31 de jul de 2007

Cap 58: Mão de obra "escrava" qualificada

Depois que o baile acaba também é como nos filmes de princesa, a carruagem volta a ser abóbora. O príncipe fica em sua academia e eu tenho que seguir minha vida sem ele.

Mas ficam na memória e nos porta-retratos os melhores momentos para guardarmos no coração. Minhas amigas podem ter a chance de sair com seus namorados a hora que querem, mas talvez nunca experimentem aquele baile inesquecível. Não é igual a uma festa de formatura em que todos as mulheres vão de longo e os homens, de back tie. Não tem a mesma atmosfera, nem o clima de romantismo.

Naquele baile, ele estava vestido de príncipe, sem tirar nada, até espada tinha! E eu era sua dama, o amor daquele militar. Isso não tem comparação com nada do que se tenta imitar aqui fora.

Nós podemos sofrer de certa forma com a distância, mas há coisas que ninguém além de nós vai saber o real significado mágico.

Eu estava refletindo sobre tudo isso, enquanto dirigia-me para uma entrevista de estágio. Um amigo meu saíra de um centro de pesquisas farmacológico do Governo Federal e me indicara para a vaga.

Desci do ônibus e me identifiquei na portaria. Era um campus gigantesco, com vários prédios de pesquisas, centros de estudo. Para se ter idéia de como era grande, havia ônibus para transportar as pessoas por dentro do campus.

Passei por um minizoológico onde havia jaulas de macacos e vários bichos criados para testes e estudo. Cavalos, ovelhas, cabras. Muitos animais. Uma fazenda praticamente encravada na cidade. As centenas, acho que posso dizer milhares, de árvores que cercavam todo o lugar, mais os altos muros, impediam que quem passasse do lado de fora pudesse ter noção de como era lá dentro.

Identifiquei-me na portaria de um dos prédios e a mulher deu-me um crachá de visitante. Tirou uma foto minha na webcam e registrou minha entrada.

_Você pode pegar o elevador e subir até a sala 118 e falar com a Cássia.

_Tudo bem.

Assim o fiz e quando cheguei na sala da tal da Cássia, encontrei uma garota magra de cabelos cacheados, aparentando seus vinte e quatro anos, sentada de frente para um computador e uma mulher com uma mancha marrom no rosto sentada em outra mesa.

_É... Eu queria falar com a Cássia. É para a entrevista de estágio.

As duas me olharam de cima abaixo.

_Só um minutinho que vou avisar que você chegou. _ a mulher com a mancha, que depois eu descobriria que também coincidentemente se chamava Cássia, abriu uma porta ao lado da sua mesa e avisou para sua chefe que eu havia chegado.

_Oi. _ Cássia era baixinha, de cabelo encaracolado.

Fomos para uma outra sala no final do corredor. Lá já havia outros três candidatos.

Sentei junto com eles.

_Bom, eu vou tentar ser rápida e resumir para vocês._ ela parecia ter pressa. _ A vaga é para a comunicação interna daqui, nós temos uma revista científica e também promovemos vários eventos. Queríamos pessoas que estivessem estudando dentro do campo da comunicação, não importa se rádio, tv, publicidade, jornalismo...

Hum... Já não gostei muito disso. Sinal de que se a restrição era pouca, péssimas notícias estavam a vista.

_A bolsa é pequena. De 260 reais. Aqui ficamos ao lado de uma favela, por isso vocês já devem saber que é uma área de risco, mas as oportunidades de se aprender são muitas...

Só 260 reais? Então, se eu calculasse o custo das passagens de ônibus, mais dez reais de almoço por dia, eu estaria trabalhando por 20 reais?! Eu, uma pessoa que estava estudando terceiro grau em uma universidade pública?

_Vamos ver o currículo de vocês. _ ela pegou os papéis na mesa. _ Eu sei que vocês devem ter chegado aqui pelo anúncio da vaga que pedi para ser divulgado nas listas de e-mail. _ comentou enquanto lia dinamicamente os currículos. _ Quem é a Vanessa? _ perguntou.

_Eu. _ uma garota tímida levantou o dedo. _ Você está no segundo período, fez alguns estágios em programas sociais. Não ganhou nada por isso?

_Não.

_Só tem o básico do inglês?

_Só.

_ E quem é Roberto? Você, claro. Só tem você de homem. _ riu. _ Você também não fez estágio, e tem o básico de inglês. Hum... E quem é Fabiana?

_Eu. _ respondeu uma garota negra, vestida de terninho.

_Você diz aqui que já faz estágio no jornal O Povo.

_É. Eu na verdade me ofereci para voluntariamente fazer plantão lá aos domingos para pegar experiência.

Voluntariamente? Ela está dizendo que perdia os fins de semana no jornal que só fala de assassinato e estampa na capa pedaços de corpos ensangüentados?! Ela ficava apurando aquele tipo de notícias?

_E quem é Isabela?

_Eu.

_Hum. Você tem fluência em inglês, intermediário em espanhol. Fez curso de informática e webdesign.

_Isso.

_Mas não tem experiência?

_Não.

_Ok. Eu vou dar para vocês uma lei sobre a regulamentação do trabalho dos agentes de saúde que saiu agora, vocês vão ler e escrever uma redação. Aqui também tem um artigo de um representante da categoria discutindo os pontos negativos.

Eu não demorei para estar na metade da redação e eles não tinham escrito nenhuma linha. Disse para se acalmarem e lerem com paciência. Senti pena deles.

A garota negra deu uma risada, amassou a folha e caiu fora. Desistiu.

Bom, depois de feito, fui até a sala da Cássia e lá só encontrei a outra jornalista que trabalhava com ela. Entreguei-lhe a folha. Ela deu uma risada sarcástica com alguma coisa que viu e disse que eu podia ir embora.

Fui para casa com a sensação de que não tinha concorrência. Afinal, meu currículo era o melhor. Mas o e-mail que recebi no dia seguinte me deixou intrigada. Nem eu, nem nenhum dos que estavam ali tinham sido escolhidos. Mas uma outra garota, chamada Maria.

Foi o suficiente para eu me sentir uma droga. Sentada no banco da faculdade, vi uma pessoa que a muito tempo não tinha contato.

_Gustavo?! _gritei.

Ele correu em minha direção.

_Bela! _abraçou-me com carinho. _Como está?

Contei-lhe tudo que havia acontecido.

_Vai se acostumando. No Brasil, eles querem trabalho escravo de mão de obra qualificada! É um absurdo que alguém trabalhe por menos que um salário mínimo. Porque para mim isso é trabalho!

_Mas por que não me escolheram?

_Porque você era boa demais, Bela. Eles tinham que escolher alguém que não demonstrasse risco de sair a qualquer momento.

_Então, até os bons tão na merda?

_Quase isso. Por exemplo, para quê você acha que eles perguntam em toda entrevista ou em formulários de dados curriculares se fazemos algum trabalho voluntário? Para saber se nós somos capazes de trabalhar várias horas extras não remuneradas sem reclamar, por pura devoção!

_Isso é tão assustador. _ suspirei.

_Mas calma, as coisas vão melhorar.

_Espero. E você como vai? Feliz com sua namorada? Já vi vocês dois aqui no campus de mãos dadas.

_Sim, estamos morando juntos.

_Mentira!

_Pois é. Estou realizado! E você? Como está lá com seu militar?

_Bem. Ele lá e eu cá. _ ri.

_Nossa, não agüentaria não vê-la um dia.

_Eu também não agüento. Mas preciso agüentar.

_Sorte para você, então. Tenho que correr para uma aula. _ beijou-me a bochecha.

_Tchau.

Autora: Li



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O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

30 de jul de 2007

Cap 57: O grande encontro

_Bom... _ Débi suspirou e sorriu. _Acho que já cumpri minha parte.

Pelos seus olhos brilhantes, entendi o que estava acontecendo. Ela se afastou de mim, virei-me para trás e vi Caio em pé, ao lado de Ribeiro. Débi colocou sua mão ao redor do braço do namorado e entraram no salão.

Eu fiquei ali, sentindo a brisa da noite balançar os fios do meu cabelo no meu rosto. Sorri para Caio, também parado, incrédulo.

Ele estava lindo. Cabelo cortado, com gel no topete. A farda azul marinho impecável, com seus botões dourados e uma corda vermelha no ombro. A calça também azul, com uma faixa azul clara na lateral. Um cinto azul do mesmo tom da faixa com um brasão dourado. E o seu espadim preso na cintura.

Era o meu amigo da escola, roqueiro, cabeludo, de jeans surrado e ouvindo rock. Não, agora ele era um cadete. Aquele amigo morava dentro dele, como a fruta dentro da casca.

Meu amigo que me salvava em todos os trabalhos, para quem eu ligava de madrugada para perguntar alguma questão que achava que cairia na prova. Meu grande amor. Alguém a quem aprendi a desejar com muita paixão e com todo o meu coração. Quem me esperou pacientemente enxergar que eu não viveria sem ele.

Por ele eu voltei do outro lado da vida. Por ele eu decidi esperar quatro anos longe de sua presença. Por ele ouvi críticas duras dos amigos. Por ele, eu levo um namoro solitário, sem tudo aquilo que os outros consideram normal. Por ele, eu aprendi a me doar por completo e me desprender de todos os sentimentos pequenos.

Caio sorriu e caminhou em minha direção.

Paramos frente a frente.

_Eu não acredito que você está aqui. _ seus olhos estavam brilhando.

_Nem eu. _ toquei na sua mão.

_Meu Deus, como você está linda...

Dei um passo a frente e mesmo sabendo que era proibido, fiquei na ponta do pé e beijei-lhe rapidamente os lábios e depois abaixei o rosto.

_Eu precisava estar aqui com você. _ olhei-o nos olhos e ele segurou minha mão em seu peito.

_Eu senti demais a sua falta na cerimônia hoje de manhã.

_Eu sei... _ suspirei. _ Mas eu corri bastante para estar aqui.

_Ainda temos a noite toda para curtir. _ riu. _ Você está muito linda. A minha Bela por quem eu sempre fui apaixonado.

_Sempre, sempre? _ sorri.

_Caio? _ ele ouviu uma voz atrás de si, era um amigo. _ Manera aí que tão reclamando já, pediram para avisar...

_Tá. _ ele se afastou de mim um pouco mais.

Eu me senti muito envergonhada. Querendo me esconder. Era estranho todo aquele protocolo e distância.

_Vamos entrar? _ me ofereceu o braço.

Sorri e aceitei. Entramos no salão e ele me levou até a mesa onde estava seu pai. Agradeceu a ele por ter tido a idéia de me ajudar a chegar até ali.

_Você está muito bonita! _ o meu sogro me elogiou.

_Obrigada. _ sorri.

Felícia franziu a testa, quando me viu. Estava vestindo um vestido verde musgo tomara que caia.

_Você veio?_ perguntou.

_Pois é. _ sorri. _ Vim dançar aquela valsa que eu prometi, lembra? _ pisquei um olho.

_Ãnh..._ ela suspendeu as sobrancelhas.

Caio me puxou para dançar e nós ficamos ali curtindo juntos o balanço da música. Pude ver que um cadete se aproximou da mesa para tirar Felícia para dançar.

_Acho que alguém foi fisgada. _ falei no ouvido de Caio, que olhou o que eu estava lhe apontando com a cabeça.

