23 de ago de 2007

Cap 80: Tensão pré-formatura

As apostilas caíram umas sobre as outras formando uma pilha na frente do meu tio Paulo. Ele levantou os olhos para mim, largou a caneta e ficou ereto na cadeira para estar em uma posição que pudesse me analisar melhor:

_Leu tudo já?

_Ler... eu li.

_Então, volta lá e lê de novo. _ abaixou a cabeça e voltou sua atenção para o bloco de boletos bancários que estava calculando.

_Não! Eu li sim. _ tentei ser mais enfática.

_Se você não tem certeza do que faz...

_Eu já posso passar para “outra fase”?

_Essa é uma pergunta ou uma resposta?

_... é um pedido._ disse-lhe.

_Tudo bem. _ ele abriu uma pequena gaveta à sua direita e tirou uma caderneta de capa marrom. _ Isso é para você. _ escolheu também uma caneta em seu porta-lápis e me ofereceu. _ Anote tudo que eu lhe falar e achar importante.

_Certo. _ peguei-os.

Tio Paulo levantou-se e eu o segui até o depósito do salão de festas que ficava perto da cozinha.

_Aqui eu não gosto de terceirizar tudo. A comida, por exemplo, eu prefiro que seja feita aqui, aos meus olhos. Algumas coisas, claro, são encomendadas. Mas, eu tenho a minha própria equipe. Isso evita que algum sanduíche de atum com maionese ridículo coloque por água abaixo a minha reputação. _ abriu a porta da cozinha e todos ali olharam para mim. O cheiro de comida, a fumaça, os fogões e frízeres industrializados me deixavam claro que nada ali era caseiro, mas estritamente profissional.

Os empregados tinham um olhar de submissão para mim. Foi naquele olhar que percebi que meu tio não me queria como um deles. Ele estava me preparando para algo maior que eu não sabia o quê ainda. Afinal, ele não teve o tempo e cuidado com cada um ali que teve comigo.

_Eu quero que você vá com o Josué... _ apontou para um homem negro barrigudo, de sorriso muito simpático. _ comprar algumas coisas que possam estar faltando. Vou assinar um cheque para levar e espero que gaste o menos possível.

Quanto seria o menos possível para ele? Já estava até vendo que aquele era mais um de seus desafios.

_Depois você vai chegar e conferir todas as mercadorias que serão entregues. Eu compro diretamente dos fornecedores fardos fechados de papel, arroz, produtos de limpeza, enfim, quase tudo. Sai mais barato. Isso tem que começar após uma hora.

Uma hora?! Não daria tempo!

_Você já leu os jornais de hoje? Pois, então, na minha mesa tem três jornais. Leia todos, se você não sabe o que acontece no mundo, pára no tempo.

_Entendi. _ anotei no caderninho.

_Isso terminado, se prepare, hoje você vai servir as mesas junto com a equipe na festa de quinze anos que será realizada.

Eu, servir mesa? Eu sou tão estabanada, nunca vou conseguir equilibrar aqueles copos em cima das bandejas.

_Entendi. _ anotei mais isso.

Peguei os jornais e fui lendo no carro, enquanto Josué dirigia. Fizemos as compras, voltamos em alta velocidade para eu não me atrasar e chegar depois das entregas. Vem aí uma parte difícil.

Quando o caminhão começou a descarregar, senti um frio na barriga. As notas possuíam dezenas de itens. Eu não tinha idéia do que estava em cada caixa. Respirei fundo com as mãos trêmulas. Mas, finalmente ,tudo se saiu bem e eles foram embora. Pelo menos eu achava que tinha feito tudo certo, até o tio Paulo chegar:

_Essa caixa está molhada. _ bateu com uma faca no papelão. _ Já sei até o que aconteceu... _ rasgou a tampa e vimos que todos os potes de estrato de tomate estavam grudados na tampa e tinham saído do vácuo.

Meu coração disparou e eu fiquei sem saber o que dizer:

_Desculpe, eu sou muita burra, devia ter imaginado que... Droga!

_E os cloros? Conferiu o número das garrafas?

_Sim, sim. Tinha aí 16 e eles entregaram 80. _ conferi no meu caderno.

Mesmo assim Tio Paulo recontou tudo apontando com o dedo indicador.

_Onde estão as 16?

_Ora... Eu coloquei aqui do lado... _ olhei para as garrafas e mais uma vez senti meu sangue esquentar.

