para um outro que tenho aqui na minha agenda e... _ abri minha bolsa. _ Droga, deixei ela aí. _ coloquei meu cabelo atrás da orelha e equilibrei o telefone entre a bochecha e o ombro. _ E o resto, está tudo certo?

_Sim, está caminhando. _ disse minha assistente.

_Tudo bem, estou chegando aí. Vou arrumar um DJ, nem que eu mesma tenha que controlar uma mesa de som pela primeira vez. _ desliguei o telefone e olhei para Caio.

Ele balançou a cabeça para os lados com desdém e saiu do quarto.

_Caio, vem aqui, desculpe, eram problemas do trabalho... _ fui atrás dele.

Caio pegou a mala que a pouco tinha deixado no chão da sala.

_Aonde vai? Você acabou de chegar de Resende.

_Vou embarcar para São Paulo.

_Quê? Como assim, meu amor? Caio, não pode fazer pirraça agora, as coisas não se resolvem assim, eu tenho que resolver os problemas do trabalho.

_Tudo bem, Bela. Eu já entendi, “você tem que resolver os problemas do trabalho”, não precisa repetir. _ entregou-me o convite da festa. _ Aí está. _ pegou a mala.

_Não, por favor, não vai embora. _ implorei.

_Me deixa. _ ele pediu e abriu a porta do apartamento.

_Tá, se você quer ir, ao menos deixe eu te levar de carro. _ ofereci.

_Não quero que perca seu tempo precioso para achar um DJ. _ lembrou-me.

Ele estava certo, se eu fosse, não teria como conseguir um DJ e a festa sairia um fiasco, muito dinheiro e responsabilidade estavam envolvidos nisso.

_Caio, eu te amo. _ eu falei, antes da porta do elevador se fechar.

A última imagem que tive dele era de seu rosto duro e amargurado.

_Droga! _ gritei e minha vizinha apareceu na porta, assustada.

Não lhe dei nenhuma satisfação e bati a porta do meu apartamento.

Fui buscar minha bolsa.

Que droga, droga, droga, meu mundo estava começando a vir abaixo!

Autora: Li



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28/08/2007

Cap 86: Coração partido

Trilha sonora da cena (ouça aqui!)

_É o seu tio Paulo. _ disse a recepcionista do hospital.

_O que aconteceu com ele? _ perguntei no cume da minha aflição.

_Ele sofreu um infarto, foi trazido para cá e precisou operar.

_Ele está bem? _ interrompi-a, odiava aquelas frases como se estivesse me preparando para algo pior, era insuportável.

_Está acordando da anestesia. Se quiser vê-lo...

Abaixei a cabeça e respirei aliviada, não suportaria receber nenhuma notícia de morte. Minha vida já incluía uma cota de perdas grande demais.

_Claro, vou para aí agora. _ levantei-me e anotei o endereço, enquanto caminhava em direção ao estacionamento.

***

Demorou para que eu pudesse conversar com ele, mas esperei toda a madrugada ali, sentada ao lado do seu leito. Infelizmente, acabei dormindo e só na manhã seguinte nos falamos.

_Oi... _ eu sorri e depois me estiquei, precisava espreguiçar, tinha dormido de mal jeito na cadeira.

_Dizem que vaso ruim não quebra... _ brincou.

_Que bom que, pelo menos, quando trinca tem conserto.

_Quem ainda precisa de mim? _ desdenhou ele.

_Eu. _ respondi prontamente.

_Nessas horas eu gostaria de ter filhos. _ confessou. _ Para que eles estivessem aqui ao lado da cama... Mas, é melhor que não os tenha, pois eles estariam com os olhos desesperados de quem vai perder alguém que ama, isso é duro.

_Você me tem, uma filha postiça. _ estiquei minha mão e apoiei no seu braço.

_É bom saber que deixei o que conquistei com você.

_E está dando um trabalhão para administrar.

_Eu me refiro, principalmente, a sabedoria que conquistei, um pouco dela pude passar a você. A sabedoria é o maior bem de uma pessoa, ela nos faz tomar as decisões certas. Isso é o que importa. Não adianta ter dinheiro se não se tem sabedoria.

