25 de ago de 2007

Cap 83: Rodeada pelos cães

Levantei-me da cama e fiquei de pé, atrás de Caio. Procurei no computador a justificativa para seu semblante desnorteado e as lágrimas em seus olhos.

_O que é isso? _ ele apontou para a tela.
_Essa sou eu e meu tio. _ respondi, vendo cinco fotos minhas ao lado do tio Paulo.

Em uma delas eu saía do carro e ele abria a porta para mim. Na outra, ele estava com as mãos nas minhas costas e caminhávamos na rua. Havia, também, uma em que eu e ele almoçávamos em um restaurante e eu dava uma gargalhada. Mais uma foto em que nós tomávamos café em uma livraria e, por último, uma imagem de nós dois conversando em um canto do salão de festas e ele me dizendo alguma coisa ao ouvido.

_E o que vocês estão fazendo juntos? _ perguntou-me.

_Caio, não estou entendendo... _ eu ri. _ Você andou me bisbilhotando?

Por que ele estava fazendo aquelas perguntas se nunca escondi que trabalhei para o meu tio e com este aprendi tudo que sei hoje? Era óbvio que nós não ficávamos enfurnados no seu escritório. Precisávamos sair, buscar encomendas na rua e, evidentemente, almoçar, tomar um café. Era parte do trabalho e só trabalho. O que poderia haver entre o meu tio e eu? Era nojenta essa possibilidade.

_Ele tem idade para ser meu pai, como é que você consegue imaginar isso? _ disse tudo isso a ele com um ar de horror e desapontamento. _ Não acredito, Caio, que pensou isso de mim.

_Eu ou essa pessoa? _ virou-se para o computador e maximizou a janela do seu e-mail pessoal.

Comecei a ler em voz alta e minha voz foi sumindo à medida em que lia, só os meus olhos conseguiram acompanhar as palavras linha a linha até o fim:

“Caio. Não é assim que ela chama seu nome por aí, dando uma de boa namoradinha? Talvez seja a hora de uma pessoa ter pena de você e te contar o que a sua Belinha faz pelas suas costas. Afinal, daqui a pouco você nem vai conseguir passar pela porta com esses galhos que estão nascendo na sua testa."

Eu ri. Caio olhou para mim e depois para o computador para ver do que eu estava achando graça.

_Você não acreditou nisso, não é? _ apontei para o e-mail.

Balancei a cabeça para os lados e continuei a ler:

"Você está lá longe e nem imagina que sua namorada te trai com o próprio tio. Todo mundo sabe disso e você vem aqui pagar o papel de babaca. Fiquei com muita pena e resolvi te contar. E vou te dar um bom argumento para abrir seus olhos: quem dá de mão beijada tudo que tem se não for para uma amante que o serve muito bem na cama?"

Parei de ler e pus as mãos na cintura. Respirei fundo.

_Você tinha que saber por alguém o que eles fazem na sala trancados. Todos nós ouvimos e já estamos fartos dessa baixaria. Eu sou uma pessoa de moral e bons costumes, não agüento ver alguém sendo chifrado desse jeito pelas costas. Você deve estar sentindo como se fosse uma apunhalada, não é? Mas é melhor saber agora do que pegar essa vadia na sua cama com o próprio tio, quando forem casados.

_Isso tudo é uma grande... sujeira. _ explodi. _ Caio, olha para mim.

Ele me olhou.

_Você não acreditou, acreditou? Porque se por algum momento levou fé nesse e-mail, eu vou sentir vergonha de mim mesma por ter pensado que você me amava acima de tudo, até mesmo desses falsos.

Caio ficou calado.

_Essa pessoa provavelmente tem inveja de mim e quer nos destruir! Não enxerga isso? Não é um amigo seu, nem alguém que confie que está te dizendo isso, mas um anônimo! Como pode dar crédito a alguém que se esconde?

_Se ponha no meu lugar? Eu fico longe, nunca vejo o que está fazendo e, de repente, leio uma coisa dessas...

_A confiança é aquilo que não precisamos ver com os olhos, mas acreditar com a alma. E sua alma não confia mais em mim.

