6 de ago de 2007

Cap 64: Que conselho dar?

Era hora de começar mais uma semana. Fiquei com aquele ensinamento de Caio no coração. Controlar a minha mente para conseguir ver as circunstâncias sobre outros prismas.

Cheguei no estágio com um pote grande, um porta-bolo. Coloquei-o em cima da mesa. A curiosidade da secretária Luana logo perguntou, sem se conter:

_O que é isso?

_Bolo. É para o aniversário do Vinícius.

_Ah! É... _ ela fez um ar de quem se lembrava de alguma coisa e deu um sorriso muito murcho.

Deise e eu havíamos combinado no msn, no domingo à noite, de trazermos alguma coisa para celebrarmos o aniversário do nosso webdesigner. Já havia passado dois dias, mas não importava. Nós três tínhamos ficado muito amigos. Riamos, conversávamos muitíssimo, trocávamos experiências. Éramos amigos, não havia hierarquia. Ele sempre atendia prontamente meus pedidos e nos tratávamos com o máximo de respeito. Isso deixava o Márcio e Luana muito chateados, pois no “reinado de Thaís”, a antiga chefe ali, os dois falavam mal de Vinícius e ela apenas consentia com o silêncio. Dessa vez não, formávamos um grupo.

Quando Deise estava na sua primeira semana de adaptação, ela almoçara um dia com Vinícius e por isso fora duramente criticada pela secretária, que ainda estava naquela fase de tentar “levá-la para o lado deles contra Vinícius”.

A briga entre Márcio e nosso amigo começara quando ele insistia em colocar músicas de umbanda e Vinícius, evangélico, sentia-se muito incomodado e não conseguia ter paz para trabalhar e fazer suas criações. Ele, então, comunicou isso ao vice-diretor. Foi a gota d’água para ganhar o ódio de Márcio.

Vinícius tentava se socializar. Oferecia carona para Márcio, mas este recusava, preferia pegar um táxi. O Pagé era um tipinho nojento que morava em um lugar super pobre, mas vivia de aparência, não repetia uma roupa. Vinícius, coitado, sempre com sua simplicidade ficava triste, mas agora era diferente, com a gente ali, ele se sentia incluído.

Mas, imaginem aos olhos de Márcio e Luana como estavam encarando a nossa felicidade. Eles, então, faziam festinhas de aniversário para todo mundo e nunca nos chamavam. Organizavam tudo em uma sala desativada do terceiro andar, onde reuniam o grupo seleto daqueles que estavam em sua listinha dos merecedores da graça do Pagé. Por isso, Deise e eu dessa vez imaginamos que não seria preciso também comunicar nada a eles do nosso “bolo de caixinha” simples. Eu pegara uma massa pronta, depois joguei leite condensado em cima com coco ralado de envelope. Nada demais, coisa rápida. Só mesmo como sobremesa, depois de almoçarmos. Não era uma festa!

Na hora do almoço, falamos por educação para a secretária que iríamos almoçar em um restaurante que ficava em outra unidade do campus, onde a comida era muito melhor. Isso para comemorar o aniversário de Vinícius. Já que estava de carro, ele poderia nos levar.

_Ah! Por que vocês organizaram tudo escondido? Podiam ter me convidado com antecedência! Agora eu trouxe comida, não posso comer com vocês, não trouxe dinheiro. É muito errado da parte de vocês.

_Nós combinamos ontem à noite no msn. E não é nada demais, lá a comida é a quilo, como aqui. Só que o lugar é mais bonitinho e a comida é menos gordurosa, não tem cheiro de gordura lá... _ Deise tentou se explicar, mas eu realmente não tinha mais paciência com toda aquela hipocrisia.

Ela estava nos julgando por si mesma! Ela tinha o costume de nos excluir. Abri a porta e fui para a entrada do prédio onde encontrei Vinícius e sua esposa, que também viera para almoçar conosco. Ela trabalhava ali perto como professora. O almoço foi mais que perfeito, nós quatro ali, comendo comida de todo dia, mas com uma alegria diferente! Era bom demais estarmos juntos. Eu me sentia dentro de uma família, finalmente.

Ao voltar para a sala, a mulher de Vinícius nos acompanhou e nós colocamos velas no bolo e buscamos o refrigerante que estava na geladeira da cozinha. Batemos palmas e cantamos “Parabéns para você”. O Pagé ficou em seu lugar e a secretária, ao lado da minha mesa, onde nos divertíamos. Cortei um pedaço de bolo, peguei um copo de refrigerante e lhe ofereci. Ela recusou. Aquilo me doeu. Fingi que nada acontecera, já que meus três amigos estavam se abraçando tão felizes. Não queria que se chateassem.

A gangue do Pagé apareceu na sala, mas também não lhes ofereci nada. Deise ainda tentou, mas eles se recusaram também. Como podiam ser tão pequenos? Como podem existir pessoas assim?