_À duras penas, estou aprendendo isso.

Olhei para aquele homem de cabelos crespos, já grisalhos nos lados, e barba rala branca, contrastando com a cor de sua pele morena pelo sol. Ele modificara a minha vida de uma maneira radical, não suportaria perdê-lo para sempre. Era como se a qualquer momento eu pudesse pegar o rádio e chamá-lo para me socorrer.

_Nós ainda não tivemos a oportunidade de falarmos de você. _ observou. _ Agora que estou aqui no leito, pode falar. Se eu morrer, não corre o risco de eu contar a ninguém.

_Não tem problema, se você contar eu te mato mesmo assim. _ ri e ele riu também.

_Como vai seu namoro? _ perguntou.

_Bem. _ suspirei.

_Isso é o que você aprendeu a falar para todo mundo. _ comentou. _ Vou te dar mais uma chance e perguntar de novo. Como vai seu namoro?

_Bem complicado.

_Ah! Eu sabia que estava faltando o complemento.

Rimos juntos.

_A questão não é nós dois, sabe? Eu o amo e ele me ama. Isso é fato. O problema é que, ao se formar, Caio quer ir para longe, para o sul do país...

Tio Paulo deve, imediatamente, ter vislumbrado o quanto isso afetaria os seus negócios, pois eu poderia largar tudo.

_Essa é a mais difícil lição: amar uma pessoa junto com o seu mundo. Porque o amor não existe em estado puro, o amor real existe junto com tudo que o rodeia: problemas, família, trabalho... _ disse-me.

O que o tio entendia de amor? Será que ele já amara alguém? O mais próximo que eu sabia de um caso seu com uma mulher fora mesmo com Kelly, mas isso não me pareceu intenso o suficiente para lhe ensinar essas lições.

_Se eu não for, as comportas do mundo vão descer sobre mim e me aterrar. Todos vão pensar que eu não o amava de verdade, que o traí por fazê-lo acreditar que o seguiria e agora mudara de decisão...

_Isabela, a única pessoa que conta se vai pensar isso é o Caio.

_Não sei se pensará... pois ele ainda tem muito que aprender para evoluir, está tão empolgado com os rumos da própria carreira que não enxerga a minha, pois para ele parece fácil: “Não se preocupe, Bela, vamos morar sempre em capitais e nunca te faltará emprego”. Simples, não?

_Puxa, que barra hen? Vai um soro aí para você? _ ofereceu.

_Não, obrigada, eu odeio agulhas. _ ri e balancei a cabeça para os lados.

_Você quer largar tudo? Porque se quiser, precisa me dizer.

_Eu não quero.

Confessar aquilo de maneira tão firme me trouxe pela primeira vez um alívio. Eu podia falar com ele abertamente, sem ter que ouvir argumentações em favor de Caio. Nem mais com Débi, entorpecida com o próprio casamento, eu conseguia manter esse tipo de diálogo.

_"Eu não quero", três palavras que tem um poder de mudar tudo. _ comentou ele. _ Vejo que aprendeu a lição.

_ Mas, a lição não era eu saber o que eu queria? _ corrigi.

_Também. Mas tão importante quanto saber o que você quer é saber o que você não quer, pois já é um grande passo você distinguir aquilo que não gostaria para sua vida.

_Eu tenho um medo enorme de olhar lá para trás depois e ver que eu perdi um grande amor por causa do trabalho.

_O problema não é o trabalho, Isabela, mas um estilo de vida. Estilo esse que te faz feliz, que te faz realizada. E Caio não imaginava que era esse que você queria quando ele tem um outro a te oferecer. E esse outro você não quer.

_Eu poderia ir, meter a cara e experimentar, ver se gosto, por amor, como dizem...

_Mas, não é só no amor que se perde. Na vida, também. E se você deixar isso para trás, talvez não os tenha de novo.

_Eu sei, mas entre o estilo de vida e Caio, parece óbvio que a perda maior seria ele. Mas, tê-lo e ser incompleta me traria, da mesma maneira, infelicidade.

