17 de jul de 2007

Cap 48: O elo

O Rio de Janeiro amanheceu encoberto pela neblinha branca. Um friozinho que logo se dissipou com os primeiros raios de sol tímidos que começaram a surgir no céu.

Dona Fabíola a todo o tempo só contemplava a paisagem que passava por sua janela do carro, sem nada dizer. Provavelmente estava muito aflita com o que os médicos iriam dizer, mas creio que não poderia esperar nada muito diferente do que já prevíamos.

Chegamos ao Hospital Universitário do Fundão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, às oito horas da manhã. Minha mãe estacionou o carro e caminhamos as três até a entrada, em silêncio.

Estávamos ali para a consulta e o agendamento da cirurgia de acordo com o grau de urgência do seu caso. Os exames nas mãos de minha sogra em um envelope branco dariam a resposta para aquilo.

Eu precisava arejar meus pensamentos. Falei-lhes que já que e a fila era grande, eu ficaria um pouco lá fora. Garanti-lhe que de onde eu estaria veria quando fossem chamadas. Elas consentiram com a cabeça, ainda um pouco sonolentas, por terem acordado cedo. Cada qual ficou com sua cabeça apoiada na parede, olhando para o nada.

Pus as mãos no bolso do casaco e fiquei em pé, encostada em uma alta e larga coluna redonda. Fechei meus olhos por alguns segundos e elevei meu pensamento até o meu namorado. Essa hora já deviam ter começado suas aulas.

O Espadim tão perto, o que seria da festa? Como sua mãe iria e o que significaria para ela estar longe do seu filho neste momento esperado com ansiedade? Mas eu não queria sofrer por antecipação, cada problema ao seu tempo, senão eu explodiria.

_Com este apoio acho que o prédio não vai cair. _ouvi uma voz ao meu lado.

Era um homem bonito, alto, fortinho, com um lindo sorriso de dentes brancos. Seu jaleco denunciava que trabalhava ali.

_Ah! _ ri timidamente, por ele ter dado por minha presença e ironizado o fato de eu estar escorada na coluna.

_O Rio de Janeiro nem parece Rio com este friozinho, não acha? _ comentou, introduzindo o famoso assunto “tempo”, quando faltam os primeiros diálogos aos desconhecidos.

_É... _ sorri e limitei-me a um gesto de cabeça.

_Triste?

Porque aquele homem se importava comigo? Me achara bonita, fácil, ou coisa do gênero? Olhei para a aliança grossa em sua mão direita. Era comprometido. Então, o que seria?

_Apreensiva. _ respondi-lhe. _É minha sogra, está com câncer no seio, viemos marcar a operação.

_Câncer. _ ele repetiu a palavra com peso e foi sua vez de olhar para as árvores à nossa frente e não ser expansivo. Calou-se.

_Às vezes, eu me pergunto se já sei tudo que me aguarda.

_Viva, então, cada dia._ aconselhou-me.

E era justamente isso que há poucos minutos eu estava falando para mim mesma para fazer com respeito daquela situação.

_Tentarei. Espero conseguir. _ disse-lhe, me sentindo ligeiramente bem com sua presença. _Você trabalha aqui?_ resolvi estreitar os laços, já que ele tinha puxado assunto e demonstrava interesse em uma conversa.

_Parece? _riu, da pergunta boba.

_Não, talvez você seja açougueiro. _ pisquei o olho e rimos juntos de eu ter ironizado sua roupa branca.

_É, eu sou enfermeiro. Vim aqui respirar um pouco, acho que como você. Colocar minha cabeça no lugar.

_Então, somos dois._ suspendi as sobrancelhas e depois suspirei profundamente._Admiro sua profissão. _ comentei.

_Obrigado, mas por quê?_ franziu a testa.

