3 de set de 2007

Cap 92: Você tem dois segundos

Trilha sonora da cena (clique aqui)

O telefone chamou por mais três vezes e Caio atendeu do outro lado. Nesse momento, dei-me conta de que não sabia por onde começar. Eu havia dito tantas indelicadezas que não tinha palavras para estabelecer qualquer diálogo amistoso.

_Oi, é a Bela.
_Hum. Esqueceu alguma coisa para dizer? _ perguntou. Pelo barulho ao fundo deveria estar no trânsito dirigindo.

_Li sua carta. _ disse-lhe na esperança de que entendesse ser aquela a minha rendição.

_E aí? _ perguntou, agora na posição de quem está no direito de fazer jogo duro.

_Eu... _ passei a mão na nuca, pensei por alguns segundos. _ Queria marcar para a gente conversar. Pode ser hoje?

_Que horas? _ perguntou.

_Hum. _ Olhei o relógio e ri. _ Você vai estar fazendo alguma coisa importante a uma e meia da madrugada? _ perguntei em tom de brincadeira.

_Bom, talvez eu esteja indo pegar água na geladeira ou, não sei, indo ao banheiro.

_Eu sei que é muito tarde. Mas, é a hora que eu saio do trabalho, tenho uma vida noturna de morcega. Tudo bem, deixa...

_Não foi essa a Bela que eu conheci. Você não costumava entregar os pontos tão fácil.

Revirei os olhos. Santa paciência!

_É que eu sei que você não gosta de joguinhos. Bom, então, deixa eu desligar porque tem algumas pessoas aqui me chamando e...

_Tá, então.

Desligamos.

_Ai! _ fiz uma careta olhando para o telefone ainda na minha mão. _ Como você me irrita, garoto!

Expirei e os fios do meu cabelo voaram no ar e depois caíram de volta na testa. Levantei-me para esticar as pernas, eu parecia pensar as coisas melhor em pé. Pus as mãos na cintura.

O telefone tocou mais uma vez.

_Eu sabia! _ ri, mas não atendi de imediato. No terceiro toque apertei o botão. _ Alô?

_Ok, uma e meia eu passo aí. _ disse-me ele.

_Te espero. _ dei um soquinho silencioso no ar em comemoração.

Desligamos.

E a noiva demorou para querer casar, não parecia nem um pouco com pressa para acabar a festa.

Quando, finalmente, o pessoal da limpeza entrou em ação, eu vesti o meu sobretudo e pequei minha bolsa. O frio de julho estava pouco convidativo para esperar lá fora, mas fiquei na porta, aguardando Caio chegar.

Olhei o relógio cravando uma e meia por baixo da manga. Caio estacionou o carro na frente do salão e saiu.

Estava com uma outra camisa, agora preta e muito cheiroso. O cabelo molhado com gel mostrava que tinha tomado banho recentemente.

Tudo isso era para mim?

_Boa noite, Cristóvão. _ eu disse ao porteiro, desci os dois degraus que davam para a saída.

Pus as mãos dentro dos bolsos do sobretudo e encolhi os ombros.

_Oi. _ cumprimentei-o com um simples sorriso tímido.

_Suas bochechas ficam coradas com o frio. _ comentou.

Abaixei a cabeça e a levantei de lado. A luz do poste dava um colorido no seu rosto próximo ao meu agora. Nossas respirações formavam leves nuvens de fumaça branca.

_Eu estou com fome, pensei em sair para comer alguma coisa. _ sugeri.

_Com fome aqui? _ apontou para o salão.

Olhei para trás e sorri:

_É... Não falta comida, mas se eu viver à base de salgadinhos, vou terminar no formato de uma coxinha, fina em cima e bojuda na barriga.

_Trocar salgadinhos por pizza melhora bastante também... _ ponderou.

_Tá bom, você me venceu! _ ri e toquei no seu braço.

Foi o nosso primeiro contato, depois de 6 meses separados.

Ele pegou minha mão entre seus dedos e dedilhou-a, até que esta soltou-se no ar.

_Então, onde você propõe a gente comer um pé de alface?