_Qualquer escolha que faça te provocará perdas. _ lembrou-me.

_Eu tenho meus amigos que amo, que me fazem sentir-me em um ninho acolhedor. Meus pais, tão velhos e cansados já, que, a qualquer momento, precisam de um apoio meu, seja financeiro, ou de atenção e afeto. Os funcionários da empresa, que cuido com tanta dedicação, percebendo a necessidade de cada um deles...

_Eles iriam aprender a viver sem você. Quem realmente precisa deles é você, Isabela. _ mostrou-me outro ângulo dos fatos.

_Exatamente, sou eu que não vivo sem eles ao meu redor. E eles são tão importantes quanto Caio. Não importa onde ele esteja, eu vou amá-lo.

_Mas, corre o risco de só amá-lo, amá-lo para todo o sempre. Só que não basta amor sem contato físico, sem correspondência. Ele pode encontrar outra.

_Nem me fale disso. _ abaixei a cabeça e a enterrei nas mãos. _ É muito cruel, não queria fazer essas escolhas.

_A vida só vale pelas escolhas que fazemos. Mas, não deixe de escutar o seu coração, ele está te dizendo o que você não quer. O coração de Caio é importante, mas e o seu?

_Já pensei e repensei nisso milhões de vezes. Eu estava conversando com uma colega que conheci na Internet, que também namora um militar. Falei para ela que não queria mais casar agora, que meu namorado não estava preparado... e ela me disse: “Posso te ser sincera? Você não o ama. Porque é tão egoísta que não quer crescer junto com ele.” Foi tão cruel ouvir isso.

_Um cego não precisa de outro cego para guiá-lo.

_O senhor tem um infarto e é o meu coração que está quebrado.

Sorri, com olhos marejados de lágrimas.

***

À noite, sentei em frente ao meu computador e comecei a escrever no meu blog:

"Que vai ser de mim, uma flor seca ao solo, desligada do tronco, sem seiva, sem luz, relegada a vida? Quem vai curar o meu coração partido? E se você se vai, que serei eu, amputada de um pedaço da alma que vai levar. Depois de você não há nada. Quem vai me amar o corpo e me fará ver as estrelas de olhos fechados? Não se vá sem meus carinhos, não aceite de outra o que eu aprendi a te dar com devoção. Estou entre você e eu e não posso escolher os dois.

Você abraça a bandeira, a sua farda a sua missão e deixa seu rastro para eu seguir, mas eu não quero caminhar na tua sombra, você sabe que no mais profundo de minha alma há a dor do que me pedes. Quem me vai cobrir nas noites que fizer frio, quem vai me cuidar, quando você partir?

Não vai, meu amor, não sem mim. Você entrou na minha vida como uma tinta que entranha na carne e não adianta esfregar, você não sai, está aqui em mim, da cabeça às entranhas. Por que me quis para agora me pedir um preço tão alto? Por que me escolheu para ser sua, por que me deu esta missão, que jogo é esse, diga-me?"


Meu telefone do quarto tocou, parei de escrever para atender. Era Caio:

_Amor, as vagas saíram. _ disse-me ele.

Eu preferia que a frase fosse: “Eu fiquei punido esse fim de semana”, “Estou preso no próximo”, “Eu não vou poder sair no feriado”...

_E? _ perguntei, apoiando minhas mãos na escrivaninha, onde ficava o telefone, abaixei a cabeça, me preparando para a notícia.

Fechei os olhos.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

27/08/2007

Cap 85: Último ano

O quarto ano começou com o estresse da monografia de Caio. Ele ficou sugado, pois além de fazer tudo que fazia antes, ainda tinha que ler a bibliografia e redigir sobre o tema. Isso, claro, diminuiu ainda mais o nosso tempo juntos e, principalmente, nossa comunicação.

Para “melhorar”, as provas que deveriam ser feitas durante o ano todo foram compactadas no primeiro semestre de uma vez só. Mais dedicação aos estudos e menos tempo para Bela...

Isso trouxe um desgaste ainda maior, porém não aparente. Pois eu estava tão envolvida com meu trabalho e minhas responsabilidades que, quando sobrava alguma brecha, eu estudava para a minha faculdade, que a essa altura já estava no 7º período.