_É... Tomara que eles se entendam. _ sorriu para mim. _ Porque eu já tenho quem eu quero.

_Eu te amo. _disse-lhe.

_Eu também te amo muito. Só que eu amo mais.

_Não, eu amo mais...

Rimos.

Autora: Li



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28 de jul de 2007

Cap 56: Uma noite de sonho

Tomei um banho, sequei o cabelo com ajuda de uma escova e do secador. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo com um elástico de silicone. Depois peguei uma mecha e enrolei por cima do elástico para escondê-lo. Deixei uns fios do cabelo caindo no rosto. Pus umas borboletas com cristais presas no penteado. Pronto, agora era só vestir o vestido e calçar a sandália alta. Não demorei mais que uma hora para estar pronta.

_Nossa, que linda! _Débi falou, quando eu sai do quarto e todos me elogiaram.

_Obrigada. _ sorri.

_Acho que podemos ir!_ Ribeiro concluiu e nós fomos para o elevador.

O hotel não ficava longe da Aman. Aliás, nada ficava longe da Aman, visto que a cidade era pequena.

Assim que avistamos a Academia Militar pude ver dois grandes refletores iluminando o céu. Senti-me em Hollywood, chegando para a própria entrega do Oscar. Aquilo era só para deixar um gostinho do grande e glorioso baile que me esperava. Uma verdadeira e inesquecível noite de gala, em que eu me sentiria uma princesa dos livros.

Depois de registrarmos nossa entrada em uma pequena cabine de soldados, atravessamos o retão. Retão é como chamam uma enorme reta que vai do portão principal até a entrada.

Antes de chegarmos lá, viramos à direita e fomos procurar estacionamento para o carro.

Estava uma noite para nós cariocas considerada fria. Mas para um gaúcho seria uma noite muito quente. Sensação térmica é uma questão de costume. Bom, o fato é que a cidade a noite esfriava ligeiramente. E o mês de agosto contribuía para isso.

Descemos do carro e caminhamos por uns metros até chegarmos em uma escadaria. Levemente ergui o vestido para não ter o risco de tropeçar e cair. Atravessamos mais um grande salão e vimos uma enorme fila de casais.

Voltei a sentir aquele friozinho na barriga. Não conseguia falar nada, estava absurdamente ansiosa.

As mulheres vestiam roupas de todos os estilos. Algumas mais simples, discretas, outras devem ter confundido aquilo com algum baile de carnaval. Pareciam um shopping center de brilhos e casacos de pele. Meu Deus, casaco de pele, onde ela estava sentindo aquele frio? Eu estava de vestido de alça!

Alguns rapazes vestiam roupas brancas. Perguntei a Ribeiro porque eles não estavam de azul, como eles?

_Eles são cadetes dos outros anos, segundo, terceiro, que compram o convite para poderem vir a festa. Principalmente quem fica aqui sempre nos fins de semana, porque não tem família nos estados próximos e não vão perder essa bocada. _riu. _ É dia de comer e pegar cadetina._ riu mais alto para provocar Débi.

_Ah! É?_ minha amiga cruzou os braços.

_Brincadeira, amor._ disse ele, não se agüentando de rir, abraçou-a. _Não posso te abraçar não, eles não deixam a gente ficar abraçado, nem se beijar não, estamos fardados. _ soltou-a, lembrando-se das regras.

_Mas tem cadetina aqui?_ perguntei.

_Não sei, é mais difícil, porque tem que conseguir os convites, não é uma festa tão aberta ao público como as outras, tipo festa junina, Olimpíadas, em que a entrada é gratuita.

_Hum._ levantei as sobrancelhas.

_Ah! E respondendo a sua pergunta. Eles estão de branco para não serem confundidos com a gente. Mas em geral não vestem mais aquela farda branca, porque eles têm a azul deles. _ Ribeiro explicou.

Aliás, ele estava muito tagarela, acho que pela felicidade de ver sua namorada linda ao seu lado, em um vestido vermelho glamuroso, e poder exibi-la como troféu para seus amigos. Vários rapazes passaram por ali e lhe deram um silencioso tapinha nas costas, que traduzi como “Ai, cara, pegou legal, hen?”.

Uma mulher de terninho preto e com um fone pendurado no rosto, parecendo uma operadora de telemarketing, olhou os nossos convites. Muitos seguranças de terno, eu disse muitos mesmo se espalhavam por todos os lados.

Passamos por um tapete vermelho e depois entramos por um corredor feito com uma tenda de lençóis brancos. Havia muitos arranjos de flores e luzes amarelas iluminando o labirinto que nos levava para a festa. Era como se embarcássemos em um túnel do tempo e voltássemos ao século retrasado no período do império.

Ainda neste labirinto, vimos uma mesa com muitas xícaras de porcelana, parece que para servir alguma espécie de chá, não sei. Mas muito bonita, toda enfeitada.

Pronto, lá estava o baile. Meus olhos tentaram apreender tudo de uma só vez, mas eram muitas coisas a se olhar e eu estava completamente deslumbrada.

Um pátio muito gigantesco separava dois salões. Neste pátio, havia um chafariz muito grande, com luzes iluminando a queda d’água, magnífico. Ali, um Dj tocava Trance e Techno. Luzes na parede faziam a iluminação de umas figuras que mudavam de forma. Parecia uma boate ao ar livre. Algumas pessoas dançavam animadamente.

Em torno deste pátio, havia mesas com flores muito iluminadas e panos brancos dando um ar de decoração grega. Os fotógrafos tiravam fotos dos casais de namorados e dos cadetes com seus familiares.

Alguns homens vestiam uma farda cinza com uma gravata. Eram os oficiais de alta patente e os recém formados na AMAN, que desfilavam com suas belas mulheres luxuosamente vestidas.

_Ribeiro, como vamos achar o Caio? _ perguntei.

_Vou ligar para ele, espero que me escute com o barulho da música que deve estar lá dentro. _ ele pegou o celular do bolso. _ Vamos caminhar para lá? _ sugeriu.

Entramos em um dos salões e ai mesmo que eu fiquei boquiaberta e estática.

Mesas redondas cobertas por toalhas brancas, cadeiras vestidas com uma capa também branca. Taças, pratos, flores, bandejas com gelo. Só vendo com os meus olhos todo aquele luxo para acreditar que aquilo era no nosso século. Me senti em um filme de época.

A luz estava baixa, dando um ar muito romântico. Mais na frente um palco muito grande estava armado e uma banda tocava músicas de todos os estilos. Quatro dançarinas rebolavam e levavam o público a loucura. Luzes estroboscópicas dos globos coloriam os corpos das pessoas.

Nas mesas, as pessoas comiam salgados servidos pelos garçons, havia comida japonesa, aparelho de fondue com comidas para espetar. Uma fartura impressionante. Não sabia para o que olhar primeiro. Era tudo lindo, magnífico, surreal.

Eu não me perdoaria nunca se tivesse perdido aquilo, talvez até lidaria bem com o fato, por justamente não ter visto com meus próprios olhos e por isso não sentiria falta do que não teria presenciado. Mas agora que vira, agradecia a Deus por ter me feito por um milagre eu chegar naquele baile para encontrar o Caio.

Se para mim tudo estava tão fantástico, quem sabe para ele nem tanto, por sentir falta da minha presença. Mas isso eu só saberia, quando o visse. E onde ele estava?

_Caio? _ Ribeiro falou alto, tampando um dos ouvidos. _ Onde você tá?

_Ansiosa? _Débi me perguntou.

_Muito. Olha minha mão._ mostrei o quanto estava fria.

Ela sorriu.

_Tá, entendi. _ Ribeiro olhou para trás, se virando e eu olhei junto, tentando achar Caio com os olhos._ Mesa duzentos e seis? Vou para aí. _ desligou._ Ele está perto do palco. Você vem com a gente, ou quer aumentar a surpresa?

_Hum... Não sei. _ ri nervosa.

_Já sei, a Bela e eu ficaremos aqui fora do salão, que está menos barulho e você vai lá e traz ele aqui. _ Débi deu as coordenadas.

_Eu não vou deixar vocês duas aqui não! _ Ribeiro falou.

_Anda, amor! _ Débi revirou os olhos.

_Eu já volto rápido, então.

_Não conta que a Bela está aqui, hen!

_Pode deixar que eu vou contar! _ ele provocou e sumiu na multidão.

Débi e eu saímos do salão e ficamos do lado de fora.

Autora: Li



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27 de jul de 2007

Cap 55: Ao encontro

Eu não podia perder mais nenhum minuto. Liguei para o celular da minha mãe e expliquei-lhe todo o esquema. Mesmo que ela não concordasse, eu já estava decidida que nada me impediria de atravessar o Rio de Janeiro para encontrar Caio.

Mas felizmente ela não se opôs. Coloquei o vestido na mala e junto com ele sandália, maquiagem, secador de cabelo, brincos, tudo que me fizesse sair daquele look de gata borralheira.

Esperei que a empregada de Débi chegasse, passei-lhe todas as instruções e a agradeci por estar me proporcionando um dos dias mais felizes da minha vida. Ela não pudera vir de manhã, só no fim da tarde, mas eu já estava grata assim mesmo.

Antes de sair de casa, entrei no site da Aviação Cidade do Aço na internet e procurei o horário do próximo ônibus que sairia para Resende. Eu tinha quarenta minutos cravados no relógio para pegá-lo.

Ao chegar na Rodoviária Novo Rio, carregando minha mala com uma certa dificuldade, senti um frio na barriga. Eu não podia acreditar que estava tão perto de realizar tudo o que eu mais queria!

_Táxi, senhora? Táxi? _ Os motoristas gritavam no portão de entrada.

Passei por eles e corri para o guichê. O ônibus já estava parado no portão do embarque e os passageiros entravam. Um frio na barriga, minhas mãos suando. Que agonia.

_Resende, o ônibus que está saindo agora. _falei para o homem que viu minha pressa e logo me passou o bilhete.

Droga! Eu ainda tinha que preenchê-lo.

_Me empresta uma caneta? _ pedi.

Escrevi rapidamente meu nome, minha identidade, a cidade de origem e de destino e por fim marquei um “x” na opção “visita a familiares” que respondia o motivo da minha viagem. Namorado é família? Ah! Seja lá o que for, espero que eles não precisem dessa informação, porque eu quero chegar inteirinha até lá. Com esses acidentes aéreos, eu estou com medo de tudo, até de andar de ônibus. Nada é mais tão seguro assim.

Coloquei minha bagagem no porta-malas e deixei que o motorista colasse um adesivo na bagagem. Depois ele pôs a numeração respectiva no meu bilhete e eu entrei finalmente no veículo.

Já anoitecia e as seis e dez o ônibus saiu do Terminal. Eu encolhida na minha poltrona fui me lembrar nesse exato minuto que não tinha trazido nenhum remédio para enjôo. Agora era torcer para não passar mal, porque já não havia mais nada o que fazer.

O engarrafamento colaboraria para que a viagem fosse um pouco mais longa do que o habitual. Aquele era o início da hora do rush no Rio de Janeiro, quando todos saem do Centro da Cidade, onde se localiza a rodoviária, para a zona Norte. O ônibus faria justamente esse percurso para entrar na Rodovia Presidente Dutra, que leva em direção a cidade de Resende, a duas horas de distância. Ou seja, somando com o possível atraso, eu chegaria lá umas oito e meia.

