25 de jun de 2007

Cap 38: Eu era um coração pulsando

Caio que lia o jornal me perguntou: "Você viu isso aqui?"
_O quê?_ perguntei por educação, sem muita vontade de saber.
_Uma empregada doméstica estava ontem, às 5 da manhã, esperando um ônibus, quando quatro mauricinhos da Barra da Tijuca riquinhos desceram do carro e espancaram a mulher. _Caio mostrou a foto e eu fiquei horrorizada com o rosto deformado da senhora, todo roxo e inchado.
_Nossa, eles são ricos, para que roubar a bolsa dela? Para que espancar uma mulher por diversão?
_Ah! Um deles falou que era porque acharam que ela era prostituta.
_E daí? Se fosse? _perguntei, retoricamente._Em que mundo nós estamos?! O que esses playboyzinhos pensam que são?
_Eu achei interessante o que o pai da empregada falou, na simplicidade dele. Ele disse que é muito preocupante os pais estarem enchendo os filhos de dinheiro, mas não dando nenhuma educação e disciplina a eles. Que dinheiro não é tudo.
_Agora imagina a vergonha para os pais verem seus filhos com os rostos estampados em todos os jornais? Tomara que sejam presos. Mas sendo ricos, já viu né?
_Podem pegar até 15 anos de prisão._ Caio comentou, olhando para o jornal. _ Viu também o casal de tenentes que foram feridos ao passarem por uma blitz? Metralharam todo o carro. A mulher morreu, o marido ficou muito ferido e o sogro saiu do carro com as mãos para o alto implorando para pararem de atirar.
_Ai, amor, se cuida. _ de repente, senti um medo de perder o Caio. Sentei na cama e o abracei com força. _ Eu não quero ficar sem você nunca! Eu suporto qualquer distância que tenha um tempo para acabar, mas não suporto uma distância eterna. _beijei-o.
_Não vai acontecer nada, Bela. _ ele riu para tentar me descontrair.
Meu telefone começou a tocar. Levantei para atender. Era uma amiga professora de matemática, avisando que daria aula às cinco horas para o Betinho.
_Está tudo bem?_ me perguntou.
_Está, só estou ainda com muita raiva da Telemar, mas não vou falar disso. Você que não me parece bem com essa voz.
_Eu estou muito chateada. Vão me mandar embora da escola.
_Por quê?
_Porque o coordenador disse que pagou, passou. Que eu não posso reprovar, que eu tenho que passar trabalhinhos. Exigiu que eu berrasse. Mas dar aula para quatro turmas de 50 alunos no mesmo dia é muito desgastante. Ai, hoje eu também mandei bilhetinho para todas as mães que os alunos não tinham feito dever de casa e ele não liberou o carimbo, disse que eu estou errada, que eu tenho que aprender a dar aula para a parede. Eu não agüento mais, que país é esse?
_É o caos. _ respondi._ É um provedor de internet que vende um serviço que não funciona, são policiais que atiram em dois tenentes, é uma empregada doméstica espancada por riquinhos da zona sul... E você tem que dar aula para a parede?
_Pior! Eu perguntei o que ele achava do filho dele estudar lá e eu dar aula para a parede. Ele falou que esse não era um problema meu.
_É? Que absurdo!
_Que absurdo mesmo. E que cidadãos são esses que vão se formar?_ reclamou.
_Eu não sei. O filho dele vai passar até a oitava, porque pagou, passou. Depois ele vai fazer uma faculdade e dar aula no colégio do pai, porque lá ele também vai dar aula para a parede.E o mundo vai girando nessa bola de neve._ conclui.
_Eu estou frustrada. Acabada. Eu já decidi, não vou terminar a faculdade, vou largar. Eu gosto de música, vou tentar vestibular de música. Não posso acabar com a minha saúde.
_Ai, miga, nem sei o que te dizer. Lamento. Mas então tá, vou avisar para o meu irmão sim.
Desligamos.
_Vocês também estão se estressando demais, Bela, relaxa._ Caio estava fazendo o jogo dos sete erros no jornal com a minha lapiseira rosa choque.
Olhei para ele e pensei que era melhor não insistir, nem brigar. Caio não entendia. Ele viveria 4 anos da vida dele trancado em um lugar seguro. O mundo aqui fora continuaria girando e ele pararia no tempo. Ganhar conhecimentos técnicos de armas e táticas de guerra não o amadureceria em relação a sobrevivência aqui fora. Lá dentro era outra coisa, um outro Microcosmos.
Voltei para o meu problema com o provedor de internet.