Descobri que estarmos muito ocupados nos impedia de mergulhar em uma depressão, porém, nos fazia um pouco distantes e desconhecidos um do outro, pois não havia tantas oportunidades de dividirmos o que passávamos.

Eu nunca senti uma falta tão grande de um namoro real, de ter alguém de verdade do meu lado. E posso confessar: falta de um homem maduro. Não um garoto cheio de dúvidas e que sabe muito pouco do mundo aqui fora. Eu queria um homem mais velho que me desse segurança. Sendo que Caio não era esse homem e só servia se fosse ele, então, o jeito era esperar que o tempo passasse e o tornasse assim.

Depois, vieram os estágios e ele foi para longe. Mais longe de mim. Eu não enlouqueci porque tinha os pés muito firmes no chão e sabia o que eu queria: crescer ainda mais como mulher e profissionalmente. Se eu não tivesse esse foco para me equilibrar, já teria desmoronado com a força do vento da saudade.

Num desses dias em que só o amor próprio me mantinha de pé, resolvi entregar o meu cartão de crédito à recepcionista do salão. Iria tomar um banho de beleza e não importava o quanto custasse fazer: unhas, cabelo, massagem, limpeza de pele, depilação.

_ Pronta para desfilar glamourosa por aí. _ disse o cabeleireiro tirando o avental.

_Ai, estou linda! _ ri, muito feliz. Finalmente, eu estava com outra cara.

Não sei se Caio iria gostar do meu novo look de cabelo curto. Ele estava agora como o da Cameron Dias em “O Amor não tira férias” (fora uma foto dela que eu mostrara ao cabeleireiro). O que importava é que eu parecia mais moderna e com menos jeito de estudante.

Dei um giro no ar e ri mais ainda.

_Ficou perfeito! Eu amei! _ dei dois beijinhos nele e paguei minha conta.

Procurei não fazer nenhum movimento brusco por causa da minha unha, mas quando a gente menos precisa pegar coisas... o celular toca.

Revirei os olhos e sentei em um daqueles bancos de corredor que há nos shoppings. Abri, delicadamente, o zíper da bolsa e puxei muito devagar o celular, como aquelas mãos mecânicas que agarram os bichinhos de pelúcia nas máquinas.

_ Alô? _ atendi.

_Boa tarde, é a senhora Isabela? _ perguntou uma voz feminina.

_Sim, sou eu.

_Eu sou a recepcionista do hospital...

Fechei os olhos, meu coração já estava na boca e minhas mãos começaram a suar.

_Me deram seu telefone para entrar em contato com um parente.

_O que houve? _ minha voz saiu trêmula.

Autora: Li



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26/08/2007

Cap 84: É impossível ser feliz sozinha

Mais um ano chega nas últimas folhinhas do calendário e me vi dessa vez passando a véspera do Natal em São Paulo, na casa dos meus sogros. Entre rabanadas e doces, as três gerações de mulheres se reuniam na cozinha, lugar sagrado das conversas e fofocas. Minha sogra, eu e a avó de Caio preparávamos os pães com leite, canela, ovos e muito açúcar.

_O Caio me falou que você agora está em um bom emprego. _ comentou minha sogra.

_Sim, graças a Deus, minha vida se ajeitou. Ganho muito bem, estou acompanhando a faculdade sem problemas e até fazendo meu pé de meia. Isso foi sempre meu sonho.

As duas se entreolharam. Eu já sabia o que pensavam. Nem precisavam traduzir. Mas a mãe de Caio resolveu se manifestar:

_É por isso que sempre tive problemas com você.

_É? E por quê? _ perguntei. Nunca imaginei que trataríamos daquele assunto sem rancor.

_Eu sempre soube que você era a namorada perfeita para um civil e não para um militar. Porque não era meu filho que iria sofrer, mas você.

Então, a todo momento ela estava preocupada comigo?

_...E de quebra vendo você sofrer, ele sofreria. _ completou o pensamento. _ Claro, com isso eu sofro junto.