Se ao menos eu conseguisse cochilar. Mas com aquela ansiedade toda, eu não dormiria de jeito nenhum. Pensei em Caio, como será que ele estaria? Provavelmente muito chateado comigo. Ficamos sem nos comunicar desde aquele estranhamento no telefone, na sexta-feira.

A maior prova de que eu queria estar com ele era meu esforço em largar tudo para fazer aquela loucura de amor. Fechei os olhos e lembrei de nós dois na escola. Ele sempre pronto a me ajudar, a ser meu amigo e eu nem dava a menor bola para suas segundas intenções. Mal podia imaginar que me apaixonaria pelo garoto mais comum do colégio, meu melhor amigo.

Nunca poderei esquecer do nosso beijo. Da descoberta de sentir sua boca na minha. Uma mistura de desejo com curiosidade. Meu coração disparado, meu corpo quente. Nos dois nos abraçando, nos tocando, nos amando naquele beijo envolvente. Uma onda magnética ao nosso redor fazendo com que não pudéssemos nos largar.

Agora ele era um rapaz de corpo atlético, com uma carreira, um porte. Chamava a atenção das meninas e me dava uma pontada de insegurança de perdê-lo para outra. Felícia, por exemplo. Ela devia estar se sentindo em um parquinho de diversões, mas eu logo jogaria um balde de água fria no seu foguinho. Queria ver sua cara, quando me visse!

A viagem foi muito longa. Próxima a cidade de Resende, uma obra na pista diminuiu o espaço de passagem dos veículos.

Mas felizmente eu conseguira desembarcar na cidade e ainda dentro do ônibus liguei para Débi, para avisá-la. Em dez minutos Ribeiro apareceu de carro.

_A Débi estava se arrumando. _ explicou o por que de estar sozinho.

_Tudo bem. Como está? _ dei dois beijinhos nele. Nosso entrosamento não estava o dos melhores, visto que nas férias na fazenda eu havia brigado com ele.

_Bem. Que bom que você pode vir. O Caio vai ficar feliz. O cara tá malzão.

_É?_ sorri._ Então, ele está sentindo minha falta?

_Pô... Depois do arranca rabo que ele teve com aquela prima dele...

_O que aconteceu?

_Ah! Ela quis sair com a gente, mas o Caio não queria levar ela junto. Você sabe que ela é a ex dele... E começou a marcar em cima... Ai ele deu uma lição de moral na frente de todo mundo.

_O Caio?

_É. Ela estava pegando pesado, se oferecendo descaradamente, ainda bem que você veio...

_Hum...

_Está com o convite da festa aí?

_Estou sim._ respondi.

Quando entramos no quarto do hotel, vi Débi já de vestido.

_Amiga! _ ela veio me abraçar com um gritinho.

_Eu nem acredito que consegui chegar aqui.

_Pois acredite! _ ela sorriu. _ Tenho tantas coisas para te contar!

_O Ribeiro já me adiantou algumas...

_Hum... _ Débi cerrou os olhos e olhou para o namorado. _Fofoqueirinho!

_Que isso, amor! _ ele beijou-a de leve nos lábios.

Só faltava agora algumas horas para eu encontrar o Caio!

Autora: Li



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Cap 54: Vitória

Peguei o telefone da mão de Fabíola e atendi:

_Alô?

_Oi, Bela._ era o meu sogro do outro lado da linha. _ Eu quero te agradecer por todo o esforço e dedicação que está tendo para cuidar da minha mulher.

_De nada...

_Eu conversei aqui com sua amiga Débora e nós pensamos em um jeito de você vir para cá.

_É? _ sorri, já feliz com qualquer que fosse a idéia deles.

Deus estava olhando por mim e me colocando aqueles dois anjos para me ajudar!

_A Débora tem uma empregada na casa dela que faz a faxina aos sábados. Ela disse que é de confiança.

_Claro! Conheço, sei quem é.

_Então, já ligamos para lá e falamos com ela. Eu vou pagar o dobro da diária para que ela possa ir até a sua casa e ficar fazendo companhia para a minha esposa, ajudá-la com os remédios e a comida.

_Eu não acredito... _ minha voz embargou e eu comecei a chorar.

_É melhor você não chorar porque só tem mulher bonita aqui, hen?! Se ficar de cara inchada, já viu!_ brincou.

_Pode deixar. _ eu ri, muito emocionada.

_Agora fala aqui com sua amiga que quer falar com você.

_Tá, e obrigada por tudo. Estou muito feliz.

_Bela. _ Débora falou do outro lado.

_Oi! Eu não acredito. Você é demais!

_Que isso! Tudo bem, eu sou mesmo. _ riu alto. _ Olha só, não vamos contar para o Caio que você vem, afinal, uma surpresa é sempre bom. Quando você chegar na rodoviária, liga para o meu celular que eu vou te buscar e você fica no hotel comigo.

_Claro! Eu vou arrumar tudo para ir! Beijo, tchau.

Quando desliguei, olhei para dona Fabíola e ela sorriu.

_Obrigada. _ agradeci, ainda anestesiada com a idéia: EU IRIA AO BAILE!

Autora: Li Mendi



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26 de jul de 2007

Cap 53: Um dia da bruxa, um dia da fada madrinha

_Obrigada. _ dona Fabíola agradeceu o copo de suco de laranja que eu lhe trouxera para que tomasse seu remédio das dez horas da manhã. _Espere. _pediu.

Parei na porta, olhei-a.

_Vem cá.

Aproximei-me novamente.

_Você não devia estar aqui...

_Jura? _ri sarcástica. Pelos meus olhos inchados qualquer um perceberia como eu estava um caco.

_O Caio precisa de você.

_Eu sei. E sei também das minhas responsabilidades. _lembrei-a do significado de eu ter abdicado de estar com ele para cuidar dela.

_Você poderia pegar o seu telefone? _pediu.

Olhei para o aparelho em cima da escrivaninha, depois para ela. Para quem ela ligaria?

_Por favor... _pediu novamente, vendo que eu não saíra do lugar.

Deixei o copo em cima do criado mudo e peguei o telefone, estiquei o fio para que ela pudesse alcançar.

_Não se preocupe que eu ligarei a cobrar. _avisou discando um número.

Fiquei ali parada olhando-a, muito intrigada.

_Alô, amor? É a Fabíola. Como está? Já começou a cerimônia? Que maravilha! E como ele está? Nossa, queria muito estar aí com vocês... Quem mais está aí? Ah! A amiga da Isabela? Sei. E a Felícia? Hum, tá. Amor, nós precisamos resolver um problema. Eu não tenho como sair daqui dessa cama. Mas a Bela precisa chegar aí hoje, como eu não sei. Pensa em um jeito?

Meu coração disparou e finalmente senti uma ponta de esperança. Ela estava tentando resolver aquilo para mim? Mas por quê?

_Ok, me liga quando puder. Estou bem, na medida do possível. Beijos. Te amo. Dá um beijo no Caio por mim e fala para ele que no Espadim eu não estive, mas na entrega da Espada no 4º ano vou estar! Tchau, tchau.

Eu olhei-a com os olhos ligeiramente arregalados. Nem tínhamos uma solução, nem estávamos paradas na estaca zero. E agora?

_Bom, eu espero que você tenha um vestido.

_Tenho. _sorri._ Mas..._ franzi a testa.

_Meu marido vai dar um jeito. _ela olhou para o lado pensativa, não sei se aquele olhar era de ligeira desconfiança de que algo podia não dar tão certo assim.

_Hum. _não consegui dizer nada, eu estava completamente surpreendida.

_Aprenda, querida, eles ficam lá naqueles quartéis passando o dia fazendo o quê?

Franzi a testa. Perplexa. Ela estava me ensinando?

_Missões!_ respondeu a própria pergunta._ Então, quando você designa uma missão, eles vão fazer tudo, eu digo tudo mesmo, para cumpri-la. É uma espécie de lavar a honra, sabe? Vá se entender...

O telefone tocou de novo, me assustando.

_Não falei? _ piscou o olho para mim. _Oi, amor. Hum... _ ela olhou-me._ Ele quer falar com você.

Estendeu-me a mão e ofereceu o fone.

Autora: Li



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25 de jul de 2007

Cap 52: Um jeito para tudo

Caio ainda estava do outro lado da linha e eu não conseguia falar-lhe a verdade, que provavelmente não poderia ir a festa.

_Bela, fala alguma coisa. _ pediu. _Meu cartão vai acabar.

_Amor, eu adoraria ir a sua festa, mas não vai ter ninguém aqui para ficar com sua mãe e ela não pode ficar sozinha...

_Quê? Você não vem?

_Não é que eu não queria, veja bem...

_Mas Bela, nós dois esperamos muito por isso.

_Caio, pára um segundo e pensa na situação!

Ele ficou apenas respirando do outro lado do fone.

_Eu sei._ por fim falou.

_Eu não posso largar sua mãe aqui. E se ela precisar de alguma coisa?

_Mas eu vou precisar de você!

_Você está sendo mimado agora, Caio._ disse-lhe.

_Eu vou pensar num jeito, sempre há um jeito para tudo. _ repetiu a frase de Débi.

_Tudo bem.

Desligamos sem “beijos”, sem “eu te amo”. Eu me senti mal por ter chamado-o de mimado e ao mesmo tempo não gostara nem um pouco de ele não estar vendo que eu era a maior prejudicada.

Senti uma vontade de chorar horrível. Quis ir para o meu quarto, mas lá estava minha sogra. Na cozinha, minha mãe; na sala, meu pai. Só me restou o banheiro. Sentei na tampa do vazo e senti que o fardo estava de fato muito pesado. Chorei sozinha.

A semana voou e com ela nenhuma idéia para resolver a questão. Minha situação com Caio ficou ainda pior, quando na sexta-feira, véspera da festa, ele me ligou praticamente exigindo uma atitude.

_Caio, eu não tenho o que fazer! Por que você não chama a sua priminha para ficar aqui no meu lugar, já que ela é sua parente e não sua namorada? É ela que tinha que estar fazendo alguma coisa!

Eu não devia estar dizendo aquelas frases tão duras, mas quando nossa cabeça está para explodir, acabamos escolhendo as piores palavras e metendo os pés pelas mãos.

_Eu não sou duas. Sou uma só! Ou eu estou aqui, ou eu estou aí! Você só está pensando em você, você e você! Não estou sentindo seu apoio, nem parece que você é meu namorado!

_Não é verdade.

_É sim, Caio! Você não está sendo em nada compreensivo!_ acusei-o.

_Desculpe.

_Mas tudo bem, você terá sua priminha aí com você, aproveita e dança bastante com ela.

_Bela...

_Caio, eu vou desligar.

Desliguei.

Nada poderia ser pior que além de não ir a festa, brigar com ele e sentir que tudo tinha acabado de maneira tão péssima, tão ruim. Eu queria gritar de tanta raiva do mundo!

Autora: Li



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O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

24 de jul de 2007

Cap 51: Dilema

O início do ano para Caio tinha sido muito duro. A adaptação a novas regras e o entrosamento com os amigos trouxeram um alto grau de estresse e cansaço. Inevitavelmente, isso acabava desgastando a nossa relação. Por mais amor que existisse, a distância, a sensação de frustração a cada fim de semana que ele se prepara ansioso para vir e descobre que tomou uma punição por causa do cabelo grande ou do vinco da calça, somados ainda com a nova vida em outra cidade com os pais pintavam um quadro propício para pequenas brigas e desentendimentos que , felizmente, logo se resolviam.

