10 de jul de 2007

Cap 45: Sem garantias

As férias foram realmente ótimas. Salvo, claro, aquele carma em minha vida chamada Felícia. Não vou nem pronunciei esse nome para não estragar a sorte do meu dia.

Hoje, fui a uma entrevista de estágio em uma grande emissora de televisão para concorrer a uma vaga na habilitação de publicidade.

Fui com a cara, a coragem e muita maquiagem. Assim que cheguei próxima ao prédio, retirei meu chinelo e coloquei meu salto de bico fino. Meu pai ficou com a sacola e me despedi dele, dizendo para não se preocupar que eu me viraria bem sozinha.

Vendo meu pai se afastar, com seu bermudão simples e a barriga apertada na camisa, tive um amor quase de compaixão por ele. Por mais durão que fosse, estava ao meu lado, torcendo pelo meu sucesso e acreditando em mim. O que pesava ainda mais nas minhas costas a responsabilidade de ser bem sucedida.

No luxuosíssimo prédio, aguardei sentada na recepção juntamente com mais uns 20 candidatos. Mais mulheres que homens, na realidade. Todas ali pareciam modelos, lindas, impecavelmente vestidas. Comecei a me sentir inferior, com uma roupa inferior, com uma experiência inferior...

Agüentei quieta com a minha própria angústia. Depois de duas horas de espera, nos pediram para subir e fomos colocados em círculo em uma sala cheia só com cadeiras. Nunca vou esquecer das próximas horas em que lá estive.

Uma mulher magrela e com uma cara de bruxa má nos olhava em silêncio, enquanto outra mais extrovertida explicava as regras:

_Vocês farão uma prova de 20 questões de atualidade. Uma redação de 30 linhas. Uma prova de... _ eram tantas avaliações, que deram um nó na minha mente e tudo, diga-se de passagem, em um tempo muito curto, para fazer no automático mesmo.

Após quatro horas, meu cérebro estava queimando. Para mim já chegara! Que nada, o pior estava por vir. A entrevista, afinal, era para isso que eu viera até ali.

Cada candidato falaria de si, das coisas que já fez e responderia porque queria estagiar ali. A consultora de RH avisou que quem ainda não tivera feito estágio antes, poderia falar de um trabalho que gostara de fazer na faculdade. Eu tive a sensação de que aquela opção de misericórdia era bem o meu perfil e me senti ainda menor por isso.

A primeira a falar foi uma menina que estudava em uma universidade particular muito cara. Ela tinha morado na Austrália, falava com fluência nativa três línguas e tinha estagiado em duas multinacionais. Depois dela, só cresciam as demonstrações curriculares dos candidatos. Eles já moraram: nos Estados Unidos, Suíça, França, Inglaterra... Já estagiaram em seis, sete grandes empresas, falavam fluentemente em média três línguas...

Eu não conseguia levantar o meu dedo para me apresentar. Eu sei que isso era péssimo para mim, ser a última era o pior sinal que eu poderia demonstrar, mas é que eu não conseguia abrir a boca. Eu não tinha nada daquilo. Minha pobre mãe, coitada, vivendo de limpeza de pele nunca teria condições de me mandar para o exterior. E eu não tinha experiência de nada.

Mas eu não poderia escapar daquilo. Me senti o pior dos seres. Fiquei tão nervosa que minha voz tremia e eu tive vontade de chorar em um ataque de pânico. Pode parecer uma infantilidade, mas eu nunca estive tão desamparada. Só queria que aquilo acabasse logo.

Eu que ali chegara às 4 da tarde, sai às nove. Quando encontrei a minha cama, eu ali morri. Minha mãe muito ansiosa, proclamando aos quatro ventos que acreditava muito na minha capacidade, nem percebia o quanto eu estava arrasada.

Olhei para o celular. Nenhuma mensagem de Caio. Nossa, que cruel o mercado de trabalho. Quão desumano. Eu estaria competindo com pessoas que ainda na vaga de estágio tinham mais experiência que um profissional gabaritado de anos atrás, de outra época.

A minha tristeza e desolação de não ter sido chamada para a próxima fase ficou estampada no meu rosto. Conversando com uma colega de turma, contei-lhe tudo. Ela, na realidade, só era da minha turma de “Criação Publicitária”, porque estava fazendo aquela disciplina que tinha perdido. Seu real período era o sétimo.

_Eu estagiei lá. Mas depois do período de um ano eles mandam todos embora. Um ou dois ficam.

_É?_ franzi a testa.