_Perdemos 16 garrafas pelo visto, o entregador pegou as nossas e misturou com essas para fazer as 80.

_Não pode ser! Como eu não vi isso antes? _ senti que ia chorar de desespero.

_Isabela... tudo será descontado do seu salário para você não esquecer e aprender. Venha comigo.

Segui-o, já imaginando o pior.

_Tio, eu sei que não sou tão boa assim, que tenho que aprender, eu tenho dificuldades e...

_Isabela, Isabela! _ falou bem alto, sobrepondo a minha voz, quando chegamos em sua sala.

Calei-me.

_Sente-se.

_Desculpe...

_Isabela, sabe qual é o pior perigo do que fez? Não são as latas de tomate, isso o lucro da empresa cobre. O pior é a sua personalidade muito fraca porque é ela que vai fazer os erros se repetirem. Você é muito ingênua, acredita no sorriso e no bom humor de um entregador.

_É, eu sou sem malícia.

_Está vendo? “Eu sou sem malícia”, “Eu tenho dificuldades”, “Eu sou...” _ imitou a minha voz. _ Você só sabe repetir coisas ruins sobre si mesma com um ar de pena. Eu não tenho que ter pena de você, o mundo não tem que ter pena de você. Se não parar de se sentir a pobrezinha, coitadinha, você não vai servir para nada nessa vida! Toda vez que tentar bancar a inferior, faça soar um alarme daqueles de navio muito alto dentro de si!

Fiquei ali, apenas ouvindo e respirando. Eram tantas coisas a aprender que meu cérebro ficava cansado.

_Desconfie das pessoas, mas não deixa que elas percebam. Seja altiva, brigue, bata de frente, se imponha, saia dessa carapuça de cordeirinho. Vaquinha de presépio não é o personagem principal da história! As pessoas só fazem isso que fizeram com você porque você mesma se sente uma incompetente, burra e lerda. Você é isso?

_Não. _ respondi o que ele queria ouvir, mas me sentia exatamente daquele jeito, talvez tio Paulo estivesse mesmo certo, a minha auto-estima era muito baixa e as pessoas se aproveitavam disso.

_É assim que todo trabalho deve começar. O aprendiz tem que saber o que é cada parte do processo. Mas não, as pessoas apertam um parafuso e não sabem para quê aquele parafuso vai servir no produto final. Aposto que vocês, como estagiários, nunca vão fazer uma campanha inteira, são postos para atender telefone, ler e-mails, fazer secretariado. E ainda pagam uma miséria por isso. Esse país é uma vergonha! É uma escravidão de cérebros! E os outros países acolhem vocês, bacharelados, de braços abertos, afinal, uma mão de obra de nível superior de graça, que não tiveram que investir em nada! _ tio Paulo estava revoltado.

O mais impressionante era sua visão global de realidade. Mais do que tinha meus pais e muitas pessoas que eu conhecia. Quem sabe ganhará isso nos seus jornais diários, ou na realidade que vivia. O fato é que eu me sentia em um curso de aprendizagem acelerada com um enriquecimento sem igual.

_ Isabela, não se permita ser explorada e não aceite miséria salarial. Não entre no sistema! Seja empreendedora, cresça, você pode, garota!

Aquele era o primeiro incentivo que ganhava dele.

Pensei na minha realidade de futura esposa de militar, vivendo de transferências. Como poderia colocar em prática aquilo que ele estava me dizendo?

_Agora volte para o trabalho. _ ordenou.

Respirei fundo e retornei.

Não lhe falei sobre meu futuro, mas não escapou-me dizer isso a Caio, no final de semana seguinte em que nos vimos.

_ Eu acho que você tem que fazer um concurso público._ disse ele.

_Vocês militares acham que a única salvação para as mulheres é fazer concurso...

_Bela, amor, você vai ganhar bem e ir para todo lugar comigo. _ interrompeu-me.

_Caio, meu amor, eu estou cansada de estudar. Cansada de me matar de estudar para chegar em um emprego e ganhar uma miséria. Eu já fiz inglês, espanhol, informática... Já fiz trocentos cursos. Estou farta! Como vai ser? Um ano de cursinho, mais dois ou três anos tentando a prova, afinal, passar de primeira não é tão fácil e, depois, mais dois anos para ser chamada? Isso significa que até uns vinte cinco, vinte seis anos, eu vou ser uma "Estudante Profissional", filhinha de papai? Alouuuu? Esse papo não é para pobre, não! Pode dar certo, mas se der errado, eu vou me ferrar ao cubo! Você sabe o que é uma profissional hoje com 26 anos sem estar inserida no mercado? É suicídio!

