8 de ago de 2007

Cap 66: O beijo do traidor

Cheguei no estágio após o almoço e ao ver Deise atrás de mim, chegando também, cumprimentei-a com um riso.

Ela foi até a sua mesa e de lá falou em voz alta:

_Bom, gente, estou de partida. Agora eu sei quem trabalhou para isso. Quem foi lá em cima falar mal de mim. Eu não sou burra. Eu sei que você, Márcio e, você, Thaís, contribuíram para isso. Mas eu vou para um lugar melhor...

Eu estava atônita. Não! Minha “mãezinha” não podia me deixar. Não podia ser. Levantei-me e não consegui dizer nada, tentei pelo menos não chorar, para que ela não fizesse o mesmo e desse esse gostinho a eles.

Thaís levantou-se também e ajudou-a a colocar as suas coisas em uma caixa.

_Você está muito enganada, a culpa é do diretor, ele fez isso com todo mundo, ninguém consegue ficar aqui por muito tempo mesmo...

Eu acompanhei Deise até seu carro, junto com o Vinícius. Thaís veio atrás e depois de todos abraçarmos Deise ela fez o mesmo e beijou sua face.

Vinícius e eu nos olhamos, arrasados de tristeza.

Era o beijo do traidor. Como as pessoas não se enxergam?

Voltei para a sala e senti-me sozinha. Eu seria a comida na jaula dos leões. Vinícius e eu nos falamos no msn de noite, durante aquela semana, já que no trabalho estava um clima ruim demais para tocar naquele assunto. Ele me confessara que ficara tão triste, que não conseguia dormir, nem comer.

Eu comungava da sua dor. Aqueles monstros haviam ceifado nossa amiga, sem nem ao menos ter dado a chance de ela aprender como se devia fazer, estavam prontos para poder atrapalhar, negar informações, apontar seus erros para o diretor.

Eles pareciam tão felizes, rindo a todo momento. A gangue inteira agora vivia tomando cafezinho em nossa sala para bater papo e diziam bem alto que aquela era a verdadeira felicidade.


O diretor aproveitou, que agora não tínhamos mais uma deficiente com dificuldades motoras para fazer uma obra em cinco salas no terceiro andar para reinstalar nosso departamento ao lado de sua sala. Em questão de dias conseguiu furar portas e janelas entre as salas e fazer uma verdadeira revolução arquitetônica.

Enquanto isso, eu estava empenhada em organizar um evento de uma tarde de autógrafos do lançamento de livros com os pesquisadores da área da saúde. Era muito desonesto saber que o dinheiro rolava para as festinhas deles enquanto minha bolsa auxílio era pífia, 260 reais sem benefício algum. Um Dj para a festa saiu por 1200 para tocar 4 horas, o grupo de chorinho ganhou 800 reais. Isso era só alguns orçamentos que passavam por minha mão e me entristeciam.

Depois, entendi porque Deise teve que ser deslocada para outra unidade. Ali, ela ocupava um cargo de coordenadora do departamento e pelas novas regras haveria bonificação para esses cargos. Isso explica porque não só ela, mas outras pessoas foram transferidas, enxotadas dali, ou empurradas para um cargo abaixo para outra assumir. Era a mão do poder. O diretor estava dando poder aos seus amiguinhos. E quem assumiu o lugar da Deise? Ora, nada mais, nada menos que a Cássia, aquela que não me admitiu na primeira entrevista.

A essas alturas, eu tinha aversão a ela. E quando me chamou em sua sala para avisar que eu agora iria trabalhar para ela e fazer tudo que mandasse, eu senti que meu chão ia ruir. Não falei nada, eu tinha um nó na minha garganta e quis chorar. Meu psicológico estava por demais sensível a tudo.

Acrescentou ainda que não tinha nada a ver com o que acontecera com a Deise, mas que ela era a capacitada para estar naquele posto e que sabia como eu me sentira, porque já havia perdido muitos amigos terceirizados que tiveram que deixar seus cargos para concursados e por isso se despedir deles fora muito duro.

Quase lhe falei que era mais duro ainda eles terem feito aquela recepção destrutiva aquela concursada e não ter dado chance alguma para ela crescer, pelo contrário, fizeram o jogo contra. Mas ali a minha cabeça era a “bola da vez”.

_Você quer continuar estagiando com a gente?

