31 de ago de 2007

Cap 89: Casamento da minha melhor amiga

Trilha sonora da cena (clique aqui)

Eu tinha preparado aquela festa como se fosse minha, afinal, era nada menos que o casamento da minha melhor amiga.

Cheguei bem cedo no salão e conferi tudo. Dos docinhos às mesas. Não admitiria que nada saísse errado. Provei cada comida da cozinha, olhei com meus próprios olhos todos os detalhes. O tempo passou muito rápido.

Assim que eu cheguei de manhã, senti a atenção das pessoas sobre mim. Alguém descobrira que eu tinha terminado meu relacionamento com Caio. Já até sabia que língua havia se soltado: a do tio Paulo. Como eu era madrinha do casamento, precisei pedir seu auxílio à noite para que eu pudesse coordenar a festa e ao mesmo tempo participar dela.

Expliquei-lhe o grau de delicadeza da cerimônia, já que Caio estaria presente. Nem eu, nem ele, desistimos do convite que nos fizeram, porém, continuávamos sem nos falar desde o baile.

Os funcionários olhavam-me com pena, como se eu fosse o ser mais infeliz do mundo e a todo o momento tentavam me agradar ou me vigiavam para ver se conseguiam pescar algum sinal de tristeza.

Mas, eu era extremamente profissional e consegui desempenhar muito bem o meu trabalho, de maneira fria e o mais imparcial possível.

Só pude relaxar mesmo, quando vi aqueles dois no altar, prontos para dizerem sim.

A presença de Caio perto de mim me trouxe um grande desconforto. Não havia como colocar uma pedra em cima de tudo com ele ao alcance dos meus olhos.

Passado o baque inicial, eu racionalizei toda a nossa situação. Quem olhasse de fora poderia considerá-lo o vilão. Mas, não havia vilão naquela história. Se eu abdicara de muita coisa por ele, Caio também se privara de muitas outras para estar comigo, dividido sua atenção entre mim e sua família.

Mas, por mais que meu amor por ele fosse uma força imutável dentro de mim, eu estava certa de que não queria me mudar, nem largar tudo para seguí-lo. Eu amava aquele homem, mas não o seu destino.

Não podia medir ainda o quanto estava perdendo ou me arrependeria, mas não me sentia um monstro como as pessoas me pintavam. Ouvi de muitas “amigas” que conheci na Internet que eu era egoísta e só pensava em mim, ou que era uma patricinha mal resolvida.

Ribeiro e Débi passaram por debaixo do teto de aço formado pelas espadas dos aspirantes amigos deles. A chuva de pétalas de rosas vermelhas que programei emocionou a todos.

Quando a atenção estava voltada para o casal e começaram a cumprimentá-los, eu fugi para respirar. Estava sentindo um ligeiro estado de sufocamento. Passei a mão no peito.

Levantei o meu vestido azul claro para andar mais rápido e não pisar na sua barra. Encontrei um garçom no meio do caminho e peguei uma taça de champanhe.

Fechei a porta da minha sala atrás de mim.

Sentei no sofá sozinha e olhei a taça molhando meus dedos com o suor do líquido gelado no vidro. Bebi de um gole só e fiz uma careta. Larguei a taça no chão e deitei-me encolhida, em posição fetal.

Lembrei da frase do meu tio, quando me delegou a primeira tarefa de ficar no banheiro auxiliando os convidados da festa. Ele me dizia para chamá-lo no rádio quando precisasse de sua ajuda.

Peguei o rádio que trouxera comigo e apertei o botão. Ele atendeu. Eu fiquei muda.

_Bela, é você? _ perguntou.

_É... Eu estou precisando de ajuda. _ falei baixinho.

_Onde você está?

_Na sala. _ respondi.

_Fique aí. _ desligou.

Tio Paulo entrou na sala um minuto depois, fechou a porta e se agachou na minha frente.

_Acho que você já agüentou demais... _ passou os dedos no meu cabelo e fez um afago.

Fechei os olhos e duas lágrimas caíram.

_Está na hora de você tirar uns dias. _ disse-me. _ Isso não é um pedido, é uma ordem.

Fiz que sim com a cabeça e ele beijou minha mão.

_Vou chamar um táxi para te levar para casa. Deixe o seu carro estacionado aqui. _ falou e foi até o telefone.

_Eu tenho que me despedir dos meus amigos... _ disse-lhe, sentando.

_Agora é hora de pensar em você. _ anunciou e me pegou pela cintura, eu me senti fraca. _ Vamos passar por dentro da cozinha e sair pelos fundos, tente fazer isso o mais rápido possível, sem que percebam.

_Tudo bem... _ sequei as lágrimas com as costas das mãos e fiz que sim com a cabeça.

Tio Paulo colocou-me dentro de um táxi e, antes de bater a porta, disse:

_Fique o tempo que precisar.

_Obrigada. _ sorri um sorriso triste.

Cheguei em casa e minha mãe perguntou por que eu havia voltado tão cedo. Falei-lhe de uma maneira maquinal que o trabalho havia acabado antes da hora e fechei a porta do meu quarto. Abri o zíper do vestido e deitei debaixo do meu edredom, sem roupa.

Eu podia agora começar a hibernar e só acordar quando a avalanche que me assolara tivesse derretido.

Fechei os olhos e dormi um sono pesado e escuro.

Autora: Li



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Não percam os capítulos finais do livro!

30 de ago de 2007

Cap 88: 000 dias. Eu te dei o melhor de mim

Trilha sonora da cena (clique aqui)

_Você tem certeza disso? _ Débi segurou minha mão e falou baixinho.

_Tenho... Eu tenho que tentar...

Estávamos no quarto de hotel. Parece que o tempo não passou, que ontem foi o Espadim e estávamos as duas com esperanças e expectativas sobre tudo que iria acontecer. Mas, amadurecemos e mudamos muito. Foi um duro trajeto e lá estávamos para o grande dia do aspirantado.

000 dias.

_Ele não quer falar comigo, mas eu não posso perdê-lo. _ mordi o lábio inferior e olhei para o alto para as lágrimas não correrem.

_Eu o entendo. _ Débi disse com a voz hesitante. _ Ele está sendo um pouco egoísta, eu sei... Mas ele só quer sua atenção. O Caio precisa de você e você só tem tempo e dedicação para o seu trabalho...

_Não é verdade...

_Bela, você é que não está conseguindo ver isso.

_Mas, eu preciso trabalhar. Ele não tem que se dedicar ao trabalho dele? Esse é o meu.

_Você não veio ao culto ecumênico, nem a colação de grau, nem a entrega da espada por causa do seu trabalho.

_Mas, eu vim ao baile! Eu só consegui sair de lá agora de tarde e vim correndo, estou cansada.

_Eu te entendo, mas ele sente sua falta.

_Eu também senti, Débi. Porque, nos meus melhores momentos, ele não esteve lá e nem por isso eu fiz jogo duro e deixei de falar com ele.

_É... _ ela suspirou. _ É complicado.

_Débi, você sabe de alguma coisa que eu não sei?

_Não. _ ela levantou-se e deu as costas. _ Seu vestido é lindo, deve ter sido uma fortuna.

_Um pequeno pecado. _ sorri.

O meu vestido era lindo, rosa escuro de um pano bem maleável. Sem brilhos, muito clean, com as costas nuas e um decote maravilhoso nos seios. Fiz maquiagem e cabelo em um salão próximo ao hotel e, à noite, eu cheguei com Débi e Ribeiro na festa.

Estava tudo mais lindo que no Espadim. Uma noite fabulosa. Meu coração estava batendo muito forte e minhas mãos suavam.

Encontramos Caio com seus familiares. Ele virou-se e me olhou. Sorri e dei uma voltinha tímida.

_Você veio... _ ele sorriu também.

_Nunca perderia esse dia.

Ele me pegou pela mão e fomos dançar na pista.

_Você está lindo... _ disse em seu ouvido.

Ele, realmente, estava muito bonito de roupa cinza, gravata, calça também cinza... Aspirante. Enfim. Eu sentia tanto orgulho porque eu tinha sido parte daquela conquista que era como minha também.

_Bela, preciso falar com você. _ ele novamente me pegou pela mão e me levou para fora do salão.

Ficamos afastados do barulho da música e das pessoas. Procuramos um lugar bem reservado.

_O que houve? _ perguntei.

Caio respirou fundo, coçou a testa. Eu o conhecia, ele estava se preparando demais para falar algo importante.

_Bela, eu pensei muito...

_Caio, se você continuar com esse suspense eu vou ter um filho. _ ri e tentei manter o humor.

_Bela, eu vou para o sul, como você já sabe. Eu pensei e pensei. Você tem razão, tem que seguir com sua vida, eu não tenho o direito de atrapalhar nada.

_Você não atrapalha. _ tentei tocá-lo, mas ele se afastou.

_Por favor, me deixa terminar, não está sendo fácil para mim. _ pediu. _ Bela, eu acho melhor você ficar aqui e eu ir. E... se um dia a vida nos unir de novo...

_Isso significa o fim?

_Não o fim, é como eu falei, quem sabe um dia...

_Caio, você está terminando comigo? Você está tomando essa decisão por nós dois, é isso mesmo?

_Bela, não vai ser fácil... e... eu prefiro as coisas assim.

_Ah! Você prefere assim? _ as lágrimas começaram a cair do meu rosto.

_Não é que gostaria que tudo acabasse desse modo, mas depois vai ver que vai ser melhor, você vai ficar livre...

_Ou você quer ficar livre para encontrar alguma guria na terra da Gisele Bündchen? _ fui irônica, aquilo não estava acontecendo comigo!

_Bela, por favor, vamos manter o nível da amizade.

_Caio, sai daqui, senão eu vou bater em você, sai. _ pedi, fechando os olhos.

_Eu só...

_Sai! _ pedi mais uma vez, mas enfática agora.

Ele foi embora.

Agora eu vou contar a vocês uma história que pouco se fala porque quem perde não conta sua história, esquece-a, rasga todas as páginas do livro da vida e queima os arquivos. Só ficam as versões felizes.

Eu vou contar a vocês o que acontece com aquelas que não tem um happy end neste conto de fadas.

Levei as mãos ao rosto e comecei a soluçar sozinha. Procurei uma escadaria que havia longe do salão e sentei. As lágrimas desciam negras por causa do lápis de olho e manchavam meu rosto.

Eu te dei o melhor de mim.
Eu abdiquei dos abraços e beijos e você desistiu.
Eu briguei com o orelhão toda vez que ninguém atendeu o telefone na ala e você desistiu.
Eu fiquei sozinha em nossos aniversários de namoro e você desistiu.
Eu enfrentei a crítica dos meus familiares e você desistiu.
Eu te vi partir a cada fim de semana, levando meu coração contigo e você desistiu.
Eu entendi seus serviços e você desistiu.
Eu entendi suas punições e você desistiu.
Eu entendi seus campos e você desistiu.
Eu enlouqueci e voltei a ficar bem e você desistiu.
Eu engordei e emagreci e você desistiu.
Eu enfrentei sua mãe e você desistiu.
Eu juntei dinheiro para viajar e te ver e você desistiu.
Eu agüentei as piadinhas dos falsos amigos e você desistiu.
Eu te ajudei na sua monografia e você desistiu.
Eu te acolhi na minha casa e você desistiu.
Eu esperei 4 anos e você desistiu.
Eu sofri noites de insônia e você desistiu.
Eu senti sua falta e, mesmo assim, esperei e você desistiu.

Eu morri e voltei e você desistiu.

Como pode fazer isso comigo? Como pode acabar comigo desta forma? Vamos voltar no tempo. Deixe-me sozinha na beira daquele rio e nunca apareça para aquele encontro. Não me beije, nem me diga nada. Você segue seu curso e eu, o meu.