_Bom, já que não tem pé de alface, vai de pizza mesmo. Eu, particularmente, ... _ colocou a mão em seu peito irônico. _ ... não trocaria um pé de alface por iguaria nenhuma nesse mundo, mas já que não tem, vou fazer esse sacrificiozinho e comer pizza.

_Puxa, obrigada! _ dramatizei também.

_Onde pode estar aberto a essa hora? _ perguntou.

_Parece que já esqueceu que morou por aqui. _ comentei.

Ele ficou me olhando e eu senti uma pontada de tristeza por isso. Do que mais ele teria se esquecido?

_Vamos à “Pizza da casa”, lá perto da casa da Cris.

Ele abriu a porta do carro para eu entrar.

_O meu está ali. _ apontei. _ Você pode vir atrás de mim.

_Claro, eu esqueci que você é uma mulher independente. _ senti um tom de ironia em sua voz.

_Pensei que já tivéssemos selado o acordo de paz.

_Selado como? _ ele olhou em cheio para os meus lábios.

_A gente pode brindar daqui a pouco. _ sugeri e abri a porta do meu carro.


***

_O que vocês vão pedir? _ perguntou a balconista da pizzaria.

_O de sempre? _ ele olhou-me, buscando minha opinião.

Era como se nada tivesse acontecido e aquele fosse mais um encontro. Por mim, qualquer coisa servia, até pizza de jiló e suco de boldo, mas era melhor eu demonstrar rapidinho que não tinha esquecido de nossos hábitos e gostos:

_Metade quatro queijos, metade frango com catupiry. Uma Coca-Cola de 500 ml pra ele e para mim, guaraná.

_Mais alguma coisa? _ ela perguntou.

_Uma pizza mini de chocolate para sobremesa. _ ele acrescentou para me indicar que não havia esquecido minha “tara” por pizza de chocolate com morangos.

_Nós vamos fechar daqui a quarenta minutos. _ avisou. _ Preferem levar para a viagem?

Caio olhou-me, a resposta dependeria de um convite meu.

_Bom, podemos ir para o meu apartamento. _ falei baixinho para ele. _ A Débi e o Ribeiro estão lá. _ comentei, para que ele não pensasse que a mudança de planos significava um convite íntimo.

Sentamos para esperar que o pedido ficasse pronto.

_No telefone, você disse que leu a carta. _ puxou o assunto.

_É, li. _ olhei para o lado e depois para ele.

_Eu acho que já falei tudo o que sinto ali. Bela, eu sei que errei em ter me precipitado em acabar o namoro. Quem sabe, eu tinha medo do golpe de você fazer isso... _ ele tirou uns fios de cabelo do meu rosto, colocou atrás da orelha, mas estes resistiram e caíram outra vez. _ Bela, você me esqueceu?

_Esqueci.

Fiz uma pausa e expliquei:

_Todo santo dia eu te esqueço.

_Isso significa que eu ainda tenho uma chance?

_Pizza da mesa nove! _ gritou a balconista.

Levantamos para receber o pedido e Caio adiantou-se, pegou a caixa de papelão e equilibrou os dois copos em cima.

***

Senti seus olhos percorrendo todos os cantos do apartamento quando abri a porta da sala.

_Parece que todos estão dormindo. _ eu sussurrei.

Ele olhou para os porta-retratos e tenho certeza que sentiu falta de alguma foto sua no móvel.

_Vem... _ convidei-o para entrar na cozinha.

Sentamos à mesa e eu distribui pratos e talheres. Coloquei o guardanapo à disposição.

_Isso aqui é tudo que você sonhou, lembro de como você vivia contando que sua casa seria assim, assado... _ ele serviu-se da pizza.

_Eu pensei que nunca tive escutado o que eu falava...

_Eu sempre escutei, só que tudo isso me dava muito medo. _ confessou.

_Mas está tudo aqui como eu sonhei, conquistado com muito suor. Meu trabalho é incrível. Amo lidar com pessoas, com festas, com... Desculpe, não me deixe falar só de trabalho... _ bebi um gole do refrigerante.

_Continue. Você escutou anos eu falando da Academia, por que não te ouvir agora?

_Eu estou estudando para o mestrado agora, quero seguir aprendendo, me aprofundando. _ comentei.

