7 de ago de 2007

Cap 65: O dia D

Naquela tarde aconteceu um fato que marcaria os rumos da nossa equipe. Deise publicara um texto de um autor com tendências mais capitalistas no site da instituição sem antes consultar o diretor. Liberdade é algo que nunca existiu ali. Tínhamos, sim, muita censura. Organizamos diversos eventos, festas, coquetéis, palestras. Em todas elas, o diretor era exaltado e passava a imagem do homem mais justo e correto. Falava aos quatro ventos de suas convicções de esquerda. Mas, esquecia de colocar isso em prática com seus subordinados, sempre pisados por ele, sem dó.

Quando ele entrou na sala, só havia Deise e eu. Os outros, inexplicavelmente, tinham saído. Eu já imaginei por que, provavelmente, para almoçar e tomar muito chop comemorando a grande bronca que Deise tomaria. Daria um dedinho como não fora Márcio quem enchera a cabeça do diretor.

_Eu canso de dizer, eu sou comunista. Eu não nego minhas convicções. Aqui tem que se publicar o que eu quero e também as fotos daqueles que são aliados a mim. Isso explica por que não deixei aquele Informe feito por vocês saírem.

Eu fiquei vidrada olhando para a tela do computador, sem me mexer. De repente, me dei conta que estava lendo um jornal contrário as ideologias dele. Minimizei a tela antes que ele me degolasse de vez.

_Eu sou o Poder. E você usou do poder. Você passou por cima do poder. É por isso que eu não apoiei quando quiseram trazer você para cá. Eu preciso de uma jornalista que entenda do que faça, mas mandaram você! Eu sou contra essa cota de vagas, porque é isso que acontece!

A Deise enxugou os olhos, sem conter as lágrimas.

_Assim não dá! _ ele levantou-se da cadeira onde havia sentado. _Você não é uma profissional! Você está levando para o lado pessoal, assim eu não tenho como conversar com você. Estou errado? _ perguntou para mim.

Eu pensei que ele estava me vendo como invisível.

_Bom... Acho que ela tem direito de expressar o que sente... _ minha voz saiu trêmula e eu também estava com um nó na minha garganta.

_Ah! Essa não! _ explodiu, foi até a porta e depois voltou, pensei que ele ia avançar em cima dela. _ E para não dizer que eu não sou bom, eu fiz tudo para esse lugar se adaptar a você! Fiz uma vaga no estacionamento para deficiente físico, fiz aquela rampa para cadeirante, eu gastei uma fortuna.

_Eu nunca disse que usava cadeira de rodas...

_Está tudo errado, vocês jornalistas não sabem de nada! Bom jornalista mesmo é... _ ele começou a citar nomes de pessoas que, para ele, eram os papas da comunicação e que trabalhavam nas outras unidades. _Jornalista quando se forma é um alienado, não sabe nada, não lê nada! _ ele começou a rebaixá-la e pisá-la.

Eu tive muita pena. Uma mulher que fora diretora de colégio a tanto tempo, uma pessoa tão culta e inteligente, sendo esmagada por alguém que mal tinha um curso universitário, que nem pós-graduação tinha!

Ele ficou cerca de meia hora falando o quanto ela era ruim e eu estava me segurando com todas as forças para não chorar. Eu estava presa a uma cadeira, em silêncio, sendo obrigada a ouvir uma pessoa perversa torturando e inquirindo uma grande amiga. Eu tinha vontade de correr, mas não podia, não podia deixá-la ali sozinha com ele.

Ao sair, furioso, olhei-a chorando e fui até ela dar-lhe um silencioso abraço. Pensei no sonho que muitas pessoas têm em fazer um concurso público, só pensando na estabilidade empregatícia. Mas sabem que podem parar em um lugar como este. Onde as pessoas se mancham e se sujam com a corrupção e a política. E o pior, as que são humilhadas devem engolir tudo, quietinhas, pois não vão largar um emprego que levaram tanto tempo para conseguir.

Aquele lugar era um inferno. Minha mãe sempre me proibiu de usar esta palavra, pelo peso que achava que tinha. Mas, era com amargor que eu repetia intimamente: “Deus, eu não agüento mais esse inferno”.

Fui até o banheiro e comecei a chorar sem parar. Solucei sozinha. Lavei o rosto com água fria, nem ligando para a maquiagem de base e sombra que se borrariam por completo.

