2 de ago de 2007

Cap 60: Escolhendo o seu lado

Deise era uma pessoa muito organizada. Arrumava toda a sala, limpava sua mesa, colocava em ordem o armário. E isso significava alterar o ambiente do Pagé Márcio. Ele não perdia nenhuma oportunidade de falar mal dela em sua ausência. Eu evitava contar-lhe isso para que não ficasse triste, nem desmotivada. Porque sabia que uma pessoa tinha um limite para agüentar o seu fardo de provações.

O diretor da escola, influenciado por tudo que Márcio lhe enchia diariamente os ouvidos, não a recebia em sua sala. Sempre estava ocupado, a deixava esperando sem remorso. Em uma certa manhã, ela precisou resolver alguns problemas jurídicos da venda de uma casa. Tentou avisar ao chefe pessoalmente, mas esse não a recebeu, para variar. Deise deixou, então, recado com a sua secretária, que não lhe deu.

Mas logo a notícia chegou aos ouvidos do diretor, nem precisa dizer por quem. E o telefone da minha mesa tocou. Era a secretária querendo os telefones da Deise. Eu liguei para minha chefe e lhe contei o que estava acontecendo. Isso claro, quando a sala estava vazia. Eles se reuniam em grupinhos e panelinhas com outros setores para comemorar cada errinho nosso. Parecia uma batalha para expulsá-la dali.

Deise levou um grande esporro do chefe, que era um homem grosso e ignorante. Ele permitia que seu Pagé ficasse de folga quando quisesse. A secretária faltava para levar a filha no médico e ninguém ia bater na sala dele para contar. Agora, quem estava na lista de Márcio não escapava de sua tirania jamais.

E seus comparsas formavam uma liga. A Cássia, aquela mulher da minha primeira entrevista, junto com sua outra amiga jornalista, com sua secretária também Cássia e sua estagiária formavam o grupo de apoio. Ah! A dita estagiária, que não estava no dia da seleção, tinha sido indicada pela estagiária anterior e eu não fora escolhida pelo motivo que Gustavo realmente apontara. Isso foram informações que o Pagé me dera quando eu ainda estava no grupo seleto dos intocáveis. Ela era da minha faculdade, já cursara matérias comigo, mas entrava e saia da minha sala sem me dar um “oi”. Maria já havia sido envenenada contra mim.

Era uma verdadeira guerra de nervos.

Mas eu ainda não acabei de falar da formação adversária, se é que posso considerar aquilo uma guerra, eu não estava a fim de destruir ninguém, só me proteger para fazer o meu trabalho junto com a Deise.

Havia o Gilberto, um rapaz com trejeitos homossexuais que a cada dia entrava na sala para acusar os homens dos outros setores de “gays enrustidos”, quando ele mesmo não enxergava que era um deles.

Aliás, o Pagé, apesar de casado e com uma filha, falava com voz afetada e parecia um Leão lobo. Sabia de todas as fofocas, da cor da calcinha e do estilo de cada mulher daquele prédio. Também classificava os homens e os gays dali diariamente e se achava o máximo por suas “descobertas”. Era nojento a maneira como as pessoas entravam na sala para trazer presentinhos para enfeitar sua mesa. E quando saíam, ele fazia seu veredicto. Ou ficava calado, ou falava horrores das pessoas que, idiotas, achavam que estavam ganhando pontos. Aquilo me deixava muito mal.

Um pesquisador queridíssimo por muitas pessoas tinha um estilo muito simples de se vestir: uma calça pescado cheia de bolsos, sempre aparecendo as meias e uma camisa “uniforme” que repetia sempre. Coitado, a cada vez que saia da sala era apelidado de “paspalho”. Aquilo entrava no meu ouvido e ia para o coração como uma lança porque eu ouvia e ele, não. Então, era como se fosse comigo. Luana ria e se divertia das crueldades do Pagé. Eu olhava para Deise, na mesa longe da minha, e nós nos entendíamos pelo olhar.

Outro setor que acompanhava as perversidades da gangue do mal era o setor de relações internacionais. Eram quatro mulheres servas do Pagé que diziam amém a tudo que ele achava, inclusive suas opiniões sobre a Deise. Lembro que precisávamos entregar para o diretor um relatório com dados de vários setores e todos enviaram os seus. Menos o delas.