_Eu posso não ser perfeita, mas ele não precisa de alguém perfeito.

_É, pode não precisar da perfeição, mas você precisa do seu emprego, dos seus amigos, da sua família...

_Eu sei. _ concordei. _ Mas qualquer uma outra não passaria pelo mesmo?

_O problema não é passar, é querer passar.

_E quem disse que eu não quero passar?

_Bela, você quer deixar tudo para trás? _ aproveitou a oportunidade para fazer a pergunta.

_Hei! Não obrigue a menina a tomar decisões agora. _ a avó de Caio pegou a bacia com açúcar para lavar.

_Tudo bem. Foi só uma pergunta. _ minha sogra levantou as mãos para o ar.

Apesar daquele assunto já estar me enchendo, não fiquei triste ou incomodada, elas souberam fazer um ambiente agradável para mim. Cada vez mais eu não tinha motivos para decepcioná-las.

Respirei fundo.

Depois que todos comeram a linda ceia e distribuíram os presentes, fomos dormir, vencidos pelo cansaço. Alonguei mais a minha presença no quarto de Caio e o vi dormir em sua cama.

Acariciei seu cabelo. Estávamos deitados juntos, ouvindo música no meu MP4. Tirei um dos fones do meu ouvido delicadamente e coloquei no seu.

Levantei-me e fui até a janela do quarto. Ventava, mas não fazia o calor abafado e úmido do RJ.

O tempo passava me desafiando. As meninas que conheci na Internet começaram a entrar na contagem regressiva e aquilo me atormentava ainda mais.

Débi tão feliz com seu casamento só sabia falar disso, me deixando ainda mais aflita, mas tentava não fazê-la perceber.

Quando se tem duas fortes opções é muito mais difícil escolher e esse era o meu caso.

Dei um beijo, então, em meu amor e fiquei olhando seu rosto sereno. Conversei com ele em pensamento:

“Eu te amo, amo tudo que fez com a minha vida. Mas me amo também: amo a mim e aos meus sonhos. E entre você e eu, queria escolher nós dois, mas não será possível. Não sei se suportará saber disso, mas eu não ficarei de pé se me deixar. Você é meu amigo, meu companheiro, minha vida...”

Senti que, se ficasse naquele monólogo, choraria.

Deitei no outro quarto e fechei os olhos. Fiquei quietinha ouvindo música:

"Vou te contar, os olhos já não podem ver,
Coisas que só o coração pode entender,
Fundamental é mesmo o amor,
É impossível ser feliz sozinho".

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi (atualizado)

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O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

25/08/2007

Cap 83: Rodeada pelos cães

Levantei-me da cama e fiquei de pé, atrás de Caio. Procurei no computador a justificativa para seu semblante desnorteado e as lágrimas em seus olhos.

_O que é isso? _ ele apontou para a tela.
_Essa sou eu e meu tio. _ respondi, vendo cinco fotos minhas ao lado do tio Paulo.

Em uma delas eu saía do carro e ele abria a porta para mim. Na outra, ele estava com as mãos nas minhas costas e caminhávamos na rua. Havia, também, uma em que eu e ele almoçávamos em um restaurante e eu dava uma gargalhada. Mais uma foto em que nós tomávamos café em uma livraria e, por último, uma imagem de nós dois conversando em um canto do salão de festas e ele me dizendo alguma coisa ao ouvido.

_E o que vocês estão fazendo juntos? _ perguntou-me.

_Caio, não estou entendendo... _ eu ri. _ Você andou me bisbilhotando?

Por que ele estava fazendo aquelas perguntas se nunca escondi que trabalhei para o meu tio e com este aprendi tudo que sei hoje? Era óbvio que nós não ficávamos enfurnados no seu escritório. Precisávamos sair, buscar encomendas na rua e, evidentemente, almoçar, tomar um café. Era parte do trabalho e só trabalho. O que poderia haver entre o meu tio e eu? Era nojenta essa possibilidade.

_Ele tem idade para ser meu pai, como é que você consegue imaginar isso? _ disse tudo isso a ele com um ar de horror e desapontamento. _ Não acredito, Caio, que pensou isso de mim.