Mas agora, depois de tudo que fiz por você, não pode desistir, porque eu te dei o melhor de mim.

_Bela?_ ouvi a voz de Débi, que correu até mim.

Suspendeu o vestido e subiu os degraus aos pulinhos.

_Você já sabia, não é? _ perguntei.

_Suspeitava… _ passou a mão no meu rosto. _ Estou aqui... _ abraçou-me.

_Isso não está acontecendo. _deneguei.

_Calma... Calma... Vou te levar de volta para o hotel.

_Não precisa. _ disse-lhe, respirei fundo e levantei.

Ela, ainda agachada, olhou-me de baixo.

_Eu só preciso chamar um táxi. _ abri minha bolsa e procurei o celular, havia anotado o número de um motorista.

_Tem certeza? Eu não quero te deixar sozinha.

_Essa é a sua noite. _ disse-lhe.

Depois de ligar, ela segurou minhas mãos e não soube o que dizer.

_Nem imagino o que é estar no seu lugar.

_Não pode imaginar mesmo...

_Aonde vai? _ ela perguntou-me.

_Eu vou esperar na entrada de frente para o retão.

_Eu vou com você.

_Não precisa, eu quero ir sozinha. _ pedi. _ Não diz a ninguém que me viu chorando.

_Pode deixar. É uma pena. Combinamos um encontrão com as meninas 1 hora da manhã, lembra?

_Lembro. Deixa meu beijo para elas. Melhor, não deixa nada. Eu só quero encontrar uma pessoa, a Bela. Preciso me reencontrar, ainda estou fora de mim.

_Por isso quero ir com você.

_Não, eu vou sozinha.

Caminhei lentamente e esperei o táxi em pé, só, na noite quente e iluminada por uma linda lua.

O carro chegou e, antes de entrar, olhei para o prédio atrás de mim e pensei se tudo tinha valido a pena para ter terminado daquela forma, separando Caio de mim.

_Eu já vi muitas meninas como você chorarem assim, é todo ano. _ disse-me o taxista. _ É por isso que minha filha não namora cadete, se namorar eu expulso de casa.

_Se não se importa, eu não quero ouvir nada. _disse-lhe.

_Desculpe.

Autora: Li



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29 de ago de 2007

Cap 87: Decisão

_ Amor, eu vou para o sul do país. _ disse com uma voz feliz.
Aquilo foi uma faca entrando no meu peito. _ Diz alguma coisa. _ pediu.

_Que bom que sua carreira vai seguir os rumos que você queria e...

_Você vem comigo? _ perguntou.

_Temos que sentar e analisar melhor tudo direitinho... _ foi o máximo que consegui dizer-lhe.

_Claro, esse fim de semana eu vou para aí. Preciso desligar, te amo.

_Também te amo. _ desliguei.

Fiquei em pé, parada, como se meu mundo tivesse parado de girar. As lágrimas desceram fartas pelos meus olhos. Dei três passos de costas e caí sentada na cama, escorreguei junto com o edredom e fiquei no chão. As minhas mãos protegeram meu rosto e eu chorei um soluço sufocado, triste, profundo.

O telefone tocou mais uma vez. Peguei-o e atendi.

_Bela! É a Débi!

_Oi. _ respondi.

_Saíram as vagas! O Ribeiro vai para o norte! Quero dizer, nós vamos para o norte. Estamos felizes, era o que ele queria e o que ele quer é o que quero também. _ sua voz era tão animada e cheia de gritinhos que me fez até sorrir.

_Que bom...

_E Caio, ligou?

_Não, ainda não. _ menti. _ Mas, vai ligar.

_Está tudo bem?

_Está sim.

_Bela, eu te conheço.

_Já disse que está. Tenho que desligar.

Desliguei. Aquele momento era só meu, não queria dividir com ninguém, nem estragar a felicidade dela. Chorei sem medida e, no dia seguinte, meu rosto estava desfigurado. Como eu poderia trabalhar daquela maneira?

Cortei algumas rodelas de batata com um pouco de sal e coloquei no meu rosto. Fiquei deitada na minha cama. Sem forças para me mexer. Mas, era preciso trabalhar. Fiz um sacrifício e me vesti.

Era preciso correr para deixar tudo pronto para o casamento de Débi. Havia muitos preparativos a serem arranjados.

***

Os olhos de Caio só esperavam uma resposta, logo aquela que eu não poderia lhe dar:

_Caio, eu vou ser muito sincera com você. E gostaria que me escutasse primeiro.

_Tá. _ ele sorriu e segurou minha mão. Estávamos no meu quarto, sentados em minha cama.

_Eu amo demais você, descobri que aquele meu amigo de segundo grau era o meu verdadeiro amor. Por você suportei mil coisas... Mas, eu não vou poder largar tudo agora e ir para o sul do Brasil. Não agora. Eu estou terminando minha faculdade, tenho os meus pais, o meu trabalho, minha vida aqui.

_... _ os olhos dele se encheram de lágrimas.

_Não faz isso… _ pedi, passando a mão no seu rosto.

_A minha carreira não terá significado nenhum sem você do meu lado. _ disse ele.

_Eu sei. Mas acha justo eu jogar tudo para o alto agora?

_... _ ele não respondeu, mas pelo que eu o conhecia aquele era o seu “não”.

_Eu pensei, repensei e achei melhor não tomar nenhuma atitude por impulso. Se você me ama de verdade, vai entender meu lado.

_A maioria das namoradas dos meus amigos vão com eles, estão felizes e...

_Caio?! Cada um sabe o tanto que tem a perder e eu tenho muito.

_E me perder?

_Nós passamos tanto tempo separados e não nos perdemos. _ lembrei-o.

_E quanto tempo mais eu terei que esperar para você estar preparada? _ perguntou-me.

_Eu não tenho essa resposta para você. _ disse.

Ele abaixou a cabeça.

Meu celular tocou, era do trabalho. Revirei os olhos, era só o que me faltava agora... Atendi.

_Dona Isabela? O DJ acabou de ligar, o pai sofreu um acidente e ele não vem tocar. E agora?

_Calma, para tudo se dá um jeito. _ fiquei de pé, andei pelo quarto e pensei. _ Já sei, vou ligar para um outro que tenho aqui na minha agenda e... _ abri minha bolsa. _ Droga, deixei ela aí. _ coloquei meu cabelo atrás da orelha e equilibrei o telefone entre a bochecha e o ombro. _ E o resto, está tudo certo?

_Sim, está caminhando. _ disse minha assistente.

_Tudo bem, estou chegando aí. Vou arrumar um DJ, nem que eu mesma tenha que controlar uma mesa de som pela primeira vez. _ desliguei o telefone e olhei para Caio.

Ele balançou a cabeça para os lados com desdém e saiu do quarto.

_Caio, vem aqui, desculpe, eram problemas do trabalho... _ fui atrás dele.

Caio pegou a mala que a pouco tinha deixado no chão da sala.

_Aonde vai? Você acabou de chegar de Resende.

_Vou embarcar para São Paulo.

_Quê? Como assim, meu amor? Caio, não pode fazer pirraça agora, as coisas não se resolvem assim, eu tenho que resolver os problemas do trabalho.

_Tudo bem, Bela. Eu já entendi, “você tem que resolver os problemas do trabalho”, não precisa repetir. _ entregou-me o convite da festa. _ Aí está. _ pegou a mala.

_Não, por favor, não vai embora. _ implorei.

_Me deixa. _ ele pediu e abriu a porta do apartamento.

_Tá, se você quer ir, ao menos deixe eu te levar de carro. _ ofereci.

_Não quero que perca seu tempo precioso para achar um DJ. _ lembrou-me.

Ele estava certo, se eu fosse, não teria como conseguir um DJ e a festa sairia um fiasco, muito dinheiro e responsabilidade estavam envolvidos nisso.

_Caio, eu te amo. _ eu falei, antes da porta do elevador se fechar.

A última imagem que tive dele era de seu rosto duro e amargurado.

_Droga! _ gritei e minha vizinha apareceu na porta, assustada.

Não lhe dei nenhuma satisfação e bati a porta do meu apartamento.

Fui buscar minha bolsa.

Que droga, droga, droga, meu mundo estava começando a vir abaixo!

Autora: Li



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28 de ago de 2007

Cap 86: Coração partido

Trilha sonora da cena (ouça aqui!)

_É o seu tio Paulo. _ disse a recepcionista do hospital.

_O que aconteceu com ele? _ perguntei no cume da minha aflição.

_Ele sofreu um infarto, foi trazido para cá e precisou operar.

_Ele está bem? _ interrompi-a, odiava aquelas frases como se estivesse me preparando para algo pior, era insuportável.

_Está acordando da anestesia. Se quiser vê-lo...

Abaixei a cabeça e respirei aliviada, não suportaria receber nenhuma notícia de morte. Minha vida já incluía uma cota de perdas grande demais.

_Claro, vou para aí agora. _ levantei-me e anotei o endereço, enquanto caminhava em direção ao estacionamento.

***

Demorou para que eu pudesse conversar com ele, mas esperei toda a madrugada ali, sentada ao lado do seu leito. Infelizmente, acabei dormindo e só na manhã seguinte nos falamos.

_Oi... _ eu sorri e depois me estiquei, precisava espreguiçar, tinha dormido de mal jeito na cadeira.

_Dizem que vaso ruim não quebra... _ brincou.

_Que bom que, pelo menos, quando trinca tem conserto.

_Quem ainda precisa de mim? _ desdenhou ele.

_Eu. _ respondi prontamente.

_Nessas horas eu gostaria de ter filhos. _ confessou. _ Para que eles estivessem aqui ao lado da cama... Mas, é melhor que não os tenha, pois eles estariam com os olhos desesperados de quem vai perder alguém que ama, isso é duro.

_Você me tem, uma filha postiça. _ estiquei minha mão e apoiei no seu braço.

_É bom saber que deixei o que conquistei com você.

_E está dando um trabalhão para administrar.

_Eu me refiro, principalmente, a sabedoria que conquistei, um pouco dela pude passar a você. A sabedoria é o maior bem de uma pessoa, ela nos faz tomar as decisões certas. Isso é o que importa. Não adianta ter dinheiro se não se tem sabedoria.

_À duras penas, estou aprendendo isso.

Olhei para aquele homem de cabelos crespos, já grisalhos nos lados, e barba rala branca, contrastando com a cor de sua pele morena pelo sol. Ele modificara a minha vida de uma maneira radical, não suportaria perdê-lo para sempre. Era como se a qualquer momento eu pudesse pegar o rádio e chamá-lo para me socorrer.

_Nós ainda não tivemos a oportunidade de falarmos de você. _ observou. _ Agora que estou aqui no leito, pode falar. Se eu morrer, não corre o risco de eu contar a ninguém.

_Não tem problema, se você contar eu te mato mesmo assim. _ ri e ele riu também.

_Como vai seu namoro? _ perguntou.

_Bem. _ suspirei.

_Isso é o que você aprendeu a falar para todo mundo. _ comentou. _ Vou te dar mais uma chance e perguntar de novo. Como vai seu namoro?

_Bem complicado.

_Ah! Eu sabia que estava faltando o complemento.

Rimos juntos.

_A questão não é nós dois, sabe? Eu o amo e ele me ama. Isso é fato. O problema é que, ao se formar, Caio quer ir para longe, para o sul do país...

Tio Paulo deve, imediatamente, ter vislumbrado o quanto isso afetaria os seus negócios, pois eu poderia largar tudo.

_Essa é a mais difícil lição: amar uma pessoa junto com o seu mundo. Porque o amor não existe em estado puro, o amor real existe junto com tudo que o rodeia: problemas, família, trabalho... _ disse-me.

O que o tio entendia de amor? Será que ele já amara alguém? O mais próximo que eu sabia de um caso seu com uma mulher fora mesmo com Kelly, mas isso não me pareceu intenso o suficiente para lhe ensinar essas lições.