_Quero. Acho que a gente pode continuar e fazer um bom trabalho. _ a minha boca disse aquilo e meu coração sentiu vergonha de mim mesma, me decepcionei com a atitude que estava tendo.

Ela se levantou de sua cadeira e nos beijamos na face. Aquilo me matou, foi o tiro final. Eu estava beijando a mulher que ocupava o lugar da Deise, como se nada tivesse ocorrido? Que pessoa falsa e traidora eu era?

Tentei me acalmar, eu só estava tentando manter o melhor ambiente possível, para não perder o meu estágio.

Será que eu estava sendo ruim por isso?

Aquele sentimento me acompanhou por muito tempo. Eu não agüentava ser tratada como uma burra de carga. Se havia convites de festa para carimbar e envelopar, eles empilhavam em minha mesa. 500, 1000 convites. Se eu estava falando com Cássia, suas estagiárias e amiguinhas pediam sem pudor para eu me retirar, porque elas tinham um assunto importante a tratar. Se por causa das obras não tinha internet, elas ficavam com os hubs que puxam a rede de outra sala e eu tinha que contentar com um computador sem internet, afinal, o trabalho delas era importante e o meu podia esperar.

A nova concursada veio ocupar o lugar de jornalista. Mas ela, como eu, era da área da publicidade. Ah! Então, essa é a pessoa supercapacitada para substituir a Deise? O objetivo único era tirar minha antiga chefe, não importava quem ficasse em seu posto, mas sim que ela saísse. Que horrível, eu estava com vontade de vomitar!

Não consegui dormir durante a noite, me revirei na cama. Muitos pesadelos me assombravam. Agora eu entendia o que Vinícius estava passando. Eu vi as olheiras enormes se formando nos meus olhos.

Eu estava contrariando os meus princípios a cada vez que colocava o pé naquele lugar e lidava com aquelas pessoas.

O último episódio foi um almoço para comemorar o aniversário da Cássia. Contribui como dinheiro do bolo por educação e corri até a sala de Vinícius e pedi para almoçar com ele, falei-lhe que não queria sair com aquelas pessoas para almoçar fora. Pedi que ele chamasse sua esposa e que disséssemos que já havíamos combinado aquilo com muita antecedência. Ele gostou da idéia. Assim fizemos, e isso foi o golpe final para que eles me desprezassem por completo.

Não dava mais. Entrei na sala da minha chefe e disse-lhe que eu iria sair, porque minha bolsa já estava atrasada a um mês e ela não estava fazendo jus a tanta trabalho.

Não esperei que ela dissesse o que falou, depois de eu ter coberto suas viagens, de ter me matado de trabalhar organizando todas as festas e eventos, depois de ter ficado até duas, três horas do meu horário para cumprir suas tarefas sempre de última hora “com urgência” e arriscado minha vida no ponto de ônibus escuro, de frente para o pé de um morro perigosíssimo!

_Tudo bem. Eu vou ao RH pedir para eles calcularem os dias que você não vai vir daqui para o fim do mês, para eles não descontarem.

_Ok. _ não consegui dizer mais nada, eu só queria sair daquele lugar. Ela estava preocupada no desconto da minha bolsa de 260 reais? Com todas as horas extras que fiz para ela?

_Mas já que ainda está aqui, tem alguns trabalhos para você fazer na sua mesa. Pode fazer?

_Posso. _ respondi.

Ela ficou conversando na sala da sua amiga da Cooperação Internacional e depois reuniu a equipe para contar minha saída, mas sem mim... Eu percebi que era o assunto, mas fingi que não era nada.

Já cansada de esperar a boa vontade dela, levantei-me e fui até a sala ao lado. Disse-lhe que estava tudo pronto e que já tinha passado duas horas do meu horário. Era a última vez que ela faria aquele desrespeito comigo.

Ainda ameaçou argumentar para eu ficar mais um pouco, para me explorar só mais uma horinha, mas eu disse que lamentava muito, mas que iria embora.

Pedi muito a Deus na hora do almoço para que ao sair não tivesse que me despedir de ninguém. E fiquei surpresa, quando abri a porta da sala e não havia ali nenhuma alma viva. Que sensação de alívio. Deixei o meu crachá em cima da minha mesa, peguei minha bolsa e a sacola onde tinha colocado os porta-retratos com minha foto e do Caio.