O namoro com um cadete parece um atleta que todos os dias supera um limite, bate um recorde, se vê diante de mais um desafio. Às vezes, o que queremos é simplesmente não vencer nada, não provar força nenhuma para ninguém, só desejamos ser namoradas normais, com um relacionamento pacato. Mas, essa não é uma escolha que se possa fazer, simplesmente, estamos diante de uma situação que é aceitar ou largar.

E, como largar, se amamos a pessoa e não queremos deixá-la na mão justo neste momento que mais precisa de apoio? Foi assim que aprendi muitas lições e, também, amadureci bastante. As situações ganham outro contorno quando temos que abdicar daquilo que mais gostamos, estar fisicamente perto deles. Isso nos torna menos egocêntricas e nos mostra que o relacionamento, além de amor e sexo, é uma prova de amizade.

Se estar ao lado deles nos momentos ruins é necessário, nos bons é indispensável. Agora é a semana do Espadim, uma dessas ótimas datas que aliviam o peso de toda a batalha com uma linda cerimônia e uma festa.

Segundo Caio me explicou, Espadim é como se chama uma pequena espada, réplica da Espada de Duque de Caxias, que os cadetes recebem e levam consigo durante os quatro anos da academia militar. Neste dia da entrega, eles também ganham uma roupa de gala azul marinho, mais conhecida como azulão.

Ele, claro, estava extremamente ansioso para isso desde o começo. Mas, a vida é sempre feita de imprevistos e temos que lidar, dia-a-dia, com o imponderável. Dessa vez, não foi diferente. A mãe de Caio descobrira que estava com câncer no seio e precisou fazer uma cirurgia. Isso resultou na sua vinda para o Rio de Janeiro. Agora, em minha casa, ela se recupera para iniciar as sessões de quimioterapia.

Eu estou me redobrando ao máximo para cuidar dela e lhe oferecer todo o apoio necessário. Não tenho o direito de despender mais energia dos meus pais, que já foram muito generosos em acolhê-la aqui.

E este foi, justamente, um assunto que começou a me trazer um problema: como ir ao Espadim se a minha sogra precisa de meus cuidados?

_Eu sei que você está ansiosa para ir, minha filha, eu te entendo perfeitamente, mas eu tenho quatro clientes marcadas para esse dia. Será um ótimo dinheiro extra que a gente não pode dispensar, afinal, estamos tendo alguns gastos a mais com comida aqui...

_Tudo bem, mãe. Eu entendo... _ remexi na comida do prato. Desloquei o bife de um lado para o outro com o garfo. Eu não estava reclamando, mas não poderia esconder meu desapontamento.

_Eu já tinha falado para vocês que eu tenho a final do campeonato de futebol com o time aqui do bairro...

_Não se preocupe, pai._ interrompi-o. Por mais que, no fundo, fosse injusto eu perder a festa do Caio por causa de uma partida de futebol, meu pai não era a pessoa mais indicada para assumir o meu lugar. Ele não daria banho na dona Fabíola, nem saberia fazer seus curativos.

_Eu também não posso. _ Robertinho falou, se sentindo gente grande e participando da conversa.

Eu sorri. Ele, então, estava menos ainda preparado para aquilo.

O que eu falaria para o Caio? Será que ele entenderia meus motivos? O esperado era que sim, afinal, a “culpa” daquele entrave era sua mãe. Mas, eu temia que ele surtasse e não visse o meu lado.

Liguei para Débi, eu tinha que desabafar. Ela veio me encontrar aqui no prédio. Abracei-a com força.

_Como está, amiga? Que barra, hen? _ olhou-me, tentando captar só pela minha cara a situação.

_Nem me fale... _ passei a mão no cabelo e respirei profundamente.

_Você está com olheiras!

_Eu já nem reparo mais nisso. _sorri e sentamos em um banco de madeira no playground.

_Esse fardo está muito pesado para você, Bela.

_E eu não sei? _ franzi a testa.

_O Espadim está aí, é sábado e nós nem combinamos nada ainda! Você me falou que ia com aquele vestido amarelo...

_É sobre isso que quero falar...

_Ah! Não! Eu espero que seja sobre o vestido, porque pela sua cara...

_Eu não sei se vai dar para ir.

_Bela, sem chance! Não tem essa hipótese!

_Pior que tem...

_Não, a gente tem que dar um jeito!

_Como? Você vai ficar com a minha sogra?

_Sempre há um jeito para tudo, só temos que pensar. Seus pais não vão estar em casa?

_Não, estarão ocupados.

_Como?! Eles não sabem o quanto isso é importante para vocês dois?

_Sabem... Mas, coitados, estão se matando de trabalhar, não posso exigir mais deles.

_Ai, Bela, e o seu sogro?

_Ele vem, mas no domingo. Ele estava em missão. Alguém da família tem que estar lá para entregar o Espadim para o Caio.

_Ela não tem parentes, sei lá...?

_Tem, né? Mas, nas horas que a gente mais precisa, eles somem..._ fiz uma careta._Se ele não for, sabe quem vai entregar o Espadim para ele? Felícia, a própria.

_Não! Meu Deus, de jeito nenhum!

_Viu a dimensão do meu problema? _ encostei a cabeça na parede.

_Não pode ser, não me conformo. _Débi ficou pensativa como eu.

_Mas, já que isso não tem solução imediata, fala de você. E o Ribeiro? Vocês estão bem?

_Estamos sim. _ ela sorriu. _ Minha sogra é que parece que não gostou muito de mim. Para variar, as sogras... Eu fiz um pequeno churrasco lá em casa e convidei os pais dele. Sabe como é, né? Adoro dançar funk. Coloquei música, comecei a dançar com meus amigos e aí eles fizeram uma cara. Acho que perdi todos os pontos...

_É ruim não poder ser você mesma e as pessoas esperarem de nós outras expectativas.

_Oh, se é.

Quando Caio ligou aquela noite para falar com a mãe, me perguntou se eu estava feliz para a festa. Eu fiquei muda.

_Bela? Que foi? Não está animada? _ perguntou.

Autora: Li



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23 de jul de 2007

Cap 50: Uma visitinha

A campainha tocou e eu suspirei fundo. Não havia ninguém em casa para atender. Meu irmão estava na rua jogando bola, minha mãe tinha saído para visitar uma cliente e meu pai fora no barbeiro fazer o cabelo. Que ótimo! Balancei as mãos no ar, para me livrar da espuma do sabão e lavei as mãos na água corrente do tanque.

Não era fácil toda hora colocar as roupas de cama e as toalhas na máquina para manter tudo sempre limpo para minha sogra. Passei o braço na testa suada e sequei o pé no tapete antes de passar pela cozinha.

No interfone o porteiro me avisou que era uma visita para minha sogra. Eu estranhei. Quem seria? O pai de Caio estava em missão e meu namorado preso em Resende, porque pegara serviço no domingo. Quem viria ver a dona Fabíola naquele sábado?

_Ela disse que é a sobrinha dela._ disse o porteiro.

Eu dei um leve riso de sarcasmo. Não podia ser. Eu não merecia aquilo. Se ela morasse na esquina, eu diria para dar meia volta e ir para o raio que a partisse. Mas Felícia que morava em São Paulo devia estar de carro com os pais de passagem pelo Rio.

_Pode deixar subir. _ falei de má vontade.

Caminhei até a porta e abri. A primeira reação da mãe da querida priminha do Caio foi me olhar de cima abaixo. Eu realmente estava deprimente. Com um short jeans muito ferrado e desfiado, uma camisa do ano passado da Copa do Brasil amarela da Promoção do Guaraná Antártica e o cabelo desgrenhado em um coque preso por uma caneta Bic. Só faltou um celular na cintura para ser a sósia da Marinete, do Programa “A diarista”.

_Oi, querida, estamos incomodando?

Será que ela queria realmente a verdade?

_Entrem. _ estendi a mão no ar, apontando para o interior da sala. A última a passar por mim foi Felícia, que ofereceu seu falso ar cândido.

Os três ficaram me olhando, com aquele sorriso de comercial de pasta de dente e eu com as mãos na cintura tentando realizar a situação. Será que eles ficariam para almoçar e estenderiam a visita pela tarde? Eu não fizera comida para tanta gente? Se minha mãe chegasse ia ficar brava, ela já estava tendo muitos gastos.

_Nós viemos visitar a Fabíola. _ o pai de Felícia falou, quebrando o silêncio.

_Claro! Eu vou falar que vocês estão aqui. _ eu disse e passei por eles.

Abri a porta do quarto e encontrei minha sogra deitada, vendo a televisão que nós tínhamos tirado do quarto do meu irmão e colocado ali para ela se entreter. Passava o programa Estrelas da Angélica, que entrevistava o Zeca Pagodinho.

_A senhora tem visita. _ falei. _Sua sobrinha e a família dela estão aí.

_Ah! Que bom! _ sorriu.

Eu coloquei a cabeça no corredor e fiz sinal para que eles viessem.

Com todos ali no quarto, me senti sobrando. Falei que ficassem a vontade, porque eu iria fazer minhas tarefas. Terminei de colocar minhas roupas na corda e percebi que eles não estavam pensando em sair. Eu não podia enrolar mais, dona Fabíola precisava comer para tomar seus remédios.

Eu, então, perguntei se eles queriam almoçar, torcendo para que a resposta fosse não. E eles anunciaram que já haviam comido fora e eu agradeci silenciosamente a Deus, porque eu não queria esquentar mais a barriga no fogão para alimentar aquela família não.

_Está na hora do seu banho. _ falei para minha sogra.

_Se eu puder ajudar em alguma coisa. _ a mulher ofereceu-se toda sorridente.

Olhei-a de cima abaixo, em suas roupas de perua, calça jeans enfiada na bota de couro e o cabelo armado de tanto laquê. Refleti se ela tinha idéia do que era aquela tarefa, do malabarismo que significava dar um banho sem molhar a operação.

_A senhora quem sabe. _ olhei para minha sogra, com uma voz enfadonha.

_Não precisa, você ficará molhada. _ Minha sogra me deu o braço para sentar. Havia todo um jeito de suspendê-la. A outra se precipitou para ajudar, mas a mãe de Caio pediu que eu o fizesse. Eu, então, coloquei a mão por debaixo de sua cabeça, depois uma mão sobre seu outro braço e em um movimento coordenado de forças a fiz sentar-se, como se fosse um passo perfeito de dança. Essa foi uma das coisas que observei os enfermeiros fazerem, enquanto estava no hospital.

Eles aguardaram que ela voltasse e na hora de fazer os curativos, apenas o pai de Felícia saiu do quarto. As outras duas ficaram observando, nitidamente alteradas com o sangue, os pontos, a falta do seio. Eu já repetira aquela rotina tantas vezes, que já estava mais segura.

_O Espadim do Caio está chegando. _ Felícia tocou no assunto, tentando amenizar a situação com algum diálogo. Eu procurei não mostrar qualquer reação, continuei passando o remédio sobre os pontos. _Nós paramos em Resende e fomos vê-lo. Almoçamos com ele. Ele está preso lá, né? Coitado, pegou serviço amanhã.

Aquilo doeu em mim. Dona Fabíola olhou-me nos olhos, mas eu desviei os meus.

_Ele nos deus os convites da festa.

Ele deu os convites da festa? Eu virei-me e as olhei. Eu não havia ganhado o meu ainda!

