19 de jul de 2007

Cap 49: Longa espera

Sentada no corredor do hospital, senti meu celular vibrar, tocando em meu bolso. Era Caio. Provavelmente muito preocupado com a operação de sua mãe, que acontecia naquele momento. Não era costume que ele ligasse à tarde, mas provavelmente arrumara um jeito de manter contato e saber notícias. Acalmei-lhe falando que tudo daria certo.

_Amor, obrigado, não sei o que seria de nós sem a ajuda de sua família.

_Eu estarei aqui sempre para te ajudar, Caio. Vai dar tudo certo. Eu te amo.

_Eu tenho que desligar. Também te amo.

_Tá. Beijos. Te amo, tchau.

Desliguei o aparelho e o enfiei no bolso. As horas pareciam não passar e minha ansiedade era grande. Eu sabia o quanto a mãe de Caio era importante para ele, fosse a nossa relação boa ou não. As sogras são sempre a única mulher acima de você, portanto, tudo que acontecer com ela pode desestabilizar sua vida e sua relação.

O médico veio informar finalmente que a cirurgia de remoção do seio havia acabado e que em breve poderíamos vê-la. Minha mãe e eu nos abraçamos aliviadas.

Dona Fabíola não nos reconheceu, ainda estava sob os efeitos da anestesia. Parecia estar imersa em outro mundo, olhando para o teto.

_Estamos aqui com você. _ sorri. _Sei que pode nos ouvir. Ficará tudo bem. _ acalmei-lhe.

Imediatamente enviei uma mensagem de celular para Caio, contando que tudo estava bem até então, para tranqüilizá-lo. Depois, liguei para o marido de Fabíola e deixei um recado em seu trabalho, ele havia saído em missão.

Minha sogra ainda precisou ficar no hospital por alguns dias. Cuidamos dela como pudemos, trazíamos frutas, roupas limpas, conversávamos com ela e tentávamos preencher com nosso acolhimento toda a falta que ela sentia da família.

Foi chegada a hora de voltar para casa e ali começou um longo processo que mudaria completamente minha rotina e me ensinaria duras e importantes lições sobre servir com humildade.

Dona Fabíola sentada na cama olhava para a sonda apoiada no chão. Era uma espécie de pote branco, com um tubo que entrava em seu peito e deixava os líquidos saírem por ali e se depositarem no recipiente.

_Trouxe roupas limpas para tomar banho. _coloquei as duas toalhas brancas em cima da cama, junto com sua camisola e a calcinha.

_Eu não posso levantar os braços. _ ela me disse.

_Eu sei, por isso eu vou lhe ajudar a tomar banho. _ falei-lhe.

Ela me olhou longamente, sabia que não queria estar passando por aquela situação. Mas, era preciso e ela deveria se despir de qualquer orgulho se quisesse ajudar a si própria.

Ajudei a levantar-se e fomos até o banheiro. Fechei a porta e nos olhamos mais uma vez.

_Não precisa ter vergonha. Tudo que você tem eu tenho. _ brinquei.

_Ah! Que situação a gente fica... _ lamentou-se, choramingando.

Aquele enfermeiro com quem encontrei no hospital me veio à mente e lembrei de suas palavras sobre não perder o equilíbrio emocional.

Dona Fabíola vestia uma camisola de botões, já que não poderia retirar nenhuma roupa levantando seus braços. Abri-os delicadamente e fiquei diante de sua pele fria e embranquecida. Eu precisei cobrir com uma das toalhas o curativo que encobria o peito direito para que não molhasse.

Abaixei-me e tirei sua calcinha. Ela estava sem se depilar a muito tempo. Parecia aquelas madonas de quadros medievais, toda peluda na virilha.

Como devia estar sendo difícil para ela estar sob as minhas mãos, dependendo totalmente da minha ajuda. Logo eu, para quem ela mostrara tanta indisposição. Que ironia da vida.

_Eu vou passar primeiro. _ expliquei-lhe, abrindo a porta do box. Pedi que calçasse as havainas para não escorregar. Liguei o chuveiro e com a mão testei a temperatura da água. Esperei que ficasse morna. Depois, peguei um sabonete novo, abri o pacote e esfreguei entre as mãos. Acariciei, delicadamente, toda sua pele.

Depois de um longo e vagaroso banho, ajudei-lhe a se secar e vesti sua roupa. Retornamos para o quarto e ela deitou-se para que eu pudesse fazer seus curativos. Essa, para mim, certamente era a parte mais difícil, pois eu não gostava muito de sangue, nem de ferimentos.