_Bela, a minha alma já não te reconhece mais.

_Do que está falando? _ sentei na cama.

Aquela frase sim teve o poder de me abalar muito mais que todas as asneiras do e-mail.

_Eu, a cada vez que venho te ver, encontro você mais diferente, nem parece aquela Bela minha amiga. E aí eu fico muito confuso e... _ Caio levou a mão à cabeça.

Levantei-me e o puxei pelo braço. Ele deixou-se levar e sentamos lado a lado na cama. Abracei-o. Era disso que precisava, do meu carinho e segurança, que ultimamente eu não lhe dei por causa de tanto trabalho.

_Caio, olha nos meus olhos. Lembra dos olhos da sua amiga, olha para mim... _ pedi. _ Eu te amo. Eu te amo.

_Eu estou confuso...

_Confuso com o quê? Você não me ama mais, é isso? _ minha voz embargou e sumiu.

_Amo, mas...

_Caio, você quer terminar comigo?! _ procurei seus olhos, mas ele teimava em abaixar a cabeça.

_É tudo... Eu tenho que saber para onde ir, mas não sei se você vai comigo, eu não quero te perder...

_Caio, presta atenção. _ respirei fundo e falei pausadamente, como quem dialoga com uma criança. _ Viva cada coisa a seu tempo. Se você tem um sonho, siga-o. Ano que vem é só ano que vem. O quarto ano está longe.

_Bela, eu não quero seguir o meu sonho sem você.

_Nem eu, meu amor. _ sorri e o abracei com carinho. _ puxei-o para meu colo e ele deitou na minha perna, acariciei seu cabelo espetado e beijei sua cabeça. _Caio, eu estou mudando como todo mundo muda, só que você está sempre longe e não percebe a mudança lenta e gradual, só aos saltos, de fim de semana em fim de semana. Se estivesse do meu lado veria tudo passo a passo. Não estou te culpando por isso, o que não pode é querer que eu pare no tempo e continue, eternamente, sendo a Bela que estudava na escola contigo. Não tem por que ficar assim, nem acreditar nessas besteiras do e-mail. Eu sempre fui fiel a você. Agora não sei, quantas cadetinas vou encontrar naquele aspirantado, hen?

_Só umas duas. _ brincou.

_Ah! É? _ ri alto e fiz cócegas na sua barriga.

Ele sentou-se e me abraçou com muita força. Seu corpo estava quente e sua pele macia, os músculos muito fortes. Qualquer problema era pequeno, se ele me dissesse que me amava e que não queria terminar comigo.

_Agora dá um pulo dessa cama, vamos escovar os dentes e tomar café juntos. Vamos?

Ele fez que sim e foi para o banheiro. Levantei-me e aproveitei que tinha saído para encaminhar o e-mail ainda aberto para o meu endereço. Aquilo não ficaria barato.

Segunda-feira, a primeira coisa que fiz foi relê-lo. Puxei um bloco de notas e escolhi uma caneta no porta-lápis.

Olhei para as fotos e esperei descobrir alguma pista nelas. Todas foram tiradas pela manhã. Então, a pessoa trabalhava no turno da tarde. Anotei isso. As imagens tinham uma boa qualidade e eram bem tiradas. Provavelmente, essa pessoa tinha habilidade com fotografias. Mas, aquela não era uma grande pista já que, qualquer um, com uma boa câmera digital consegue um resultado satisfatório.

O texto do e-mail estava bem escrito. Não era alguém que costumasse a escrever em chats, ou msn, não tinha os vícios de abreviação. Provavelmente, não era jovem.

Larguei o lápis e peguei o telefone. Chega de suposições incertas. Liguei para o meu tio e pedi que abrisse o e-mail que acabava de encaminhar-lhe.

_E seu namorado sobreviveu a isso? _ foi o primeiro comentário do meu tio.

_Com a minha ajuda... _ suspirei. _ Você sabe quem é?

_Eu não gosto de julgar e ser injusto...

_Paulo, você conhece seus funcionários melhor do que eu. Sabe de algum que possa estar querendo me prejudicar, que tenha algum motivo?

