13 de jul de 2007

Capítulo 47: Estranha na própria casa

A necessidade nos impõe condições que impedem que a soberba do nosso coração nos eleve o orgulho. Assim aconteceu com a minha sogra, que sempre me perseguiu por não me julgar a altura de seu filho.

E agora entre nós haveria um exercício diário de tolerância. Eu poderia bem estar feliz e realizada com este novo quadro, ela precisando dos meus favores. Mas meu coração não era mesquinho, pelo menos eu desejava que ela visse isso em minhas atitudes, afinal, eu não duvidava nem um pouco que achasse que eu estava me revirando por dentro de satisfação.

Se eu aceitara ajudá-la junto com minha família era porque de fato eu queria ver o meu namorado bem. Caio estava de tal forma desolado pela doença de sua mãe, que se não tivesse a segurança de que alguém poderia ajudá-la, isso seria sua ruína na academia.

Imaginem o problema que seria para ele fazer seus exercícios, assistir as aulas e cumprir os serviços com a possibilidade em mente de sua mãe morrer e não resistir ao tratamento. Eu travaria aquela batalha para que não rolasse nenhuma lágrima mais em seu rosto.

Quando amamos alguém, o amor nos transforma e nos molda em alguém melhor. Impossível um ser humano amar sem se deixar evoluir pela porção mágica do amor.

Não digo que seria fácil e ela estava ali para me mostrar isso, com seus olhos frios e seu silêncio.

_Bem, essa é a minha cama. Você pode deitar nela. _ eu expliquei, apontando para minha cama de solteiro, forrada com uma colcha rosa de flores e cheia de bichinhos de pelúcia em cima.

_E aquele sofá-cama? _ ela perguntou.

Olhei para o meu lado. Aquele sofá-cama na verdade estava no quarto do meu irmão. Caio costumava dormir lá. Mas, depois meus pais aceitaram que ele ficasse no meu quarto, por ser maior. Daí eu explicar que nós dormíamos sobre o mesmo teto, poderia dar uma certa complicação na cabeça dela.

E se ela estava imaginando que seria fácil, depois de operada, se abaixar para dormir no chão, estava equivocada. Como eu iria lembrar-lhe deste detalhe tão delicado?

_É, eu vou dormir aqui. Eu gostaria de ceder minha cama para você ficar mais confortável. _ tentei levar as coisas por esse lado, não que o meu primeiro desejo fosse esse tão altruísta, mas se ela visse as coisas dessa forma, já estava de bom tamanho para mim.

_Tá, certo. Obrigada.

_E, ah, suas coisas... _ me dei conta mala que segurava. _ Vão ficar aqui no meu armário. Ele é grande, olha... _ abri a porta do meu guarda-roupa de quatro portas e mostrei-lhe que tinha esvaziado todo um lado só para ela. _ Não é como na sua casa... _ alertei-lhe, caindo em mim, já que seus guarda-roupas modulados eram muito mais bonitos e maiores que o meu humilde. _ Mas acho que serve. _ encolhi os ombros.

Ela me olhou por alguns segundos e depois para o armário e eu ali sustentando o sorriso na boca e o coração a disparar. Que horrível sensação de tentar agradar e só receber o silêncio. Queria que ela dissesse qualquer coisa, nem que fosse um “é um muquifo, mas tá bom”. Nada!

_O banheiro temos dois. Um no corredor. Na verdade, é um só. _ ri da minha confusão. _ Porque o da dependência de empregada a descarga está ruim e a água do chuveiro é fria, mas meu pai pode tentar arrumar. _ cocei a cabeça. _ Minha mãe separou uma toalha e roupas de cama. Só que estão ainda em cima da passadeira. Eu a vi fazendo isso ontem, só que acho que não teve tempo de trazer para cá... _ minhas mãos passeavam no ar, gesticulando sem parar.

_Tá. _ ela balançou a cabeça em sinal de sim. Olhou os porta-retratos na prateleira que havia na parede com várias fotos do seu filho me beijando, me pegando no colo. Ela estendeu a mão e pegou um deles que tinha uma foto de Caio sozinho, vestido de farda 3D, aquela begezinha. Colocou de volta no lugar.

_Dona Fabíola, você quer tomar o café conosco? _ minha mãe apareceu na porta e eu senti um grande alívio, como quem é salva pelo gongo, estava praticamente apelando, só me faltava agora apresentar os ursinhos da minha cama, “esse é o Ted, esse é o Biba, esse é o...”

_Ah, sim. _ ela sorriu e deixou sua mala no chão.

_Você sabe fazer café? Poderia me ajudar?_ minha mãe perguntou.

Dona Fabíola fazendo café? Não que ela não soubesse fazer, mas ela era uma mulher tão fina e em sua casa sempre tiveram empregadas.

Senti que minha mãe não conhecia nada dela e essa seria sua primeira “gafe” como anfitriã. Mas minha mãe estava era certíssima, se a mãe de Caio estava em nossa casa, era para entrar no nosso ritmo, conforme “a banda toca”, diria meu pai. Que por incrível que pareça até agora aceitara de bom agrado tudo isso, para a minha grande surpresa.

