5 de ago de 2007

Cap 63: Estados Mentais

Caio esperou-me primeiro tomar um banho para depois fazer o mesmo. Nos encontramos no sofá para um abraço quente e um momento enfim a sós.

_Eu sei que você estava certa...
_Eu?_ franzi a testa me fazendo de desentendida.
_Sobre eu estar sendo egoísta, eu devia ter te escutado e quero te pedir desculpas mesmo. Eu sou um panaca...
_Não fale assim... _ acariciei seu rosto com a minha mão.
_Eu amo muito você e não é fácil para eu ter o meu Caio longe, quando estive acostumada com ele aqui, do meu lado, ao meu alcance.
_Meu Caio?_ ele sorriu tímido e abaixou a cabeça.
_Sim, meu..._ sorri de volta. _ Isso me faz refletir como não damos valor as coisas quando elas estão ali ao nosso lado, ao nosso dispor.
_Só agora que ficamos longe que vemos a falta que sentimos um do outro. _ ele completou o meu pensamento.
_É. _ confirmei. _ Eu, às vezes, sinto que não vou agüentar de tanta saudade. É difícil ver as minhas amigas da faculdade saindo com seus namorados e eu sempre segurando vela ou aqui sozinha, é uma realidade dura de enfrentar, sabe? Porque eu estou aqui fora, suscetível a todos os estímulos, se é que me entende.
_O que os olhos não vêem o coração não sente?
_Hum rum. Já pensou se lá na academia vocês tivessem essa liberdade e toda hora você visse seus namorados para lá e para cá com as garotas e você ficasse com mais vontade ainda? É cruel...
_Bela, acho que a gente tem que aprender a ver a vida sempre de vários ângulos. Algumas pessoas chamariam isso de conformismo, ou diriam que estamos nos enganando... Mas eu prefiro criar novos espectros para encarar os meus problemas, isso facilita bastante, nos dá fôlego...

_O que está querendo dizer?
_Por exemplo, você está falando aí das suas amigas. Elas têm os namorados, os ficantes, que seja... Já reparou quantas vezes elas terminam e começam? Quantas vezes elas trocam de cara como se trocassem de camisa? Nós não, nós temos um amor maior, um amor que tem tantas provações, que está sempre se superando e tendo certeza de que é isso mesmo, que você é a mulher que eu quero e eu sou o homem que você quer. Como elas não tem tantas dificuldades, porque o cara mora no mesmo prédio e eles vivem de comer pipoca em shopping, acabam levando mais tempo para encarar as dúvidas. Afinal, tudo para eles está sempre aparentemente bem. Como se vivessem só na superfície. A gente tem a oportunidade de olhar para o nosso namoro como aqueles cortes verticais do solo que havia em nossos livros de geografia, lembra? A gente podia ver o solo, o subsolo, as camadas de areia, terra, até os lençóis de água. Você e eu nos conhecemos lá no nosso íntimo, até chegar naquele lençol subterrâneo. Quando você fala uma coisa, pelo tom da sua voz eu já sei o que está se passando no seu íntimo. Essa ligação, curiosamente, existe, mesmo a gente estando longe.

_Por que não é preciso estar perto para estar perto da alma?
_Esperta, garota! E nós não temos, ainda, esse contato constante, mas quando tivermos, estaremos a um passo de ficar juntos para sempre, enquanto elas, na sua maioria, ainda vão estar trocando de par, como as quadrilhas de festa junina. Não são todas, claro, mas é a grande maioria que vemos aí pelo mundo.
_Então, eu devo pensar que, apesar da distância, nós temos vantagens positivas sobre as outras formas de namoro?
_Que bom que eu fui claro. _ riu.
_Nossa, estou surpresa, estou descobrindo em você um outro Caio a cada dia, você está mais maduro.
_Acho que isso acontece com todos nós. Na escola, parece que estamos dentro da barriga quentinha de nossas mães, quando somos jogados na realidade temos que aprender a nos defender. O pensamento, Bela, é a sua maior arma, é nele que vai morar todas as suas zonas de tempestade. Se você souber controlá-lo, domá-lo, vai conseguir, nos momentos de dificuldade, não perder o controle das situações.
_Isso você aprendeu lá?
_Também... Mas com os meus estudos...
_Hum. _ entendi ao que ele se referia, Caio amava ler e, provavelmente, seu avô havia lhe dado boas lições de vida. _Tenho uma amiga que estuda psicologia e ela fala de algumas terapias cognitivas que levam o paciente a repensar o próprio pensamento. Quais são aquelas idéias que te rodeiam no ato das coisas que te incomodam. Por exemplo, aqueles que têm pânico de andar de ônibus porque estão com síndrome do pânico. A pessoa deve rever quais pensamentos passam na sua cabeça no instante que tenta subir no veículo. E depois, trabalhar esses pensamentos.