_A segurança que passam. Você tem mais contato com os pacientes que os próprios médicos. E parece que independe da dor das pessoas, os enfermeiros estão seguros, firmes. Para nós parentes que cuidamos de um doente, é inevitável levar tudo para o lado sentimental e sofrer junto.

_É, são coisas que a gente aprende não só com a faculdade, mas com a prática. E essa lição será também importante para você. _ ele lembrou-me.

_Ser mais imparcial com a dor de minha sogra? _ perguntei-lhe.

_É. _ balançou a cabeça em sinal de sim e deu um passo para o lado, se aproximando mais de mim, como se fosse contar-me um segredo extra- oficial ao seu trabalho, que eu deveria encarar como uma quebra de protocolo. Ficou de frente para mim. _ Não mergulhe de cabeça na dor dela, nem fique se colocando em seu lugar. Seja atenciosa, mas não deixe que ela lhe... Como posso dizer, domine. Domine seu tempo, sugue suas energias.

_Mas como? Por que eu já sinto isso, sabe? Ela está morando agora em minha casa, porque achamos um bom tratamento aqui no Rio de Janeiro. Ela é de São Paulo. _ tentei resumir na menor quantidade de palavras. _ E eu ando me sentindo estranha em minha própria casa.

_Isso não é bom para você. _ falou-me o que eu já sabia.

_Ainda estou na fase de adaptação. _ encolhi os ombros, deixando de transparecer minhas fragilidades.

_Não é você que tem que se adaptar, mas ela. _ consertou e aquilo tocou fundo no meu coração.

Fabíola é que deveria se acostumar ao nosso ritmo de vida e a maneira de encarar a vida, segundo a ótica de minha família, mas na tentativa de tanto agradá-la, eu estava deixando de colocar isto na prática.

_Ela já não gosta de mim...

_Mas agora não é hora para isso, ela vai precisar abaixar a guarda e se você não der o menor sinal indicativo..._ foi reticente e deixou no ar todas as conseqüências que eu já imaginava e que eram a fonte de angústia que me trouxera ali fora para respirar.

_Eu preciso ir. _ olhou o seu relógio. _ Ah! Meu nome é Vinícius. _ Estendeu sua mão.

_Bela.

_Sua mãe o escolheu, quando te viu a primeira vez? _ apertou minha mão na sua e sorriu.

_Não... _ ri. _ Na verdade, é Isabela. Bela só para os íntimos.

_Quem sabe um dia eu possa chamá-la de Bela? _ sorriu.

Encolhi os ombros e ele entrou.

Aquela conversa me fez tão bem. Pensei em Deus e que não era impossível que tivesse me enviado aquele anjo para falar-me aqueles conselhos. Não acredito que na vida as coisas sejam por acaso.

Voltei até minha mãe e Fabíola. A cirurgia foi marcada com um grau de urgência. Seria preciso retirar o seio. Aquela notícia mexeu completamente com o psicológico de minha sogra, que passou todo o dia em um profundo silêncio. Encontrei-a no quarto, sentada na cama, olhando para seus dedos.

_Se importa se eu ficar aqui? Preciso usar o computador.

_Não, você quer que eu saia?

_Não! De modo algum. Pode ficar. _ disse-lhe e liguei o estabilizador que estava no chão com o dedão do pé.

Abri meu blog e da Débi e li um comentário que a Lucy me deixou. Em um trecho ela dizia: _ “Deus está colocando vocês juntas por um motivo importante. Vocês devem ficar mais próximas uma da outra pra se conhecerem melhor. Não sei muito sobre o seu relacionamento com ela pois é o primeiro post que você fala dela, mas tenho certeza que se você for paciente e, principalmente, humilde, o relacionamento vai se estreitar e vocês poderão ser todos uma grande família, e não apenas "a minha família e a dele". (rsss) E essa é a melhor parte. Eu já considero meus sogros, meus cunhados, como parte da família. Preocupo-me com eles quase na mesma medida que me preocupo com a minha família e é bem divertido isso.(...) Isso não resolve o problema, e não faz você ter menos raiva, mas ajuda você a enxergar a situação claramente e, principalmente, a ouvir o que ela quis dizer ao invés do que ela disse (a maioria das pessoas não são claras nas palavras e você precisa ver o sentimento além das palavras, ver o real significado - principalmente, nós mulheres).