Lavei as mãos mais uma vez com sabonete e voltei até o quarto. Desinfetei com álcool e vesti as luvas cirúrgicas. Tudo tinha que ser feito com o máximo de higiene. Com um algodão molhado no álcool passei nas pontas dos esparadrapos para que a cola se soltasse, sem machucar sua pele, que já estava avermelhada. Coloquei tudo dentro de uma pequena sacolinha de plástico. Meus olhos se depararam com o seu dorso esquerdo, sem seio. Era uma visão muito chocante que só eu poderia ver, enquanto ela olhava para o teto. A finíssima pele encobria o coração e eu podia vê-lo bater com força. Senti todos os pelos dos meus braços se arrepiarem e tive vontade de fazer uma careta de horror. Mas, meu semblante tinha que ser frio e os gestos, firmes.

Peguei duas gases e umedeci com um líquido avermelhado, passei por cima dos pontos e precisei espremer um pouco a pele para sair as secreções. Aquilo exigia de mim um alto grau de concentração e segurança.

Mais gases para limpar tudo, depois para revestir a área e esparadrapos para vedar os curativos que encobriam a operação.

_Prontinho, viu? _ sorri-lhe.

_Obrigada. _ ela suspirou.

Fechei sua camisola.

Joguei tudo dentro da sacola, desinfetei com álcool os objetos e os guardei em uma pequena caixa, que deixei em cima do meu criado mudo. Depois, retirei as luvas e fui lavar minhas mãos mais uma vez.

Todas as roupas precisavam ser lavadas. Toalhas, camisolas, lençóis. O que me deixava muito cansada, pois minha mãe tinha que trabalhar e só restava a mim para fazer aquelas tarefas.

Quando voltei para o meu quarto para pegar no guarda-roupa uma roupa para eu tomar banho, Dona Fabíola me chamou:

_Bela, meus braços estão estranhos. Aqui de baixo das axilas está parecendo um buraco, fica tão feio. Isso vai desinchar?

Olhei-a. Ela se referia ao fato de terem tirado algumas glândulas do seu braço, o que precisou repuxar a pele. Parecia que em suas costas agora havia duas depressões. Claro que ainda não tinha consciência de nada disso. Só medo de ficar feia.

_Vai sim. _ garanti-lhe e sorri, sentindo por dentro uma imensa comoção.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

8 comentários:

feriele disse...

nossa cada coisa..a vida da bela virou de cabeca p baixo..q coisa..
mais acho q ela está agindo muito bem...
Tudo vai dar certo..logo logo a mãedo caio vai estar boa...
bjs li..tah linda a história...

Tita disse...

Oi Li!
Brrr! Fiquei toda arrepiada! Mto curativo e sangue e etc.. brrr brrr
Bela corajosa hein? Caramba...
Tá bonita a história, mesmo!
Beijooo

Plincesa Lucy disse...

Argh!!! Tô arrepiada dos pés à cabeça!!! Ai!!! Eu não sei se aguentaria tal coisa assim, tão friamente e com gestos firmes!!! Caramba!!! *olhos fechados, agonizando ainda* -> [>.<]

Ah, a Bela falou algo certinho. Vai aprender o que significa humildade, mas não só isso. Também vai entender o significado do amor que ela tem pelo namorado, que deve se estender aos amados dele também, como a mãe e também o resto da família. E, ainda que não gostem dela, a Bela precisará fazer a sua parte e orar para que eles façam o mesmo. É preciso haver comunhão entre as famílias... do contrário, não há família nem relacionamento verdadeiro. Sempre vai ficar faltando aquele 'detalhe'. Enfim... aiaiai, é agora que a Bela vai amadurecer um pouco mais nessa dura vida de mulher-filha-irmã-nora-e...namorada de militar. =)

Abração, meninas!
Bjos, Li! (vc arrasou na descrição, hein? ui!!!)

nATHY disse...

Eu já operei o seio tbm. É ruim demais, graças a Deus não precisei tirar.

Mais é mta dependencia mesmo.
A gente se sente inutil e fragil.

Bjos!

Jéssi disse...

Nossa..... a Bela ta sendo praticamente um anjo pra essa mulher..... que só tende a ser muito grata a ela...
beijos
parabens Li...

mell disse...

nossaa.. quantas informaçoes para um dia soh! hehehe
estava a duas semanas sem ler o livro! namorado de ferias, esqueço do mundo... heheheh

tah tudo tao emocionante e perfeito li.

chorei horrores aqui :/

beijaozaooooo =**

aninha disse...

nossa!!!! cap forte heim!!! bjus

Jéssika disse...

Nossa Li vocês esta de parabéns Minha avo teve cancer de mama e tb teve q tirar o seio, mas ela tirou só uma parte e de baixo da axila também, vocês descreveu igualzinho ao que aconteceu com a aminha avó...fiquei impressionada!
Parabéns!!!!!!!