Peguei o telefone e cheguei ao estágio Operador 2 e descobri que agora tinha uma nova: o operador 3, chamado de “Suporte Avançado”. Então, quer dizer, que sempre existiu o operador 3, e os clientes só eram informados disso depois de terem ligado umas cinco ou sei vezes?
Eu já não tinha uma gota de paciência e depois de repetir todos os comandos solicitados e ouvir a conclusão de que o problema era do meu computador, eu explodi:
_Eu pago por um serviço que não funciona, por uma porcaria de assistência e vocês...
Um bom tempo depois o operador me informou finalmente que enviariam um técnico, mas que eu pagaria uma taxa simbólica de 29 reais, porque a “Oi só cobra essa taxinha”.
_O quê? _ falei mais uns minutos de reclamação, menti que estava gravando tudo e que os colocaria no Procon.
Anotei o número do protocolo que o técnico me pediria, quando chegasse a minha casa e desliguei. Eu estava com o rosto quente e o coração disparado.
_Bela, você vai esperar, nós temos um churrasco hoje, esqueceu?
_Não, claro... Meu irmão vai receber o cara. Eu vou falar com ele que a professora vem as cinco e explicar tudo para ele, dar esses números aqui... _ Fui até o quarto do Betinho e lhe passei todas as instruções.
Eu estava tão estressada, que não queria nem um pouco aturar churrasco de quartel. Mas por amor, eu faria qualquer coisa. Tomei um banho e me arrumei.
_Nossa, como você está linda. _ Caiu disse, já com o controle remoto do Playstation na mão, jogando Devil May Cry 3, sabe-se lá o que era isso, mas que estava escrito na capa do CD em cima do braço do sofá.
Lembrei-me da vez que ele viera me levar a uma festa e nós nem éramos namorados. Agora ele ali, me admirando e eu tão apaixonada por ele.
_Amorzinho, larga isso aí e vem comigo?!_ puxei-o pela mão.
_Ah, Bela, só mais um pouquinho?! _Betinho implorou.
_O Caio vem depois..._ argumentei.
Caio olhou-me. Ele hoje iria embora para São Paulo. Quando voltaria? Não podia dar essa garantia ao meu irmão.
_Caio, nós queremos falar com você. _ minha mãe veio da cozinha. O “nós” provavelmente deveria ser alguma mensagem que ela anunciaria como porta-voz do meu pai.
_Claro. _ele levantou-se.
_A Bela me disse que sua família vai para São Paulo.
_Você vai se mudar? _Betinho fez uma cara de tristeza.
_Vou, rapaz..._ Caio sorriu, mas triste também. _É... _ ele olhou para minha mãe. _Meu pai também é militar, como a senhora sabe. Então, ele já acabou o tempo de ficar aqui no Rio. Minha mãe quis escolher se mudar para São Paulo.
_E como vão ficar as coisas?_ minha mãe perguntou.
_Bom, eu vou continuar estudando na AMAN, em Resende, é meu primeiro ano lá agora. E nos fins de semana eu vou para casa. São umas três horas de viagem.
_E eu? _ perguntei, abraçando seu braço.
_Bom, eu posso pedir para dormir na casa de uns amigos aqui no Rio.
_Caio, eu sei que minha filha está muito feliz contigo. E já que vocês querem realmente ficar junto, nós não queremos também atrapalhar, né?
_Obrigado.
_Então... Toda vez que você quiser, pode ficar aqui com a gente. Vou arrumar um colchão para colocar lá no quarto do Betinho.
_Eeeeh! _meu irmão pulou do sofá e abraçou o Caio.
_Pronto! Perdi o namorado pro Playstation! _ri, com os olhos cheios de lágrimas. Aquele era o maior milagre. Meus pais acolhendo o Caio aqui em casa totalmente. Eu sabia que tinha a mão divina que nunca me desampara.
_Viu que bom, meu amor? _Caio me abraçou sorrindo, muito feliz.
_Que ótimo! _ concordei radiante.
De repente, aquele mundo de caos não era tão ruim assim. Havia muitos bons motivos para alegrar. Não era perfeito o fato de Caio ir morar em São Paulo por causa da transferência do pai militar. Mas eu só tinha a agradecer por ele poder vir para cá, mesmo enfrentando duas horas de viagem até o Rio de Janeiro. Nem tudo sai como a gente quer, mas pode mesmo assim ser bom.
Fomos para o churrasco. Chegando lá, a primeira coisa que vi foi um enorme campo de futebol gramado cheio de bolas coloridas, brinquedos e muitas crianças se divertindo. Dois animadores coordenavam as brincadeiras ao microfone, enquanto um aparelho de som tocava músicas infantis em alto e bom som.