Liguei várias vezes, por semanas. Elas nunca tinham tempo de fazer, enrolavam propositalmente. Eu mandei o texto que elas precisavam só olhar, ler e aprovar ou alterar algo. Mas nada. E aquilo ia nos desesperando. Enquanto isso, eles se reuniam na sala delas para tomar café e cair na risada do nosso desespero. Como falei, era uma guerra de nervos que estava esmigalhando o meu psicológico.

Ali, porém, ao meu lado estava Deise. Com seu ótimo humor, seu jeito mãe de ser. E isso salvava tudo! No seu mural, fotos belíssimas tiradas por seu marido fotógrafo de paisagens, passarinhos, flores. Na sua mesa, biscoitos, bombons, muitos porta-retratos, folhas com cheiro de essência em um cálice vermelho, cristais, anjinhos, a imagem de Nossa Senhora. Sentar ali com ela me trazia paz, ânimo.

Na mesa em frente a sua ficava o Pagé com mais de trinta sapos. Ele era colecionador de bichinhos de pelúcia de sapos. Tinha de tudo: teclado, mouse, caixa de som, caneca, miniaturas, porta-retratos, tudo que se possa imaginar do animal. Cada um era um “presentinho” dos seus puxa-saco.

_Você se formou em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ? _ perguntei a minha chefe.

_Sim. Mas nunca exerci. Depois eu fiz história. Fui ser professora do município. Fui também diretora por muitos anos de lá. E também fiz pós-graduação em administração escolar. Eu, então, fiz concurso público para cá, para a vaga de jornal, e estou tentando relembrar das coisas, né? Mas aqui eles não deixam a gente empreender nenhuma idéia nova, tudo que eu sugiro é travado. O informe do mês está lá parado, eles não liberaram. É duro, muito duro...

Enquanto ela me contava sua trajetória sempre de muita luta contra os preconceitos, eu me recordava intimamente da voz de Márcio na minha cabeça falando aos quatro ventos que ela só estava ali por ser cotista. Aquilo me doía porque eu via o quanto ela era esforçada e culta.

Mas o diretor não perdia a oportunidade de agredi-la verbalmente, perguntou até se ela estava ali para tirar-lhe da vaga de diretor. Viagem total da parte dele. Só que o veneno do Pagé corria abundante em suas veias e o entorpecia.

Deise trazia bolo de laranja e oferecia a todos, que se negavam a comer, como se ela houvesse envenenado algo. Eu aceitava, claro, como também trazia coisas para ela. E, aos poucos, nós descobrimos que não adiantava tentar ficar agradando-os.

Partimos para uma outra estratégia que seria o golpe mortal para rolar as nossas cabeças: nos uniríamos, Deise, Vinícius e eu.

***
Cheguei em casa e corri para o computador para ver se Caio havia respondido meu e-mail. Meu coração disparado esperou que a caixa de mensagens se abrisse e o número “1” me fez ficar já feliz, mesmo sem ainda ter certeza de que era alguma notícia dele. Mas sim, para minha exaltação, era. Incrível como eu conseguia tirar fonte de inspiração, motivação e felicidade de um simples e-mail, de uma meia dúzia de letras, palavras. Era o nosso modo de estarmos próximos, então, eu tinha que agradecer pelo pouco que já tinha. Afinal, era uma graça de Deus ele poder ter um computador para usar lá. Pena que não nos encontrávamos muito no msn, já que ele tinha que descansar ou estudar para as provas do fim do ano. Mas só aquelas palavras já me alegravam:

“Minha Bela, li tudo e só posso dizer que fiquei primeiramente muito chateado. Eu não gosto dessa sensação de que algum mal está te acontecendo e eu estou aqui impotente, sem poder te defender. A vontade que eu tenho é nem tocar nesse assunto, tem coisas que eu prefiro deixar de lado. Mas hum... acho que deve esperar as coisas se acalmarem, as pessoas se acostumarem com a nova liderança. É difícil mesmo, mas tudo vai se ajustar.