_Se eu não for, as comportas do mundo vão descer sobre mim e me aterrar. Todos vão pensar que eu não o amava de verdade, que o traí por fazê-lo acreditar que o seguiria e agora mudara de decisão...

_Isabela, a única pessoa que conta se vai pensar isso é o Caio.

_Não sei se pensará... pois ele ainda tem muito que aprender para evoluir, está tão empolgado com os rumos da própria carreira que não enxerga a minha, pois para ele parece fácil: “Não se preocupe, Bela, vamos morar sempre em capitais e nunca te faltará emprego”. Simples, não?

_Puxa, que barra hen? Vai um soro aí para você? _ ofereceu.

_Não, obrigada, eu odeio agulhas. _ ri e balancei a cabeça para os lados.

_Você quer largar tudo? Porque se quiser, precisa me dizer.

_Eu não quero.

Confessar aquilo de maneira tão firme me trouxe pela primeira vez um alívio. Eu podia falar com ele abertamente, sem ter que ouvir argumentações em favor de Caio. Nem mais com Débi, entorpecida com o próprio casamento, eu conseguia manter esse tipo de diálogo.

_"Eu não quero", três palavras que tem um poder de mudar tudo. _ comentou ele. _ Vejo que aprendeu a lição.

_ Mas, a lição não era eu saber o que eu queria? _ corrigi.

_Também. Mas tão importante quanto saber o que você quer é saber o que você não quer, pois já é um grande passo você distinguir aquilo que não gostaria para sua vida.

_Eu tenho um medo enorme de olhar lá para trás depois e ver que eu perdi um grande amor por causa do trabalho.

_O problema não é o trabalho, Isabela, mas um estilo de vida. Estilo esse que te faz feliz, que te faz realizada. E Caio não imaginava que era esse que você queria quando ele tem um outro a te oferecer. E esse outro você não quer.

_Eu poderia ir, meter a cara e experimentar, ver se gosto, por amor, como dizem...

_Mas, não é só no amor que se perde. Na vida, também. E se você deixar isso para trás, talvez não os tenha de novo.

_Eu sei, mas entre o estilo de vida e Caio, parece óbvio que a perda maior seria ele. Mas, tê-lo e ser incompleta me traria, da mesma maneira, infelicidade.

_Qualquer escolha que faça te provocará perdas. _ lembrou-me.

_Eu tenho meus amigos que amo, que me fazem sentir-me em um ninho acolhedor. Meus pais, tão velhos e cansados já, que, a qualquer momento, precisam de um apoio meu, seja financeiro, ou de atenção e afeto. Os funcionários da empresa, que cuido com tanta dedicação, percebendo a necessidade de cada um deles...

_Eles iriam aprender a viver sem você. Quem realmente precisa deles é você, Isabela. _ mostrou-me outro ângulo dos fatos.

_Exatamente, sou eu que não vivo sem eles ao meu redor. E eles são tão importantes quanto Caio. Não importa onde ele esteja, eu vou amá-lo.

_Mas, corre o risco de só amá-lo, amá-lo para todo o sempre. Só que não basta amor sem contato físico, sem correspondência. Ele pode encontrar outra.

_Nem me fale disso. _ abaixei a cabeça e a enterrei nas mãos. _ É muito cruel, não queria fazer essas escolhas.

_A vida só vale pelas escolhas que fazemos. Mas, não deixe de escutar o seu coração, ele está te dizendo o que você não quer. O coração de Caio é importante, mas e o seu?

_Já pensei e repensei nisso milhões de vezes. Eu estava conversando com uma colega que conheci na Internet, que também namora um militar. Falei para ela que não queria mais casar agora, que meu namorado não estava preparado... e ela me disse: “Posso te ser sincera? Você não o ama. Porque é tão egoísta que não quer crescer junto com ele.” Foi tão cruel ouvir isso.

_Um cego não precisa de outro cego para guiá-lo.

_O senhor tem um infarto e é o meu coração que está quebrado.

Sorri, com olhos marejados de lágrimas.

***

À noite, sentei em frente ao meu computador e comecei a escrever no meu blog:

"Que vai ser de mim, uma flor seca ao solo, desligada do tronco, sem seiva, sem luz, relegada a vida? Quem vai curar o meu coração partido? E se você se vai, que serei eu, amputada de um pedaço da alma que vai levar. Depois de você não há nada. Quem vai me amar o corpo e me fará ver as estrelas de olhos fechados? Não se vá sem meus carinhos, não aceite de outra o que eu aprendi a te dar com devoção. Estou entre você e eu e não posso escolher os dois.

Você abraça a bandeira, a sua farda a sua missão e deixa seu rastro para eu seguir, mas eu não quero caminhar na tua sombra, você sabe que no mais profundo de minha alma há a dor do que me pedes. Quem me vai cobrir nas noites que fizer frio, quem vai me cuidar, quando você partir?

Não vai, meu amor, não sem mim. Você entrou na minha vida como uma tinta que entranha na carne e não adianta esfregar, você não sai, está aqui em mim, da cabeça às entranhas. Por que me quis para agora me pedir um preço tão alto? Por que me escolheu para ser sua, por que me deu esta missão, que jogo é esse, diga-me?"


Meu telefone do quarto tocou, parei de escrever para atender. Era Caio:

_Amor, as vagas saíram. _ disse-me ele.

Eu preferia que a frase fosse: “Eu fiquei punido esse fim de semana”, “Estou preso no próximo”, “Eu não vou poder sair no feriado”...

_E? _ perguntei, apoiando minhas mãos na escrivaninha, onde ficava o telefone, abaixei a cabeça, me preparando para a notícia.

Fechei os olhos.

Autora: Li



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O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

27 de ago de 2007

Cap 85: Último ano

O quarto ano começou com o estresse da monografia de Caio. Ele ficou sugado, pois além de fazer tudo que fazia antes, ainda tinha que ler a bibliografia e redigir sobre o tema. Isso, claro, diminuiu ainda mais o nosso tempo juntos e, principalmente, nossa comunicação.

Para “melhorar”, as provas que deveriam ser feitas durante o ano todo foram compactadas no primeiro semestre de uma vez só. Mais dedicação aos estudos e menos tempo para Bela...

Isso trouxe um desgaste ainda maior, porém não aparente. Pois eu estava tão envolvida com meu trabalho e minhas responsabilidades que, quando sobrava alguma brecha, eu estudava para a minha faculdade, que a essa altura já estava no 7º período.

Descobri que estarmos muito ocupados nos impedia de mergulhar em uma depressão, porém, nos fazia um pouco distantes e desconhecidos um do outro, pois não havia tantas oportunidades de dividirmos o que passávamos.

Eu nunca senti uma falta tão grande de um namoro real, de ter alguém de verdade do meu lado. E posso confessar: falta de um homem maduro. Não um garoto cheio de dúvidas e que sabe muito pouco do mundo aqui fora. Eu queria um homem mais velho que me desse segurança. Sendo que Caio não era esse homem e só servia se fosse ele, então, o jeito era esperar que o tempo passasse e o tornasse assim.

Depois, vieram os estágios e ele foi para longe. Mais longe de mim. Eu não enlouqueci porque tinha os pés muito firmes no chão e sabia o que eu queria: crescer ainda mais como mulher e profissionalmente. Se eu não tivesse esse foco para me equilibrar, já teria desmoronado com a força do vento da saudade.

Num desses dias em que só o amor próprio me mantinha de pé, resolvi entregar o meu cartão de crédito à recepcionista do salão. Iria tomar um banho de beleza e não importava o quanto custasse fazer: unhas, cabelo, massagem, limpeza de pele, depilação.

_ Pronta para desfilar glamourosa por aí. _ disse o cabeleireiro tirando o avental.

_Ai, estou linda! _ ri, muito feliz. Finalmente, eu estava com outra cara.

Não sei se Caio iria gostar do meu novo look de cabelo curto. Ele estava agora como o da Cameron Dias em “O Amor não tira férias” (fora uma foto dela que eu mostrara ao cabeleireiro). O que importava é que eu parecia mais moderna e com menos jeito de estudante.

Dei um giro no ar e ri mais ainda.

_Ficou perfeito! Eu amei! _ dei dois beijinhos nele e paguei minha conta.

Procurei não fazer nenhum movimento brusco por causa da minha unha, mas quando a gente menos precisa pegar coisas... o celular toca.

Revirei os olhos e sentei em um daqueles bancos de corredor que há nos shoppings. Abri, delicadamente, o zíper da bolsa e puxei muito devagar o celular, como aquelas mãos mecânicas que agarram os bichinhos de pelúcia nas máquinas.

_ Alô? _ atendi.

_Boa tarde, é a senhora Isabela? _ perguntou uma voz feminina.

_Sim, sou eu.

_Eu sou a recepcionista do hospital...

Fechei os olhos, meu coração já estava na boca e minhas mãos começaram a suar.

_Me deram seu telefone para entrar em contato com um parente.

_O que houve? _ minha voz saiu trêmula.

Autora: Li



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* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

26 de ago de 2007

Cap 84: É impossível ser feliz sozinha

Mais um ano chega nas últimas folhinhas do calendário e me vi dessa vez passando a véspera do Natal em São Paulo, na casa dos meus sogros. Entre rabanadas e doces, as três gerações de mulheres se reuniam na cozinha, lugar sagrado das conversas e fofocas. Minha sogra, eu e a avó de Caio preparávamos os pães com leite, canela, ovos e muito açúcar.

_O Caio me falou que você agora está em um bom emprego. _ comentou minha sogra.

_Sim, graças a Deus, minha vida se ajeitou. Ganho muito bem, estou acompanhando a faculdade sem problemas e até fazendo meu pé de meia. Isso foi sempre meu sonho.

As duas se entreolharam. Eu já sabia o que pensavam. Nem precisavam traduzir. Mas a mãe de Caio resolveu se manifestar:

_É por isso que sempre tive problemas com você.

_É? E por quê? _ perguntei. Nunca imaginei que trataríamos daquele assunto sem rancor.

_Eu sempre soube que você era a namorada perfeita para um civil e não para um militar. Porque não era meu filho que iria sofrer, mas você.

Então, a todo momento ela estava preocupada comigo?

_...E de quebra vendo você sofrer, ele sofreria. _ completou o pensamento. _ Claro, com isso eu sofro junto.

_Eu posso não ser perfeita, mas ele não precisa de alguém perfeito.

_É, pode não precisar da perfeição, mas você precisa do seu emprego, dos seus amigos, da sua família...

_Eu sei. _ concordei. _ Mas qualquer uma outra não passaria pelo mesmo?

_O problema não é passar, é querer passar.

_E quem disse que eu não quero passar?

_Bela, você quer deixar tudo para trás? _ aproveitou a oportunidade para fazer a pergunta.

_Hei! Não obrigue a menina a tomar decisões agora. _ a avó de Caio pegou a bacia com açúcar para lavar.

_Tudo bem. Foi só uma pergunta. _ minha sogra levantou as mãos para o ar.

Apesar daquele assunto já estar me enchendo, não fiquei triste ou incomodada, elas souberam fazer um ambiente agradável para mim. Cada vez mais eu não tinha motivos para decepcioná-las.

Respirei fundo.

Depois que todos comeram a linda ceia e distribuíram os presentes, fomos dormir, vencidos pelo cansaço. Alonguei mais a minha presença no quarto de Caio e o vi dormir em sua cama.

Acariciei seu cabelo. Estávamos deitados juntos, ouvindo música no meu MP4. Tirei um dos fones do meu ouvido delicadamente e coloquei no seu.

Levantei-me e fui até a janela do quarto. Ventava, mas não fazia o calor abafado e úmido do RJ.

O tempo passava me desafiando. As meninas que conheci na Internet começaram a entrar na contagem regressiva e aquilo me atormentava ainda mais.