Descemos por uma pequena trilha e na frente de uma mata fechada um grupo de música gaúcha vestidos a caráter tocavam seus instrumentos típicos. O cheirinho de churrasco levou meus olhos a encontrarem uns espetos grandes à minha direita, onde a carne farta girava. Nossa, ali havia um boi e vários porcos inteiros.
As mesas já estavam cheias de gente, por quem Caio foi passando e cumprimentando. Sentamos em uma e ficamos de mãos dadas. Ele foi me indicando as pessoas por alguma característica para que eu as identificasse e descreveu suas profissões, postos e habilidades.
_Hum, que legal... _ comentei.
Mas o que me chamou a atenção foi o fato de algumas mulheres tão bonitas nunca terem trabalhado. O que elas fizeram então ao longo de suas vidas? Pensei na minha mãe, tão cansada das massagens e limpezas de pele, sempre andando milhas com sua mala de troços de beleza. Ela não era tão bem conservada, nem poderia ter aquelas unhas de porcelana gigantes. Senti um tanto de pena e ao mesmo tempo muito orgulho da minha mãezinha.
Quatro amigos de Caio se sentaram a mesa. Eram também da Aman. Eles começaram a travar um papo que transcendia a minha linguagem.
_Pô, tem um alfaiate que coloca umas espumas no...
Enquanto eles tagarelavam os “Bizus” que outros veteranos lhes deram, meus olhos percorriam o ambiente. Um grupo de mesas estavam forradas de cores diferentes. Todas em vermelho. Supus que deveriam ser de militares de patentes maiores. Reparei que mais ao fundo. Mas bem ao fundo mesmo, havia no alto de uma pedra, uma churrasqueira grande. Homens vestidos de uniforme faziam os seus churrascos. Eles e suas famílias ficavam em outra parte, muitíssimo mais ao fundo. Deixa eu ficar clara: praticamente tão longe que eles pareciam formigas. Supus que seriam de uma patente mais baixa. Não havia uma mistura. Uns de um lado, outros de outro.Mas isso eu só fui concluindo sozinha, com meus botões.
De repente, senti que estava sendo olhada. Era um rapaz loiro, que não parava de me encarar.
_Que é aquele? _ perguntei bem displicente para Caio.
Era nada menos que o filho do General. Hummm, tá. Mas por que me olhava tanto? Troquei de lugar com Caio e fiquei de costas. Ele não entendeu nada. Nem eu iria explicar.
Quando percebi, estávamos uma hora naquele estado: Caio e os amigos falando de nós de corda, aparelhos de escalar montanha, capacete e etc e eu muda. O que eu tinha para comentar?
Senti uma sensação de ser aquele peixe fora d’água se estrebuchando, como Débi mencionara um dia.
Enfim, nos servimos e eu mexi a minha boca ao menos para comer. Caio não fizera por mal. Ele estava tão empolgado com os amigos que eu estava feliz por ele estar feliz. Feliz também por estar apenas ao seu lado, segurando sua mão.
Seus pais nos anunciaram que estava na hora e voltamos de carro. Quando desci na frente da minha casa, senti um aperto no peito. Caio desceu também.
Nos olhamos com os olhos cheios de lágrimas. Vi embaçadas as coisas na mala do carro através do vidro: porta-retratos, fotos, fardas, coisas de valor sentimental, que disseram não poder colocar no caminhão da mudança porque nenhum seguro pagaria.
_Já sabe, né? Pode vir para cá que a casa é sua. _ eu falei.
_Eu sei sim. _ fez um carinho no meu cabelo. _ Eu vou vir sempre que puder. Pensa só, um casal não se vê todo dia durante a semana, se a gente somar a quantidade de horas grudados no fim de semana e dividir por 7, dá quase ou mais que um namoro normal!
_É. _ ri daquela sua lógica maluca._Eu te amo muito. _ beijei-lhe a boca e o abracei com muita força.
_Eu também te amo demais. _beijou-me e se afastou.
Ainda um adeus e entrou no carro. Meu coração foi sendo deixado para trás aos poucos, enquanto o carro se distanciava. Digo coração, porque ele batia com tanta força que eu era um coração grande e vivo, pulsando no corpo todo.
Tantas perdas e danos, e eu ainda estava ali de pé. Firme, forte.
Limpei as lágrimas dos olhos, apoiei a mão na grade da portaria. Respirei bem fundo.
É hora de se preparar para a frente de batalha.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