Hoje, eu conversei com um colega de quarto que terminou com sua namorada. Tentei dar um apoio moral, mas ele está cego de decepção. Agora não perde a oportunidade de sacanear os outros. Tipo, ficou falando para o Ribeiro: “Aí, cara, tu tá aí ajoelhado rezando... E tua mina a essa hora deve tá lá no “batidão” dançando funk. Tá na pista, aí ela vai ajoelhar também...”. Bela, não prestou... O Ribeiro levantou... (nunca vi ele daquele jeito, mas pô foi merecido, quem mandou atrapalharem o momento sagrado de oração noturna do cara?)... e falou: “A minha namorada não anda com a vadia da sua ex que era um depósito de esperma”. Não prestou, o cara partiu para cima dele e deu um soco no meio da cara do Ribeiro, que começou a sangrar. A gente tentou segurar os dois, mas imagina, amor, eles são fortes para caramba, não é fácil segurar dois marmanjos furiosos.

Eu puxei o Ribeiro com toda minha força, agarrei ele pela gola da camisa e botei ele contra a parede. E disse para ele não se meter em briga para não se ferrar. Ai ele se acalmou e foi no banheiro lavar a boca. A gente tentou abafar o caso, antes que alguém visse. Um amigo nosso aumentou o volume do rádio para que o barulho do bate boca dos dois não chamasse a atenção dos outros. Senão já viu né? Punição e com razão.

Eu tentei falar para esse amigo que ele estava usando as frustrações dele para pirar a nossa cabeça também. Eu sei que ele foi traído, que a ex-namorada dele não teve a decência de acabar, antes de ficar com outro. Tipo, ela ficou com um outro cadete que tinha terminado o namoro também. Putz, o meu amigo tá fora de si, só tá fazendo merda.

Fica uma guerra de nervos. Mas eu dei mais atenção para o Ribeiro, que não tinha nada a ver com história. Coitado, está começando a ser bombardeado agora.

Só posso te dizer que é muito pirante... A gente fica aqui e vocês aí fora, lindas e maravilhosas, ao dispor desses playboys. Por mais que confiemos é muito chato e desconfortável ouvir essas piadinhas ridículas...

Parece uma bomba relógio que de vez em quando explode e se auto-arma de novo. Mas temos que colocar a cabeça no lugar e ouvir o coração.

E o meu coração está com saudade de você colocar a cabeça aqui no peito e ouvi-lo. Te amo, Belíssima!

Caio.

(p.s: Reza por mim, tenho prova amanhã! Vou estudar, baby)”.

Caramba, ainda bem que o Ribeiro não ficou punido, porque minha amiga Débi acabaria “punida” junto, sem poder sair com ele no fim de semana.

Minha cabeça esqueceu por uns instantes os problemas do estágio e fiquei refletindo sobre os amigos. Eles podem nos ajudar a enfrentar os problemas e os falsos nos colocam para trás. Interessante. Vou abrir um post no meu blog para escrever sobre isso. Será que a Débi já postou? Ah! Acho que ela não vai ligar se eu colocar dois textos meus.

Loguei no site de postagens e conferi os comentários. Que pena, as pessoas não estão me visitando mais. Por que será? Será que é porque a Débi começou a escrever lá? Não entendo... Enfim, vou escrever para mim mesma, então, não posso deixar de fazer as coisas em função das pessoas. Temos que aprender a continuar sempre o que gostamos, mesmo que não tenhamos público.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

2 comentários:

aninha disse...

oi Li!!! essa cartinha do Caio foi fofa!!!!! muito lindo!!! era um amor desses, bem forte que eu queria pra mim!!!!

meninas, capitulo novo no romance militar tão iguais e tão diferentes

www.taoiguaisetaodiferentes.blogspot.com

Anônimo disse...

Poxa, que guerra cara... (-_-)'
E esse Pagé é uma... bem, deixa pra lá, senão vou acabar sendo processada (depois te falo pessoalmente).

Mas, tá... foi o dia do caos na vida dos dois! Ahhh, tadinho do cadete abandonado... Poutz... ele deve star sofrendo demais pq quando as pessoas reagem assim é porque não quererm mostrar a fraqueza que sentem e a vontade de chorar que fica guardada dentro do peito... poxa, tomara que o Caio consiga fazê-lo melhorar.

Eita, Li, me lembra de te contar uma coisa sobre isso de "ser abandonado" e de como superar!!! Não me deixa esquecer! =P

Bjo forte, meninas!!! \o/