Débi tão feliz com seu casamento só sabia falar disso, me deixando ainda mais aflita, mas tentava não fazê-la perceber.

Quando se tem duas fortes opções é muito mais difícil escolher e esse era o meu caso.

Dei um beijo, então, em meu amor e fiquei olhando seu rosto sereno. Conversei com ele em pensamento:

“Eu te amo, amo tudo que fez com a minha vida. Mas me amo também: amo a mim e aos meus sonhos. E entre você e eu, queria escolher nós dois, mas não será possível. Não sei se suportará saber disso, mas eu não ficarei de pé se me deixar. Você é meu amigo, meu companheiro, minha vida...”

Senti que, se ficasse naquele monólogo, choraria.

Deitei no outro quarto e fechei os olhos. Fiquei quietinha ouvindo música:

"Vou te contar, os olhos já não podem ver,
Coisas que só o coração pode entender,
Fundamental é mesmo o amor,
É impossível ser feliz sozinho".

Autora: Li



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25 de ago de 2007

Cap 83: Rodeada pelos cães

Levantei-me da cama e fiquei de pé, atrás de Caio. Procurei no computador a justificativa para seu semblante desnorteado e as lágrimas em seus olhos.

_O que é isso? _ ele apontou para a tela.
_Essa sou eu e meu tio. _ respondi, vendo cinco fotos minhas ao lado do tio Paulo.

Em uma delas eu saía do carro e ele abria a porta para mim. Na outra, ele estava com as mãos nas minhas costas e caminhávamos na rua. Havia, também, uma em que eu e ele almoçávamos em um restaurante e eu dava uma gargalhada. Mais uma foto em que nós tomávamos café em uma livraria e, por último, uma imagem de nós dois conversando em um canto do salão de festas e ele me dizendo alguma coisa ao ouvido.

_E o que vocês estão fazendo juntos? _ perguntou-me.

_Caio, não estou entendendo... _ eu ri. _ Você andou me bisbilhotando?

Por que ele estava fazendo aquelas perguntas se nunca escondi que trabalhei para o meu tio e com este aprendi tudo que sei hoje? Era óbvio que nós não ficávamos enfurnados no seu escritório. Precisávamos sair, buscar encomendas na rua e, evidentemente, almoçar, tomar um café. Era parte do trabalho e só trabalho. O que poderia haver entre o meu tio e eu? Era nojenta essa possibilidade.

_Ele tem idade para ser meu pai, como é que você consegue imaginar isso? _ disse tudo isso a ele com um ar de horror e desapontamento. _ Não acredito, Caio, que pensou isso de mim.

_Eu ou essa pessoa? _ virou-se para o computador e maximizou a janela do seu e-mail pessoal.

Comecei a ler em voz alta e minha voz foi sumindo à medida em que lia, só os meus olhos conseguiram acompanhar as palavras linha a linha até o fim:

“Caio. Não é assim que ela chama seu nome por aí, dando uma de boa namoradinha? Talvez seja a hora de uma pessoa ter pena de você e te contar o que a sua Belinha faz pelas suas costas. Afinal, daqui a pouco você nem vai conseguir passar pela porta com esses galhos que estão nascendo na sua testa."

Eu ri. Caio olhou para mim e depois para o computador para ver do que eu estava achando graça.

_Você não acreditou nisso, não é? _ apontei para o e-mail.

Balancei a cabeça para os lados e continuei a ler:

"Você está lá longe e nem imagina que sua namorada te trai com o próprio tio. Todo mundo sabe disso e você vem aqui pagar o papel de babaca. Fiquei com muita pena e resolvi te contar. E vou te dar um bom argumento para abrir seus olhos: quem dá de mão beijada tudo que tem se não for para uma amante que o serve muito bem na cama?"

Parei de ler e pus as mãos na cintura. Respirei fundo.

_Você tinha que saber por alguém o que eles fazem na sala trancados. Todos nós ouvimos e já estamos fartos dessa baixaria. Eu sou uma pessoa de moral e bons costumes, não agüento ver alguém sendo chifrado desse jeito pelas costas. Você deve estar sentindo como se fosse uma apunhalada, não é? Mas é melhor saber agora do que pegar essa vadia na sua cama com o próprio tio, quando forem casados.

_Isso tudo é uma grande... sujeira. _ explodi. _ Caio, olha para mim.

Ele me olhou.

_Você não acreditou, acreditou? Porque se por algum momento levou fé nesse e-mail, eu vou sentir vergonha de mim mesma por ter pensado que você me amava acima de tudo, até mesmo desses falsos.

Caio ficou calado.

_Essa pessoa provavelmente tem inveja de mim e quer nos destruir! Não enxerga isso? Não é um amigo seu, nem alguém que confie que está te dizendo isso, mas um anônimo! Como pode dar crédito a alguém que se esconde?

_Se ponha no meu lugar? Eu fico longe, nunca vejo o que está fazendo e, de repente, leio uma coisa dessas...

_A confiança é aquilo que não precisamos ver com os olhos, mas acreditar com a alma. E sua alma não confia mais em mim.

_Bela, a minha alma já não te reconhece mais.

_Do que está falando? _ sentei na cama.

Aquela frase sim teve o poder de me abalar muito mais que todas as asneiras do e-mail.

_Eu, a cada vez que venho te ver, encontro você mais diferente, nem parece aquela Bela minha amiga. E aí eu fico muito confuso e... _ Caio levou a mão à cabeça.

Levantei-me e o puxei pelo braço. Ele deixou-se levar e sentamos lado a lado na cama. Abracei-o. Era disso que precisava, do meu carinho e segurança, que ultimamente eu não lhe dei por causa de tanto trabalho.

_Caio, olha nos meus olhos. Lembra dos olhos da sua amiga, olha para mim... _ pedi. _ Eu te amo. Eu te amo.

_Eu estou confuso...

_Confuso com o quê? Você não me ama mais, é isso? _ minha voz embargou e sumiu.

_Amo, mas...

_Caio, você quer terminar comigo?! _ procurei seus olhos, mas ele teimava em abaixar a cabeça.

_É tudo... Eu tenho que saber para onde ir, mas não sei se você vai comigo, eu não quero te perder...

_Caio, presta atenção. _ respirei fundo e falei pausadamente, como quem dialoga com uma criança. _ Viva cada coisa a seu tempo. Se você tem um sonho, siga-o. Ano que vem é só ano que vem. O quarto ano está longe.

_Bela, eu não quero seguir o meu sonho sem você.

_Nem eu, meu amor. _ sorri e o abracei com carinho. _ puxei-o para meu colo e ele deitou na minha perna, acariciei seu cabelo espetado e beijei sua cabeça. _Caio, eu estou mudando como todo mundo muda, só que você está sempre longe e não percebe a mudança lenta e gradual, só aos saltos, de fim de semana em fim de semana. Se estivesse do meu lado veria tudo passo a passo. Não estou te culpando por isso, o que não pode é querer que eu pare no tempo e continue, eternamente, sendo a Bela que estudava na escola contigo. Não tem por que ficar assim, nem acreditar nessas besteiras do e-mail. Eu sempre fui fiel a você. Agora não sei, quantas cadetinas vou encontrar naquele aspirantado, hen?

_Só umas duas. _ brincou.

_Ah! É? _ ri alto e fiz cócegas na sua barriga.

Ele sentou-se e me abraçou com muita força. Seu corpo estava quente e sua pele macia, os músculos muito fortes. Qualquer problema era pequeno, se ele me dissesse que me amava e que não queria terminar comigo.

_Agora dá um pulo dessa cama, vamos escovar os dentes e tomar café juntos. Vamos?

Ele fez que sim e foi para o banheiro. Levantei-me e aproveitei que tinha saído para encaminhar o e-mail ainda aberto para o meu endereço. Aquilo não ficaria barato.

Segunda-feira, a primeira coisa que fiz foi relê-lo. Puxei um bloco de notas e escolhi uma caneta no porta-lápis.

Olhei para as fotos e esperei descobrir alguma pista nelas. Todas foram tiradas pela manhã. Então, a pessoa trabalhava no turno da tarde. Anotei isso. As imagens tinham uma boa qualidade e eram bem tiradas. Provavelmente, essa pessoa tinha habilidade com fotografias. Mas, aquela não era uma grande pista já que, qualquer um, com uma boa câmera digital consegue um resultado satisfatório.

O texto do e-mail estava bem escrito. Não era alguém que costumasse a escrever em chats, ou msn, não tinha os vícios de abreviação. Provavelmente, não era jovem.

Larguei o lápis e peguei o telefone. Chega de suposições incertas. Liguei para o meu tio e pedi que abrisse o e-mail que acabava de encaminhar-lhe.

_E seu namorado sobreviveu a isso? _ foi o primeiro comentário do meu tio.

_Com a minha ajuda... _ suspirei. _ Você sabe quem é?

_Eu não gosto de julgar e ser injusto...

_Paulo, você conhece seus funcionários melhor do que eu. Sabe de algum que possa estar querendo me prejudicar, que tenha algum motivo?

_... _ ele emudeceu. _ É melhor deixar isso para lá. _ quis desconversar.

_Quem é? _ perguntei, cortando-o. Ficava claro que sabia.

_Não quero que a prejudique.

_Então, é uma mulher? Era o que eu suspeitava. Paulo, você tinha algum relacionamento com uma funcionária que esperava com isso chegar onde estou e ficou frustrada com o rumo que deu aos negócios, colocando-me neste posto?

_Você aprendeu a ser tão direta comigo? _ riu.

_Essa não é a resposta que eu estou esperando.

_Tive sim... Foi uma coisa rápida com a Kelly.

_Kelly? Kelly... Ah! Animadora de festa?

_É.

_E essa cena que ela descreve da sala foi real?

_... _ ouvi apenas a sua respiração. _ Foi.

_Tudo bem, era só isso que eu precisava saber.

_O que vai fazer? Não quero que a prejudique, ela precisa desse emprego.

_Não se preocupe, o senhor também me deu algumas lições de ética. Eu anotei no caderninho.

Desliguei e mordi a tampa da caneta. Olhei para a caderneta de lições e puxei-a para mim. Havia frases soltas escritas ao longo dos meses que trabalhei de perto com meu tio:

_ “Você não estará sempre rodeada de amigos, mas os inimigos não devem ser em maior número”; “Há uma inveja boa e uma inveja má. A inveja má é quando a pessoa quer ter o que você tem e não quer que você tenha”; “Seja dura nas suas decisões, firme, mas nunca cometa injustiças”; “Negócios são negócios, amizades à parte”; “O orkut é um álbum de figurinhas”.

O orkut. Agora eu entendi por onde a pessoa tinha descoberto coisas sobre mim. Tomei a decisão, naquele momento, de que não mais permitiria que alguém entrasse na minha vida pessoal para destruí-la. Agora, o meu relacionamento seria estritamente entre mim e Caio. Loguei no meu perfil e apaguei todos os dados referentes a nós e limpei meu álbum. Estabeleci uma meta de que a minha vida privada era apenas assunto meu e de mais ninguém.

Lembrei do meu blog. Fazia tempo que não postava lá, tinha esquecido por completo. Ao menos nele eu era só a Bela, perdida na vastidão de milhares de blogs, não tinha com o que me preocupar. Abri um arquivo de Word para atualizá-lo.

_Dona Isabela? Visita para a senhora. _ ouvi o meu rádio tocar, era o porteiro.

_Nossa! Agora eu tenho que ser anunciada? _ Débi fez bico assim que eu abri a porta. Entrou na sala e olhou tudo ao redor. _ Você está chique, hen, garota? _ me deu um tapinha no ombro.

_Obrigada. _ sorri e sentei-me novamente.

_Quer alguma coisa? Posso pedir.

_Quero, tem aqueles brigadeiros de festa?

_Posso ver..._ peguei no telefone.