Pensei sobre aquilo de minha sogra não dizer o que pensava. Por exemplo, quando perguntara se eu queria sair do quarto, será que na verdade, não queria me dar algum sinal contrário, de que queria ficar, conversar?

Minimizei a tela e me virei para ela.

_É... _ pensei em que tipo de assunto eu poderia introduzir. _ A senhora tem vontade de fazer alguma coisa, que eu possa fazer companhia, não sei, alugar uns filmes, dar um passeio?

_Não precisa se preocupar, querida.

Querida? Ela me chamou assim?

Eu não queria que aquilo soasse como alguém que vai morrer e deve fazer tudo que não fez durante a vida o mais rápido possível. Mas que não pensasse tanto nas circunstâncias do momento.

_Seu marido deve estar sentindo muito sua falta. O que são esses militares sem a gente, ãnh? _ ri.

_É. _ ela riu também e me olhou, se dando conta de que por alguns instantes nós éramos iguais, as duas amavam o militar, salvo, claro as diferenças de tempo em que estávamos com eles.

_Eles precisam do nosso apoio sempre. Vejo o quanto o Caio agora está mais centrado, obstinado. Até melhorou nas notas. No último teste físico se saiu superbem. _ disse-lhe.

_ Ele me falou. _ balançou a cabeça. _ Agora ele pegou o embalo, estava bastante perdido no início.

_É, a fase de adaptação é muitíssima delicada. Gastei toda minha saliva e minha paciência para ouvi-lo falar e falar disso feito uma ladainha. Porque acima de tudo sempre fomos muito amigos. Acho que nesse tempo em que ele está lá... _ sentei-me no sofá- cama e me aconcheguei. _... Nós somos mais amigos que namorados. Porque tirando o contato físico, o que nos resta mesmo é aquele sentimento de companherismo...

_Eu sei, já passei por isso um dia também. É bem assim. _ fez sua primeira revelação e percebi que tinha achado o elo entre nós.

_Conheceu seu marido na academia?

_Sim. Foi uma fase difícil, mas essencial para que me preparasse para tudo que viria. Porque você passa a entender melhor os desmembramentos das coisas. É como uma comida, que você sabendo fazer, entende melhor o gosto dela.

_Engraçado, porque a comida, só um faz... Mas se formos pensar, nesse tempo em que ele estuda lá, eu me sinto parte do processo.

_Ah! Sim, eles poderiam sobreviver sem nós, mas é inevitável que não reconheçam que com a gente fica muito mais fácil.

_Ôh!_ estalei os dedos. _Muuito mais fácil.

Rimos juntas.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

3 comentários:

fernanda disse...

melhorar linda...
saudades dos seus posts.. bjs menina...t+

feriele disse...

nossa fiquei muito..mais muito feliz msm..acho q elas vão c entender..talvez c cada casal que tem problema com ogros e sogres tivesse uma maneira de criar um elo( n precia ser em doença) as pessoas se conheceriam melhor e não iriam criar tantos problemas..afinal nos somos as mulheres que eles escolheram...não eh possivel q depois de um criação de um vida inteira eles vão escolher um mulher completamente fora dos padroes da familia dele... e a msm coisa eh p nós..agente ama eles n eh posivel q as pessoas q o criaram sejam tão diferentes deles q nós amamos...
to filosofando... mais queria muito resolver esse probleminha que tambem me atormenta..rs...
bjs meninas...
etrem no meu blog..eh oh apertar no fernanda ali no post de cima..rs..

Nathy disse...

q bom...
as coisas tão melhorando.

Bjos