_É... _ riu, me achando muito ingênua. _ É tudo marketing. Eles só querem usar os estagiários como mão de obra barata. Você acha muito ganhar 800 reais para trabalhar seis horas? Isso é uma exploração! Porque dois estagiários estarão tomando a vaga de um profissional que deveria ganhar muito mais. E, pior, eles podem te mandar embora depois do contrato, não estão assinando sua carteira.

_Eu sei de tudo isso... Mas a gente sempre tem esperança... Sempre ouve falar daquele fulano que conseguiu...

_É... Mas na grande maioria dos casos, ficamos assim, mendigando um estágio exploratório. Só que se você pensa que ai mora o problema, que nada. E quando você tiver um filho para criar? E marido?

Pensei em Caio, em ter que me mudar sempre com ele de dois em dois anos.

_Você já parou para somar todos os gastos que seus pais tem com você? E quando for você que tiver esses gastos com seu filho e mais, juntando com os seus próprios gastos?

Ela não era tão mais velha assim, mas conseguia enxergar um lado muito prático da vida. Talvez porque estivesse mais de cara com o fim do curso, com o mundo mais cru.

Aquilo tudo ficou rodando na minha cabeça e me entristeceu demais. Tive que desabafar com Caio, quando liguei para ele, à noite, depois das nove.

_Que isso, amor! Você é muito nova! Você é ótima! Tenho certeza que será muito bem sucedida! _ ele me animou.

Eu não falei mais nada. Ele não entendia... Caio teria seu emprego federal garantido. Não sabia o que era estar à mercê da mão perversa do capitalismo.


Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

7 comentários:

Li disse...

Minhas amadas leitoras amigas, peço mil desculpas pela demora na continuação do nosso livro.
Eu estava fisicamente ruim e também emocionalmente mal... meu namoro não ia bem... mas enfim os problemas foram resolvidos e agora bem de corpo e com muita paz no coração, posso voltar a escrever.
Um beijo carinhoso a todas vcs!
Deixem seus recadinhos viu?

Lucy disse...

Liiiii!!! vc voltou!!!! bjo bjo bjo!!! \o/ q bom q está melhor e o relacionamento tb!

Deus abençoe sempre pra nada te deixar pra baixo!!!

E agora é que a Bela vai ver como é difícil... só acho meio chato da parte dela desdenhar qq comentário feito pelo Caio. Acho q ele falou aquilo não pq não entende a competição, mas sim, porque qq competição pode ser superada. Não é pra pensar na dificuldade, e sim, em como alcançar o nível suficiente para estar apta ao nível exigido pelo mercado de trabalho. (rss) melhor ele começar a ser mais claro e prático da próxima vez, do tipo "Bela, você consegue, é só começar por aqui..." e ai vai.

Esse negócio de ela sempre se calar pq acha q ele não entende vai acabar sendo um problema... tipo, algum dia ela vai omitir alguma informação porque acha q ele não vai entender e ele vai sber e pode ficar com raiva e tal... eu acho melhor dizer o q pensa mas sem ser agressiva seilah... rsss é o meu jeito de ser. Eu falo o q penso, ele faz o mesmo, a gente debate o assunto (sempre mantendo o respeito) e fica tudo certo. Entendidos, ou não, pelo menos conversamos sobre o assunto. ;)

bem, é isso!
bjo bjo, meninas!!!

fernanda disse...

que bom q vc voltou menina!!!!
que bom q td está melhor!!!

bom sobre a bela..acho q Caio n fez pouco do que aconteceu com ele..ele soh quiz animar ela... mais com o tempo ela vai entender isso...

e esse negocio de c mudar de 3 em 3 anos eh um problema neh..rs...

bjs meninas

entrem no meu blog...deixem um recadinho...

http://fernandariele.blogspot.com/

Jéssi disse...

To passando pela mesmicima situação..... estou desempregada.... desperada atras de alguma coisa.... huahuahu.....
é o mundo do mercado de trabalho é realmente muito cruel...
beijos

Aninha Barreto disse...

oi Li, oi meninas!! é... por incrivel que pareça, hj eu fico com as meninas! rsrs!!!! o Caio quis animar a Bela... leve em conta que milicos não são bons com as palavras em certas ocasiões....rsrsrs!!!!!

meninas capitulo novo no romance militar tão iguais e tão diferentes

www.taoiguaisetaodiferentes.blogspot.com

Elaine Cavalcanti: disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elaine Cavalcanti: disse...

Quando as coisas não andam bem em nosso namoro, fica dificil escrever, ainda mais sobre romance... Fico feliz por vocês terem superado e continuarem na "EQUIPE de namoros militares". Equipe que estava "dispersa" até o Blog Eu amo um militar...

A vida "sem garantias" nos assusta quando queremos trabalhar na área que nos formamos, quando temos noção do que é "estar à mercê da mão perversa do capitalismo"...