_Estou brincando. _ ela sentou-se à minha frente. _ Eu estou fazendo uma dieta porque... _ ela parou de falar e começou a procurar uma coisa em sua bolsa. _ Isso é para você.

Peguei o envelope branco e o abri. Era o convite de casamento de Ribeiro e Débi:

_Você quer ser minha madrinha? _ perguntou.

_Eu? _ fui pega de surpresa pela notícia.

_Claro, e o Ribeiro vai chamar o Caio para padrinho.

_Lógico, vai ser maravilhoso. Não posso acreditar. _estava sem palavras.

_Nem eu! Esse é só o convite, eu tenho muitas coisas para organizar. Por isso, estamos fazendo com muita antecedência. Todo mundo diz que o tempo voa e quero que tudo saia perfeito. Você vai me ajudar, né? Já que agora está expert no assunto.

_Vou sim. Pode deixar... _ levantei-me da mesa e dei a volta para abraçá-la. _ Eu quero que você seja muito feliz.

_Deus te ouça. E as novidades? Agora eu tenho que agendar uma audiência para falar contigo, é? _ brincou.

_Tanta coisa... _ suspirei e falei-lhe sobre o e-mail.

_Iiiih, vai se acostumando com isso. Afinal, você ocupa um cargo de poder. E o que vai fazer?

_Não sei... _ falei vagamente e balancei a cabeça para os lados.

***

Levei o que era confiado a mim para o chá de bebê do neto da Gracinda, a nossa mais antiga cozinheira. Ela pegou o embrulho como se recebesse um pote de ouro e agradeceu-me com um abraço apertado e cheirando a alho.

_É uma pena que eu não possa ir, mas aqui está minha contribuição. _ disse-lhe.

_Obrigada, minha filha. Você é maravilhosa. Quem não gostar de você é porque não te conhece... _ comentou.

Se ela soubesse que de fato alguns tinham motivos mesquinhos para quererem me destruir.

_Ronaldo, vem aqui! _ ouvimos um grito e depois a porta da cozinha se abriu. Um garoto entrou correndo e deu a volta na mesa, se escondeu.

Kelly entrou procurando o filho e parou de gritar envergonhada, quando deu por minha presença.

_Desculpe, dona Isabela, eu precisei trazê-lo porque a escola não teve aula hoje e eu não tive com quem deixá-lo...

_Tudo bem. _ respondi, fazendo pouco caso.

Ela o puxou pelo braço e o levou para fora, ralhando baixinho com o filho.

_Essa aí é batalhadora, cria esse garoto sozinha. _ comentou Gracinda.

Pensei sobre as conseqüências de mandá-la embora sem uma justa e concreta causa. Enterrei aquela idéia e voltei ao trabalho.

Eu precisava aprender a trabalhar rodeada pelos cães.


Autora: Li



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24 de ago de 2007

Cap 82: Poderosa chefona

Meu tio entrou novamente na sala e me ofereceu a mão estendida. Eu olhei para a porta, esperando alguém entrar. Seria constrangedor meu futuro chefe chegar e me ver ali em seu posto, pareceria até que queria roubar o seu lugar. Levantei-me, desajeitada. Ele continuou com a mão estendida no ar. Eu ri, aquilo era alguma pegadinha?

_Gostou da sala? Da arrumação? As flores estão boas? _ perguntou-me.

_Eu não estou entendendo... _ franzi a testa e fiquei séria.

_Bela, você me provou que é capaz. Agora sei que posso curtir minhas pescarias em paz, que alguém estará cuidando de tudo isso para mim. Não se preocupe, seu salário irá aumentar substancialmente. Eu tenho dois carros, um deles será para seu uso. Não quero te ver por aí pegando ônibus. E, claro, a partir de agora, renove tudo, guarda-roupa, sapatos, viva em clínicas de estética... Não é mais uma empregada, você agora manda nisso aqui...

Enquanto ele falava, eu mantinha minha boca ligeiramente entreaberta, um corpo congelado no ar. Parecia algum programa daqueles que uma pessoa pobre ganha mil ajudas de empresas que doam coisas. Ela fica ali colocando a mão no rosto sem acreditar. No meu caso não era doação, era fruto do meu trabalho reconhecido.

_Eu não tenho filhas, nem mulher... Um dia eu sei que meus olhos vão fechar e se você souber duplicar o que estou te confiando a gerência, quem sabe tudo no fim acabará sendo seu mesmo?

_Eu... _ minha voz conseguiu sair pela primeira vez.

_O senhor me chamou? _ o chefe da cozinha apontou a cabeça na porta entreaberta.

_Sim, chamei. Onde estão os outros? _ tio Paulo perguntou, fazendo sinal para que ele entrasse.

Quando dei por mim a sala encheu e todas as principais pessoas que compunham a empresa estavam ansiosas para saber a notícia que eu já sabia. De maneira resumida, tio Paulo comunicou-lhes que estava se aposentando e confiando tudo a mim. Deixou claro, que não sumiria, de vez em quando viria conferir se tudo estava no nível que me entregara.

_Então, Isabela, o que tem a nos dizer? _ perguntou.

Eu pensei naquelas pessoas, melhor, naquelas vidas agora em minhas mãos. Rapidamente cruzou com esses pensamentos o meu relacionamento com um militar. E quando viesse a primeira transferência? Mas eu estava tão explosivamente feliz e honrada que afastei esse pensamento para não estragar o momento.

_Eu só tenho a dizer que... estou muito feliz por ter acreditado em mim e... vou fazer o possível para não se arrepender. _ discursei.

Depois de todos saírem, eu fique na minha sala. Sim, minha! Sentei na cadeira e olhei as flores. Ainda era inacreditável. Não pensei duas vezes e disquei o número do telefone da Débi. Pedi para que viesse me ver no meu novo posto.

_Bacana, hen? _ Débi olhou ao redor, já sentada em minha frente, uma hora depois.

_Tá brincando? Perfeito! Eu tenho muitas coisas que quero fazer! Idéias para ampliar os negócios. E, claro, idéias para mim. Vou alugar um apartamento aqui perto bem bonito. Te contei que também ganhei um carro?...

_Mas você sabe que você terá que deixar tudo no fim do ano que vem, não é?

_... _ calei-me.

_Você tem que seguir o Caio para onde ele for, esse é o certo. Você será uma esposa de militar, não pode se apegar a nada disso, amiga. Eu estou me preparando para ano que vem acompanhar o Ribeiro, pensei que também tivesse os mesmos planos.

Fiquei só ouvindo, não queria falar para não ouvir da minha própria boca o quanto tudo aquilo era difícil para não ficar ainda pior.

_Seria justo?

_Um tem que ceder e é muito mais fácil para você ceder porque ele não pode abandonar a carreira dele e depois voltar atrás.

_E você? Vai trancar a faculdade?_ perguntei.

_Sim, vou, depois abro em outro lugar, mesmo que saia da pública e pague uma particular. O que importa é que vou estar com ele onde for e, onde estiver, eu vou ser feliz. Eu não sou muito apegada a nada mesmo.

_Eu sou. _ foi a primeira vez que consegui esboçar minha opinião. _ A minha família, aos amigos, ao meu trabalho, às pessoas com quem trabalho.

_Então, é hora de começar a tomar uma decisão. _lembrou-me.

Eu já pensava sobre isso muito antes... Só que agora realmente não queria deixar para trás aquela oportunidade, não mesmo, porque eu estava muito feliz. Finalmente, atingi minha independência.

Débi foi embora e eu fiquei até tarde calculando notas, programando a agenda, enfiada em trabalho. O som muito alto lá embaixo me incomodou. Cheguei até à janela para reclamar. O que estava acontecendo? Não teríamos festa hoje, por que aquele barulho?

_Bela! _ ouvi meu apelido sendo chamado pelo microfone.

Meu coração disparou. Caio estava no meio do salão térreo todo fardado, me chamando. Tive vontade de me esconder, mas um grupo de funcionários começou a aparecer ao redor dele e pedir para eu descer.

Fui recebida com aplausos e Caio começou a falar no microfone com uma música de fundo:

_Já que a mulher da minha vida não larga o trabalho eu venho até ela para dizer que hoje é nosso aniversário de 3 anos de namoro.

Mais aplausos e eu fiquei vermelha feito uma pimentão.

_Eu queria poder organizar uma grande festa, mas quem sou eu para organizar festas? Principalmente agora que me contaram que você tomará conta de tudo... _ riu. _ Vim da rodoviária direto para cá. _ deu um chutinho na mala no chão. _ Será que eu posso roubar você hoje para mim? Pode, gente?

_Pode! Pode! _ um coro foi ouvido.

_Eles estão deixando, Bela. _ disse-me.

Eu sorri e o abracei. Caio afastou o microfone e me deu um beijo rápido nos lábios.

_Oooohhhhhhh! _fez o coro e mais aplausos.

A noite foi deliciosa e acordei com Caio sentado de frente para o meu computador.

_O que está fazendo, querido? _ perguntei.

_Bela, o que significa isso? _ ele virou o rosto para mim e lágrimas estavam em seus olhos.

Meu coração disparou de medo.

_O que aconteceu?

Autora: Li



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23 de ago de 2007

Cap 81: Abandonando o mar

Apareci na sala do meu tio com um bico enorme. Brigar com Caio não me deixava disposta a trabalhar ou fazer qualquer outra coisa que demandasse bom humor.

_Isabela, você sabe que eu estou promovendo uma festa para as pessoas terem um momento de alegria?

_Sei sim. _ olhei para o alto e respirei fundo.

Ele não acrescentou mais nada, era como se começássemos a adquirir a partir dali a habilidade de entender um ao outro sem muitas palavras.

_Pois bem. Você já está preparada para subir um degrau. _ aquilo era uma afirmação que, vindo dele, me dava uma gota de felicidade por seu reconhecimento. _ Quero que supervisione tudo. _ entregou-me o rádio e pegou alguns papéis na mesa antes de descermos para o salão. _ A festa de hoje é de quinze anos. _ ele olhou uma folha. _ Será um pouco diferente...

_Como assim? _ perguntei.

Tio Paulo procurou as melhores palavras para me explicar a situação. Chegou mais perto e falou baixo:

_O pai dessa garota tem dinheiro. Muito dinheiro. _ pausou. _ E não nos importa como ele consegue tal dinheiro. Ele nos contrata, paga adiantado e proporcionamos a melhor festa que já sonhou para a filha.

_Claro. _ concordei, não vendo ainda nada de peculiar nisso.

_A garota não quer uma festa de princesa, com vestido de bolo, nem aquela coisa antiga... _ colocou a mão no queixo. _ Por isso... bolei algo diferente. Chamei uma equipe de dançarinas de funk. Elas vão entrar por aquela pista com direito a muita fumaça. _ apontou para um tapete que estava sendo desenrolado pelos empregados. _ Depois, o DJ vai tocar todas as paradas do momento e tudo vai sair nessas caixas de som. _ apontou para enormes equipamentos que juntos formavam um perfeito ambiente de baile funk._ Faremos projeções nas paredes... _ Tio Paulo começou a descrever tudo que estava previsto. _ Problemas podem acontecer e para isso teremos um número maior de seguranças. Você deve estar em alerta. Isabela, esqueça o mundo lá fora. Não misture o profissional com o pessoal.

Entendi ao que ele se referia.

_Tentarei fazer isso. _ concordei.

_Ótimo, estarei na sala. Sempre que precisar, use isso. _ segurou o rádio junto com a minha mão e apertou-os.

_Todas essas pessoas estão sob o seu controle. Supervisione, verifique cada detalhe. _ passou-me as folhas com os dados da festa.

Respirei fundo, não sabia nem por onde começar. Senti um friozinho na barriga. De repente, Caio e nossa briga ficaram mais longe. Aquele era o meu território, o meu trabalho, a minha vida.

