3 de ago de 2007

Cap 61: Pimenta nos olhos dos outros

Eu estava vivendo tão intensamente as emoções do meu trabalho. Felizmente o meu sogro pôde pagar uma enfermeira para cuidar de Fabíola até a hora que eu chegasse, depois que voltei as aulas.

Ela começara as sessões de quimioterapia que fizeram seu cabelo e todos os pelos do seu corpo caírem. Além de tudo que agüentava no trabalho, ainda precisava ter espírito e força para apóia-la. Eu parecia um zumbi.

O interfone tocou e eu abri a porta com o coração já na boca. Olhei para Caio saindo do elevador e o abracei com força. Comecei a chorar.

_Que houve, Bela?_ ele me afastou para que pudesse me olhar nos olhos.

_Estou mal. Só me abraça. _ pedi, precisava do seu apoio, do seu calor.

_Tá, vem comigo._ puxou-me para entramos.

Jogou a mochila no chão e fomos para o sofá. Ele me fez sentar e me abraçou com carinho.

_Conta para mim o que está acontecendo?

_Ah! Tudo... _ passei as costas das mãos no rosto e tentei respirar, sentindo meu nariz entupir.

Contei-lhe por alto as situações do trabalho.

_Bela, eu não vejo nada demais nisso...

_Como não, Caio?

_Isso tem em todo lugar. Poxa, se eu ouvisse essas coisas estaria feliz. Eu sou obrigado a encarar regras muito mais duras. Queria eu ter os seus problemas.

_Mas, Caio, eu estou me sentindo muito mal. Estou em um ninho de cobras. _ voltei a soluçar.

_Eu não gosto de te ver assim não. _falou com raiva.

Eu contei-lhe mais detalhadamente o que estava acontecendo e ele mandou eu parar.

_Eu não quero ouvir mais nada disso. Podemos mudar de assunto?

_Mudar de assunto? Eu... _continuei falando-lhe para que ele entendesse que eu não estava fazendo pirraça, nem reclamando à toa.

Caio simplesmente levantou e me deixou sozinha na sala. Foi até o quarto ver a mãe. Aquilo me machucou. Ele não sabia lidar com as emoções, nem tinha jeito para conselhos ou coisas do tipo. Para ele, tudo era uma grande bobagem só porque na AMAN ele tem mil regras a seguir e isso o coloca em um posto de sofredor acima do meu.

Ri, achando um absurdo tão grande, que só me restava rir. Balancei a cabeça para o lado. Pensei se, lá na frente, quando eu abandonasse tudo para seguir com ele e tivesse um grande problema, iria chorar sozinha, no meio de uma toca de índio perdida em alguma selva.

Aos poucos eu ia conhecendo-o e enxergando seus defeitos. Sua frieza estava atingindo níveis desconfortáveis para nossa relação. Ele não se chocava com as coisas. Tudo estava dentro do nível do suportável, porque a cada dia era provado por condições de resistências mais e mais duras.

Levantei e fui para a cozinha terminar o jantar. Quando voltei para colocá-lo na mesa, ele estava sentado no sofá, assistindo televisão.

Eu estava magoadíssima. Por que ele não conseguia ver o quanto eu estava psicologicamente ferrada com o ambiente horrível de trabalho que eu todos os dias enfrentava?

_Está tudo bem contigo? _ minha sogra perguntou, quando eu, sem conseguir me agüentar, fiquei com os olhos cheios de lágrimas em sua frente.

_Tá. _ menti balançando a cabeça em sinal de sim. Estendi a mão aberta e lhe mostrei os remédios. Dei-lhe o copo com água.

_Podemos conversar? _ ela pediu.

Eu olhei-a e não soube dizer nem sim, nem não. Estava tão desnorteada, abalada, fraca, fora de mim. Minha cabeça estava tão sem defesa como estava agora seu corpo com as sessões de rádio e quimioterapia.

_Onde está o Caio?

_Vendo televisão. _ respondi.

_Fecha a porta, então, por favor. Sente-se aqui. _ ela pediu e assim eu fiz._ Sua mãe me contou que você está tendo problemas no estágio.

_É. _ respirei fundo, tentando me acalmar.

_Mas, é só por isso que você está chorando agora?

_Não, foi por causa da atitude do seu filho. _ enxuguei o rosto, não acreditava que estava ali falando minha vida para ela e esperando seus conselhos.