_Então, o que espera da sua vida, organizar festinha de criança? _ ele disse, me alfinetando. Eu sabia que estava aprendendo lições para vida, e não, sendo animadora de festa infantil, mas era assim que ele enxergava. _ Entra para um cursinho...

_Eu não quero, não estou a fim. _ disse-lhe.

_Então, não sei o que quer...

_O que eu quero é justamente fazer o que estou fazendo.

_Trabalhando com seu tio? _ franziu a testa.

_Isso mesmo.

_Até eu me formar ano que vem e a gente se mudar?

_... _ não respondi nada.

_O clima aqui está quente, hen? Estou sentindo o cheiro da fumaça lá da cozinha. _ minha mãe sentou-se no sofá. _ Bela, Caio está certo. Não foi esse o namorado que escolheu? Então, já sabia que a profissão dele era essa, agora você tem que segui-lo.

Eu não sabia se minha mãe estava sendo irônica, perversa ou as duas coisas.

_Eu não escolhi nada.

_Escolheu sim. _ rebateu ela.

_O meu coração escolheu...

_Dá no mesmo.

Respirei fundo e fui para o meu quarto. Peguei minha bolsa, calcei minha sandália.

_Para onde vai? _ Caio perguntou.

_Para o trabalho, amor, animar festinha de criança, para ter um puto no bolso que pague a pipoca no cinema e as viagens para Resende, para eu não depender do papai e da mamãe, nem do futuro marido.

_Mas, agora?

_É, agora. Desculpe. Se não quiser entender, tudo bem. Só é uma pena porque vai indicar preconceito. Se eu dissesse que fosse dar plantão em um hospital ou fazer uma cobertura jornalística em outro país, ou fosse fazer qualquer coisa “profissionalmente nobre”, você não se importaria. Mas, como é para animar festinha de criança, você acha um absurdo, pois é... _ minha voz saiu ácida como nunca. _ Ainda bem que eu ganho o suficiente. _ bati a porta.

Talvez aquilo fosse o que meu tio ensinara sobre não bancar a coitadinha.

Entrei no elevador e quando a porta se fechou, abaixei-me e fiquei agachada, com as mãos na cabeça. Fechei os olhos e senti aquela sensação de não ter gravidade. Eu começava uma terrível era de crise pré-formatura da AMAN que duraria um ano e meio até chegar ao seu fim. Muita coisa até lá mudaria comigo, com meu relacionamento e, principalmente, com os rumos do meu futuro.

Começava aí a se transformar e firmar minha personalidade.

Autora: Li

*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

5 comentários:

Tita disse...

Carambaaa! Que fase de crescimento essa hein! E não só para a Bela, pro Caio tb! Acho que agora ele vai perceber que ela tb tem seu lado profissional, suas coisas e que não é só ela que vai segui-lo, mas os dois vão ter que se esforçar juntos pra convergirem para o mesmo lugar!
=) To gostando!!
Bjoo

regina disse...

Olá meu anjo estava aqui delumbrando seus trabalhos e como ta lindo seu mundinho, quero que saibas que o Mundo Animal tem a honrra de ter como uma pessoa que respeita os animais.

mellzinhaaa disse...

nossaa...
acho q eu tb to na fase 'crise pré-formatura da AMAN' :/

Lucy disse...

Ai... eu to chocada. [o.O]

Ela tá passando pelo que eu aprendi se chamar "tempestade mental". É assim mesmo, vc fica sem chão, às vezes sem gravidade, mas quando aprende a andar nessa dimensão, tudo se firma e vc já sabe o que quer e pra onde ir. Ou não... pelo menos, fica mais tranquila em saber quais emoções vc sente e como lidar com elas. Uma a uma, vão se resolvendo.

Caramba... eu já passei por aprendizados assim, e ainda passo... é tão difícil... cansa tanto... ai, caramba... vou dar um apoio grande pra Bela...

bjo, meninas!

Li... cuidado com os nossos corações!!!

aninha disse...

palmas para a Bela!!!!! essa garota vai longe... mas dona autora... não vai me separar esses dois heim!!!!!