21 de ago de 2007

Cap 79: Um mestre

Como eu havia dito, eu queria muito fazer a minha vida e entrar na fase adulta significava parar de pedir dinheiro ao meu pai.

Mas o que adiantava sair da sua dependência e entrar em outra, a do meu marido?

Minha sogra estava sendo muito boa comigo, mas não duvidaria (nem acharia que estivesse errada) se pensasse que eu era uma dondoca exploradora do salário do filho militar.

E agora?

Eu tinha que ter uma estratégia. Se conseguisse um estágio só ganharia 400 a 700 reais, isso com muita sorte. Porém, corria o risco de ficar meses mofando, em uma espera que nunca chegava! Não tinha esse tempo a perder.

_Mãe, o tio Paulinho conseguiu terminar a reforma daquela casa que ele comprou? _ perguntei no meio do jantar.

_ Ah! Ele fez um salão de festas lá. _ disse com voz de pouco caso.

Depois do jantar, peguei a caderneta de telefone e liguei para meu tio, que se surpreendeu:

_Bela? Aconteceu alguma coisa? _ perguntou, já esperando o pior.

Tio Paulo era rejeitado pela família da mamãe, pois nunca dera valor aos estudos e trabalho na juventude. Sua vida era jogar bola e sair com os amigos. Porém, uma hora precisou dar um rumo ao seu destino. E era justamente nessa “etapa” em que eu me encontrava.

Acho que os parentes sentem mesmo é inveja do seu sucesso. Porque todos se esforçaram tanto nos estudos e pouco conseguiram financeiramente. Ele, com sua esperteza e inteligência, criou um patrimônio maior que o de toda família junta.

Só que eu não queria lhe pedir favor ou dinheiro emprestado. Apesar de não duvidar que me daria, agora que já tinha uma boa condição de vida. Meu pedido era simples: um emprego. Está aí uma coisa que ele jamais esperava vir de mim. Pelo contrário, ficava tão excluído do convívio da família que só pensava no pior ao receber um telefonema.

_Está tudo bem aqui, tio. Eu queria mesmo conversar com o senhor, mas precisava ser pessoalmente.

_Fale logo, menina, se for algo grave, não tente me poupar. _ pediu.

_Eu já disse que não é nada demais, é uma coisa minha mesmo. Quando tem um tempo livre?

_Eu estou um pouco ocupado, mas... _ pensou por algum momento. _... Vem agora! _ mudou de idéia.

_Agora? _ eu repeti. Ele realmente não acreditava ainda que estava tudo bem.

Fiquei contaminada por sua pressa e encarei aquela minha vontade de mudar o meu futuro como algo que tivesse urgência:

_É... _ levantei-me, olhei para os lados. _ Tudo bem, estou aí, daqui meia hora.

_Te espero.

_Certo. _ desliguei.

Tio Paulinho foi para mim um mestre. É como se a todo momento eu vivesse diante de uma montanha e achasse que o mundo era ela. Ele me pegou pela mão, me levou ao topo da montanha e mostrou lá de cima um mundo muito maior por detrás do rochedo. Anos de faculdade não me traria todo o aprendizado que ele conseguira me passar.

Os seus métodos, porém, não eram os mais fáceis de se levar. Tio Paulinho deixou de existir para mim. Conheci o Senhor Paulo, uma pessoa rigorosa e de olhar clínico. Sua lembrança em minha mente era de um homem descamisado e sempre com um copo de cerveja na mão em todos os álbuns de festas de aniversário da família.

Aquele que encontrei sentado em seu escritório nos fundos do salão de festas era um homem responsável e dono de si. Vestia roupa social e usava um relógio prateado grande e ostensivo.

A sala era ampla, com piso de granito cinza e paredes repletas de réplicas de quadros de arte. Não imaginava que fosse encontrar um lugar tão organizado e fino.

_Pode se sentar. _ ele indicou com a mão estendida para a cadeira estofada ao meu lado.

_Obrigada por me receber. _ eu falei, em um tom de quem está nervosa para uma entrevista de emprego, quando aquele era o meu tio.

_O que vocês estão precisando de mim? _ recostou-se no encosto de sua cadeira alta e preta.

_Nada...