_E sabe o que é mais interessante? Se formos parar para pensar a nossa sociedade é muito contraditória. Não se acredita em nada que é verbal, tudo tem que ser colocado no papel, por escrito e homologado em cartório. A escrita é muito valorizada. Todo mundo passa a vida estudando a escrita. Só que, se você ligar a televisão, ligar o computador, sair na rua e olhar as propagandas, o que você percebe? Vivemos no mundo das imagens e não das palavras. Só que não há escolas que nos ensinam a interpretar as imagens e elas têm um grande poder. Os pensamentos são feito dos dois: imagem e idéias, palavras. O que os torna mais complexo. Mas, novamente a contradição: valorizamos o que é físico e deixamos para uma categoria inferior tudo que é psicológico. Você está sentido frio? Ah! É psicológico... Vê como a palavra ganha uma conotação pejorativa? O pensamento é vital! Saber lidar com as próprias imagens e as idéias que estão na nossa cabeça é a melhor maneira da gente viver melhor e de forma mais saudável. Bela, se você reparar, o mundo não se transforma tanto. Está sempre ali, a mesa do café da manhã no mesmo lugar, o ônibus do mesmo jeito, as cadeiras da faculdade igual, o professor lá na frente. Por que então um dia parece ser ótimo e no outro, o mundo parece conspirar contra você? Por que isso é um estado mental que está na sua cabeça e não no mundo!

_É... _ abracei-o com carinho, era tão bom poder aprender com ele. Caio me surpreendia, às vezes. Ele oscilava entre uma pessoa infantil e, em um piscar de olhos, alguém maduro. Ou será que isso também era só um estado mental meu de não permitir vê-lo como é, e sim, julgá-lo precipitadamente?_ Sabe, queria que os anos saltassem rápido e que logo você estivesse comigo para sempre.
_Eu também queria, mas eu acho que nós ainda temos muito o que crescer... E não tem como pular o tempo.
_Não vejo a hora de te ter ao meu lado, vai ser tudo diferente.
_Não sei se vai ser tudo tão diferente assim...
_Por que diz isso?
_Porque nós vamos mudar o intervalo de distância, não vamos mudar a nós mesmo, a nossa personalidade, isso será igual. Acho que esse é um erro que muitas de vocês namoradas vão descobrir, quando chegarem ao último ano.
_Como assim?
_Porque eu vejo muitos caras lá que tem muito o que aprender... São muito, ah, nem gosto de falar, vacilam para caramba... E aí a namorada desculpa tudo sempre, naquela expectativa, “quando ele vier para cá, tudo vai mudar”. Não vai mudar, ele só vai mudar de residência, a personalidade será igual. Não são os lugares que mudam as pessoas, mas seus pensamentos, suas atitudes que nascem aqui, na cabeça.
_Dizem que muita gente termina nos últimos anos. Até já li em um blog que achei na internet chamado Blog Eu amo um militar uma vez...
_Existe um blog “Eu amo um militar”? _ ele riu.
_É, existe. É legal, não ria! Ele, aliás, já existe há uns dois anos. Quem escreve nele é a Li e a Lucy. Elas escrevem textos sobre amor, sobre relacionamentos, coisas que tem a ver com a nossa realidade mesmo. Mas não é nada fútil não, tem conteúdo, tá? Antes que fique me zoando.
_Hum, o que você leu lá?
_Eu li lá faz um tempinho já, um comentário de uma garota em anônimo que dizia assim: “Tomem muito cuidado, quando acharem que ao se formar vai ser tudo melhor, porque foi muito pior. Eles saem para as baladas, se tornam uns rueiros, não tem tempo para a gente. É horrível, estou muito decepcionada”.
_ Ela que deveria ter tomado cuidado... Porque esse cara aí sempre foi assim, o problema é que antes não tinha oportunidades e tempo para mostrar isso. Esse sempre foi o namorado dela. Não acredito que do dia da formatura para o dia seguinte ele tenha virado o botão e se transformado em outro ser. Se ela disse que ele tá sem tempo no sentido de muito trabalho, concordo. Agora achar que ele mudou da água para o vinho... Ela que não o conhecia direito.
_É isso que eu tento mostrar Caio. A distância atrapalha. Como a gente vai conhecer a pessoa vendo-a tão pouco?
_Depende do esforço que as pessoas estão fazendo. Se um mora aqui e o outro, lá no extremo norte, bom, escreve carta, manda e-mail. Sei lá, tenta manterem contato.
_Ah! Caio, nem todo cara gosta dessas coisas...
_Por amor a gente aprende a gostar até do que não gosta. Só é trabalhar os estados mentais.
_Verdade. Muitas coisas eu não gostava e fui tentando ver de maneira diferente, para te agradar.
_Minha mãe, por exemplo?
_Pode ser. _ aceitei o exemplo, mesmo não tendo primeiramente pensado nele quando falei.
_Eu sei que vocês não se davam nada bem e que deve ter sido uma verdadeira batalha aí dentro para poder se entrosar com ela...
_Foi sim... Mas estou conseguindo. Acho que na vida a gente tem que ter humildade. Quem não vive para servir, não serve para viver. Li essa frase no hospital em uma plaquinha.
_Bonito isso. A gente aprende muito isso: “servir”. Por isso que estamos sempre de “serviço”. Acho que a sociedade brasileira precisava mais desse espírito de seriedade, compromisso... _ Caio continuo a me falar sobre o trabalho, a situação política do país, horas a fio.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