Eu gostava de saber que existia algo além dos problemas do meu relacionamento, que, em algum lugar, eu era reconhecida, respeitada e temida. Antes, ao contrário, eu não fazia nada em casa além de estudar, por isso, tudo se resumia nos meus pensamentos em torno de Caio e eu. Isso me deixava muito depressiva.

Assim, tive minha primeira noite de Poder. Aprendi a sentir o cheiro de confusão de longe, a fingir que tudo estava bem quando, na realidade, boa parte parecia um caos. Os empregados seguiam as minhas ordens e todo aquele universo funcionava ao comando do meu rádio transmissor.

Chegando em casa, joguei a chave no armário, tirei o sapato, tomei um banho quente e deitei na cama. Dormi até o meio dia. Caio parecia mais aborrecido ainda por eu ter trabalhado toda a noite e ter perdido o seu fim de semana vendo televisão.

_Desculpe, meu amor. _ disse-lhe, mas sem muita pena ou arrependimento. _ Essa é a minha vida agora. Durante a semana é assim também, só que você não está aqui, está lá cuidando da sua carreira. Então, se eu posso tolerar todos os seus serviços, as suas punições, os seus campos, você terá que tolerar o meu trabalho. Não é justo?

_É. _ concordou de má vontade.

Nos beijamos e ficamos abraçados. Eu sabia que, aos poucos, nada mais ficaria igual. Caio queria como futura esposa uma Bela só para si, dentro de casa, cuidando da família, como era a sua mãe. Eu não era isso e nem queria ser.

O pavio estava aceso e começava a consumir a cordinha.

Depois de assumir a coordenação geral dos eventos de maneira brilhante, meu tio me chamou em sua sala para me parabenizar e dar uma notícia.

Notei que havia algo diferente naquele dia, na arrumação da sala. Os quadros sumiram da parede, a mesa estava vazia dos pertences do Tio Paulo e dois arranjos de flores a enfeitavam.

_Isabela, eu fiquei admirado com a velocidade que aprendeu tudo, adorei suas idéias de fazermos um site para o salão, de panfletarmos. Isso reverteu em um aumento da procura... Enfim, você conseguiu superar as minhas expectativas.

Meu coração disparou. Eu já estava tão feliz com o meu salário de 2 mil reais, com a estimulante rotina, não tinha mais o que reclamar.

_Eu já estou ficando um pouco cansado e quero me aposentar, tomar minha cervejinha em paz... O marinheiro aqui precisa abandonar o mar.

Aonde ele queria chegar? Iria vender tudo?

_Por isso, eu vou passar o comando disso tudo aqui, inclusive dos dois outros salões que já estão quase prontos... Enfim, para resumir, isso aqui não vai ficar abandonado, vai para as mãos de outra pessoa. Aliás, a sala já está pronta para isso.

_Estou vendo. Posso saber quem é? _ perguntei.

_Pode, claro. Sente ali. _ indicou a cadeira estofada onde sempre se sentava.

_Ali? _ franzi a testa.

Sentei.

_Espere um momento.

Ele saiu e eu fiquei sentada, ansiosa para ver quem era a minha nova chefe que ele saíra para chamar.

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Cap 80: Tensão pré-formatura

As apostilas caíram umas sobre as outras formando uma pilha na frente do meu tio Paulo. Ele levantou os olhos para mim, largou a caneta e ficou ereto na cadeira para estar em uma posição que pudesse me analisar melhor:

_Leu tudo já?

_Ler... eu li.

_Então, volta lá e lê de novo. _ abaixou a cabeça e voltou sua atenção para o bloco de boletos bancários que estava calculando.

_Não! Eu li sim. _ tentei ser mais enfática.

_Se você não tem certeza do que faz...

_Eu já posso passar para “outra fase”?

_Essa é uma pergunta ou uma resposta?

_... é um pedido._ disse-lhe.

_Tudo bem. _ ele abriu uma pequena gaveta à sua direita e tirou uma caderneta de capa marrom. _ Isso é para você. _ escolheu também uma caneta em seu porta-lápis e me ofereceu. _ Anote tudo que eu lhe falar e achar importante.

_Certo. _ peguei-os.

Tio Paulo levantou-se e eu o segui até o depósito do salão de festas que ficava perto da cozinha.

_Aqui eu não gosto de terceirizar tudo. A comida, por exemplo, eu prefiro que seja feita aqui, aos meus olhos. Algumas coisas, claro, são encomendadas. Mas, eu tenho a minha própria equipe. Isso evita que algum sanduíche de atum com maionese ridículo coloque por água abaixo a minha reputação. _ abriu a porta da cozinha e todos ali olharam para mim. O cheiro de comida, a fumaça, os fogões e frízeres industrializados me deixavam claro que nada ali era caseiro, mas estritamente profissional.

Os empregados tinham um olhar de submissão para mim. Foi naquele olhar que percebi que meu tio não me queria como um deles. Ele estava me preparando para algo maior que eu não sabia o quê ainda. Afinal, ele não teve o tempo e cuidado com cada um ali que teve comigo.

_Eu quero que você vá com o Josué... _ apontou para um homem negro barrigudo, de sorriso muito simpático. _ comprar algumas coisas que possam estar faltando. Vou assinar um cheque para levar e espero que gaste o menos possível.

Quanto seria o menos possível para ele? Já estava até vendo que aquele era mais um de seus desafios.

_Depois você vai chegar e conferir todas as mercadorias que serão entregues. Eu compro diretamente dos fornecedores fardos fechados de papel, arroz, produtos de limpeza, enfim, quase tudo. Sai mais barato. Isso tem que começar após uma hora.

Uma hora?! Não daria tempo!

_Você já leu os jornais de hoje? Pois, então, na minha mesa tem três jornais. Leia todos, se você não sabe o que acontece no mundo, pára no tempo.

_Entendi. _ anotei no caderninho.

_Isso terminado, se prepare, hoje você vai servir as mesas junto com a equipe na festa de quinze anos que será realizada.

Eu, servir mesa? Eu sou tão estabanada, nunca vou conseguir equilibrar aqueles copos em cima das bandejas.

_Entendi. _ anotei mais isso.

Peguei os jornais e fui lendo no carro, enquanto Josué dirigia. Fizemos as compras, voltamos em alta velocidade para eu não me atrasar e chegar depois das entregas. Vem aí uma parte difícil.

Quando o caminhão começou a descarregar, senti um frio na barriga. As notas possuíam dezenas de itens. Eu não tinha idéia do que estava em cada caixa. Respirei fundo com as mãos trêmulas. Mas, finalmente ,tudo se saiu bem e eles foram embora. Pelo menos eu achava que tinha feito tudo certo, até o tio Paulo chegar:

_Essa caixa está molhada. _ bateu com uma faca no papelão. _ Já sei até o que aconteceu... _ rasgou a tampa e vimos que todos os potes de estrato de tomate estavam grudados na tampa e tinham saído do vácuo.

Meu coração disparou e eu fiquei sem saber o que dizer:

_Desculpe, eu sou muita burra, devia ter imaginado que... Droga!

_E os cloros? Conferiu o número das garrafas?

_Sim, sim. Tinha aí 16 e eles entregaram 80. _ conferi no meu caderno.

Mesmo assim Tio Paulo recontou tudo apontando com o dedo indicador.

_Onde estão as 16?

_Ora... Eu coloquei aqui do lado... _ olhei para as garrafas e mais uma vez senti meu sangue esquentar.

_Perdemos 16 garrafas pelo visto, o entregador pegou as nossas e misturou com essas para fazer as 80.

_Não pode ser! Como eu não vi isso antes? _ senti que ia chorar de desespero.

_Isabela... tudo será descontado do seu salário para você não esquecer e aprender. Venha comigo.

Segui-o, já imaginando o pior.

_Tio, eu sei que não sou tão boa assim, que tenho que aprender, eu tenho dificuldades e...

_Isabela, Isabela! _ falou bem alto, sobrepondo a minha voz, quando chegamos em sua sala.

Calei-me.

_Sente-se.

_Desculpe...

_Isabela, sabe qual é o pior perigo do que fez? Não são as latas de tomate, isso o lucro da empresa cobre. O pior é a sua personalidade muito fraca porque é ela que vai fazer os erros se repetirem. Você é muito ingênua, acredita no sorriso e no bom humor de um entregador.

_É, eu sou sem malícia.

_Está vendo? “Eu sou sem malícia”, “Eu tenho dificuldades”, “Eu sou...” _ imitou a minha voz. _ Você só sabe repetir coisas ruins sobre si mesma com um ar de pena. Eu não tenho que ter pena de você, o mundo não tem que ter pena de você. Se não parar de se sentir a pobrezinha, coitadinha, você não vai servir para nada nessa vida! Toda vez que tentar bancar a inferior, faça soar um alarme daqueles de navio muito alto dentro de si!

Fiquei ali, apenas ouvindo e respirando. Eram tantas coisas a aprender que meu cérebro ficava cansado.

_Desconfie das pessoas, mas não deixa que elas percebam. Seja altiva, brigue, bata de frente, se imponha, saia dessa carapuça de cordeirinho. Vaquinha de presépio não é o personagem principal da história! As pessoas só fazem isso que fizeram com você porque você mesma se sente uma incompetente, burra e lerda. Você é isso?

_Não. _ respondi o que ele queria ouvir, mas me sentia exatamente daquele jeito, talvez tio Paulo estivesse mesmo certo, a minha auto-estima era muito baixa e as pessoas se aproveitavam disso.

_É assim que todo trabalho deve começar. O aprendiz tem que saber o que é cada parte do processo. Mas não, as pessoas apertam um parafuso e não sabem para quê aquele parafuso vai servir no produto final. Aposto que vocês, como estagiários, nunca vão fazer uma campanha inteira, são postos para atender telefone, ler e-mails, fazer secretariado. E ainda pagam uma miséria por isso. Esse país é uma vergonha! É uma escravidão de cérebros! E os outros países acolhem vocês, bacharelados, de braços abertos, afinal, uma mão de obra de nível superior de graça, que não tiveram que investir em nada! _ tio Paulo estava revoltado.

O mais impressionante era sua visão global de realidade. Mais do que tinha meus pais e muitas pessoas que eu conhecia. Quem sabe ganhará isso nos seus jornais diários, ou na realidade que vivia. O fato é que eu me sentia em um curso de aprendizagem acelerada com um enriquecimento sem igual.

_ Isabela, não se permita ser explorada e não aceite miséria salarial. Não entre no sistema! Seja empreendedora, cresça, você pode, garota!

Aquele era o primeiro incentivo que ganhava dele.

Pensei na minha realidade de futura esposa de militar, vivendo de transferências. Como poderia colocar em prática aquilo que ele estava me dizendo?

_Agora volte para o trabalho. _ ordenou.

Respirei fundo e retornei.

Não lhe falei sobre meu futuro, mas não escapou-me dizer isso a Caio, no final de semana seguinte em que nos vimos.

_ Eu acho que você tem que fazer um concurso público._ disse ele.

_Vocês militares acham que a única salvação para as mulheres é fazer concurso...

_Bela, amor, você vai ganhar bem e ir para todo lugar comigo. _ interrompeu-me.

_Caio, meu amor, eu estou cansada de estudar. Cansada de me matar de estudar para chegar em um emprego e ganhar uma miséria. Eu já fiz inglês, espanhol, informática... Já fiz trocentos cursos. Estou farta! Como vai ser? Um ano de cursinho, mais dois ou três anos tentando a prova, afinal, passar de primeira não é tão fácil e, depois, mais dois anos para ser chamada? Isso significa que até uns vinte cinco, vinte seis anos, eu vou ser uma "Estudante Profissional", filhinha de papai? Alouuuu? Esse papo não é para pobre, não! Pode dar certo, mas se der errado, eu vou me ferrar ao cubo! Você sabe o que é uma profissional hoje com 26 anos sem estar inserida no mercado? É suicídio!