_... _ ele emudeceu. _ É melhor deixar isso para lá. _ quis desconversar.

_Quem é? _ perguntei, cortando-o. Ficava claro que sabia.

_Não quero que a prejudique.

_Então, é uma mulher? Era o que eu suspeitava. Paulo, você tinha algum relacionamento com uma funcionária que esperava com isso chegar onde estou e ficou frustrada com o rumo que deu aos negócios, colocando-me neste posto?

_Você aprendeu a ser tão direta comigo? _ riu.

_Essa não é a resposta que eu estou esperando.

_Tive sim... Foi uma coisa rápida com a Kelly.

_Kelly? Kelly... Ah! Animadora de festa?

_É.

_E essa cena que ela descreve da sala foi real?

_... _ ouvi apenas a sua respiração. _ Foi.

_Tudo bem, era só isso que eu precisava saber.

_O que vai fazer? Não quero que a prejudique, ela precisa desse emprego.

_Não se preocupe, o senhor também me deu algumas lições de ética. Eu anotei no caderninho.

Desliguei e mordi a tampa da caneta. Olhei para a caderneta de lições e puxei-a para mim. Havia frases soltas escritas ao longo dos meses que trabalhei de perto com meu tio:

_ “Você não estará sempre rodeada de amigos, mas os inimigos não devem ser em maior número”; “Há uma inveja boa e uma inveja má. A inveja má é quando a pessoa quer ter o que você tem e não quer que você tenha”; “Seja dura nas suas decisões, firme, mas nunca cometa injustiças”; “Negócios são negócios, amizades à parte”; “O orkut é um álbum de figurinhas”.

O orkut. Agora eu entendi por onde a pessoa tinha descoberto coisas sobre mim. Tomei a decisão, naquele momento, de que não mais permitiria que alguém entrasse na minha vida pessoal para destruí-la. Agora, o meu relacionamento seria estritamente entre mim e Caio. Loguei no meu perfil e apaguei todos os dados referentes a nós e limpei meu álbum. Estabeleci uma meta de que a minha vida privada era apenas assunto meu e de mais ninguém.

Lembrei do meu blog. Fazia tempo que não postava lá, tinha esquecido por completo. Ao menos nele eu era só a Bela, perdida na vastidão de milhares de blogs, não tinha com o que me preocupar. Abri um arquivo de Word para atualizá-lo.

_Dona Isabela? Visita para a senhora. _ ouvi o meu rádio tocar, era o porteiro.

_Nossa! Agora eu tenho que ser anunciada? _ Débi fez bico assim que eu abri a porta. Entrou na sala e olhou tudo ao redor. _ Você está chique, hen, garota? _ me deu um tapinha no ombro.

_Obrigada. _ sorri e sentei-me novamente.

_Quer alguma coisa? Posso pedir.

_Quero, tem aqueles brigadeiros de festa?

_Posso ver..._ peguei no telefone.

_Estou brincando. _ ela sentou-se à minha frente. _ Eu estou fazendo uma dieta porque... _ ela parou de falar e começou a procurar uma coisa em sua bolsa. _ Isso é para você.

Peguei o envelope branco e o abri. Era o convite de casamento de Ribeiro e Débi:

_Você quer ser minha madrinha? _ perguntou.

_Eu? _ fui pega de surpresa pela notícia.

_Claro, e o Ribeiro vai chamar o Caio para padrinho.

_Lógico, vai ser maravilhoso. Não posso acreditar. _estava sem palavras.

_Nem eu! Esse é só o convite, eu tenho muitas coisas para organizar. Por isso, estamos fazendo com muita antecedência. Todo mundo diz que o tempo voa e quero que tudo saia perfeito. Você vai me ajudar, né? Já que agora está expert no assunto.

_Vou sim. Pode deixar... _ levantei-me da mesa e dei a volta para abraçá-la. _ Eu quero que você seja muito feliz.

_Deus te ouça. E as novidades? Agora eu tenho que agendar uma audiência para falar contigo, é? _ brincou.