_Muito bom! O que mais? _ perguntou, antes de morder mais um pedaço. _ Não vai comer?

_Vou! É que te ver comer me dá gosto. _ sorri e apoiei o queixo no meu ombro, vendo-o de lado. _Nossos amigos ficaram com meu quarto e só restou o outro da Débi com uma cama de solteiro, mas acho que consigo te alojar na sala... _ lembrei-me deste detalhe.

_Qualquer pedaço de chão para mim está bom. Você sabe que eu não tenho dificuldade de dormir.

_Eu vou ver o que faço... Aproveita a pizza.

_Você tem certeza disso?

_Claro, pode comer. _ sorri e me levantei.

Passei pela sala, liguei o som e coloquei um CD que eu havia gravado com músicas que gostava. Volume baixinho para ficar um som ambiente.

_”Olha aqui/ Preste atenção/ Essa é a nossa canção/ Vou cantá-la seja aonde for/ Para nunca esquecer o nosso amor/ Nosso amor
Veja bem Foi você/ a razão e o por quê/ De nascer esta canção assim/ Pois você é o amor que existe em mim...”

Senti a presença de Caio. Virei o rosto para o lado e o vi escorado na porta da cozinha, com as mãos no bolso.

_ “Você partiu e me deixou/ Nunca mais você voltou/ Pra me tirar da solidão/ E até você voltar/ Meu bem eu vou cantar/ essa nossa canção”.

Desliguei o botão.

_Pode deixar. _ ele pediu.

Eu apertei o botão outra vez.

_É... _ não sabia onde colocar minhas mãos. _ Eu preciso tomar um banho. _ retirei o sobretudo e o deixei em cima do sofá. _ Você pode dormir no sofá. Vou trazer um cobertor...

Caio não falou nada, só me olhava.

Fui para o banheiro e senti seus passos atrás de mim. Quando fechei a porta, sua mão a forçou.

Ele olhou-me e não estava mais com paciência para resistir.

Meu coração disparou e eu dei dois passos para trás.

Caio segurou meu rosto e encostou sua testa na minha. Sua respiração estava ofegante e seu cheiro maravilhoso tirou-me a lógica do pensamento.

Minhas mãos se seguraram na borda da pia atrás de mim.

_Você tem dois segundos para me mandar embora. _ disse ele.

Fechei os olhos e meus lábios se entreabriram para receber os dele em resposta. Caio inclinou o rosto para o lado e beijou-me. Senti sua língua, os lábios entre os meus. Minhas mãos procuraram seu cabelo.

Ele fechou a porta do banheiro e voltou a beijar-me, agora o pescoço, o colo dos seios, abriu os botões da minha blusa e eu puxei a sua. Beijamo-nos com uma saudade explosiva e o doce reencontro dos corpos sedentos.

Deixamos a água quente cair sobre nós e esquecemos o tempo, imersos na fumaça branca que nos envolvia.

Não importa o tempo que ficamos separados, não paramos de nos querer, de sentir esse ardor de vida. A prova disso era a vontade cada vez mais forte de abraçá-lo, puxá-lo todo, como uma onda que engole e traga tudo para si, eu o queria inteiro, entre os limites da epiderme e do pêlo, completo.

Minhas mãos apoiadas no azulejo embaçado escorregaram, deixando um rastro de meus dedos úmidos, quando sentimo-nos finalmente um só.

Depois, descobrimos que não precisávamos de sofá porque a cama de solteiro da Débi era suficiente.

Ele acariciou meu corpo debaixo do edredom, enquanto seus lábios não desgrudavam-se dos meus. Segurei seu rosto com uma das mãos para ver melhor seus olhos lindos e sorri:

_Eu te amo, Caio.

_Eu também te amo, Bela. _ ele me beijou mais uma vez, como se cada beijo quisesse saciar a lembrança de um desejo já contido no fim do anterior.

O dia amanhecia quando nossos corpos já estavam fadigados de se amar.

Deitei-me contra seu peito e encaixei-me na concha do seu corpo. Senti a sonolência chegar com toda força.

_Bela? _ ouvi sua voz doce a me chamar perto do ouvido.