_Então, o que espera da sua vida, organizar festinha de criança? _ ele disse, me alfinetando. Eu sabia que estava aprendendo lições para vida, e não, sendo animadora de festa infantil, mas era assim que ele enxergava. _ Entra para um cursinho...

_Eu não quero, não estou a fim. _ disse-lhe.

_Então, não sei o que quer...

_O que eu quero é justamente fazer o que estou fazendo.

_Trabalhando com seu tio? _ franziu a testa.

_Isso mesmo.

_Até eu me formar ano que vem e a gente se mudar?

_... _ não respondi nada.

_O clima aqui está quente, hen? Estou sentindo o cheiro da fumaça lá da cozinha. _ minha mãe sentou-se no sofá. _ Bela, Caio está certo. Não foi esse o namorado que escolheu? Então, já sabia que a profissão dele era essa, agora você tem que segui-lo.

Eu não sabia se minha mãe estava sendo irônica, perversa ou as duas coisas.

_Eu não escolhi nada.

_Escolheu sim. _ rebateu ela.

_O meu coração escolheu...

_Dá no mesmo.

Respirei fundo e fui para o meu quarto. Peguei minha bolsa, calcei minha sandália.

_Para onde vai? _ Caio perguntou.

_Para o trabalho, amor, animar festinha de criança, para ter um puto no bolso que pague a pipoca no cinema e as viagens para Resende, para eu não depender do papai e da mamãe, nem do futuro marido.

_Mas, agora?

_É, agora. Desculpe. Se não quiser entender, tudo bem. Só é uma pena porque vai indicar preconceito. Se eu dissesse que fosse dar plantão em um hospital ou fazer uma cobertura jornalística em outro país, ou fosse fazer qualquer coisa “profissionalmente nobre”, você não se importaria. Mas, como é para animar festinha de criança, você acha um absurdo, pois é... _ minha voz saiu ácida como nunca. _ Ainda bem que eu ganho o suficiente. _ bati a porta.

Talvez aquilo fosse o que meu tio ensinara sobre não bancar a coitadinha.

Entrei no elevador e quando a porta se fechou, abaixei-me e fiquei agachada, com as mãos na cabeça. Fechei os olhos e senti aquela sensação de não ter gravidade. Eu começava uma terrível era de crise pré-formatura da AMAN que duraria um ano e meio até chegar ao seu fim. Muita coisa até lá mudaria comigo, com meu relacionamento e, principalmente, com os rumos do meu futuro.

Começava aí a se transformar e firmar minha personalidade.

Autora: Li

*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

21 de ago de 2007

Cap 79: Um mestre

Como eu havia dito, eu queria muito fazer a minha vida e entrar na fase adulta significava parar de pedir dinheiro ao meu pai.

Mas o que adiantava sair da sua dependência e entrar em outra, a do meu marido?

Minha sogra estava sendo muito boa comigo, mas não duvidaria (nem acharia que estivesse errada) se pensasse que eu era uma dondoca exploradora do salário do filho militar.

E agora?

Eu tinha que ter uma estratégia. Se conseguisse um estágio só ganharia 400 a 700 reais, isso com muita sorte. Porém, corria o risco de ficar meses mofando, em uma espera que nunca chegava! Não tinha esse tempo a perder.

_Mãe, o tio Paulinho conseguiu terminar a reforma daquela casa que ele comprou? _ perguntei no meio do jantar.

_ Ah! Ele fez um salão de festas lá. _ disse com voz de pouco caso.

Depois do jantar, peguei a caderneta de telefone e liguei para meu tio, que se surpreendeu:

_Bela? Aconteceu alguma coisa? _ perguntou, já esperando o pior.

Tio Paulo era rejeitado pela família da mamãe, pois nunca dera valor aos estudos e trabalho na juventude. Sua vida era jogar bola e sair com os amigos. Porém, uma hora precisou dar um rumo ao seu destino. E era justamente nessa “etapa” em que eu me encontrava.

Acho que os parentes sentem mesmo é inveja do seu sucesso. Porque todos se esforçaram tanto nos estudos e pouco conseguiram financeiramente. Ele, com sua esperteza e inteligência, criou um patrimônio maior que o de toda família junta.

Só que eu não queria lhe pedir favor ou dinheiro emprestado. Apesar de não duvidar que me daria, agora que já tinha uma boa condição de vida. Meu pedido era simples: um emprego. Está aí uma coisa que ele jamais esperava vir de mim. Pelo contrário, ficava tão excluído do convívio da família que só pensava no pior ao receber um telefonema.

_Está tudo bem aqui, tio. Eu queria mesmo conversar com o senhor, mas precisava ser pessoalmente.

_Fale logo, menina, se for algo grave, não tente me poupar. _ pediu.

_Eu já disse que não é nada demais, é uma coisa minha mesmo. Quando tem um tempo livre?

_Eu estou um pouco ocupado, mas... _ pensou por algum momento. _... Vem agora! _ mudou de idéia.

_Agora? _ eu repeti. Ele realmente não acreditava ainda que estava tudo bem.

Fiquei contaminada por sua pressa e encarei aquela minha vontade de mudar o meu futuro como algo que tivesse urgência:

_É... _ levantei-me, olhei para os lados. _ Tudo bem, estou aí, daqui meia hora.

_Te espero.

_Certo. _ desliguei.

Tio Paulinho foi para mim um mestre. É como se a todo momento eu vivesse diante de uma montanha e achasse que o mundo era ela. Ele me pegou pela mão, me levou ao topo da montanha e mostrou lá de cima um mundo muito maior por detrás do rochedo. Anos de faculdade não me traria todo o aprendizado que ele conseguira me passar.

Os seus métodos, porém, não eram os mais fáceis de se levar. Tio Paulinho deixou de existir para mim. Conheci o Senhor Paulo, uma pessoa rigorosa e de olhar clínico. Sua lembrança em minha mente era de um homem descamisado e sempre com um copo de cerveja na mão em todos os álbuns de festas de aniversário da família.

Aquele que encontrei sentado em seu escritório nos fundos do salão de festas era um homem responsável e dono de si. Vestia roupa social e usava um relógio prateado grande e ostensivo.

A sala era ampla, com piso de granito cinza e paredes repletas de réplicas de quadros de arte. Não imaginava que fosse encontrar um lugar tão organizado e fino.

_Pode se sentar. _ ele indicou com a mão estendida para a cadeira estofada ao meu lado.

_Obrigada por me receber. _ eu falei, em um tom de quem está nervosa para uma entrevista de emprego, quando aquele era o meu tio.

_O que vocês estão precisando de mim? _ recostou-se no encosto de sua cadeira alta e preta.

_Nada...

_Bela, eu sei que a minha família só se aproxima de mim, quando o bolso aperta. _ ele disse com toda clareza e eu emudeci. _ Mas... _ apontou para mim e semicerrou os olhos, como quem estivesse esperando o pensamento se completar antes de falar. _... Saiba que eu já estava esperando por você.

_Estava? _ franzi a testa.

_Não sabia que era você, mas estava. Eu tinha feito um pedido a Deus. Só que deixa para lá... _ fez pouco caso. _ Não é hora de falarmos disso.

Eu fiquei muda, olhando-o. Como lhe diria que de fato eu lhe procurara justamente porque eu estava sem grana?

_ Eu vou ser sincera com o senhor. Escolhi fazer publicidade. Estudei muito e no fim só consegui um estágio que não me remunerava bem... _ tentei ser muito franca. _... Sei que existem outros melhores, que pagam mais, só que eu não queria ficar esperando por isso. Eu tenho que tocar minha vida.

_ Por que tanta urgência? Já está pensando em se casar com seu militar?

Eu fiquei com a boca entreaberta, sem fala. Como ele sabia?

Meu tio riu, balançou a cabeça para os lados, encostou os polegares na testa e fez força com o tronco para que seu peso trouxesse a cadeira mais para frente, de forma que ficássemos mais perto, apesar da mesa de vidro que nos separava.

_ Vi no seu orkut.

Hei! Ele ficou fuxicando a minha vida?!

_Não precisa fazer essa cara de reprovação. Vocês adolescentes são engraçados, usam uma coisa para todo mundo ver, mas não querem que ninguém veja e, pior, acreditam que ninguém vê!

_Por que a curiosidade?

_Simples, Isabela, eu quero saber com quem eu estou lidando. E lá diz muito sobre você. Diz que não gosta de acordar cedo, que odeia lavar o banheiro, que... _ parou de falar e ficou me olhando como quem estuda um ratinho. _ percebe como você deixa as pessoas mergulharem na sua vida? Se soubessem a grande besteira que está fazendo, o perigo que é abrir as portas da sua vida para qualquer um olhar... Deixa eu te dizer uma coisa: saiu no jornal essa semana uma reportagem que diz que uma em cada seis empresas olham o orkut dos candidatos a vagas de emprego.

_Já ouvi falar disso...

_Não me refiro apenas a questões de trabalho. Isabela, não pense que todas as pessoas te amam. Sabe aquela foto sua com seu namorado fardado? Em alguns segundos eu poderia te cortar dela e colocar uma mulher nua abraçada a ele e espalhar por aí. Por que eu faria isso? Não sei, para te destruir. Não importa a veracidade da imagem se o estrago for grande até que se prove o contrário...

_Eu sei. _ murmurei, quase sem fala. _ Mas eu não quero me privar de colocar as minhas fotos por causa dos outros, eu não vou viver uma paranóia da conspiração.

_É o que todos dizem até serem vítimas. Os adolescentes acham legal aquele álbum de figurinhas de amigos, com a vida ali exposta através das comunidades que falam sobre sua conduta e seu livrinho de recados indicando o que vai fazer no fim de semana.

_Eu não sou mais uma adolescente.

_É sim, Isabela, até que você mesma prove o contrário. A idade está nas atitudes e não na identidade ou certidão de nascimento.

Por que ele estava me provocando aquela sessão de angústia? Aquilo era um teste? Socorro, eu queria ir embora antes dele me massacrar.

_O que queria mesmo? _entrelaçou os dedos das mãos sobre a mesa e me encarou.

_Eu estava dizendo que é difícil conseguir juntar dinheiro com a grana de estágio e eu queria trabalhar.

_E onde eu entro nessa história?

Não era óbvio? Ele queria que eu soletrasse ou me ajoelhasse e tirasse seus sapatos para beijar seus pés?

_...

_Bela, se você não sabe o que você quer, eu tenho hora.

_Eu quero um emprego. _ respondi antes que ele terminasse sua frase.

_Quer mesmo?

_Quero.

_O quanto você quer?

Que pergunta ridícula era aquela? Ele estava me deixando confusa, por um segundo me senti como em um treinamento militar. Com o tempo e a convivência eu aprenderia que era quase isso mesmo.

_Muito.

_Então, vamos começar agora? _ ele se levantou e foi até um armário de madeira atrás de mim.

Eu continuei olhando para frente, mirando sua cadeira vazia. Como assim, agora? Já? Now?

_Você precisará estudar um pouco.

Estudar? Franzi a testa. Aquilo tudo era uma pegadinha?
Desde quando eu tinha que estudar para trabalhar em um salão de festas?

_Eu vou fazer exatamente o quê? _ suspendi as sobrancelhas quando escutei o estalido do vidro com cada apostila grossa que ele fez cair uma sobre a outra na mesa à minha frente.

_Você veio aqui procurando emprego, certo? Você quer ganhar dinheiro, não é?

_É. _ concordei, sendo tão objetiva quanto ele.

_Então, vai fazer tudo. _ resumiu, voltando ao seu lugar. _ Começando por essas apostilas. Estude tudo, leia, consuma, decore. Quando acabar, me devolva.

_Mas, ler aqui, agora?