_Eu ou essa pessoa? _ virou-se para o computador e maximizou a janela do seu e-mail pessoal.

Comecei a ler em voz alta e minha voz foi sumindo à medida em que lia, só os meus olhos conseguiram acompanhar as palavras linha a linha até o fim:

“Caio. Não é assim que ela chama seu nome por aí, dando uma de boa namoradinha? Talvez seja a hora de uma pessoa ter pena de você e te contar o que a sua Belinha faz pelas suas costas. Afinal, daqui a pouco você nem vai conseguir passar pela porta com esses galhos que estão nascendo na sua testa."

Eu ri. Caio olhou para mim e depois para o computador para ver do que eu estava achando graça.

_Você não acreditou nisso, não é? _ apontei para o e-mail.

Balancei a cabeça para os lados e continuei a ler:

"Você está lá longe e nem imagina que sua namorada te trai com o próprio tio. Todo mundo sabe disso e você vem aqui pagar o papel de babaca. Fiquei com muita pena e resolvi te contar. E vou te dar um bom argumento para abrir seus olhos: quem dá de mão beijada tudo que tem se não for para uma amante que o serve muito bem na cama?"

Parei de ler e pus as mãos na cintura. Respirei fundo.

_Você tinha que saber por alguém o que eles fazem na sala trancados. Todos nós ouvimos e já estamos fartos dessa baixaria. Eu sou uma pessoa de moral e bons costumes, não agüento ver alguém sendo chifrado desse jeito pelas costas. Você deve estar sentindo como se fosse uma apunhalada, não é? Mas é melhor saber agora do que pegar essa vadia na sua cama com o próprio tio, quando forem casados.

_Isso tudo é uma grande... sujeira. _ explodi. _ Caio, olha para mim.

Ele me olhou.

_Você não acreditou, acreditou? Porque se por algum momento levou fé nesse e-mail, eu vou sentir vergonha de mim mesma por ter pensado que você me amava acima de tudo, até mesmo desses falsos.

Caio ficou calado.

_Essa pessoa provavelmente tem inveja de mim e quer nos destruir! Não enxerga isso? Não é um amigo seu, nem alguém que confie que está te dizendo isso, mas um anônimo! Como pode dar crédito a alguém que se esconde?

_Se ponha no meu lugar? Eu fico longe, nunca vejo o que está fazendo e, de repente, leio uma coisa dessas...

_A confiança é aquilo que não precisamos ver com os olhos, mas acreditar com a alma. E sua alma não confia mais em mim.

_Bela, a minha alma já não te reconhece mais.

_Do que está falando? _ sentei na cama.

Aquela frase sim teve o poder de me abalar muito mais que todas as asneiras do e-mail.

_Eu, a cada vez que venho te ver, encontro você mais diferente, nem parece aquela Bela minha amiga. E aí eu fico muito confuso e... _ Caio levou a mão à cabeça.

Levantei-me e o puxei pelo braço. Ele deixou-se levar e sentamos lado a lado na cama. Abracei-o. Era disso que precisava, do meu carinho e segurança, que ultimamente eu não lhe dei por causa de tanto trabalho.

_Caio, olha nos meus olhos. Lembra dos olhos da sua amiga, olha para mim... _ pedi. _ Eu te amo. Eu te amo.

_Eu estou confuso...

_Confuso com o quê? Você não me ama mais, é isso? _ minha voz embargou e sumiu.

_Amo, mas...

_Caio, você quer terminar comigo?! _ procurei seus olhos, mas ele teimava em abaixar a cabeça.

_É tudo... Eu tenho que saber para onde ir, mas não sei se você vai comigo, eu não quero te perder...

_Caio, presta atenção. _ respirei fundo e falei pausadamente, como quem dialoga com uma criança. _ Viva cada coisa a seu tempo. Se você tem um sonho, siga-o. Ano que vem é só ano que vem. O quarto ano está longe.

_Bela, eu não quero seguir o meu sonho sem você.

