26 de jun de 2007

Cap 39: Um dia daqueles

Liguei para uma amiga que ia de van comigo para escola a fim de lhe perguntar como era a faculdade. Eu não queria ser deslocada, nem pagar mico. Ela me explicou que no primeiro período as matérias formariam uma grade pronta e eu não teria muita alternativa, apenas seria possível trancar alguma. Depois do terceiro período, eu poderia escolher as habilitações da área de comunicação, como jornalismo, publicidade, rádio e tv, produção editorial e teatro. Ela me aconselhou a não ir com uma roupa nova no trote, pois depois eu teria que jogá-la fora.

Recordei-me dos alunos calouros pedindo dinheiro na frente do metrô de Copacabana e não achei que seria algo demais, afinal, uma sigla na testa e na bochecha, além de umas manchas no braço não me matariam. Escolhi uma calça relativamente “boa”, nem nova, nem acabada, um tênis mais para novo e uma blusa de manga um pouco comprida. Senti um frio enorme na barriga, quando entrei na universidade. O prédio era de estilo colonial, com chão de tábua corrida, teto muito alto, praticamente da altura de dois andares do meu apartamento, azulejos portugueses nas paredes do corredor e janelas de madeiras muito compridas e pesadas. Lindos jardins por toda parte, com chafarizes, árvores, pássaros. Belíssimo e aconchegante. Tão diferente daquela minúscula escola cheia de regras, moral e ordens.

_Você é caloura? _ uma garota me encarou no corredor. _Já para aquela sala. _apontou.

Eu ri, sem jeito e segui suas ordens. Lembrei-me da explicação de minha amiga de que eu tinha passado para a segunda carreira mais competitiva, só perdendo para medicina por cinco pontos, com uma quantidade de vinte oito candidatos disputando cada vaga. Em conseqüência disso, o meu batismo seria tão inesquecível quanto minha vitória.

Assim que entrei, vi que a sala estava lotada de pessoas. Escolhi um lugar ao fundo e me escondi abraçada a minha bolsa-mochila.

_Silêncio!_ três rapazes bateram com força na mesa e berraram. Todos se calaram. _Vou fazer a chamada! _ anunciou e começou a perguntar nome por nome.

No final, ouvimos o barulho de muitos murros do lado de fora da porta e pessoas gritando. Era o início da pressão psicológica. Fiquei apreensiva. Duas meninas ao meu lado sorriram, também angustiadas.

_Todo mundo tirando o sapato e colocando no fundo._ mandou um dos veteranos baixinho e marrento. _ Meninas, coloquem a bolsa de vocês no outro canto também que vamos trancar a sala._ explicou.

Tirei meu tênis e fiquei descalça. Dobrei a barra da minha calça jeans até alcançar o joelho.

_Agora, todo mundo aqui na frente fazendo uma fila de “elefantinho”, é isso aí, abaixa e enfia a mão por debaixo da perna, dá para sua amiga de trás, isso! Agora a outra mão dá para a da frente. Isso mesmo. Vamos lá pessoal, é para hoje!_ gritou.

Assim fizemos e de repente alguém puxou com força o primeiro da fila e andamos rapidinho, até chegar no corredor. Quando vi, havia um corredor polonês com veteranos e veteranas cheios de potões de guache de todas as cores. Antes que eu soltasse a minha mão, uma delas esfregou tinta azul na minha cara. A fila andava mais rápido e eu só sentia aquela coisa gelatinosa se espalhando por toda parte. Limpei o olho na manga da blusa, quando chegamos em um pátio. Ali fomos obrigados a sentar no chão em círculo e ficar bem quietos.

Os veteranos colocaram água gelada e um pouco de tinta guache em garrafinhas com furinhos na tampa. De repente, senti um jato de água entrar pela gola da minha camisa nas costas e dei um gritinho.

_Tá maluco?!_ reclamei.
_Caloura rebelde!_ um garoto bateu palmas e quatro meninas se aproximaram de mim e me mandaram sentar.
Elas derramaram guache amarelo e azul e fizeram uma massagem capilar em todo o meu cabelo, esfregando bem na raiz. Quando me dei conta, vi que todas as calouras estavam recebendo o mesmo tratamento, não tinha como escapar.

Depois, passaram tinta preta nos braços, pernas, pescoço, rosto, orelha, dentro da orelha, pés, entre os dedos dos pés, unhas. E? Purpurina em cima para “empanar”.

_Agora gata, molha a mão na tinta e aperta vai! _ o veterano pediu com uma voz laciva.

Eu franzi a testa, mas não perdi a esportiva, apertei meus seios e minha bunda para ficar a marca das mãos por cima da blusa e do jeans.

Os meninos sem camisa, além da tinta, foram enrolados com papel higiênico.

