31 de jul de 2007

Cap 58: Mão de obra "escrava" qualificada

Depois que o baile acaba também é como nos filmes de princesa, a carruagem volta a ser abóbora. O príncipe fica em sua academia e eu tenho que seguir minha vida sem ele.

Mas ficam na memória e nos porta-retratos os melhores momentos para guardarmos no coração. Minhas amigas podem ter a chance de sair com seus namorados a hora que querem, mas talvez nunca experimentem aquele baile inesquecível. Não é igual a uma festa de formatura em que todos as mulheres vão de longo e os homens, de back tie. Não tem a mesma atmosfera, nem o clima de romantismo.

Naquele baile, ele estava vestido de príncipe, sem tirar nada, até espada tinha! E eu era sua dama, o amor daquele militar. Isso não tem comparação com nada do que se tenta imitar aqui fora.

Nós podemos sofrer de certa forma com a distância, mas há coisas que ninguém além de nós vai saber o real significado mágico.

Eu estava refletindo sobre tudo isso, enquanto dirigia-me para uma entrevista de estágio. Um amigo meu saíra de um centro de pesquisas farmacológico do Governo Federal e me indicara para a vaga.

Desci do ônibus e me identifiquei na portaria. Era um campus gigantesco, com vários prédios de pesquisas, centros de estudo. Para se ter idéia de como era grande, havia ônibus para transportar as pessoas por dentro do campus.

Passei por um minizoológico onde havia jaulas de macacos e vários bichos criados para testes e estudo. Cavalos, ovelhas, cabras. Muitos animais. Uma fazenda praticamente encravada na cidade. As centenas, acho que posso dizer milhares, de árvores que cercavam todo o lugar, mais os altos muros, impediam que quem passasse do lado de fora pudesse ter noção de como era lá dentro.

Identifiquei-me na portaria de um dos prédios e a mulher deu-me um crachá de visitante. Tirou uma foto minha na webcam e registrou minha entrada.

_Você pode pegar o elevador e subir até a sala 118 e falar com a Cássia.

_Tudo bem.

Assim o fiz e quando cheguei na sala da tal da Cássia, encontrei uma garota magra de cabelos cacheados, aparentando seus vinte e quatro anos, sentada de frente para um computador e uma mulher com uma mancha marrom no rosto sentada em outra mesa.

_É... Eu queria falar com a Cássia. É para a entrevista de estágio.

As duas me olharam de cima abaixo.

_Só um minutinho que vou avisar que você chegou. _ a mulher com a mancha, que depois eu descobriria que também coincidentemente se chamava Cássia, abriu uma porta ao lado da sua mesa e avisou para sua chefe que eu havia chegado.

_Oi. _ Cássia era baixinha, de cabelo encaracolado.

Fomos para uma outra sala no final do corredor. Lá já havia outros três candidatos.

Sentei junto com eles.

_Bom, eu vou tentar ser rápida e resumir para vocês._ ela parecia ter pressa. _ A vaga é para a comunicação interna daqui, nós temos uma revista científica e também promovemos vários eventos. Queríamos pessoas que estivessem estudando dentro do campo da comunicação, não importa se rádio, tv, publicidade, jornalismo...

Hum... Já não gostei muito disso. Sinal de que se a restrição era pouca, péssimas notícias estavam a vista.

_A bolsa é pequena. De 260 reais. Aqui ficamos ao lado de uma favela, por isso vocês já devem saber que é uma área de risco, mas as oportunidades de se aprender são muitas...

Só 260 reais? Então, se eu calculasse o custo das passagens de ônibus, mais dez reais de almoço por dia, eu estaria trabalhando por 20 reais?! Eu, uma pessoa que estava estudando terceiro grau em uma universidade pública?

_Vamos ver o currículo de vocês. _ ela pegou os papéis na mesa. _ Eu sei que vocês devem ter chegado aqui pelo anúncio da vaga que pedi para ser divulgado nas listas de e-mail. _ comentou enquanto lia dinamicamente os currículos. _ Quem é a Vanessa? _ perguntou.

_Eu. _ uma garota tímida levantou o dedo. _ Você está no segundo período, fez alguns estágios em programas sociais. Não ganhou nada por isso?

_Não.

_Só tem o básico do inglês?

_Só.

_ E quem é Roberto? Você, claro. Só tem você de homem. _ riu. _ Você também não fez estágio, e tem o básico de inglês. Hum... E quem é Fabiana?

_Eu. _ respondeu uma garota negra, vestida de terninho.

_Você diz aqui que já faz estágio no jornal O Povo.

_É. Eu na verdade me ofereci para voluntariamente fazer plantão lá aos domingos para pegar experiência.