_Nem eu, meu amor. _ sorri e o abracei com carinho. _ puxei-o para meu colo e ele deitou na minha perna, acariciei seu cabelo espetado e beijei sua cabeça. _Caio, eu estou mudando como todo mundo muda, só que você está sempre longe e não percebe a mudança lenta e gradual, só aos saltos, de fim de semana em fim de semana. Se estivesse do meu lado veria tudo passo a passo. Não estou te culpando por isso, o que não pode é querer que eu pare no tempo e continue, eternamente, sendo a Bela que estudava na escola contigo. Não tem por que ficar assim, nem acreditar nessas besteiras do e-mail. Eu sempre fui fiel a você. Agora não sei, quantas cadetinas vou encontrar naquele aspirantado, hen?

_Só umas duas. _ brincou.

_Ah! É? _ ri alto e fiz cócegas na sua barriga.

Ele sentou-se e me abraçou com muita força. Seu corpo estava quente e sua pele macia, os músculos muito fortes. Qualquer problema era pequeno, se ele me dissesse que me amava e que não queria terminar comigo.

_Agora dá um pulo dessa cama, vamos escovar os dentes e tomar café juntos. Vamos?

Ele fez que sim e foi para o banheiro. Levantei-me e aproveitei que tinha saído para encaminhar o e-mail ainda aberto para o meu endereço. Aquilo não ficaria barato.

Segunda-feira, a primeira coisa que fiz foi relê-lo. Puxei um bloco de notas e escolhi uma caneta no porta-lápis.

Olhei para as fotos e esperei descobrir alguma pista nelas. Todas foram tiradas pela manhã. Então, a pessoa trabalhava no turno da tarde. Anotei isso. As imagens tinham uma boa qualidade e eram bem tiradas. Provavelmente, essa pessoa tinha habilidade com fotografias. Mas, aquela não era uma grande pista já que, qualquer um, com uma boa câmera digital consegue um resultado satisfatório.

O texto do e-mail estava bem escrito. Não era alguém que costumasse a escrever em chats, ou msn, não tinha os vícios de abreviação. Provavelmente, não era jovem.

Larguei o lápis e peguei o telefone. Chega de suposições incertas. Liguei para o meu tio e pedi que abrisse o e-mail que acabava de encaminhar-lhe.

_E seu namorado sobreviveu a isso? _ foi o primeiro comentário do meu tio.

_Com a minha ajuda... _ suspirei. _ Você sabe quem é?

_Eu não gosto de julgar e ser injusto...

_Paulo, você conhece seus funcionários melhor do que eu. Sabe de algum que possa estar querendo me prejudicar, que tenha algum motivo?

_... _ ele emudeceu. _ É melhor deixar isso para lá. _ quis desconversar.

_Quem é? _ perguntei, cortando-o. Ficava claro que sabia.

_Não quero que a prejudique.

_Então, é uma mulher? Era o que eu suspeitava. Paulo, você tinha algum relacionamento com uma funcionária que esperava com isso chegar onde estou e ficou frustrada com o rumo que deu aos negócios, colocando-me neste posto?

_Você aprendeu a ser tão direta comigo? _ riu.

_Essa não é a resposta que eu estou esperando.

_Tive sim... Foi uma coisa rápida com a Kelly.

_Kelly? Kelly... Ah! Animadora de festa?

_É.

_E essa cena que ela descreve da sala foi real?

_... _ ouvi apenas a sua respiração. _ Foi.

_Tudo bem, era só isso que eu precisava saber.

_O que vai fazer? Não quero que a prejudique, ela precisa desse emprego.

_Não se preocupe, o senhor também me deu algumas lições de ética. Eu anotei no caderninho.

Desliguei e mordi a tampa da caneta. Olhei para a caderneta de lições e puxei-a para mim. Havia frases soltas escritas ao longo dos meses que trabalhei de perto com meu tio:

_ “Você não estará sempre rodeada de amigos, mas os inimigos não devem ser em maior número”; “Há uma inveja boa e uma inveja má. A inveja má é quando a pessoa quer ter o que você tem e não quer que você tenha”; “Seja dura nas suas decisões, firme, mas nunca cometa injustiças”; “Negócios são negócios, amizades à parte”; “O orkut é um álbum de figurinhas”.