4 comentários:

Anônimo disse...

Uau! Que conversa!!!
Ok, agora sim estão começando a se entender. O que o diálogo não faz, não é? E é a overdose que temos até que eles saiam de lá. Lembro-me de ter um contato intenso de diálogos com meu namorado nos primeiros anos. Depois que ele entrou na EsPCEx, diminuíram um pouco. Na AMAN, então, ficou inviável as cartas. Mas, telefonemas e internet eram constantes e em períodos regulares!

Mas, sem recursos mais dinâmicos (internet/telefone), as cartas eram nossas companheiras assíduas!!! Escrevemos muito um para o outro! Falávamos de tudo e, assim, nos conhecemos bastante. Passamos por fases de conhecimento: primeiro intelectual (cartas/telefones/internet), físico (quando nos conhecemos pela primeira vez pessoalmente) e, então, comportamental (quando, então, tivemos tempo suficiente para conviver).

Hoje, sinto que as coisas estão no seu lugar. Caminhando sempre para melhor. =)

Ai, Li... esse capítulo está ótimo! É bom demais quando vemos um casal conseguindo acertar os passos. Abraço carinhoso!!!

Li disse...

Olá, Lucy! Obrigada por seu comentário carinhoso!
Meninas, saudade de vcs!
Apesar do trabalho, quero me esforçar para ter tempo para a literatura!
Amo vcs!!!
Bjuuu

aninha disse...

oi Li!!! isso é o que eu chamo de bofetada emocional...rsrs!!!!! depois vou ler com mais atenção esse capitulo!!! pra variar to correndo pro centro da cidade assistir uma palestra...

mell disse...

ai aii aiii... mais uma semaninha longe dakii!
hj li tudo, tudoo!
nossa... eu me identifico tanto com a bela! sem noçao :DDD
heeheheheh

'Por amor a gente aprende a gostar até do que não gosta.' lembrei do meu namorado quando li :D tudo pq ele simplismente odiava ficar horas e horas na frente do computador, dae... por causa da distancia, passamos os finais de semanas inteiros na frente do computador, nos falando pelo msn! =))

tah lindoooooooooo o livro li!
beijaooo :*