Percebi que uma pessoa entrara e estava ao meu lado. Sequei o rosto com papel e limpei os olhos. Vi que era a secretária Luana, com sua bolsinha, se preparando para escovar o dente.

_Estou muito decepcionada com você. _ me falou.

_Comigo? _ tentei fazer com que ela não percebesse o caos em que eu estava.

_Você não teve um pingo de consideração em me convidar para a festa, você me excluiu, foi muito feio! Hoje, nós combinamos um almoço com a Thaís...

Quê? Eles almoçaram com a nossa antiga chefe e não me falaram nada? Eu não podia acreditar! Eu adorava a Thaís, que saudade sentia dela.

_... Eu falei muito mal de você para ela. Falei tudo que você está fazendo, como se voltou contra nós e agora uniu um grupo para nos destruir.

_Eu?!

_É, Bela, você e eles se uniram para falar mal da gente! Vocês fizeram um bolo e nem nos convidaram.

_Quê? _ fiz uma careta de horror, eu não ia deixar que eles conseguissem me enlouquecer. _Vocês viviam falando mal do Vinícius. Sempre se recusaram a estar em qualquer lugar que ele estivesse. Então, no domingo à noite, a Deise e eu combinamos de fazer um bolo e comemorar o aniversário dele. Foi um bolo caseiro, de massa pronta! Nós não fizemos listinha para arrecadar dinheiro e fizemos uma big festa lá em cima onde selecionamos só o grupinho que poderia participar! Nós não excluímos ninguém. Fizemos lá na sala, para qualquer um poder entrar e ver. Só um bolo com Coca-Cola. Uma sobremesa! E você se recusou a comer.

_Vocês foram almoçar e só me disseram na hora!

_Meu Deus! Era comida à quilo, nós não fretamos van para levar metade dos departamentos, como vocês fazem sempre e não nos convidam. _ mostrei-lhe o que eles faziam.

_Mesmo assim estou muito mal com vocês, decepcionada! _ disse e saiu.

Eu não agüentei e comecei a chorar outra vez. Eles tinham ido envenenar a cabeça da minha ex-chefe, uma pessoa tão legal! E o que ela pensava de mim agora?

Eu estava chegando próximo ao meu limite.

Em casa, chorei, sem perspectivas. Se saísse de lá, perderia um estágio que batalhei tanto para conseguir. Mas minha cabeça não suportava mais aquela pressão, aquele ambiente horrível. O astral era péssimo, sentia meu corpo pesando toneladas, como se tivesse uma coisa entranhada naquela sala que sugava minhas energias!

Peguei um cartão de orelhão e fui ligar para o Caio. Disquei várias vezes, mas só ocupado. Eu, então, ficava em pé, esperando um pouco. Por fim, consegui e estava muito feliz por esse feito!

O cadete não sei das contas (Por que eles falam o nome tão rápido?). Faenadjfgbsgafit sei lá o que atendeu e disse que o chamaria. Há muitas variantes em se chamar alguém. Aqueles que vão até a porta do quarto e avisam pessoalmente. Aqueles que gritam e repetem o grito até o cadete aparecer com a cabeça na porta, ou responder "já vou". E os piores: gritam e se dão por satisfeitos. Hoje, não era o meu dia. Fiquei ali ouvindo as vozes, as músicas, o zum-zum ambiente e? O cartão acabou, nada de Caio!

Ninguém merece! Mandei uma mensagem de boa noite, expliquei mais ou menos o que tinha havido e fui para internet, ver se encontrava com Débi para saber o resultado da história com a amiga dela que foi traída e também precisava atualizar nosso blog. Era meu único tempinho para fazer isso.

_Aiiiii... _ tomei um susto quando vi que Débi tinha postado um outro texto no blog contando tudo como foi! Opa, que bom, senão eu teria uma dor de estômago de curiosidade, pois ela não estava no msn.


Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

3 comentários:

Paulinha disse...

traição... essa palavrinha dói... principalmente quando damos tudo de nós por uma amiga e ela apunhala covardemente pelas costas... Li, bju enorme pra vc!!

Li disse...

beijo Paulinha!

mell disse...

nossa... q barra heim!
coitada da belinhaa :/

isso de ir para um orelhao e naum conseguir falar com ele, jah aconteceu cmg!
e o pior.. duas vezesss!
q raivaaaaaaaaa ¬¬