1 de ago de 2007

Cap 59: Um telefonema surpresa

Eu já estava cansada daquela maratona de entrevistas para estágio. Fui até ao prédio da Vale do Rio Doce, no centro da cidade do Rio. Isso depois de uma bateria de fases que desaguaram naquele dia. A mulher que me atendeu me informou que eu tinha colocado “duzentos candidatos para trás”. “Que maravilha”, pensei. Ela, então, me disse que enviaria um e-mail marcando a próxima vez que eu falaria com ela. E marcou? Não! Mandei eu mesma um e-mail e ela me disse que já tinham escolhido uma candidata. Eu fiquei mais uma vez com o orgulho detonado. Uma terrível sensação de impotência.

Foi aí que recebi um telefonema daquele lugar de pesquisa farmacológica, só que para uma outra vaga, também de comunicação, mas em outro setor. Eles tinham encaminhado meu currículo para lá e haviam gostado. Puxa! Que sorte a minha.

Mais uma vez, parti para lá e cheguei para ser atendida por uma moça muito gentil, a Thaís. Ela era jornalista dali e ajudava a manter o site daquele setor e também a organizar os eventos, e palestras. Era alta, cabelos encaracolados e vestia uma calça quadriculada. Uma pessoa maravilhosa que guardarei eternamente no meu coração.

A sala é pequena, comprida. Com quatro computadores, dois webdesigners e uma secretária. Um deles era negro, baixo e magro, chamava-se Márcio. O outro era alto, forte, de olhos azuis, seu nome era Vinícius. Os dois, segundo me contara depois Thaís, não se falavam. Márcio, que era de umbanda, colocava várias músicas de terreiro para que Vinícius evangélico tivesse o pior clima de trabalho possível. Quando presenciei isso acontecer pela primeira vez, eu senti que o clima ali era de uma divisão da guerra fria.

Eu comecei o meu trabalho na minha, tentando me dar bem com todos. Vinícius ficava calado a todo tempo, fazendo quieto o seu trabalho. Mas quando a sala ficava vazia ele puxava assunto comigo. Descobri que uma professora que eu amava na faculdade fora sua madrinha de casamento. Ele me mostrou fotos de viagens que fez com sua esposa, uma mulher maravilhosa, doce e divertida, que eu viria conhecer futuramente. Sempre oferecia halls, biscoito a ele.

Mas quando o Márcio chegava, ele emudecia, ficava na sua e eu voltava ao meu trabalho. Márcio era o queridinho. O diretor o adorava e o venerava. Ou seja, todos gostavam de Márcio para que ele não queimasse o filme com o diretor.

A secretária? Luana era uma mulher que deixava todos pisarem nela, mandavam e desmandavam. Ela era uma pessoa que eu chamaria de fraca, não sei se fraca, acho que frágil. Tudo que Márcio falava, para ela era a palavra final.

Thaís, a “chefe” em teoria ali, tentava agradar a gregos e troianos e finalizar bem o seu trabalho. Aprendi imensamente com ela. Thaís me delegava uma tarefa, me dava um bom tempo para realiza-la, depois me chamava em sua mesa e me explicava como eu poderia melhorar em cima dos meus erros. Aquela foi uma fase que posso chamar de período dourado.

Almoçávamos juntas, eu lhe contava tudo sobre minha faculdade, discutíamos assuntos da atualidade, praticamente não havia a barreira chefe e estagiária. Isso era fantástico. Eu disse para minha família, meu namorado e até para minha sogra que eu estava realizada, que apesar de não ganhar quase nada lá, valia a pena cada segundo. Mas aqueles dias estavam muito próximo de acabar.

Thaís estava ali como terceirizada. Isso significava que seu contrato era de seis meses e o concurso público traria uma outra para o seu lugar, agora em definitivo.

Foi uma grande tristeza sua saída. Ela apenas pegou sua bolsa e saiu, como se fosse um dia comum e não se despediu. Pensamos que ela viria no dia seguinte para a festa de recepção aos concursados. Mas ela não veio e nunca mais a vi.

Nos falamos por e-mail depois. Guardarei para sempre cada dia em que estive com ela. Alguém doce, amiga, atenciosa e super competente.

Eu mal sabia que estava entregue ao covil das cobras. Aprenderia ali como a política está no centro das instituições públicas e também como um setor pode decidir o destino dos demais: a comunicação, mais especificamente, a “mesa do Márcio”.

No lado de fora do prédio, construíram, sobre os paralelepípedos, um trecho acimentado com uma largura para passar uma cadeira de rodas. Para nós, era uma espécie de quebra-molas, mas descobrimos pela boca do informante número um que era uma preparação para receber a nova chefe:

_Ela é cadeirante. É deficiente físico, entrou pela vaga de deficiente. Entrou pela cota.