_Bela, eu sei que a minha família só se aproxima de mim, quando o bolso aperta. _ ele disse com toda clareza e eu emudeci. _ Mas... _ apontou para mim e semicerrou os olhos, como quem estivesse esperando o pensamento se completar antes de falar. _... Saiba que eu já estava esperando por você.

_Estava? _ franzi a testa.

_Não sabia que era você, mas estava. Eu tinha feito um pedido a Deus. Só que deixa para lá... _ fez pouco caso. _ Não é hora de falarmos disso.

Eu fiquei muda, olhando-o. Como lhe diria que de fato eu lhe procurara justamente porque eu estava sem grana?

_ Eu vou ser sincera com o senhor. Escolhi fazer publicidade. Estudei muito e no fim só consegui um estágio que não me remunerava bem... _ tentei ser muito franca. _... Sei que existem outros melhores, que pagam mais, só que eu não queria ficar esperando por isso. Eu tenho que tocar minha vida.

_ Por que tanta urgência? Já está pensando em se casar com seu militar?

Eu fiquei com a boca entreaberta, sem fala. Como ele sabia?

Meu tio riu, balançou a cabeça para os lados, encostou os polegares na testa e fez força com o tronco para que seu peso trouxesse a cadeira mais para frente, de forma que ficássemos mais perto, apesar da mesa de vidro que nos separava.

_ Vi no seu orkut.

Hei! Ele ficou fuxicando a minha vida?!

_Não precisa fazer essa cara de reprovação. Vocês adolescentes são engraçados, usam uma coisa para todo mundo ver, mas não querem que ninguém veja e, pior, acreditam que ninguém vê!

_Por que a curiosidade?

_Simples, Isabela, eu quero saber com quem eu estou lidando. E lá diz muito sobre você. Diz que não gosta de acordar cedo, que odeia lavar o banheiro, que... _ parou de falar e ficou me olhando como quem estuda um ratinho. _ percebe como você deixa as pessoas mergulharem na sua vida? Se soubessem a grande besteira que está fazendo, o perigo que é abrir as portas da sua vida para qualquer um olhar... Deixa eu te dizer uma coisa: saiu no jornal essa semana uma reportagem que diz que uma em cada seis empresas olham o orkut dos candidatos a vagas de emprego.

_Já ouvi falar disso...

_Não me refiro apenas a questões de trabalho. Isabela, não pense que todas as pessoas te amam. Sabe aquela foto sua com seu namorado fardado? Em alguns segundos eu poderia te cortar dela e colocar uma mulher nua abraçada a ele e espalhar por aí. Por que eu faria isso? Não sei, para te destruir. Não importa a veracidade da imagem se o estrago for grande até que se prove o contrário...

_Eu sei. _ murmurei, quase sem fala. _ Mas eu não quero me privar de colocar as minhas fotos por causa dos outros, eu não vou viver uma paranóia da conspiração.

_É o que todos dizem até serem vítimas. Os adolescentes acham legal aquele álbum de figurinhas de amigos, com a vida ali exposta através das comunidades que falam sobre sua conduta e seu livrinho de recados indicando o que vai fazer no fim de semana.

_Eu não sou mais uma adolescente.

_É sim, Isabela, até que você mesma prove o contrário. A idade está nas atitudes e não na identidade ou certidão de nascimento.

Por que ele estava me provocando aquela sessão de angústia? Aquilo era um teste? Socorro, eu queria ir embora antes dele me massacrar.

_O que queria mesmo? _entrelaçou os dedos das mãos sobre a mesa e me encarou.

_Eu estava dizendo que é difícil conseguir juntar dinheiro com a grana de estágio e eu queria trabalhar.

_E onde eu entro nessa história?

Não era óbvio? Ele queria que eu soletrasse ou me ajoelhasse e tirasse seus sapatos para beijar seus pés?

_...

_Bela, se você não sabe o que você quer, eu tenho hora.

_Eu quero um emprego. _ respondi antes que ele terminasse sua frase.

_Quer mesmo?

_Quero.

_O quanto você quer?

Que pergunta ridícula era aquela? Ele estava me deixando confusa, por um segundo me senti como em um treinamento militar. Com o tempo e a convivência eu aprenderia que era quase isso mesmo.

_Muito.

_Então, vamos começar agora? _ ele se levantou e foi até um armário de madeira atrás de mim.