_Tanta coisa... _ suspirei e falei-lhe sobre o e-mail.

_Iiiih, vai se acostumando com isso. Afinal, você ocupa um cargo de poder. E o que vai fazer?

_Não sei... _ falei vagamente e balancei a cabeça para os lados.

***

Levei o que era confiado a mim para o chá de bebê do neto da Gracinda, a nossa mais antiga cozinheira. Ela pegou o embrulho como se recebesse um pote de ouro e agradeceu-me com um abraço apertado e cheirando a alho.

_É uma pena que eu não possa ir, mas aqui está minha contribuição. _ disse-lhe.

_Obrigada, minha filha. Você é maravilhosa. Quem não gostar de você é porque não te conhece... _ comentou.

Se ela soubesse que de fato alguns tinham motivos mesquinhos para quererem me destruir.

_Ronaldo, vem aqui! _ ouvimos um grito e depois a porta da cozinha se abriu. Um garoto entrou correndo e deu a volta na mesa, se escondeu.

Kelly entrou procurando o filho e parou de gritar envergonhada, quando deu por minha presença.

_Desculpe, dona Isabela, eu precisei trazê-lo porque a escola não teve aula hoje e eu não tive com quem deixá-lo...

_Tudo bem. _ respondi, fazendo pouco caso.

Ela o puxou pelo braço e o levou para fora, ralhando baixinho com o filho.

_Essa aí é batalhadora, cria esse garoto sozinha. _ comentou Gracinda.

Pensei sobre as conseqüências de mandá-la embora sem uma justa e concreta causa. Enterrei aquela idéia e voltei ao trabalho.

Eu precisava aprender a trabalhar rodeada pelos cães.


Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

7 comentários:

Lucy disse...

*sem comentários* =O

=O =O =O =O =O =O =O (tudo isso elevado ao infinito)

Esse foi, DE LONGE, o MELHOR CAPÍTULO DE TODOS!!! Quero dizer, parece que, daqui pra frente, os capítulos vão ficando mais emocionantes que os anteriores, e as emoções sendo atiçadas a cada dupla de capítulos postados em que inica a emoção, finaliza no próximo, já iniciando imediatamente novo caminho rumo a mais um clímax emocionante!!!

Eli, você está à mil!!! Estou sentindo a mesmas emoções arrebatadores que senti no CCUC (cada casa, um caso)!!!

Muito SHOW (não de bola, e sim de letra!!!)

Eli, amo amo amo vc!!! \o/

Tita disse...

Concordo com o que a Lucy disse! A cada capítulo fica mais emocionante! Ahh e esse foi mto fofo, mto sábio, mto tudo! =)
Adorandooo!
BeijoO!

Paula disse...

ihhh agora vou colocar duvida na sala...era que o filho da kelly é do Paulo??
rsrs

Li disse...

Mente mirabolante dos meus leitores, eu faço vcs assim ou vcs me fazem assim?!

hahaha Só sei que amo muito tudo isso!!!!

...... @@ ......... Vim aqui para

....@(';')@........deixar um Oiii

.0==/--\==0.....

....../___\.......... Bjinhuxx!!!

......_| |_...........

mellzinhaaa disse...

li o capitulo de ontem e hj juntos!
chorei horrores no de ontem, quando li a parte da surpresa q o caio fez!
ele eh mto fofo, neh?
concordo com as gurias... cada capitulo fica mais e mais emocionante \o/ \o/

(naum queremos o fim do livro liiiiiii)

aninha disse...

não é fácil ter que se deparar de falsos conhecidos!! odeio gente falsa!!! passei poucas e boas com esse tipinho de gente!!!!

Li disse...

:) Lindas, não se preocupem, eu vou terminar o livro da Bela, mas imediatamente começarei outro com o mesmo tema "Amor militar". Se gostaram desse acho que vão gostar do outro, que já estou roterizando.
Um beijo grande!
oooO

(....).... Oooo....

.\..(.....(.....)...

..\_)..... )../....

.......... (_/.....

Tenho que correr!!! Tenho que fazer minha mono!!! Ai ai