Aquele modo de se expressar mostrava como as pessoas já julgavam sem nem ao menos conhecer a competência da nova concursada. Ela, ao contrário do que tinham concluído, não usava cadeiras de rodas. Apenas tinha um defeito em uma das pernas, que era menor que a outra alguns centímetros. O que a fazia andar como se estivesse mancando um pouco.

Eu, afortunadamente, conheci uma segunda pessoa maravilhosa. Chamava-se Deise. Magra, branca, de cabelo liso. Até parecia minha mãe, não só pelo físico, nosso relacionamento também traria uma relação de carinho de mãe e filha.

Tentei mostrar-lhe todas as rotinas que fazíamos e, pouco a pouco, fomos nos entrosando. Era um tanto quanto estranho eu estar me dando tão bem com ela, parecia que eu estava “traindo a amizade” que tinha com a Thaís. Mas, na minha cabeça, eu conseguia lidar bem com a situação e separar as coisas.

Porém, para Márcio e Luana, Deise representava o papel de intrusa. E eles me excluíram completamente quando perceberam que eu, finalmente, conseguira o clima perfeito com minha chefe. Eles organizavam almoço com os demais setores e não me chamavam. Promoviam café da manhã, festinhas, e me deixavam de fora. Era a vingança.

Minha ótima convivência com Deise não era questão de puxar saco, não. Nós fazíamos o nosso trabalho sem perder o humor, sem deixar de falar das coisas da vida, de discutir, de trocar idéias, de se respeitar como ser humano. Aquele foi o primeiro golpe para o Pagé, Márcio. Pagé é como Deise e eu o apelidamos, por “ditar” as regras.

Eu estava na lista de Márcio. Isso significava que ele viria com tudo para cima de mim e eu nunca pensei que esse “tudo” abalaria minha vida de tal forma como foi.

***

Independente do meu dia, quando eu chegava em casa, tomava um banho e sentava diante do computador, era um momento só meu de relaxar. Estranho como o mundo mudou, hoje a internet nos proporciona entretenimento, informação, comunicação com as pessoas e, ainda por cima, relaxamento. Eu saio do meu mundo e vou para outro, onde eu posso esquecer um pouquinho esse aqui.

Vejo que namorar o Caio me obriga um pouquinho a isso. Porque se ele morasse aqui do meu lado, eu largaria tudo e iria ficar lá com ele. Acho que o tempo na internet seria melhor. Prova disso é que, quando está aqui, eu praticamente não faço nada a não ser ficar com ele grudada. Vale a pena!

O estranho é que agora eu tinha a presença da minha sogra, sentada na cama atrás de mim. Mas não deixaria de fazer as minhas coisas por causa dela.

Como sempre, passei no meu blog e da Débi e fui ver os comentários, eles me ajudam muito a tomar decisões sobre a minha vida, pelo menos a pensar um pouquinho antes. E olha que maravilha, ela havia vencido a barreira técnica das ferramentas do blogger para publicar seu texto sem minha ajuda! Feliz por este seu passo, comecei a ler o que tinha escrito. Como pode?! Era exatamente o que eu sentia, ela conseguiu descrever muito bem a sensação da saudade após cada partida deles...

Havia um comentário que dizia: “O amor militar é assim mesmo, um amor que espera, "um sentimento que precisa saber deixar ir". Essa é a maior característica deste relacionamento. Concordei com cada palavra, Débi... você desvendou em um tópico algo que toda mulher de militar precisa saber e aprender. Queira Deus que todas consigam aprender sem sofrer muito, apesar de que a dor gera evolução, não é bom sofrer. Sempre é melhor aprender com o exemplo dos outros. =)”

Hoje era meu dia de também escrever. Ao mesmo tempo que abria uma página de Word, loguei no meu e-mail para não perder tempo. O sono já estava chegando.

_Um e-mail do Caio! _ falei um pouquinho alto comigo mesma, mas minha sogra não percebera, estava concentrada na Bebel da novela das oito.

“Bela, minha Bela namorada.
Estou aqui vencendo o cansaço para te escrever, porque sei que a falta das minhas ligações deve te fazer criar minhocas aí nessa cabecinha, pelo que já te conheço. Nosso contato era tão mais freqüente quando eu morava perto, e agora, só temos o telefone e a Internet.

Depois de terminar os exercícios, aulas, estudo, jantar, toda essa rotina, somos liberados. Então, vim para cá te mandar notícias minhas. Estou bem. É estranho ainda morar longe de casa, da comida gostosa da minha mãe, do cheiro dos lençóis de cama, da minha cama, claro, do meu quarto com as minhas coisas, só minhas, do meu lugar. Aqui aprendo que tudo é de todos e que deve ser conservado, porque é para todos.