Será que, no futuro, meu poder de persuasão sobre Caio seria tão forte quanto o de minha mãe, quando queria que meu pai permitisse alguma coisa muito doida?

E foi assim que dona Fabíola conheceu a minha cozinha, de mesa antiga de granito, armários de madeira meio sujos de gordura com o tempo, a geladeira ainda azul, bem antiga, das “boas, como não se fazem mais”, elogia sempre minha mãe e o botijão de gás vestido com uma saia rodada vermelha de melancias bordadas em alto relevo.

Ela, vestida com uma fina saia de linho no joelho e uma impecável blusa branca engomada, se aproximou da pia e duelou um pouco com a torneira, até descobrir para que lado girava para abrir. Respingou-se um pouco por não medir a força da água e riu. Seu primeiro riso, que me lembrou sua humanidade. Não sei por que, mas ela nunca me parecia humana.

O mais difícil para nós era não saber como tratar do assunto. Ela estava ali para se tratar do câncer, mas nem ao menos sabíamos como iríamos tocar no fato. Tomamos a lei do silêncio no início, na falta de métodos para lidar com isso.

À noite, quando já todos dormiam, eu ainda sentia meu corpo tenso, por ter passado todo o dia tentando agradar e fazê-la se sentir à vontade. Que difícil isso! Eu me sentia incomodada na minha própria casa, como seu fosse a visita.

O telefone tocou e meu coração engasgou na garganta. Putz! Caio! Ele sempre ligava muito tarde. E não tinha como escapar, porque era o telefone do quarto que estava tocando. Sentei num impulso e estendi a mão para pegar o fone, em cima da minha mesinha.

_Meu amor. _ falei baixinho.

_Bela, querida. Como estão as coisas aí?

_Ótimas, pode ficar tranqüilo. E como foi seu dia, meu lindo? _ perguntei.

Ai meu Deus, a mãe de Caio estava ouvindo aquilo tudo. Impossível não ter acordado com o barulho.

_Foi bom, amor. Estou bastante cansado. Vou ter Siesp semana que vem e peguei serviço justo nesse sábado.

_Que droga, amor! Pegou serviço? Mas vai passar rápido, e logo vamos estar juntos. Eu te amo demais, mais que tudo, estou tão louca de saudade.

_Eu também te amo, Bela, nem sei como te agradecer.

_Me amando. _ ri e me contive.

_Ah, mas isso eu já faço sem você pedir.

_Sei... _ ri de novo. _ Te amo, dorme com Deus e sonha comigo.

_Tá, te amo também. Beijo e manda um beijo para minha mãe.

_Pode deixar que eu mando. Beijo, te amo.

_Te amo, tchau.

_Tchau.

Suspirei. Era tão satisfatório falar com ele, alguns segundos que me traziam a sensação de que o dia tinha valido inteirinho a pena.

Deitei e dormi. Amanhã seria um longo dia, levaríamos a dona Fabíola ao médico.


Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

6 comentários:

fernanda disse...

nossa que barra a bela está passando..nem imagino...q horror... vc tentar agradar alguem q n quer ser agradada...nossa..coitada...
mais ela esta agindo certinho...td vai dar certo...
bjs li tah lindo...

entrem no meu blog..amanha estou indo p o sul..conto as novidades lah..bjs

aninha disse...

huuuummmmm Fernandinha!!!!!! aproveita!!!!!!!!!! boas férias!!!!!!! caraca velho!!!!!! coitada da Bela, tendo que cuidar da sogra...rsrss!!!!!!

meninas, visitem o romance militar tão iguais e tão diferentes

www.taoiguaisetaodiferentes.blogspot.com

Anônimo disse...

Muito bom, agora sim eu quero ver como vai se comportar a dona Fabíola na casa alheia, precisando de ajuda. Eu vejo, pela atitude dela, que vai buscar ser simpática e não comentar muito, mas nunca se sabe como as pessoas reagem em condições desagradáveis. Ou seja, depois da operação, quando estiver sentindo muita dor... será que ela vai ser polida e não fazer comentários que possam ferir alguém, principalmente a Bela?

Estou ansiosa pra saber!!! E agora a Bela vai entender o verdadeiro significado da palavra "humildade". Gostei de ver a atitude dela. *Suspiro* O que a gente não faz por quem ama, não é?

Li, eu fui comentar no Blog dela e não lembrava se ela já havia dito que a sogra não gosta dela ou coisa parecida, daih eu enrolei lá num "não sei mto sobre o seu relacionamento com ela..." e tal, pra poder pelo menos falar uma alternativa de atitude que ela poderia tomar caso aconteça algo desagradável. rsss...

Bjos, Li! \o/

Anônimo disse...

Pra completar, uma frase da Anne Frank (do seu diário):

Você só conhece mesmo uma pessoa quando tem com ela uma briga. Só então pode avaliar seu verdadeiro caráter.” (28/09/1942)

Nathy disse...

Eita eihn! Q coisa! rs.

Bjos!!

Jéssi disse...

Muito bom..... é bom saber q mesmo sem gostar da sogra ela esta tentando ajudar...
Li... parabens....
esta lindo isso aqui...
beijos