Eu continuei olhando para frente, mirando sua cadeira vazia. Como assim, agora? Já? Now?

_Você precisará estudar um pouco.

Estudar? Franzi a testa. Aquilo tudo era uma pegadinha?
Desde quando eu tinha que estudar para trabalhar em um salão de festas?

_Eu vou fazer exatamente o quê? _ suspendi as sobrancelhas quando escutei o estalido do vidro com cada apostila grossa que ele fez cair uma sobre a outra na mesa à minha frente.

_Você veio aqui procurando emprego, certo? Você quer ganhar dinheiro, não é?

_É. _ concordei, sendo tão objetiva quanto ele.

_Então, vai fazer tudo. _ resumiu, voltando ao seu lugar. _ Começando por essas apostilas. Estude tudo, leia, consuma, decore. Quando acabar, me devolva.

_Mas, ler aqui, agora?

_Não aqui. _ ele abriu umas gavetas e pareceu não encontrar o que queria. Apertou um botão no telefone e falou no viva voz. _ Cleide, traga para mim uma bolsa grande e resistente. _ tirou o dedo do botão e voltou a me encarar. _ Você vai começar a trabalhar nesse pequeno chá que começará às quatro. Vem comigo.

_Eu trago as apostilas? _ perguntei.

_Não, deixe aí. Falarei para a Cleide colocar em uma bolsa. Se bem que traz aquela verde ali. _apontou para a mais fina. _Vai ajudar a te entreter.

_Tudo bem. _ peguei-a, coloquei debaixo do braço e o segui rapidamente para não perdê-lo de vista.

_Este aqui é o salão principal. _ mostrou. _ Ali em cima há mais três andares para outras festas separadas. Aquela porta é a cozinha.

Fiz que sim com a cabeça para mostrar que estava atenta a suas explicações.

_Esses aqui são para festa dos pobres, estou construindo um grande a algumas ruas depois daqui para verdadeiras festas suntuosas, esse é o meu grande projeto.

_Hum... _ levantei as sobrancelhas. _ Minha mãe falou.

_E olha que nem precisou eu colocar no orkut, imagina se eu tivesse um. _ alfinetou. _ Como pode ver, está tudo pronto para o chá que faremos daqui a pouco. _ falou e eu percebi a correria dos garçons e empregados para deixar tudo impecável. _ E ali é o banheiro.

_Tá, entendi tudo.

_Então, ali é o banheiro, onde vai ficar.

_Ãnh?

_Venha, a apostila vai ser útil. _ ele caminhou em direção a porta e eu fiquei parada, congelada.

Meu tio abriu a porta e fez sinal para eu entrar primeiro. Era um teste, só podia ser um teste de resistência.

_Dona Regina, hoje a senhora pode ajudar na limpeza geral, essa moça ficará em seu lugar. _ ele falou ainda da soleira da porta e a mulher sentada em uma cadeira levantou-se e deu seu acento para mim. _ Bela, qualquer problema aí, você resolve, acha que pode fazer isso?

Eu não tinha resposta para aquela piada! Que tipo de problema eu resolveria? Uma privada entupida, uma torneira que não abre? Uma lixeira cheia?

_É... Como vou me referir a você?

_Senhor Paulo.

_Senhor Paulo? Tudo bem, Senhor Paulo, pode me dizer exatamente qual será o meu trabalho? Porque eu...

_Isabela vem aqui. _ ele me chamou para que eu viesse até do lado de fora da porta.

Fiquei frente a frente com ele e cruzei os braços.

_Você ia dizer que não fez faculdade para isso?

_Que bom que já sabe o que ia dizer. _ explodi.

_Você quer dinheiro não quer? Quer?

_Quero... _ senti lágrimas nos olhos, ele estava me desestruturando psicologicamente. Virei o rosto para os lados.

_Então, vai ter de colocar a vida mais em prática. Porque hoje para ganhar dinheiro... _ bateu no bolso com força. _ É preciso se despir de todo e qualquer preconceito, nojo, vergonha, pudor. Se quer realmente aprender, tem que começar do zero. E olhe para mim quando eu falo, você não disse que já é uma mulher?

_Eu sou. _ olhei-o fixamente. _ Mas, o que se pode aprender no banheiro?