O orkut. Agora eu entendi por onde a pessoa tinha descoberto coisas sobre mim. Tomei a decisão, naquele momento, de que não mais permitiria que alguém entrasse na minha vida pessoal para destruí-la. Agora, o meu relacionamento seria estritamente entre mim e Caio. Loguei no meu perfil e apaguei todos os dados referentes a nós e limpei meu álbum. Estabeleci uma meta de que a minha vida privada era apenas assunto meu e de mais ninguém.

Lembrei do meu blog. Fazia tempo que não postava lá, tinha esquecido por completo. Ao menos nele eu era só a Bela, perdida na vastidão de milhares de blogs, não tinha com o que me preocupar. Abri um arquivo de Word para atualizá-lo.

_Dona Isabela? Visita para a senhora. _ ouvi o meu rádio tocar, era o porteiro.

_Nossa! Agora eu tenho que ser anunciada? _ Débi fez bico assim que eu abri a porta. Entrou na sala e olhou tudo ao redor. _ Você está chique, hen, garota? _ me deu um tapinha no ombro.

_Obrigada. _ sorri e sentei-me novamente.

_Quer alguma coisa? Posso pedir.

_Quero, tem aqueles brigadeiros de festa?

_Posso ver..._ peguei no telefone.

_Estou brincando. _ ela sentou-se à minha frente. _ Eu estou fazendo uma dieta porque... _ ela parou de falar e começou a procurar uma coisa em sua bolsa. _ Isso é para você.

Peguei o envelope branco e o abri. Era o convite de casamento de Ribeiro e Débi:

_Você quer ser minha madrinha? _ perguntou.

_Eu? _ fui pega de surpresa pela notícia.

_Claro, e o Ribeiro vai chamar o Caio para padrinho.

_Lógico, vai ser maravilhoso. Não posso acreditar. _estava sem palavras.

_Nem eu! Esse é só o convite, eu tenho muitas coisas para organizar. Por isso, estamos fazendo com muita antecedência. Todo mundo diz que o tempo voa e quero que tudo saia perfeito. Você vai me ajudar, né? Já que agora está expert no assunto.

_Vou sim. Pode deixar... _ levantei-me da mesa e dei a volta para abraçá-la. _ Eu quero que você seja muito feliz.

_Deus te ouça. E as novidades? Agora eu tenho que agendar uma audiência para falar contigo, é? _ brincou.

_Tanta coisa... _ suspirei e falei-lhe sobre o e-mail.

_Iiiih, vai se acostumando com isso. Afinal, você ocupa um cargo de poder. E o que vai fazer?

_Não sei... _ falei vagamente e balancei a cabeça para os lados.

***

Levei o que era confiado a mim para o chá de bebê do neto da Gracinda, a nossa mais antiga cozinheira. Ela pegou o embrulho como se recebesse um pote de ouro e agradeceu-me com um abraço apertado e cheirando a alho.

_É uma pena que eu não possa ir, mas aqui está minha contribuição. _ disse-lhe.

_Obrigada, minha filha. Você é maravilhosa. Quem não gostar de você é porque não te conhece... _ comentou.

Se ela soubesse que de fato alguns tinham motivos mesquinhos para quererem me destruir.

_Ronaldo, vem aqui! _ ouvimos um grito e depois a porta da cozinha se abriu. Um garoto entrou correndo e deu a volta na mesa, se escondeu.

Kelly entrou procurando o filho e parou de gritar envergonhada, quando deu por minha presença.

_Desculpe, dona Isabela, eu precisei trazê-lo porque a escola não teve aula hoje e eu não tive com quem deixá-lo...

_Tudo bem. _ respondi, fazendo pouco caso.

Ela o puxou pelo braço e o levou para fora, ralhando baixinho com o filho.

_Essa aí é batalhadora, cria esse garoto sozinha. _ comentou Gracinda.

Pensei sobre as conseqüências de mandá-la embora sem uma justa e concreta causa. Enterrei aquela idéia e voltei ao trabalho.

Eu precisava aprender a trabalhar rodeada pelos cães.


Autora: Li



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