Voluntariamente? Ela está dizendo que perdia os fins de semana no jornal que só fala de assassinato e estampa na capa pedaços de corpos ensangüentados?! Ela ficava apurando aquele tipo de notícias?

_E quem é Isabela?

_Eu.

_Hum. Você tem fluência em inglês, intermediário em espanhol. Fez curso de informática e webdesign.

_Isso.

_Mas não tem experiência?

_Não.

_Ok. Eu vou dar para vocês uma lei sobre a regulamentação do trabalho dos agentes de saúde que saiu agora, vocês vão ler e escrever uma redação. Aqui também tem um artigo de um representante da categoria discutindo os pontos negativos.

Eu não demorei para estar na metade da redação e eles não tinham escrito nenhuma linha. Disse para se acalmarem e lerem com paciência. Senti pena deles.

A garota negra deu uma risada, amassou a folha e caiu fora. Desistiu.

Bom, depois de feito, fui até a sala da Cássia e lá só encontrei a outra jornalista que trabalhava com ela. Entreguei-lhe a folha. Ela deu uma risada sarcástica com alguma coisa que viu e disse que eu podia ir embora.

Fui para casa com a sensação de que não tinha concorrência. Afinal, meu currículo era o melhor. Mas o e-mail que recebi no dia seguinte me deixou intrigada. Nem eu, nem nenhum dos que estavam ali tinham sido escolhidos. Mas uma outra garota, chamada Maria.

Foi o suficiente para eu me sentir uma droga. Sentada no banco da faculdade, vi uma pessoa que a muito tempo não tinha contato.

_Gustavo?! _gritei.

Ele correu em minha direção.

_Bela! _abraçou-me com carinho. _Como está?

Contei-lhe tudo que havia acontecido.

_Vai se acostumando. No Brasil, eles querem trabalho escravo de mão de obra qualificada! É um absurdo que alguém trabalhe por menos que um salário mínimo. Porque para mim isso é trabalho!

_Mas por que não me escolheram?

_Porque você era boa demais, Bela. Eles tinham que escolher alguém que não demonstrasse risco de sair a qualquer momento.

_Então, até os bons tão na merda?

_Quase isso. Por exemplo, para quê você acha que eles perguntam em toda entrevista ou em formulários de dados curriculares se fazemos algum trabalho voluntário? Para saber se nós somos capazes de trabalhar várias horas extras não remuneradas sem reclamar, por pura devoção!

_Isso é tão assustador. _ suspirei.

_Mas calma, as coisas vão melhorar.

_Espero. E você como vai? Feliz com sua namorada? Já vi vocês dois aqui no campus de mãos dadas.

_Sim, estamos morando juntos.

_Mentira!

_Pois é. Estou realizado! E você? Como está lá com seu militar?

_Bem. Ele lá e eu cá. _ ri.

_Nossa, não agüentaria não vê-la um dia.

_Eu também não agüento. Mas preciso agüentar.

_Sorte para você, então. Tenho que correr para uma aula. _ beijou-me a bochecha.

_Tchau.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

4 comentários:

Jane disse...

Nossa essa foi inesperada! O Gustavo, que bom que eles continuam amigos. Ihh coitada da Belinha, vai ter que virar escraviária! hehehe
Meninas, pensei melhor e vou contar mesmo pra ele hoje. Obrigada pelas idéias!
Beijo!!

Li disse...

Jane, linda!
ótima idéia, conta sim!!! ele vai ensaiar com mais entusiasmo! eles ensaiam cerca de 50 vezes aquela entrada. imagina não saber q vc vai...
ele ficará feliz em saber que te verá lá!!!!
vai ser lindo!
bjão

aninha disse...

afffff!!!!! coitada!!!! ser escragiária é foda!!!!!!

meninas, tem capitulo novo no romance tao iguais e tao diferentes

www.taoiguaisetaodiferente.blogspot.com

e agora estou escrevendo um livro em homenagem aos meus irmãos

www.meuirmaomeuamigo.blogspot.com

esse livro vai falar muito da minha vida com eles!!!!

Anônimo disse...

Ui!!! Esa vida de estagiário deve ser pau... ainda não consegui chegar lá. Mas, to pertinho da hora em que será inevitável... caramba, dá um frio na barriga só de pensar nas entrevistas e perguntas! Poutz! Eu não consigo ficar à vontade quando sei que estou sendo avaliada... droga. =P

E, olha só, o Gustavo! Gosto tanto de lembrar da maturidade com que eles terminaram e agora são amigos... isso é mto lindo. Essa sinceridade que não se encontra fácil por aih... =(

Poxa... será q a Bela não vai achar um estágio pra ela, caramba? Poxa... =((( (snif)