_Nós não alugamos um espaço. Nós oferecemos uma experiência de lazer. Isso significa que as pessoas que vêm aqui devem querer voltar. Está vendo aquele armário? Ali dentro tem agulhas, linhas de todas as cores, absorventes, fraudas de todos os tamanhos, tesoura. Uma mulher pode estar metida em qualquer apuros que corre para o banheiro, nem que seja para se olhar no espelho. E, lá, deve ter alguém para mostrar-lhe que tudo está sob controle porque ela está no meu salão. Então, você vai se despir dessa carapuça de universitária patricinha pseudo-intelectual e passar por esse estágio.

Eu não consegui pronunciar nada. Emudeci.

Ele pegou um rádio que pedira para um dos garçons buscar em sua sala e me deu. Ensinou-me onde ligar e desligar para falar.

_Se alguém estiver bêbado, passando mal, prestes a sair do banheiro para arrumar uma briga, ou algo assim, entre em contato. Entendeu?

Segurei o aparelho, com a mão dele ainda segurando a minha.

_Você acha que pode fazer isso?

Eu viera ali pensando que qualquer um poderia realizar um trabalho de animadora de festinha ou de garçonete e ele estava me fazendo duvidar se dava conta do recado?

_Acho que sim.

_Isabela... _ colocou a mão no meu ombro. _ Os que acham não vencem nunca, eles só acham.

_Eu posso. _ falei alto.

_Então, vai e aproveite o tempo para ler a apostila toda. Na vida não temos tempo, tempo é só uma coisa abstrata. A quantidade de coisas que conseguimos fazer depende só de nosso esforço de coordená-las para que sejam em maior número possível.

Sentei-me na cadeira e fiquei olhando os azulejos brancos. Respirei fundo. Já era hora de falar com Caio. Liguei para ele e contei-lhe do emprego.

_Em um salão de festas? _ ele não gostou muito. _ Não é a sua área.

Eu pensei em lhe dizer que para estar com ele eu tinha que conseguir dinheiro e não podia ficar dando uma de... Patricinha Pseudo-intelecutal. Mas brigar por celular não era a hora. Imagina se soubesse que eu falava de um banheiro?!

_Eu estou feliz. _ disse, não muito certa disso.

Folheei algumas páginas da apostila, enquanto falava com Caio e, de repente, me surpreendi.

_Bela, tenho que desligar, tenho provas, campos...

_Tudo bem...

_Não vai reclamar? _ ele riu.

_Não. Quero dizer, que pena, mas eu te amo.

Desligamos e eu li melhor o que estava diante de mim.

_Apostila de gerenciamento de eventos, autor Paulo Surs, módulo situações críticas. _ arregalei os olhos. _ Ele mesmo escreveu?

Comecei a devorar cada página. Ali era um delicioso tratado de todos os momentos críticos que passara em festas anteriores. Eu tinha em mãos um arquivo pessoal de relatórios recheados de críticas, soluções dadas aos problemas e observações importantes.

Entendi porquê ele escolhera aquela apostila e aquele lugar para lê-la. Tio Paulo começava a me preparar para crescer.

E acho que é isso que quero: crescer.

Acho não, eu quero!

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

4 comentários:

Li disse...

Puxa, acho que escrevi muito nesse,rs.
O que um dia de folga não faz?!
Meninas, beijocas no coração de todas!

Tita disse...

Nooossa! Massa massa massa! Eu fui conferir se era mesmo o último capítulo que eu não tinha lido e fui abaixando a página e não acabava o capítulo!! auhauha mas termino tão rápido depois!
Curti pra caramba a atitude da Bela. O negócio é correr atrás mesmo. Boa sorte pra ela agoraa!!
E a Débi, que que anda aprontando?
Beijooo

aninha disse...

nossa... esse tio dela é surpreendente!!!!!! bjus amiga!!! meninas, bju enorme no core de vcs!!!!!

Lucy disse...

uau! e pensar que era o tio beberrão da família... caraca, gostei pra caramba da lição de moral. Ah, Li... vc conseguiu me animar com a lição sobre tempo.

É só se organizar que tudo tem seu tempo mesmo!!! \o/ Obrigadíssima, minha querida! (risos)

E tipo, a Débi anda meio sumida... que será q houve???

Bjos a todas!!!