_Bom, pessoal! Agora nós vamos dançar, ok? _ o veterano anunciou e escolheu algumas garotas para subirem em cima do chafariz e dançar ao som das palmas. Eu me neguei a ir e eles não forçaram.

Pronto, pensei, é só lavar o rosto com o sabonete que eu trouxe e voltar para casa!

_Agora o nosso trote vai começar. _ um deles explicou.

O nosso trote vai começar?, como assim, aquilo fora só um ensaio?

_Vocês vão ser divididos em grupos de cinco. Cada pessoa tem até o anoitecer para arrecadar 100 reais para a nossa chopada, quem não conseguir vai perder a bocada. E olha só, nem adianta querer as bolsas e mochilas, porque estão trancadas. Ah! Todo mundo descalço mesmo, antes que alguma patricinha pergunte.

Caminhamos pela rua de trás da faculdade e já em bandos de cinco, ouvimos nosso líder:

_Todo mundo comigo, repetindo o que eu digo e fazendo pó-de-chinelo! _ bateu palmas. _ 1, 2, 3, nesse trote é minha vez. 4, 3, 2, 1, a pública não é para qualquer um.

Assim fomos gritando e pulando por uns quatro quarteirões. Andamos cerca de seis quilômetros por ruas, praças, avenidas, calçadão da orla da praia, tudo descalços. Consegui arrecadar 45 reais. Ouvi coisas inconvenientes de homens perguntando quanto era o meu programa, quanto eu cobrava para chupar isso e aquilo... Deprimente. Depois, mendiguei moedas na saída do metrô e no fim nenhum ônibus parou para mim. Foi preciso retornar a pé, arrasada, acabada, morta de cansaço para a faculdade.

Peguei minha bolsa, dei o dinheiro na mão deles e não pensei mais em nada além de lavar meu rosto, jogar a blusa no lixo e vestir aquela que eu havia trazido. No telefone, quinze ligações da minha mãe. Lembrei-me que não ligara para ela dizendo que tinha chegado bem e acertado o ônibus. Meu pai brigou comigo, perguntou se eu queria matá-la do coração.

Mais duas horas de trânsito e eu cheguei em casa um caco. Minha mãe lavou minha cabeça com um vidro de xampu no tanque da área de serviço e eu me esfreguei com uma bucha nova de lavar louça. Estava tão cansada que não podia me mexer.

Liguei para o celular do Caio, só queria ouvir sua voz como compensação para aquele batismo. Contei-lhe que fora meu dia de trote:

_Isso não é nada, tem que ver o que a gente passa aqui tendo mil funções, mil tarefas, isso é que é difícil, isso que é responsabilidade, isso é que é sanhaço, tá!

_Ok, boa noite. _ desliguei e fechei os olhos.

Eu aprenderia com o tempo que Caio sempre acharia que seus sofrimentos e suas provações eram as únicas e as piores do mundo. Ele não conseguia enxergar que aqui fora também havia vida pensante. Eu precisava dormir, meu cérebro não tolerava mais qualquer análise.


Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

4 comentários:

Jane disse...

Caraca.... Eu passei por isso! Claro que não foi tão-tão assim né heheh.. mas eu lembro que eu fiquei com uma alergia horrível por causa da tinta guache! Ah e quando eu liguei toda faceira contando pro meu namorado do trote: "Ah vc precisa ver o que eles fazem aqui! Isso sim é sanhaço não sei o que" ¬¬ BEEEM ASSIM como vc disse!
... aiaiai hein!
Ai que alegria! 2 cap em um dia! =)
Li, adorei o cap de hj! Beijooo

li disse...

gostou??????????????
que tribomlegalsô! fico muito feliz por saber disse, que vcs se identificam!!!
rs.
no meu caso não foi assim, o conheci no fim da minha faculdade. mas qnd eu contei um dia como foi para ele...ouvi do meu cunhado q tava junto essa frase "po ai, lá é pior". hunf que mania de competição né? rsrsrsrsr
e a gente sempre perde não é?

Nathy disse...

Ahhh adoro isso, hauahaua!

Ainda bem q tá começando um novo semestre... Dá trote no pessoal da facul é bom demais... PARA, eu adoro, huaiuahauha!

A minha sorte foi q não fui na primeira semana de aula, quando entrei pra facul, tava viajando, ahauiahaua!

Já dei 4 semestres de trotes, hauahaa, coiiiisa boa!

Bjos meninas!!!

aninha disse...

afffff!!!!! trote de vestibular é dose!!!! mas quando chegou minha vez eu descontei de acordo!!!!!hauhauhua!!!

meninas, visitem o romance militar tão iguais e taõ diferentes

www.taoiguaisetaodiferentes.blogspot.com