_Você acha que estará em condições de ir, titia?

Claro, sua jamanta! Você vai levá-la para andar em um sol quente e carregar a sonda pela cordinha como se fosse um cachorrinho? Depois o quê, você vai aguardá-la com um caixão aberto ao atravessar o portão para empacotar de vez?

_Acho que não, querida. _ ela respondeu com voz triste. _Perderei esse grande dia.

_E você? Vai? _ perguntou, se dirigindo agora a mim.

_Não se preocupe, ele terá com quem dançar a valsa das namoradas. _ respondi, retirando com força as luvas das mãos. Aquele quarto já estava pequeno demais para nós quatro.

O clima ficou ruim e felizmente eles se tocaram e deram o fora. Dona Fabíola perguntou se eu tinha ficado chateada.

_Eu? _ apontei para o meu próprio peito. _ Que isso?! Eu adoro a sua sobrinha, aquele doce de pessoa. _ perdi a paciência e minha voz saiu com muita raiva.

_Eles são da família, eu não podia deixar de convidá-los para...

_Você pode convidar quem quiser, eu não importo._ dei de ombros. _ Eu sei muito bem onde é o meu lugar e o meu lugar é ao lado do seu filho. Eu sou a namorada agora e ninguém vai tirá-lo de mim, porque eu sou mulher suficiente para garantir o meu posto. E se qualquer uma atravessar o meu caminho eu não vou abdicar de nenhum método para tirá-la da reta!

_ Ela é uma boa moça, ela nunca ia querer...

_Dona Fabíola, eu acredito que os remédios ainda não tenham afetado a sua razão. Então, eu vou lhe dizer o que eu enxergo e espero que a senhora não seja tão ingênua. Eu vejo alguém atravessando o meu caminho e querendo se aparecer para o seu filho. Alguém que invade o meu orkut para me bisbilhotar e que fica mandando recadinhos melosos para o meu namorado. Uma mulher que se toca e se dá ao respeito não faz esse papel. Eu não quero ficar amiguinha dela, eu só espero não ter que conviver com ela, só isso. Entendeu bem?

_Você pensa que eu não sofro? Eu não vou ao Espadim. _ mudou totalmente de assunto.

_Eu lamento realmente. _respirei fundo. _ A senhora perderá uma festa, mas ganhará a sua vida. E vai ficar boa. Agora eu vou fazer um prato para o meu irmão e colocar no microondas, vou chamá-lo para almoçar. Licença.

Eu já podia prever que o baile que chegava me reservava uma batalha.

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19 de jul de 2007

Cap 49: Longa espera

Sentada no corredor do hospital, senti meu celular vibrar, tocando em meu bolso. Era Caio. Provavelmente muito preocupado com a operação de sua mãe, que acontecia naquele momento. Não era costume que ele ligasse à tarde, mas provavelmente arrumara um jeito de manter contato e saber notícias. Acalmei-lhe falando que tudo daria certo.

_Amor, obrigado, não sei o que seria de nós sem a ajuda de sua família.

_Eu estarei aqui sempre para te ajudar, Caio. Vai dar tudo certo. Eu te amo.

_Eu tenho que desligar. Também te amo.

_Tá. Beijos. Te amo, tchau.

Desliguei o aparelho e o enfiei no bolso. As horas pareciam não passar e minha ansiedade era grande. Eu sabia o quanto a mãe de Caio era importante para ele, fosse a nossa relação boa ou não. As sogras são sempre a única mulher acima de você, portanto, tudo que acontecer com ela pode desestabilizar sua vida e sua relação.

O médico veio informar finalmente que a cirurgia de remoção do seio havia acabado e que em breve poderíamos vê-la. Minha mãe e eu nos abraçamos aliviadas.

Dona Fabíola não nos reconheceu, ainda estava sob os efeitos da anestesia. Parecia estar imersa em outro mundo, olhando para o teto.

_Estamos aqui com você. _ sorri. _Sei que pode nos ouvir. Ficará tudo bem. _ acalmei-lhe.

Imediatamente enviei uma mensagem de celular para Caio, contando que tudo estava bem até então, para tranqüilizá-lo. Depois, liguei para o marido de Fabíola e deixei um recado em seu trabalho, ele havia saído em missão.

Minha sogra ainda precisou ficar no hospital por alguns dias. Cuidamos dela como pudemos, trazíamos frutas, roupas limpas, conversávamos com ela e tentávamos preencher com nosso acolhimento toda a falta que ela sentia da família.

Foi chegada a hora de voltar para casa e ali começou um longo processo que mudaria completamente minha rotina e me ensinaria duras e importantes lições sobre servir com humildade.

Dona Fabíola sentada na cama olhava para a sonda apoiada no chão. Era uma espécie de pote branco, com um tubo que entrava em seu peito e deixava os líquidos saírem por ali e se depositarem no recipiente.

_Trouxe roupas limpas para tomar banho. _coloquei as duas toalhas brancas em cima da cama, junto com sua camisola e a calcinha.

_Eu não posso levantar os braços. _ ela me disse.

_Eu sei, por isso eu vou lhe ajudar a tomar banho. _ falei-lhe.

Ela me olhou longamente, sabia que não queria estar passando por aquela situação. Mas, era preciso e ela deveria se despir de qualquer orgulho se quisesse ajudar a si própria.

Ajudei a levantar-se e fomos até o banheiro. Fechei a porta e nos olhamos mais uma vez.

_Não precisa ter vergonha. Tudo que você tem eu tenho. _ brinquei.

_Ah! Que situação a gente fica... _ lamentou-se, choramingando.

Aquele enfermeiro com quem encontrei no hospital me veio à mente e lembrei de suas palavras sobre não perder o equilíbrio emocional.

Dona Fabíola vestia uma camisola de botões, já que não poderia retirar nenhuma roupa levantando seus braços. Abri-os delicadamente e fiquei diante de sua pele fria e embranquecida. Eu precisei cobrir com uma das toalhas o curativo que encobria o peito direito para que não molhasse.

Abaixei-me e tirei sua calcinha. Ela estava sem se depilar a muito tempo. Parecia aquelas madonas de quadros medievais, toda peluda na virilha.

Como devia estar sendo difícil para ela estar sob as minhas mãos, dependendo totalmente da minha ajuda. Logo eu, para quem ela mostrara tanta indisposição. Que ironia da vida.

_Eu vou passar primeiro. _ expliquei-lhe, abrindo a porta do box. Pedi que calçasse as havainas para não escorregar. Liguei o chuveiro e com a mão testei a temperatura da água. Esperei que ficasse morna. Depois, peguei um sabonete novo, abri o pacote e esfreguei entre as mãos. Acariciei, delicadamente, toda sua pele.

Depois de um longo e vagaroso banho, ajudei-lhe a se secar e vesti sua roupa. Retornamos para o quarto e ela deitou-se para que eu pudesse fazer seus curativos. Essa, para mim, certamente era a parte mais difícil, pois eu não gostava muito de sangue, nem de ferimentos.

Lavei as mãos mais uma vez com sabonete e voltei até o quarto. Desinfetei com álcool e vesti as luvas cirúrgicas. Tudo tinha que ser feito com o máximo de higiene. Com um algodão molhado no álcool passei nas pontas dos esparadrapos para que a cola se soltasse, sem machucar sua pele, que já estava avermelhada. Coloquei tudo dentro de uma pequena sacolinha de plástico. Meus olhos se depararam com o seu dorso esquerdo, sem seio. Era uma visão muito chocante que só eu poderia ver, enquanto ela olhava para o teto. A finíssima pele encobria o coração e eu podia vê-lo bater com força. Senti todos os pelos dos meus braços se arrepiarem e tive vontade de fazer uma careta de horror. Mas, meu semblante tinha que ser frio e os gestos, firmes.

Peguei duas gases e umedeci com um líquido avermelhado, passei por cima dos pontos e precisei espremer um pouco a pele para sair as secreções. Aquilo exigia de mim um alto grau de concentração e segurança.

Mais gases para limpar tudo, depois para revestir a área e esparadrapos para vedar os curativos que encobriam a operação.

_Prontinho, viu? _ sorri-lhe.

_Obrigada. _ ela suspirou.

Fechei sua camisola.

Joguei tudo dentro da sacola, desinfetei com álcool os objetos e os guardei em uma pequena caixa, que deixei em cima do meu criado mudo. Depois, retirei as luvas e fui lavar minhas mãos mais uma vez.

Todas as roupas precisavam ser lavadas. Toalhas, camisolas, lençóis. O que me deixava muito cansada, pois minha mãe tinha que trabalhar e só restava a mim para fazer aquelas tarefas.

Quando voltei para o meu quarto para pegar no guarda-roupa uma roupa para eu tomar banho, Dona Fabíola me chamou:

_Bela, meus braços estão estranhos. Aqui de baixo das axilas está parecendo um buraco, fica tão feio. Isso vai desinchar?

Olhei-a. Ela se referia ao fato de terem tirado algumas glândulas do seu braço, o que precisou repuxar a pele. Parecia que em suas costas agora havia duas depressões. Claro que ainda não tinha consciência de nada disso. Só medo de ficar feia.

_Vai sim. _ garanti-lhe e sorri, sentindo por dentro uma imensa comoção.

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17 de jul de 2007

Cap 48: O elo

O Rio de Janeiro amanheceu encoberto pela neblinha branca. Um friozinho que logo se dissipou com os primeiros raios de sol tímidos que começaram a surgir no céu.

Dona Fabíola a todo o tempo só contemplava a paisagem que passava por sua janela do carro, sem nada dizer. Provavelmente estava muito aflita com o que os médicos iriam dizer, mas creio que não poderia esperar nada muito diferente do que já prevíamos.

Chegamos ao Hospital Universitário do Fundão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, às oito horas da manhã. Minha mãe estacionou o carro e caminhamos as três até a entrada, em silêncio.

Estávamos ali para a consulta e o agendamento da cirurgia de acordo com o grau de urgência do seu caso. Os exames nas mãos de minha sogra em um envelope branco dariam a resposta para aquilo.

Eu precisava arejar meus pensamentos. Falei-lhes que já que e a fila era grande, eu ficaria um pouco lá fora. Garanti-lhe que de onde eu estaria veria quando fossem chamadas. Elas consentiram com a cabeça, ainda um pouco sonolentas, por terem acordado cedo. Cada qual ficou com sua cabeça apoiada na parede, olhando para o nada.

Pus as mãos no bolso do casaco e fiquei em pé, encostada em uma alta e larga coluna redonda. Fechei meus olhos por alguns segundos e elevei meu pensamento até o meu namorado. Essa hora já deviam ter começado suas aulas.

O Espadim tão perto, o que seria da festa? Como sua mãe iria e o que significaria para ela estar longe do seu filho neste momento esperado com ansiedade? Mas eu não queria sofrer por antecipação, cada problema ao seu tempo, senão eu explodiria.

_Com este apoio acho que o prédio não vai cair. _ouvi uma voz ao meu lado.

Era um homem bonito, alto, fortinho, com um lindo sorriso de dentes brancos. Seu jaleco denunciava que trabalhava ali.

_Ah! _ ri timidamente, por ele ter dado por minha presença e ironizado o fato de eu estar escorada na coluna.

_O Rio de Janeiro nem parece Rio com este friozinho, não acha? _ comentou, introduzindo o famoso assunto “tempo”, quando faltam os primeiros diálogos aos desconhecidos.