_O que ele fez?

_Nada. _ ri. _ Esse é o problema. Se levantou e me deixou falando sozinha! _ contei-lhe aquilo olhando nos olhos, para que ela pudesse ver o quanto eu estava chocada. Depois voltei a encarar a parede, a minha frente, segurando ainda na mão o copo com água.

Ela suspirou e aguardou um pouco para falar.

_Bela, vocês dois estão vivendo como se corressem em duas pistas paralelas. Cada um em uma velocidade e mirando chegar em lugares diferentes, com objetivos diferentes.

_Eu sei.

_Mas, simplesmente saber não te faz ter facilidade em encarar as situações. A gente sabe que injeção dói, mas só saber não impede a dor da picada.

_Boa comparação. _ ri.

_O Caio está passando por coisas muito duras lá dentro. Coisas que ele nem conta para você, que enfiaram na cabeça dele que são normais.

_É. E agora tudo para ele é normal! Tudo para ele é fácil. É como se ele chegasse ao limite da resistência física e emocional e agora tudo que viesse abaixo disso não tem dificuldade mais... Só que eu _ apontei para o meu próprio peito _ Não sou ele, não estou lá na Academia, estou aqui fora, no mundo...

_É o que eu te falei. Vocês estão em uma corrida paralela, encarando desafios muito diferentes.

_Ele não sabe o que é o mercado de trabalho... Seu filho foi para a Prep um garoto ainda, depois para a AMAN. Ele fica lá trancado o dia inteiro, só vê mato, armas, cama, comandantes... Guerra. E o mundo aqui fora, os jornais, as revistas, os assaltos, o trânsito, os riscos, os acidentes... o ar, a vida. A vida! Ele está lá enclausurado! Para muitas coisas ele parou totalmente no tempo. Tem vezes que ele tem umas atitudes tão infantis, tão infantis... _ repeti aquilo com muita raiva_... que eu fico chocada e isso me dá uma mistura de pena e de cansaço. Porque eu fico pensando o quanto eu vou ter que ficar aqui sentada esperando, pacientemente, ele crescer!

_Para isso Deus criou o amor, para você não desistir. Quando ele tiver atitudes de garoto imaturo, você olhar para ele e não ter vontade de largá-lo.

_Poxa, qual seria a atitude de um homem maduro? “Bela, fica calma, isso vai passar, fala para mim o que você sente, porque mesmo que eu não possa mudar, eu quero te ouvir”. _ disse-lhe o que esperava ouvir dele. _ Mas ele não está nem aí, quer ligar a televisão e ver os clipes. E eu me sinto...

_Incompreendida. Porque esse homem maduro ai hipotético que você está precisando e querendo, Bela, não é só maduro, ele é um civil também, que procurou estágio, que sofreu as mesmas humilhações, que pode trocar com você. Enquanto estiver com um militar, você não vai trocar experiências, você vai contar o seu dia, ele o dele e os dois vão tentar imaginar como seria estar no lugar do outro. Por isso eu repito, só o amor salva mesmo uma relação com um militar. Porque se a mulher ou o homem acordar um dia e olhar para cara do outro e descobrir que não era amor, que aquilo que se parecia com o amor acabou, não dura o dia seguinte. E, se durar, será para uma infelicidade sem tamanho.

_É pesado demais.

_São mais de vinte e cinco anos dessa lição viva, Bela.

_Como consegue?

_Com o amor. _repetiu sem cessar aquela palavra “amor”.

_Eu sou uma pessoa que não gosta de brigar, sabe, dona Fabíola. Eu não sou do tipo que vai levantar, gritar "hei, volta aqui, porque você está sendo isso, aquilo, aquilo outro"...

_Entendo, isso tem um ponto positivo e outro negativo. É bom porque você evita muitas brigas que desgastaria demais a relação e aproveita melhor o tempo que estão juntos. Mas, por outro lado, você deixa de passar por algumas discussões, não chamo de briga, que seriam vitais.

_Mas me diz, adianta alguma coisa eu virar para ele e dizer tudo isso que falei para a senhora? O Caio só vai aprender certas coisas quando ele sair daquela academia.

_Realmente, falar nunca mudou a vida de ninguém. Só vivendo mesmo. Agora, acho que também você não dizer nada é uma forma de se anular. As mulheres, hoje em dia, acham que só trabalhar fora é um sinal de liberdade, de independência, que aquelas mulheres de militar que ficam em casa cuidando dos filhos são um bando de dondocas submissas. Mas, a submissão está nos atos de se anular a sua opinião, a sua vontade, e não no que você faz para viver.