_Não aqui. _ ele abriu umas gavetas e pareceu não encontrar o que queria. Apertou um botão no telefone e falou no viva voz. _ Cleide, traga para mim uma bolsa grande e resistente. _ tirou o dedo do botão e voltou a me encarar. _ Você vai começar a trabalhar nesse pequeno chá que começará às quatro. Vem comigo.

_Eu trago as apostilas? _ perguntei.

_Não, deixe aí. Falarei para a Cleide colocar em uma bolsa. Se bem que traz aquela verde ali. _apontou para a mais fina. _Vai ajudar a te entreter.

_Tudo bem. _ peguei-a, coloquei debaixo do braço e o segui rapidamente para não perdê-lo de vista.

_Este aqui é o salão principal. _ mostrou. _ Ali em cima há mais três andares para outras festas separadas. Aquela porta é a cozinha.

Fiz que sim com a cabeça para mostrar que estava atenta a suas explicações.

_Esses aqui são para festa dos pobres, estou construindo um grande a algumas ruas depois daqui para verdadeiras festas suntuosas, esse é o meu grande projeto.

_Hum... _ levantei as sobrancelhas. _ Minha mãe falou.

_E olha que nem precisou eu colocar no orkut, imagina se eu tivesse um. _ alfinetou. _ Como pode ver, está tudo pronto para o chá que faremos daqui a pouco. _ falou e eu percebi a correria dos garçons e empregados para deixar tudo impecável. _ E ali é o banheiro.

_Tá, entendi tudo.

_Então, ali é o banheiro, onde vai ficar.

_Ãnh?

_Venha, a apostila vai ser útil. _ ele caminhou em direção a porta e eu fiquei parada, congelada.

Meu tio abriu a porta e fez sinal para eu entrar primeiro. Era um teste, só podia ser um teste de resistência.

_Dona Regina, hoje a senhora pode ajudar na limpeza geral, essa moça ficará em seu lugar. _ ele falou ainda da soleira da porta e a mulher sentada em uma cadeira levantou-se e deu seu acento para mim. _ Bela, qualquer problema aí, você resolve, acha que pode fazer isso?

Eu não tinha resposta para aquela piada! Que tipo de problema eu resolveria? Uma privada entupida, uma torneira que não abre? Uma lixeira cheia?

_É... Como vou me referir a você?

_Senhor Paulo.

_Senhor Paulo? Tudo bem, Senhor Paulo, pode me dizer exatamente qual será o meu trabalho? Porque eu...

_Isabela vem aqui. _ ele me chamou para que eu viesse até do lado de fora da porta.

Fiquei frente a frente com ele e cruzei os braços.

_Você ia dizer que não fez faculdade para isso?

_Que bom que já sabe o que ia dizer. _ explodi.

_Você quer dinheiro não quer? Quer?

_Quero... _ senti lágrimas nos olhos, ele estava me desestruturando psicologicamente. Virei o rosto para os lados.

_Então, vai ter de colocar a vida mais em prática. Porque hoje para ganhar dinheiro... _ bateu no bolso com força. _ É preciso se despir de todo e qualquer preconceito, nojo, vergonha, pudor. Se quer realmente aprender, tem que começar do zero. E olhe para mim quando eu falo, você não disse que já é uma mulher?

_Eu sou. _ olhei-o fixamente. _ Mas, o que se pode aprender no banheiro?

_Nós não alugamos um espaço. Nós oferecemos uma experiência de lazer. Isso significa que as pessoas que vêm aqui devem querer voltar. Está vendo aquele armário? Ali dentro tem agulhas, linhas de todas as cores, absorventes, fraudas de todos os tamanhos, tesoura. Uma mulher pode estar metida em qualquer apuros que corre para o banheiro, nem que seja para se olhar no espelho. E, lá, deve ter alguém para mostrar-lhe que tudo está sob controle porque ela está no meu salão. Então, você vai se despir dessa carapuça de universitária patricinha pseudo-intelectual e passar por esse estágio.

Eu não consegui pronunciar nada. Emudeci.

Ele pegou um rádio que pedira para um dos garçons buscar em sua sala e me deu. Ensinou-me onde ligar e desligar para falar.

_Se alguém estiver bêbado, passando mal, prestes a sair do banheiro para arrumar uma briga, ou algo assim, entre em contato. Entendeu?

Segurei o aparelho, com a mão dele ainda segurando a minha.

_Você acha que pode fazer isso?

Eu viera ali pensando que qualquer um poderia realizar um trabalho de animadora de festinha ou de garçonete e ele estava me fazendo duvidar se dava conta do recado?

_Acho que sim.

_Isabela... _ colocou a mão no meu ombro. _ Os que acham não vencem nunca, eles só acham.

_Eu posso. _ falei alto.

_Então, vai e aproveite o tempo para ler a apostila toda. Na vida não temos tempo, tempo é só uma coisa abstrata. A quantidade de coisas que conseguimos fazer depende só de nosso esforço de coordená-las para que sejam em maior número possível.

Sentei-me na cadeira e fiquei olhando os azulejos brancos. Respirei fundo. Já era hora de falar com Caio. Liguei para ele e contei-lhe do emprego.

_Em um salão de festas? _ ele não gostou muito. _ Não é a sua área.

Eu pensei em lhe dizer que para estar com ele eu tinha que conseguir dinheiro e não podia ficar dando uma de... Patricinha Pseudo-intelecutal. Mas brigar por celular não era a hora. Imagina se soubesse que eu falava de um banheiro?!

_Eu estou feliz. _ disse, não muito certa disso.

Folheei algumas páginas da apostila, enquanto falava com Caio e, de repente, me surpreendi.

_Bela, tenho que desligar, tenho provas, campos...

_Tudo bem...

_Não vai reclamar? _ ele riu.

_Não. Quero dizer, que pena, mas eu te amo.

Desligamos e eu li melhor o que estava diante de mim.

_Apostila de gerenciamento de eventos, autor Paulo Surs, módulo situações críticas. _ arregalei os olhos. _ Ele mesmo escreveu?

Comecei a devorar cada página. Ali era um delicioso tratado de todos os momentos críticos que passara em festas anteriores. Eu tinha em mãos um arquivo pessoal de relatórios recheados de críticas, soluções dadas aos problemas e observações importantes.

Entendi porquê ele escolhera aquela apostila e aquele lugar para lê-la. Tio Paulo começava a me preparar para crescer.

E acho que é isso que quero: crescer.

Acho não, eu quero!

Autora: Li



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O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

20 de ago de 2007

Cap 78: Amadurecimento

Caio sofreu muito com aquele gesso no pé. Eu estive ao seu lado em todos os momentos, tanto fisicamente como moralmente. Procurava ligar todos os dias para saber seu estado de saúde. O peso de carregar o próprio corpo só com a ajuda das muletas lhe trouxera ferimentos debaixo das axilas e muito cansaço físico.

Mas, o tempo faz as coisas voltarem ao normal, ele logo ficou bom e retornou aos treinos físicos. Só que nem tudo tinha a capacidade de retornar a fase anterior, pelo contrário, progredia... Estou me referindo ao meu relacionamento propriamente. Hoje, estou namorando, e amanhã?

É sobre isso que comecei a conversar com Caio. Não diretamente, mas em tom de puro sonho ou brincadeira:

_ Amor, olha aquele apartamento, tão bonitinho né? Derrubaram uma casa antiga e rapidinho levantaram esse prédio. _ apontei, enquanto andávamos pelas ruas do meu bairro. _ Quando a gente se casar, eu quero ter um desses para a gente ter o nosso canto, claro...

Ele apenas ouvia, não complementava em nada no meu sonho. E seu silêncio representava para mim uma contrariedade incômoda porque eu me sentia errada ao ter aqueles desejos, já que ele não partilhava o mesmo comigo.

_O que foi? Ficou calado, Caio.

_Hum... Sei lá, é que eu acho pura bobeira gastar dinheiro comprando imóvel. A gente vai viver se mudando pelo país. É bem melhor investir em ações, corre muito mais dinheiro que os juros da poupança.

Aquele era um lado tão pragmático: juros, ações, poupança, especulações. Eu estava me referindo a uma poltrona no quarto ao lado da cama para ler, um pequeno escritório para estudarmos, uma sala com DVD para assistirmos vídeos juntos, uma mesa na cozinha. Eu via um lar, ele via cifrões, lucros.

_Eu não acho besteira. _ afirmei minha posição.

_Eu acho, meus pais nunca tiveram isso.

_Porque seu pai quis assim. A maioria das pessoas se preocupam com isso.

_Meu pai é militar. _ me lembrou.

_Justamente por isso. _ falei enfaticamente. _ Caio, esses são os meus sonhos. Você sonha com cursos, campos, serviços e tudo que sua carreira impõe, até as transferências. Esses não são os meus sonhos. Os meus sonhos são: um trabalho, uma casa minha...

_Tá, mas eu não quero comprar nada. Meus pais nunca ligaram para isso.

_Eu não vou mais falar no assunto. _ calei-me, se continuasse estragaria o nosso curto fim de semana.

Mas, eu ainda teria muito que falar sobre aquilo em breve, quando uma mudança repentina na minha vida me faria tomar uma decisão sobre tudo o que envolvia esta pequena discussão.

Caio simplesmente não gostava de falar de casamento. Dizia que era muito cedo, só depois de capitão. Parecia que nos casar era fazê-lo pular uma etapa da sua vida. Então, o que ele queria? Sair por aí, “pegando geral”, virando madrugada em boate, sei lá?

Eu sabia que não era isso, que existia uma grande imaturidade da parte dele, não estava preparado para ser dono do próprio nariz. Eu só sondava que sabia, não tinha tanta certeza do fato, porém o futuro me mostraria o quanto Caio ainda era só um garoto. E eu virava uma mulher em uma velocidade um pouco maior.

Essa postura de ter coceira só em ouvir a palavra casamento me entristecia, queria ao menos me sentir amada ao ouvi-lo falar: “Ah! Quando a gente casar vai ser assim...”. Mesmo que fosse daqui a sete anos, não importava, eu queria me sentir dentro desse sonho futuro.

A sua explicação também fora menos alentadora: “Eu só vivo o presente, nunca planejei nada a longo prazo”. Putz, ouvir aquilo, sim, era desmotivante. Eu namorava um cara sem sonhos, sem objetivos? Talvez a questão não fosse essa (mesmo que eu sentisse com muita dor dentro do coração que fosse). A realidade é que Caio tinha toda a sua vida arrumadinha, cronometrada pelos seus superiores. Até sua carreira possuía degraus certos para progredir. A gente faz planos justamente quando não tem certezas. Ele não, ao contrário, tinha todas as garantias do mundo, bastava não fazer nenhuma besteira e tudo seguiria o cronograma.

Simplesmente, ele não poderia querer casar porque o casamento seria um “projeto” todo baseado por sua conta e risco. Para quem não está acostumado a fazer nada desses moldes, o melhor mesmo é adiar para uma data muito longe.

Eu ficava ruminando isso tudo na minha cabecinha e isso me provocava um inferno mental. Passei por várias fases em relação a essa história de casar: falava disso o tempo inteiro e fingia que ele só não fazia o mesmo por ser tímido; depois, falava e sabia que ele não me seguia, pois não tinha as mesmas metas; mais tarde, falava e questionava seu silêncio e, por fim, parei de falar. Como se aquela batalha me trouxesse um cansaço.

Deixei cair no esquecimento, me prometi que viveria cada dia e pronto. Contudo, o 3º ano chegou e com ele uma avalanche ainda mais forte de questionamentos. Não dava para escapar, o tempo corria e logo ali na frente, no 4º ano, estaríamos de cara com o fim daquela distância.

Ele sabia o que queria e eu sabia também o que não queria. A partir de então, aqui no peito, começou a bater um coração em guerra.

Autora: Li



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