_É... _ sorri e limitei-me a um gesto de cabeça.

_Triste?

Porque aquele homem se importava comigo? Me achara bonita, fácil, ou coisa do gênero? Olhei para a aliança grossa em sua mão direita. Era comprometido. Então, o que seria?

_Apreensiva. _ respondi-lhe. _É minha sogra, está com câncer no seio, viemos marcar a operação.

_Câncer. _ ele repetiu a palavra com peso e foi sua vez de olhar para as árvores à nossa frente e não ser expansivo. Calou-se.

_Às vezes, eu me pergunto se já sei tudo que me aguarda.

_Viva, então, cada dia._ aconselhou-me.

E era justamente isso que há poucos minutos eu estava falando para mim mesma para fazer com respeito daquela situação.

_Tentarei. Espero conseguir. _ disse-lhe, me sentindo ligeiramente bem com sua presença. _Você trabalha aqui?_ resolvi estreitar os laços, já que ele tinha puxado assunto e demonstrava interesse em uma conversa.

_Parece? _riu, da pergunta boba.

_Não, talvez você seja açougueiro. _ pisquei o olho e rimos juntos de eu ter ironizado sua roupa branca.

_É, eu sou enfermeiro. Vim aqui respirar um pouco, acho que como você. Colocar minha cabeça no lugar.

_Então, somos dois._ suspendi as sobrancelhas e depois suspirei profundamente._Admiro sua profissão. _ comentei.

_Obrigado, mas por quê?_ franziu a testa.

_A segurança que passam. Você tem mais contato com os pacientes que os próprios médicos. E parece que independe da dor das pessoas, os enfermeiros estão seguros, firmes. Para nós parentes que cuidamos de um doente, é inevitável levar tudo para o lado sentimental e sofrer junto.

_É, são coisas que a gente aprende não só com a faculdade, mas com a prática. E essa lição será também importante para você. _ ele lembrou-me.

_Ser mais imparcial com a dor de minha sogra? _ perguntei-lhe.

_É. _ balançou a cabeça em sinal de sim e deu um passo para o lado, se aproximando mais de mim, como se fosse contar-me um segredo extra- oficial ao seu trabalho, que eu deveria encarar como uma quebra de protocolo. Ficou de frente para mim. _ Não mergulhe de cabeça na dor dela, nem fique se colocando em seu lugar. Seja atenciosa, mas não deixe que ela lhe... Como posso dizer, domine. Domine seu tempo, sugue suas energias.

_Mas como? Por que eu já sinto isso, sabe? Ela está morando agora em minha casa, porque achamos um bom tratamento aqui no Rio de Janeiro. Ela é de São Paulo. _ tentei resumir na menor quantidade de palavras. _ E eu ando me sentindo estranha em minha própria casa.

_Isso não é bom para você. _ falou-me o que eu já sabia.

_Ainda estou na fase de adaptação. _ encolhi os ombros, deixando de transparecer minhas fragilidades.

_Não é você que tem que se adaptar, mas ela. _ consertou e aquilo tocou fundo no meu coração.

Fabíola é que deveria se acostumar ao nosso ritmo de vida e a maneira de encarar a vida, segundo a ótica de minha família, mas na tentativa de tanto agradá-la, eu estava deixando de colocar isto na prática.

_Ela já não gosta de mim...

_Mas agora não é hora para isso, ela vai precisar abaixar a guarda e se você não der o menor sinal indicativo..._ foi reticente e deixou no ar todas as conseqüências que eu já imaginava e que eram a fonte de angústia que me trouxera ali fora para respirar.

_Eu preciso ir. _ olhou o seu relógio. _ Ah! Meu nome é Vinícius. _ Estendeu sua mão.

_Bela.

_Sua mãe o escolheu, quando te viu a primeira vez? _ apertou minha mão na sua e sorriu.

_Não... _ ri. _ Na verdade, é Isabela. Bela só para os íntimos.

_Quem sabe um dia eu possa chamá-la de Bela? _ sorriu.

Encolhi os ombros e ele entrou.

Aquela conversa me fez tão bem. Pensei em Deus e que não era impossível que tivesse me enviado aquele anjo para falar-me aqueles conselhos. Não acredito que na vida as coisas sejam por acaso.

Voltei até minha mãe e Fabíola. A cirurgia foi marcada com um grau de urgência. Seria preciso retirar o seio. Aquela notícia mexeu completamente com o psicológico de minha sogra, que passou todo o dia em um profundo silêncio. Encontrei-a no quarto, sentada na cama, olhando para seus dedos.

_Se importa se eu ficar aqui? Preciso usar o computador.

_Não, você quer que eu saia?

_Não! De modo algum. Pode ficar. _ disse-lhe e liguei o estabilizador que estava no chão com o dedão do pé.

Abri meu blog e da Débi e li um comentário que a Lucy me deixou. Em um trecho ela dizia: _ “Deus está colocando vocês juntas por um motivo importante. Vocês devem ficar mais próximas uma da outra pra se conhecerem melhor. Não sei muito sobre o seu relacionamento com ela pois é o primeiro post que você fala dela, mas tenho certeza que se você for paciente e, principalmente, humilde, o relacionamento vai se estreitar e vocês poderão ser todos uma grande família, e não apenas "a minha família e a dele". (rsss) E essa é a melhor parte. Eu já considero meus sogros, meus cunhados, como parte da família. Preocupo-me com eles quase na mesma medida que me preocupo com a minha família e é bem divertido isso.(...) Isso não resolve o problema, e não faz você ter menos raiva, mas ajuda você a enxergar a situação claramente e, principalmente, a ouvir o que ela quis dizer ao invés do que ela disse (a maioria das pessoas não são claras nas palavras e você precisa ver o sentimento além das palavras, ver o real significado - principalmente, nós mulheres).

Pensei sobre aquilo de minha sogra não dizer o que pensava. Por exemplo, quando perguntara se eu queria sair do quarto, será que na verdade, não queria me dar algum sinal contrário, de que queria ficar, conversar?

Minimizei a tela e me virei para ela.

_É... _ pensei em que tipo de assunto eu poderia introduzir. _ A senhora tem vontade de fazer alguma coisa, que eu possa fazer companhia, não sei, alugar uns filmes, dar um passeio?

_Não precisa se preocupar, querida.

Querida? Ela me chamou assim?

Eu não queria que aquilo soasse como alguém que vai morrer e deve fazer tudo que não fez durante a vida o mais rápido possível. Mas que não pensasse tanto nas circunstâncias do momento.

_Seu marido deve estar sentindo muito sua falta. O que são esses militares sem a gente, ãnh? _ ri.

_É. _ ela riu também e me olhou, se dando conta de que por alguns instantes nós éramos iguais, as duas amavam o militar, salvo, claro as diferenças de tempo em que estávamos com eles.

_Eles precisam do nosso apoio sempre. Vejo o quanto o Caio agora está mais centrado, obstinado. Até melhorou nas notas. No último teste físico se saiu superbem. _ disse-lhe.

_ Ele me falou. _ balançou a cabeça. _ Agora ele pegou o embalo, estava bastante perdido no início.

_É, a fase de adaptação é muitíssima delicada. Gastei toda minha saliva e minha paciência para ouvi-lo falar e falar disso feito uma ladainha. Porque acima de tudo sempre fomos muito amigos. Acho que nesse tempo em que ele está lá... _ sentei-me no sofá- cama e me aconcheguei. _... Nós somos mais amigos que namorados. Porque tirando o contato físico, o que nos resta mesmo é aquele sentimento de companherismo...

_Eu sei, já passei por isso um dia também. É bem assim. _ fez sua primeira revelação e percebi que tinha achado o elo entre nós.

_Conheceu seu marido na academia?

_Sim. Foi uma fase difícil, mas essencial para que me preparasse para tudo que viria. Porque você passa a entender melhor os desmembramentos das coisas. É como uma comida, que você sabendo fazer, entende melhor o gosto dela.

_Engraçado, porque a comida, só um faz... Mas se formos pensar, nesse tempo em que ele estuda lá, eu me sinto parte do processo.

_Ah! Sim, eles poderiam sobreviver sem nós, mas é inevitável que não reconheçam que com a gente fica muito mais fácil.

_Ôh!_ estalei os dedos. _Muuito mais fácil.

Rimos juntas.

Autora: Li



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O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

13 de jul de 2007

Capítulo 47: Estranha na própria casa

A necessidade nos impõe condições que impedem que a soberba do nosso coração nos eleve o orgulho. Assim aconteceu com a minha sogra, que sempre me perseguiu por não me julgar a altura de seu filho.

E agora entre nós haveria um exercício diário de tolerância. Eu poderia bem estar feliz e realizada com este novo quadro, ela precisando dos meus favores. Mas meu coração não era mesquinho, pelo menos eu desejava que ela visse isso em minhas atitudes, afinal, eu não duvidava nem um pouco que achasse que eu estava me revirando por dentro de satisfação.

Se eu aceitara ajudá-la junto com minha família era porque de fato eu queria ver o meu namorado bem. Caio estava de tal forma desolado pela doença de sua mãe, que se não tivesse a segurança de que alguém poderia ajudá-la, isso seria sua ruína na academia.

Imaginem o problema que seria para ele fazer seus exercícios, assistir as aulas e cumprir os serviços com a possibilidade em mente de sua mãe morrer e não resistir ao tratamento. Eu travaria aquela batalha para que não rolasse nenhuma lágrima mais em seu rosto.

Quando amamos alguém, o amor nos transforma e nos molda em alguém melhor. Impossível um ser humano amar sem se deixar evoluir pela porção mágica do amor.

Não digo que seria fácil e ela estava ali para me mostrar isso, com seus olhos frios e seu silêncio.

_Bem, essa é a minha cama. Você pode deitar nela. _ eu expliquei, apontando para minha cama de solteiro, forrada com uma colcha rosa de flores e cheia de bichinhos de pelúcia em cima.

_E aquele sofá-cama? _ ela perguntou.

Olhei para o meu lado. Aquele sofá-cama na verdade estava no quarto do meu irmão. Caio costumava dormir lá. Mas, depois meus pais aceitaram que ele ficasse no meu quarto, por ser maior. Daí eu explicar que nós dormíamos sobre o mesmo teto, poderia dar uma certa complicação na cabeça dela.

E se ela estava imaginando que seria fácil, depois de operada, se abaixar para dormir no chão, estava equivocada. Como eu iria lembrar-lhe deste detalhe tão delicado?

_É, eu vou dormir aqui. Eu gostaria de ceder minha cama para você ficar mais confortável. _ tentei levar as coisas por esse lado, não que o meu primeiro desejo fosse esse tão altruísta, mas se ela visse as coisas dessa forma, já estava de bom tamanho para mim.

_Tá, certo. Obrigada.

_E, ah, suas coisas... _ me dei conta mala que segurava. _ Vão ficar aqui no meu armário. Ele é grande, olha... _ abri a porta do meu guarda-roupa de quatro portas e mostrei-lhe que tinha esvaziado todo um lado só para ela. _ Não é como na sua casa... _ alertei-lhe, caindo em mim, já que seus guarda-roupas modulados eram muito mais bonitos e maiores que o meu humilde. _ Mas acho que serve. _ encolhi os ombros.