Legal isso, né? Porque já pensou se as pessoas pensassem assim? Não vou jogar o papel no chão porque outra pessoa vai ver ele sujo, ou vai usar aquilo que eu estou depredando. Pensar no outro. Eu penso muito nos meus amigos. Se um deles no campo sentir que não agüenta marchar, eu pego no ombro e esqueço até se consigo ou não carregar. Porque ele faria o mesmo por mim.

Estava aqui vendo um vídeo no youtube de uns mauricinhos patéticos da zona sul do Rio de Janeiro, moram lá em Ipanema. Eles mostram como é divertido jogar ovos nas pessoas que passam na rua, da sacada de seus milhonários apartamentos.

Vê aí depois:

http://www.youtube.com/watch?v=mPF9zdlR9j0

Aí, você pensa que pára? Nada! Até o Boni, aquele cara que produziu o big Brother, acha superdivertido e o João Eduardo Brizola, neto do ex-governador do Rio de Janeiro, está entrevistando os ilustres que vão visitar o seu apartamento. Olha só, tem que ver:

http://www.youtube.com/watch?v=R8-ee9lWh0c

Essa é a elite burra, ignorante, egoísta que vai chegar no poder? Esses são os que podem pagar uma faculdade e vão ocupar os cargos de decisão por terem "QI"?!

Na cena, há uma garota loira. Lembrei de você. Não que tivesse nada a ver com ela, amor. Mas justamente porque me orgulhei por não ter ao meu lado uma idiota assim. Uma mulher vazia como ela! Você está aí se redobrando para ajudar minha mãe, para tocar seus estudos. Você é demais! Desculpe porque não estou toda hora te falando isso.

Para poder ir ao orelhão não é simples. Eu tenho que colocar a farda, impecável, estar perfeito, e se não fosse isso... ainda comprar um cartão caríssimo aqui, por um preço exorbitante, ainda ter que ficar esperando numa big fila, onde cada um está com seu cartão de 40 unidades para gastar.

Pode até parecer que não quero me sacrificar, não me entenda mal, linda, mas é que estou tão cansado, que esse tempo todo é tão sagrado, para eu poder deitar, relaxar, dormir. Nossa, reencontrei o prazer de dormir. Eu simplesmente morro.

Estou aprendendo zilhões de coisas! O pessoal pensa aí fora que a gente só fica levantando ferro. Que nada, a gente aprende geografia, matemática, história, português... Putz, amor, muita coisa mesmo, parece que minha cabeça está pequena demais para tanta informação.

Nós militares nos esforçamos muito... temos princípios tão bons e infelizmente as pessoas só sabem falar de 64, como se a palavra militar ligasse a isso e ponto, nada mais. Que coisa!

Tu viu no jornal? A greve dos médicos lá em Pernambuco? Cinqüenta e nove médicos pediram demissão e outros duzentos e cinqüenta informarem o mesmo ao sindicato. Aí, o que fez governo de Pernambuco? Para quem pediu a ajuda? Aos médicos das Forças Armadas e da Polícia Militar. Para o Pan? Aos 2.400 homens da Força Nacional de Segurança. Por aí vai, sabe? Nós ralamos muito!

Estou cansado, tenho muitas coisas para dizer, mas to exausto, só guarda uma coisa no teu coração. Eu te amo. Eu te amo. Quando estiver começando a achar coisas... Lembre disso: “Ele me ama”.

Ok? Me conte sobre você. Beijo do seu Caio.”


Eu suspirei, aquele e-mail tinha representado um abraço, um aperto de mão, um toque. Porque eu conseguia me sentir tão melhor! E já tinha sobre o que escrever no meu blog.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

3 comentários:

Lucy disse...

Ah! Que bom, ela conseguiu! \o/
O começo do trabalho é sempre difícil, a gente se sente um peixe fora d'água e tem que aprender a respirar o novo ar... poutz, é interessante perceber o ambiente, as pessoas, os valores que cada um segue ali. E vc aprende a lidar com cada um, individualmente. Estou tão feliz por ela! Agora sim a faculdade será algo ainda mais intressante, pois ela porá em prática o que só vê na teoria... é quase como diz a Palavra de Deus: "agora vejo em parte, mas então veremos face a face". Ela só vê parte das coisas na faculdade... quando verá face a face (podemos pensar numa espécie de confrontação com a realidade, não de luta e sim de conhecimento maior) as dificuldades e a forma de praticar o que é ensinado à sua maneira (nome de uma música do Capital Inicial, mto linda).

E o e-mail do Caio... o e-mail dele é... emocionante!!! Eu me snito como ela mesmo! Renova as forças, não importa o quão ruim foi o seu dia! Poxa, tão lindo!!! \o/

Li, amei o capítulo de hoje!!! Bjo grande no seu coração! \o/

aninha disse...

oi Li!! passando pra dar um oi básico... como sempre a correria... hor de estudar...rsrsrs!! bjus

Jéssi disse...

Ai q lindo.... amo esse livro... hauhauhauahuaa
beijos