_Hum. _ mantive os olhos fechados.

_Quer casar comigo?

Autora: Li

Amanhã, o capítulo final, espero todas vocês!

11 comentários:

Li disse...

Oie, leitoras amadas!
E aí? rs

Lindos esses dois não?!

Maravilha.

Mas perai? E agora?

O que é que ela vai fazer?

Abrindo as apostas!

Beijocas!

Li

Lucy disse...

*e-mo-cio-na-da*
... que perfeito ... lindas cenas, linda emoção, lindas palavras... lindo capítulo! Eliiiii, está graciosa demais a descrição das cenas... que poesia!!! Senti falta dessa poesia (que lemos nos primeiros capítulos e eu li em "Cada Casa Um Caso")...

Que sintonia de cenas e palavras... *lágrimas* é tão bom ver que o amor é verdadeiro! Porque quando é verdadeiro, resiste a tudo: tempo, distância, saudade... TU-DO. Não é poesia utópica dizer isso. É realidade poética que se traduz com atitudes, palavras e sentimentos emanados de corações verdadeiramente apaixonados, que pertencem um ao outro.

Ahhhhhhh, o amor é, realmente, lindo!!! \o/ Que felicidade!!! Eli, obrigada por proporcionar momentos assim... =D um bjo super carinhoso!!!

Ai, meninas!!! Não tá perfeito tudo isso!?!?!?!?!? \o/ Não desmaiem agora, nããão! Vamos ver o que a Bela vai fazer!!!

Li disse...

Obrigada pelo carinho, Lucy!
Espero você para o último capítulo viu?
Um beijoo!

aninha disse...

aiiiiiiiiiii!!!!!!! que emoção!!!!!!!! lindo lindo lindo!!!!!!!!! perfeito demais!!!!!!!!! adoro esses dois eles não podiam acabar separados!!! e essa cena do reencontro... uiiii... deu até um calorzinho gostoso!!!!!!!! Li, simplesmente perfeito!!!!!!

Ana Carolina disse...

rsrs...sabe li, lendo esse capítulo reparei em uma coisa...acho que todas nós temos um poquinho da bela...essa vontade de crescer, ser independete...e tbm esse jeito que não resiste muito tempo a um jogo duro...rsrs...basta a presença de quem amamos, mesmo se estamos brigadas que nossa sensatez vai por água a baixo...espero que ela case com ele...eles se encaixam direitinho!!!

Tita disse...

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH AHHHHHHH AAAAAAH AAAAAAAAAAAAAAAAH!!!!
AAAAAAAAHHHHHHHHH!!!
=DDD

p.s.: sem mais por hoje

Dory disse...

Aaaiiii que lindo!!!

Quando o amor é forte vence qualquer barreira!!

Tenho certeza que eles vão dar um jeito mesmo com distência...

Não andei comentando, mas entrei todos os dias para ler, são muito boas as suas histórias!!

Bjs

mell disse...

aaii lii...
q coisa mais lindaaa², tudo tao perfeito!
o caio eh apaixonante, naum sei como a bela conseguiu ficar meio ano longe dele!
naum vejo a hora de ler o capitulo de amanha!
se a bela naum quiser casar, eu quero!
hsuuashuausauhsh

Lu disse...

ainnn Li cada capitulo um mais perfeito q o outro
faço das minhas as palavras da lucy.. q descricao perfeita das cenas..
deu ate o friuzinho na barriga e vontade de keru mais ;XX~
ainn mass ja ta acabandoo ;~~~
ansiosaaaa novamente pelo ultimo capitulo ;~~~~~
mas ainda bem q li ja pensou q nos iamos ficar orfas de novelinha e ja ta criando outra \o/
uahuahauhauahauh

bjuxxx Liii
simplesmente amei o capitulo de hj!

Li disse...

Minhas queridas!
Sim, vcs é que são maravilhosas e o livro não tem graça sem vcs!
Já já, depois dos comerciais hehehe
brincadeira
Jájá capitulo final.
beijos li

Tita disse...

Ai esses comerciais que vêm na parte mais emocionante da novela! hehehe
To esperando ansiosa pelo último capítulo!