Ela me olhou por alguns segundos e depois para o armário e eu ali sustentando o sorriso na boca e o coração a disparar. Que horrível sensação de tentar agradar e só receber o silêncio. Queria que ela dissesse qualquer coisa, nem que fosse um “é um muquifo, mas tá bom”. Nada!

_O banheiro temos dois. Um no corredor. Na verdade, é um só. _ ri da minha confusão. _ Porque o da dependência de empregada a descarga está ruim e a água do chuveiro é fria, mas meu pai pode tentar arrumar. _ cocei a cabeça. _ Minha mãe separou uma toalha e roupas de cama. Só que estão ainda em cima da passadeira. Eu a vi fazendo isso ontem, só que acho que não teve tempo de trazer para cá... _ minhas mãos passeavam no ar, gesticulando sem parar.

_Tá. _ ela balançou a cabeça em sinal de sim. Olhou os porta-retratos na prateleira que havia na parede com várias fotos do seu filho me beijando, me pegando no colo. Ela estendeu a mão e pegou um deles que tinha uma foto de Caio sozinho, vestido de farda 3D, aquela begezinha. Colocou de volta no lugar.

_Dona Fabíola, você quer tomar o café conosco? _ minha mãe apareceu na porta e eu senti um grande alívio, como quem é salva pelo gongo, estava praticamente apelando, só me faltava agora apresentar os ursinhos da minha cama, “esse é o Ted, esse é o Biba, esse é o...”

_Ah, sim. _ ela sorriu e deixou sua mala no chão.

_Você sabe fazer café? Poderia me ajudar?_ minha mãe perguntou.

Dona Fabíola fazendo café? Não que ela não soubesse fazer, mas ela era uma mulher tão fina e em sua casa sempre tiveram empregadas.

Senti que minha mãe não conhecia nada dela e essa seria sua primeira “gafe” como anfitriã. Mas minha mãe estava era certíssima, se a mãe de Caio estava em nossa casa, era para entrar no nosso ritmo, conforme “a banda toca”, diria meu pai. Que por incrível que pareça até agora aceitara de bom agrado tudo isso, para a minha grande surpresa.

Será que, no futuro, meu poder de persuasão sobre Caio seria tão forte quanto o de minha mãe, quando queria que meu pai permitisse alguma coisa muito doida?

E foi assim que dona Fabíola conheceu a minha cozinha, de mesa antiga de granito, armários de madeira meio sujos de gordura com o tempo, a geladeira ainda azul, bem antiga, das “boas, como não se fazem mais”, elogia sempre minha mãe e o botijão de gás vestido com uma saia rodada vermelha de melancias bordadas em alto relevo.

Ela, vestida com uma fina saia de linho no joelho e uma impecável blusa branca engomada, se aproximou da pia e duelou um pouco com a torneira, até descobrir para que lado girava para abrir. Respingou-se um pouco por não medir a força da água e riu. Seu primeiro riso, que me lembrou sua humanidade. Não sei por que, mas ela nunca me parecia humana.

O mais difícil para nós era não saber como tratar do assunto. Ela estava ali para se tratar do câncer, mas nem ao menos sabíamos como iríamos tocar no fato. Tomamos a lei do silêncio no início, na falta de métodos para lidar com isso.

À noite, quando já todos dormiam, eu ainda sentia meu corpo tenso, por ter passado todo o dia tentando agradar e fazê-la se sentir à vontade. Que difícil isso! Eu me sentia incomodada na minha própria casa, como seu fosse a visita.

O telefone tocou e meu coração engasgou na garganta. Putz! Caio! Ele sempre ligava muito tarde. E não tinha como escapar, porque era o telefone do quarto que estava tocando. Sentei num impulso e estendi a mão para pegar o fone, em cima da minha mesinha.

_Meu amor. _ falei baixinho.

_Bela, querida. Como estão as coisas aí?

_Ótimas, pode ficar tranqüilo. E como foi seu dia, meu lindo? _ perguntei.

Ai meu Deus, a mãe de Caio estava ouvindo aquilo tudo. Impossível não ter acordado com o barulho.

_Foi bom, amor. Estou bastante cansado. Vou ter Siesp semana que vem e peguei serviço justo nesse sábado.

_Que droga, amor! Pegou serviço? Mas vai passar rápido, e logo vamos estar juntos. Eu te amo demais, mais que tudo, estou tão louca de saudade.

_Eu também te amo, Bela, nem sei como te agradecer.

_Me amando. _ ri e me contive.

_Ah, mas isso eu já faço sem você pedir.

_Sei... _ ri de novo. _ Te amo, dorme com Deus e sonha comigo.

_Tá, te amo também. Beijo e manda um beijo para minha mãe.

_Pode deixar que eu mando. Beijo, te amo.

_Te amo, tchau.

_Tchau.

Suspirei. Era tão satisfatório falar com ele, alguns segundos que me traziam a sensação de que o dia tinha valido inteirinho a pena.

Deitei e dormi. Amanhã seria um longo dia, levaríamos a dona Fabíola ao médico.


Autora: Li



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12 de jul de 2007

Cap 46: Pode confiar em mim

A espera era grande. Às vezes, o tempo parecia girar contra mim. Mas apesar de eu achar que os ponteiros do relógio não eram meus aliados, uma hora sempre chegava em que toda espera era recompensada. E lá estava Caio, saindo do elevador com sua mala.

Abracei-o com força e uma saudade tão grande. Prendi a respiração e fechei os olhos para aproveitar cada segundo daquela maravilhosa sensação de calor. De sentir minha cabeça apoiada em seu peito.

_Eu te amo. Eu te amo._ beijei-o nos lábios e mais uma vez o abracei. _ Vamos entrar? _ ri, se deixasse ficaríamos ali, grudados no corredor. _Está com fome? Vou colocar um prato de comida para você no microondas.

_Estou sim. _ ele disse e sorriu, mas não era um sorriso completo.

_Caio, está tudo bem com você?_ franzi a testa e parei no meio do caminho. Desisti de ir até a cozinha e fui sentar ao seu lado no sofá.

_Nada... _ ele estava fugindo, mas sua mão apoiando a cabeça me assustava cada vez mais.

_Caio, olha para mim! Não adianta esconder, eu sou sua namorada!

_Bela..._ ele levantou o rosto e seus olhos cintilantes pelas lágrimas prestes a rolar me aterrorizaram. Senti um arrepio percorrer a espinha e meus pelos do corpo se eriçarem.

_Fala logo, não me mata do coração! _ pedi, muito nervosa já.

_É a minha mãe. Ela tá muito doente.

_Quê? Sua mãe? Mas... O que ela tem? _ eu ficara completamente desnorteada, mas pelo menos sabia que não era nada com ele.

_Ela está muito mal... E eu não quero que ela morra. _ as lágrimas caíram dos seus olhos em forma de duas gotas grossas. _ Ela está com câncer.

_Ai, meu Deus... _ fechei os olhos e senti junto com ele sua agonia. _ Caio, eu estou aqui com você... _ segurei sua mão. _ Vem aqui, vem... _puxei-o para deitar no meu colo. Ele tirou a boina, os sapatos e deitou a cabeça nas minhas pernas. _ Eu estou arrasado. Fiquei sabendo disso semana passada.

_Por que não me contou, Caio! Você não confia em mim...

_Não briga comigo. _ ele pediu.

_Tudo bem... _ passei a mão nos seus poucos cabelos. _Minha mãe está muito mal, toda a família está chocada com a notícia.

_Câncer onde? É benigno?

_É maligno. No seio direito.

_Nossa. Mas a medicina está muito avançada. A gente vê tantas pessoas se recuperando e dando a volta por cima.

_Eu sei. _ ele se encolheu e ficou ali indefeso, nos meus braços.

_Ela tem que procurar um tratamento rápido.

_Nós já buscamos informações. Aqui no Rio de Janeiro há o Hospital Mario Kröff, especializado nesse tipo de tratamento. Eles fazem tudo de graça. Nós estamos tentando trazê-la para cá...

Minha mãe que vinha do quarto do meu irmão, ouviu parte da conversa.

_Oi, meu filho. _ ela passou a mão na cabeça dele. _Você não está bem?

_Não muito, tia. _ ele falou e se sentou para apertar sua mão.

_Eu ouvi o que disse sobre sua mãe.

_É... Nós estamos sem ajuda das pessoas, meio desamparados.

_Mas você sabe que pode contar conosco! _ minha mãe sentou ao lado dele._ Escuta, eu vou conversar com o meu marido. Sua mãe pode ficar aqui em casa. Nós não temos toda infraestrutura, somos muito simples, mas se ela precisar operar aqui, nós daremos esse apoio que vocês precisam.

Olhei para minha mãe a amei por aquele gesto.

_Claro!_ concordei.

_Obrigada, tia. Mas já estamos dando trabalho demais comigo aqui...

_Caio, não é hora de cerimônias! Eu vou falar com meu marido sim. Agora, tenta descansar. _ ela sorriu. _Tome um banho, tira essa farda e deita um pouquinho lá no quarto da Bela. _aconselhou.

Assim ele fez e já de roupa limpa, ali, deitado no meu travesseiro, eu o abracei e ficamos quietos. Em silêncio.

_Eu estou ao seu lado para tudo, sabia?_ acariciei seu rosto._ Você pode contar comigo. Quero que confie mais em mim para contar suas coisas.

_Eu confio. Bela, você é minha vida... _ ele me beijou os lábios e fechou os olhos.

_Dorme um pouquinho. _ acariciei seu cabelo e fiquei ali vigiando seu sono.

Mal de cadete. Sorri. Sempre dormem. Tão lindo adormecido sobre o meu travesseiro, onde tantas noites sinto sua falta. E agora meu milico estava passando por essa barra.

Como será meu Deus? Ter sua mãe na minha casa?

Autora: Li



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10 de jul de 2007

Cap 45: Sem garantias

As férias foram realmente ótimas. Salvo, claro, aquele carma em minha vida chamada Felícia. Não vou nem pronunciei esse nome para não estragar a sorte do meu dia.

Hoje, fui a uma entrevista de estágio em uma grande emissora de televisão para concorrer a uma vaga na habilitação de publicidade.

Fui com a cara, a coragem e muita maquiagem. Assim que cheguei próxima ao prédio, retirei meu chinelo e coloquei meu salto de bico fino. Meu pai ficou com a sacola e me despedi dele, dizendo para não se preocupar que eu me viraria bem sozinha.

Vendo meu pai se afastar, com seu bermudão simples e a barriga apertada na camisa, tive um amor quase de compaixão por ele. Por mais durão que fosse, estava ao meu lado, torcendo pelo meu sucesso e acreditando em mim. O que pesava ainda mais nas minhas costas a responsabilidade de ser bem sucedida.

No luxuosíssimo prédio, aguardei sentada na recepção juntamente com mais uns 20 candidatos. Mais mulheres que homens, na realidade. Todas ali pareciam modelos, lindas, impecavelmente vestidas. Comecei a me sentir inferior, com uma roupa inferior, com uma experiência inferior...

Agüentei quieta com a minha própria angústia. Depois de duas horas de espera, nos pediram para subir e fomos colocados em círculo em uma sala cheia só com cadeiras. Nunca vou esquecer das próximas horas em que lá estive.

Uma mulher magrela e com uma cara de bruxa má nos olhava em silêncio, enquanto outra mais extrovertida explicava as regras:

_Vocês farão uma prova de 20 questões de atualidade. Uma redação de 30 linhas. Uma prova de... _ eram tantas avaliações, que deram um nó na minha mente e tudo, diga-se de passagem, em um tempo muito curto, para fazer no automático mesmo.