6 comentários:

li disse...

Trabalhei sábado e domingo até as 11. maratona, só chegava e morria na cama. meninas, mil perdões, mas já está aqui atualizado com muito amor. amoooo muito tudo isso hhehe
beijão no coraçãozim de todas.

Nathy disse...

Caramba o capitulo de hj foi grande, valeu por esses dias, hehe... ;)

Meu Deus, morrrrrri de rir com o suporte velox... já passei por isso centenas de vezes q já perdi as contas, Li...

Não é facil mesmo... tbm já tive q dizer: V-E-L-O-X... ai vem aquela voz: Desculpe não entendi! Ai eu: VEEEEELLLLLOOOOOXXXXXXXXX! E ainda vem e diz: Desculpe não entendi! Aiiii dá um odio, vontade de mandar pra pqp! huahauhaua!

Mais o final foi triste... :(
mais eles vão superar...
se Deus quiser \\o

Bjossss!

feriele disse...

bom gente to amando muito td isso...
poxa td bem q eh chato os paius dele estarem indo p SP mais n eh tão ruim assim ..rio resende são soh duas horas rápidinho ele pode ir um fds p casa e um p casa da bela..dividir..eu vejo meu amor uma vez por mes e olhe lah..qnd muito..kkkk

bjs meninas t+

Nathy disse...

Mais Feriele...
os pais dele não gostam da Belinha, lembra disso...

Isso pode prejudicar um pouco!! :(

Espero q NÃO, viu... Li! rs...

Bjoos!

aninha disse...

nossa.. que triste isso cara!!!! ele em outro estado, longe dela! mas eu tenho uma pequena intuição de que eles se verão a cada 3 semanas!!!! bjus

meninas, capitulo novo no romance militar tão iguais e tão diferentes - um amor militar na maturidade

li disse...

Nathy eu tô ouvindo suas idéias hen... hahahahhahahahah

não fica cochichando não hahahhaha

beijinhos lindas.