Ao entrar no elevador eu respirei fundo e sorri, com lágrimas nos olhos. Eu estava livre, totalmente livre daquelas pessoas. Aquele gosto era maravilhoso.

Abri a porta principal de vidro e lá estava o início da noite, o vento, o cheiro, o ar... A liberdade! Eu nunca mais voltaria para aquele lugar!

Entrei no ônibus, me sentei, feliz como nunca! Peguei o porta-retrato de Caio e acariciei o vidro. Abracei-o e fechei os olhos. Eu finalmente teria cabeça para de novo voltar a ter uma vida saudável.

Lembrei do que ele me dissera sobre a paz mental. Aquele lugar me tirava a totalmente a paz, eu vivia um inferno na minha cabeça. Agora só existia a paz.

Vinícius ficou por lá sozinho, tive pena, ele precisava daquele salário para sustentar sua família. Mas depois de uns meses recebeu uma proposta para ir para outro estado e estava decidindo. Torcerei por ele.

Deise estava feliz em sua nova unidade e nos falávamos no msn, ficou uma linda amizade entre nós três. As víboras estavam lá, soberanas em seus ninhos, mas bem longe de mim agora.

Às vezes, me pergunto, quando é anunciados novos concursos públicos, qual será a próxima vítima que acabara de passar para cair nas garras deles? Por pior que a pessoa pudesse ser, eu teria muita pena dela. Mas procurei nunca mais tocar nesse assunto, nem falar daquele lugar horrível.

Para alguns eu posso parecer ter sido fraca, mas só eu sei o que passei e acho que fui forte demais. Nenhum dinheiro, nenhum cargo público vale o que estou sentindo agora: uma paz enorme.

Eu fiquei tão melhor que vi isso no reflexo físico do espelho. Dormi uma maravilhosa noite de sono. Minhas olheiras diminuíram, eu estava bem humorada, com um delicioso sentimento de que nunca mais teria que voltar para aquele lugar tenebroso.

Comecei minha preparação para receber Caio, se que iniciava com uma depilação profunda para tirar a aparência de chita, fiz a unha, lavei o cabelo, procurei uma roupa bonitinha e pronto! “Lavou está nova!”, ri comigo mesma.

_Eu estou louco... _ Caio me abraçou por trás, quando eu ainda estava abrindo a geladeira para pegar água para ele. _... Para saber a cor da sua calcinha.

_Que calcinha? _ pisquei o olho para ele e dei um risinho.

_Você não está...?

_Eu não uso.

_Você não usa?

Eu ri, estava me divertindo com sua cara de dúvida.

_Vou ver se sua mãe precisa de alguma coisa lá no quarto._ ameacei sair da cozinha.

_Eu preciso de uma coisa...

_Não! Caio, minha mãe está chegando do trabalho e você...

_E eu prometo que não vou fazer nenhum mal a filhinha dela... _ me puxou para o quartinho onde ficavam as roupas para passar.

_Não, está louco? Eu...

Ele trancou a porta. E descobriu o segredo da calcinha. Que delícia a vida em paz e liberdade.


Autora: Li



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5 comentários:

Lucy disse...

*suspiro* nada melhor do que a liberdade de escolher a paz e a tranquilidade... depender do sistema é pior do que a morte. É morte em vida. Muito pior...

Agora sim, a Bela restituirá sua paz mental e sofrerá menos... tendo que se apoiar menos no Caio que, pelo visto, ainda não aprendeu que a parte mais importante do corpo são os ombros, que dão suporte em todos os momentos.

Li, amo vc... um bjo muito carinhoso.

Li disse...

Miga, querida, também te amooooo!
Se cuida!

Meninas, saudade de vocês!!!
Beijocas!!!

Quel disse...

Opa, tava preocupada com a Bela ja...paz mental eh uma das coisas mais importantes msmo!!!
E que safado esse Caio!hauahuahauha ;)
Beijoss Li

aninha disse...

uauauauauuuuuuu!!!!! esse Caio é danadinho!!!!!!!rsrsrs!!!! mas foi ótimo pra Bela ter se livrado desse pesadelo!!!! também já senti essa sensação de alivio!!!!!!!

mell disse...

\o/ \o/ \o/

adoro esse caioo!
heeheh :DD