_Então, a senhora acha que eu tenho que falar o que para ele?

_Diz para ele que ele foi egoísta em não te ouvir, que você esperava outra atitude, não sei... Diz o que tem vontade. Mas diz! Bela, as pessoas dizem que somos como somos e não mudamos. Será? Será mesmo que não somos capazes de alterar nosso comportamento, evoluirmos, vermos o mundo diferente? O Caio nunca namorou e, como você diz, vive lá trancado só com um monte de homens. Ele tem que aprender a “namorar” e você vai ter que ter paciência de ensinar. Ele vai dar muitas mancadas e você vai ter que dizer “isso não se faz” para que ele possa aprender...

_Ai, isso cansa! _ senti uma exaustão mental.

_É, cansa. Só amando mesmo.

_Dá vontade de sumir, de arrumar alguém já pronto.

_Mas, esse alguém pronto não seria o Caio.

_É, não seria. Eu gosto dele.

Respirei fundo.

_Eu vou lá colocar a comida para o meu irmão. _ falei enfadonhamente. _Obrigada pelas dicas. _agradeci.

_Bela, o Caio vai ser um homem muito errado. Casamos com homens errados, tortos, cheias de péssimos defeitos. Não espere dele diferente. Ame-o com os defeitos e aprenda a lidar com eles, que só assim você vai conseguir seguir em diante.

_Vou tentar. _ sorri, já sem chorar.

Fui para cozinha. Fiz o prato do meu irmão e coloquei no microondas. Apertei o botão para sincronizar o tempo.

Quando me virei, dei de cara com Caio, me olhando. Era hora de termos aquela conversa.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

3 comentários:

Tita disse...

Ooooi!! Primeira a comentaaar!! o//
Po, deu nos nervos da Bela hein? Hmm quero ver como vai ser a conversa deles, se eles vão chegar num consenso e ele não vai mais mandar tanto essa frase chatona dele: "Eu não quero ouvir mais nada disso. Podemos mudar de assunto?" ooou se ele vai surtar total auhuaha! Tá bem claro que ele não tem sensibilidade e tem medo de mexer com sentimentos assim que machucam, ele tenta evitar sempre e ocultar. Tem que enfrentar isso às vezes.
Beijo Li! Tá lindo aqui!

aninha disse...

é estressante mesmo quando queremos que este militar esteja do nosso lado e ele simplesmente ignora porque somente as coisas do quartel são dificeis e importantes....

meninas, capitulo novo no tão iguais e tão diferentes

www.taoiguaisetaodiferentes.blogspot.com

Lucy disse...

É... difícil mesmo não ter um homem preparado psicologica e emocionalmente para lidar com a vida dele e da pessoa que ele ama.

Não tenho o que comentar sobre isso pq meu caso é oposto à tudo o q está acontecendo com a Bela. Mas, meus conselhos seriam os mesmos da doa Fabíola: fale, ainda que machuque. Fale.

E, quanto à questão da submissão... acredito que as pessoas não entendem bem o q significa a submissão entre a mulher e o homem dentro do relacionamento, a submissão bíblica de que fala nosso Deus. Mas, para aprender sobre isso, só abrindo a mente e o coração, liberando-se dos preconceitos.

Eu conheci um casal que passou por algo parecido. A menina me falou q ele não gostava de vê-la chorar, não ficava perto quando ela estava assim. Não sei exatamente pelo quê eles passaram, mas eu disse a msm coisa para ela: fale com ele sobre isso porque se ele não tem estrutura para te dar suporte quando fica fraca, ele não é capaz de ser um pai de família, mto menos namorado. Bem... não sei como ficou essa parte na vida deles, só sei que, tempos depois, eu soube que terminaram. Espero que isso não aconteça com o Caio e a Bela.

Meninas... reflitam sobre isso: um casal precisa estar consciente de que estão em dupla numa vida agora. Quando um cai, o outro ajuda a levantar. E vice-versa. Não se pode fugir deixando o outro para trás, isso não é amor. Reflitam sobre si e sobre seus respectivos amados. Não deixem que isso aconteça com vcs.

Abraço a todas!
Bjos, Li (o capítulo ficou mto interessante)!