Após quatro horas, meu cérebro estava queimando. Para mim já chegara! Que nada, o pior estava por vir. A entrevista, afinal, era para isso que eu viera até ali.

Cada candidato falaria de si, das coisas que já fez e responderia porque queria estagiar ali. A consultora de RH avisou que quem ainda não tivera feito estágio antes, poderia falar de um trabalho que gostara de fazer na faculdade. Eu tive a sensação de que aquela opção de misericórdia era bem o meu perfil e me senti ainda menor por isso.

A primeira a falar foi uma menina que estudava em uma universidade particular muito cara. Ela tinha morado na Austrália, falava com fluência nativa três línguas e tinha estagiado em duas multinacionais. Depois dela, só cresciam as demonstrações curriculares dos candidatos. Eles já moraram: nos Estados Unidos, Suíça, França, Inglaterra... Já estagiaram em seis, sete grandes empresas, falavam fluentemente em média três línguas...

Eu não conseguia levantar o meu dedo para me apresentar. Eu sei que isso era péssimo para mim, ser a última era o pior sinal que eu poderia demonstrar, mas é que eu não conseguia abrir a boca. Eu não tinha nada daquilo. Minha pobre mãe, coitada, vivendo de limpeza de pele nunca teria condições de me mandar para o exterior. E eu não tinha experiência de nada.

Mas eu não poderia escapar daquilo. Me senti o pior dos seres. Fiquei tão nervosa que minha voz tremia e eu tive vontade de chorar em um ataque de pânico. Pode parecer uma infantilidade, mas eu nunca estive tão desamparada. Só queria que aquilo acabasse logo.

Eu que ali chegara às 4 da tarde, sai às nove. Quando encontrei a minha cama, eu ali morri. Minha mãe muito ansiosa, proclamando aos quatro ventos que acreditava muito na minha capacidade, nem percebia o quanto eu estava arrasada.

Olhei para o celular. Nenhuma mensagem de Caio. Nossa, que cruel o mercado de trabalho. Quão desumano. Eu estaria competindo com pessoas que ainda na vaga de estágio tinham mais experiência que um profissional gabaritado de anos atrás, de outra época.

A minha tristeza e desolação de não ter sido chamada para a próxima fase ficou estampada no meu rosto. Conversando com uma colega de turma, contei-lhe tudo. Ela, na realidade, só era da minha turma de “Criação Publicitária”, porque estava fazendo aquela disciplina que tinha perdido. Seu real período era o sétimo.

_Eu estagiei lá. Mas depois do período de um ano eles mandam todos embora. Um ou dois ficam.

_É?_ franzi a testa.

_É... _ riu, me achando muito ingênua. _ É tudo marketing. Eles só querem usar os estagiários como mão de obra barata. Você acha muito ganhar 800 reais para trabalhar seis horas? Isso é uma exploração! Porque dois estagiários estarão tomando a vaga de um profissional que deveria ganhar muito mais. E, pior, eles podem te mandar embora depois do contrato, não estão assinando sua carteira.

_Eu sei de tudo isso... Mas a gente sempre tem esperança... Sempre ouve falar daquele fulano que conseguiu...

_É... Mas na grande maioria dos casos, ficamos assim, mendigando um estágio exploratório. Só que se você pensa que ai mora o problema, que nada. E quando você tiver um filho para criar? E marido?

Pensei em Caio, em ter que me mudar sempre com ele de dois em dois anos.

_Você já parou para somar todos os gastos que seus pais tem com você? E quando for você que tiver esses gastos com seu filho e mais, juntando com os seus próprios gastos?

Ela não era tão mais velha assim, mas conseguia enxergar um lado muito prático da vida. Talvez porque estivesse mais de cara com o fim do curso, com o mundo mais cru.

Aquilo tudo ficou rodando na minha cabeça e me entristeceu demais. Tive que desabafar com Caio, quando liguei para ele, à noite, depois das nove.

_Que isso, amor! Você é muito nova! Você é ótima! Tenho certeza que será muito bem sucedida! _ ele me animou.

Eu não falei mais nada. Ele não entendia... Caio teria seu emprego federal garantido. Não sabia o que era estar à mercê da mão perversa do capitalismo.


Autora: Li



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5 de jul de 2007

Cap 44: Cada um sabe do valor do que é seu

Eu estava a procurar por Caio, quando cheguei na sala da fazenda e vi mais uma vez Felícia e Ribeiro, ela com sua mão apoiada na dele. Pareciam em prece baixa murmurarem em uma língua própria. Meus ouvidos mais que de pressa captaram passos vindo pelo corredor a minha direita e o que temi era real: Débi vinha da cozinha e por alguns segundos presenciaria aquela cena. Era hora de eu ser mais que rápida para livrar minha amiga daquilo. Não tinha tempo de pensar em que maldade Felícia estava tramando, nem porque Ribeiro estava sendo tão fraco em cair em seus encantos. Minha única preocupação era Débi.

_Miga, você... _ caminhei até ela e a segurei delicadamente pelos ante-braços. _Você viu a... avó de Caio? _ perguntei, dizendo a primeira coisa que me veio a cabeça.

_Não... Era justamente isso que eu queria saber. Ela me deixou olhando a panela de pirão e saiu. Será que não está na sala?

_Não! Eu estou vindo de lá... _dissuadi-la da idéia de ir até a sala conferir.

_Então, deve estar lá fora, quem sabe foi catar a roupa do varal ou...

_Vamos pelos fundos da casa?_ pedi e Débi captou pelo meu olhar que eu não estava em meu estado natural.

_Bela, o que deu em você? Parece que não quer que eu passe.

_Eu?_ franzi a testa e não pude contê-la. Débi seguiu a passos firmes até o fim do corredor.

Virei-me para ver sua reação. Ela estancou e ficou imóvel. Eu já podia imaginar sua visão.

_Mas o que significa isso? _Ouvi a voz de Débi estrondar.

Corri para segurá-la. Ela iria sair de si, como eu bem a conhecia.

_Sua barata de igreja de última categoria! _ Débi voou em cima de Felícia e só com a minha ajuda e de Ribeiro conseguimos separar as duas engalfinhadas em cima do sofá.

_Que isso, garota? Ficou maluca? Quer rasgar o meu vestido? _ a prima de Caio ajeitou-se e dispensou a imobilização de Ribeiro.

_O seu vestido não. Eu quero cravar as minhas unhas no seu pescoço e ver verter sangue! _ Débi estava transformada em raiva, nunca vira seu rosto tão vermelho.

_Eu só estava rezando! _ ela explicou-se._ São seis horas, um momento sagrado...

_O único momento sagrado, o único ritual sagrado... _Débi apontou com suas unhas vermelhas na direção do rosto de Felícia. _ Vai ser eu te encher de porrada, garota. _ e agarrou os cabelos de Felícia.

_Parem vocês duas!_ a voz da avó de Caio soou por um dos cantos da sala.

Débi respeitou a ordem e Felícia fez o mesmo.

_Posso saber o que está acontecendo aqui?

_Desculpe, senhora, pela confusão em sua casa... Mas é que essa garota aí estava de mãos dadas com o meu namorado fazendo oraçõezinhas. E sabe o que eu vejo? Que ela quer roubar qualquer pessoa que esteja feliz. Ela desde que chegou não se enxerga e se oferece como uma uma mulherzinha vulgar e sem escrúpulos. Se ela não ficou com o Caio o problema é dela, agora não venha achar que pode atrapalhar o meu relacionamento.

_Se acalme, querida! _ a avó de Caio respirou fundo. _ Felícia, venha comigo. Nós temos que conversar...

As duas se retiraram e Caio apareceu pela porta da sala, vindo da varanda, com um ar de desentendido, pegando a confusão pelo fim.

_Caio, você pode me levar até a rodoviária? _ Débi olhou para ele convicta.
_Por quê?_ ele franziu a testa e olhou para mim em busca de uma explicação.
_Eu vou embora, me desculpe, mas essa viagem acabou para mim por aqui. _Débi pisou forte em direção ao quarto, provavelmente iria fazer suas coisas.
_Débi! _ Ribeiro a seguiu.
Tentei fazer o mesmo, mas foi a vez de Caio me segurar.
_Deixa que eles se resolvem. _pediu.
_Preciso dizer o que houve? Preciso dizer que nome estava metido nisso? _ coloquei as mãos na cintura.
_Que droga, hen? _ Caio também estava inconformado. _Não me olhe assim também. Não tenho culpa!
_Seu amigo tem merda na cabeça? _ perguntei. _ Eu peguei os dois rezando aqui na sala!
_Ele gosta muito disso, Bela. É a crença dele. A Débi não é assim...
_Não vem defender ele não! _ levantei as mãos no ar para que parasse.

No jantar, os pais de Caio sentiram falta dos nossos amigos. Felícia trocou um olhar com a avó de Caio.

_Eles foram dar uma volta na cidade. _ respondi.
_Hum... _ minha sogra continuou cortando seu peixe grelhado.

Fiquei apreensiva com o paradeiro de Débi, até que ouvi o barulho da porta do quarto se abrindo e um raio de luz entrando e iluminando meus olhos.

_Desculpe, te acordei? _ era ela.

_Como está? Fiquei preocupada, vocês saíram assim sem mais nem menos... _ sentei na cama e acendi a luz do abajur. Reparei que ela trouxera de volta sua mala e a deixara junto à cômoda.

_Nos resolvemos.

_Puxa, que bom!_ sorri e segurei a sua mão. _Não podemos deixar que nada, nem ninguém atrapalhe a nossa felicidade. Te admiro pela maneira com que luta pelo que é seu... _ elogiei-a.

_Nós demos uma volta na cidade e... _ ela deitou-se na cama e apoiou a cabeça com a mão.

_E? _ levantei as sobrancelhas.

_E ele pediu desculpas, falou que fez de bom coração, sem maldade...

_Débi, não é bem isso que você parece querer me contar... _ cortei-a.

_Nós decidimos ficar mais sozinhos. Afinal, não dá para ficar se agarrando nessa cidadezinha conservadora.

_E vocês foram para onde? _ perguntei, já supondo a resposta.

_Sabe aquela pequeno hotel, que fica ao lado da antiga locadora? Perto da cafeteria...

_Sei!

_Ele pagou uma diária para a gente poder entrar e ficarmos sozinhos.

_Ãnh? O Ribeiro fez isso? E não teve nenhuma crise existencial por isso?

_Ãnh-ãnh... Não nani não-não... _balançou a cabeça para os lados.

_Nossa, isso que eu chamo de surpresa. _arregalei os olhos.

_E aí, ele me beijou, me abraçou e não resistiu...

_Vocês?... Ahhhh! _contive o gritinho para não acordar a casa inteira.

Débi começou a rir baixinho.

_Foi meio desajeitado, mas divertido... _ ela rolou na cama e se abraçou ao travesseiro.

_Que amor louco o nosso. _ deitei minha cabeça no meu travesseiro também. _ Tenho medo de tudo acabar assim do nada... _ confessei. _ Nós teremos que enfrentar tantas coisas ainda.

_Eu também sinto isso. Mas quero viver cada dia. Senão vou me golpear com o machado do futuro sem necessidade...

_Tem razão..._ concordei.

Autora: Li



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