Em meio a minha consternação, eu não os compreendia. E menos ainda conseguiria, quando passasse pelo episódio que se seguira a nossa comemoração. A vingança veio a galopes, com requintes de crueldade.

***
Ainda no elevador do meu apartamento, esperando-o descer, recebi uma mensagem da Débi:

_"Preciso te pedir um conselho. Estou on".

Franzi a testa, o que ela queria? Tenho medo de quando a Débi me pede conselho, sempre me sinto em um daqueles joguinhos de RPG. Mas se ela precisava de mim, então, eu iria tentar tirá-la de sua dúvida.

Liguei o meu computador e enquanto este se iniciava, deixei minha bolsa no armário e fui até a cozinha fazer um prato de comida. Deixei o msn no modo offline e cliquei no nome da Débi para abrir sua janela:

_Oi. _falei primeiro.
_Que bom que você entrou. Estava precisando falar contigo. _ disse.
_Eu li sua mensagem. _ escrevi e depois enrolei o macarrão no garfo.
_Não tem a ver comigo não, quer dizer, tem mas não tem...
_Quer me matar de curiosidade? _ coloquei um emoticon de riso.
_Deixa eu te explicar por alto. Eu converso muito com uma menina lá do nordeste, conheci ela pelo nosso blog. Aliás, conheci muita gente por lá. Aí, beleza, a gente se fala sempre, pela webcam, pelo fone de ouvido... É como se fossemos amigas de anos...
_Hum. _ escrevi para ela perceber que eu estava acompanhando a conversa, enquanto mastigava.
_Aí o Ribeiro, esse fim de semana, saiu comigo e uns dois amigos para uma festa. A minha outra amiga, a dona da festa, falou que tinha poucos convidados e que ficaria chato, pediu para eu levar uns meninos. Aí, enfim, levei esses dois amigos dele.
_O que eles tem a ver com a garota do nordeste? _ perguntei para tentar entender melhor.
_Um desses caras ficou com uma menina na festa, na maior, pegou legal, beijou, andou de mãos dadas... Aí, quando o Ribeiro veio me deixar em casa e estávamos sozinhos eu comentei: “Pô, parece que fulano se deu bem...” E ele não me pareceu feliz... Eu enchi o saco dele para falar porque não estava comentando nada sobre o assunto...
_Não vai me dizer que ele é o namorado da tal garota!
_Pior que é... Quando o Ribeiro falou o primeiro nome dele e depois o sobrenome, eu liguei tudo. Não deixei o Ribeiro perceber, para que ele pudesse me dar mais detalhes, sem querer resguardar o amigo. Putz, uma coincidência colossal.
_Ele traiu a namorada na maior?
_É, Bela, o Ribeiro falou que ele faz isso a torto e a direita por aqui. E agora eu não consigo olhar para cara da menina e fingir que não houve nada. Socorro! O que eu faço? Porque, se eu falar alguma coisa, eu posso colocar a amizade do Ribeiro com o cara em risco, porque só o Ribeiro sabe...
_E se você falar para ela, ela vai sofrer muito...
_E o que eu faço?!!!
Eu não sabia o que responder, era uma situação muito difícil.
_Se você visse, você me contaria?
_Ai, Débi, é diferente, a gente mora uma do lado da outra, você está perto do seu namorado, pode pegá-lo no flagra, pode conversar com ele. Como uma garota lá longe vai discutir essa relação? E os dois podem ficar mal, atrapalhar os estudos. Ai, que caos!
_Eu preferia não ter visto nada! Estou me sentindo uma falsa com ela, entende?
_Entendo. Olha, acho que você deve falar isso com o Ribeiro e antes comunicar a ela que não tem como você esconder da garota e perguntar a ele que sugestão ele dá. Porque assim você não fica mal com o seu namorado. Afinal, briga dos outros a gente não deve meter a colher. Depois eles se resolvem e a gente sempre se ferra.
_Eu vou pensar mais no que fazer. Que dilema, nem consigo comer. Não paro de pensar nisso.
_Calma! Você resolve e depois me diz o resultado. Agora eu tenho que sair, estou cansada. Preciso tomar um banho. Escreve sobre isso lá no blog, conta a história e pede a opinião das leitoras, acho que elas podem te dar alternativas... Sei lá, eu já consegui ver as coisas de outras formas com o que elas falam.
_Boa idéia. Ah! Amei aquele texto sobre os amigos! Te adoro, Bela. Agora vai lá.
_Tá. Tchau.
Desconectei.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

2 comentários:

aninha disse...

huuummmmmm!!!!!! já vi essa história e me senti na mesma situação... dificil pacas!!!!!

meninas, to esperando a visita de vcs no tão iguais e tão diferentes bjus a todas!!!!!!

mell disse...

nosssaaa... enchi meus olhos de agua lendo! isso me traz lembranças! heheheh :/