28 de jun de 2007

Cap 41: Regras de sobrevivência

_Alô, Bela?_ era a voz de Caio no telefone.
Eu senti meu coração pular. Mas já? Eram seis da tarde de sexta-feira. Nunca estive tão ansiosa, queria vê-lo, abraçá-lo, beijá-lo.
_Oi, meu amor, pode falar. _ respondi.
_Eu tenho uma notícia para te dar.
Intui que algo bom não devia ser.
_O quê? Você não vem mais?
_Eu fiquei punido.
Essa frase me machucou tão fundo. Não! Não! Como ele ficou punido!
_Mas por quê?
_Ah! O cabelo estava grande... Mas eu prometo que no outro fim de semana, depois que eu visitar a minha família, eu vou aí te ver.
Depois que visitar a família? Calculando: uma semana, um fim de semana com a família, mais uma semana, enfim, 3 semanas sem vê-lo, contando com esta última que já não o vi!
_Hum... Tá. _ foi o que consegui passar pelo nó da minha garganta.
Respirei fundo e procurei em mim todas as forças:
_Olha só, não fique assim! Tenta descansar, dormir. A semana vai passar muito rápido e quando a gente menos pensar vai ficar juntos.
_Claro, claro. Tenho que desligar, estou no celular e aqui o sinal da Claro não pega bem. Beijos, te amo.
_Beijos, amor, te amo muito mesmo.
Desliguei o celular.
Droga!Droga!Droga! Eu estava uma pilha de inconformação, raiva, tristeza, desmotivação.
Fui para o computador e o liguei no estabilizador no chão com o dedão do pé. Acessei o meu blog e fui ler os comentários. Eu precisava fazer alguma coisa nesse fim de semana! Não poderia ficar enterrada em casa!
As meninas que me visitavam e também namoravam militares haviam me dito como elas passavam o mesmo que eu e o que faziam para ocupar seu tempo:

_”fico na net conversando com minhas novas amigas..
vou pra ksa das minhas primas e assistimos filmes, jogamos baralho, falamos da vida dos outros..bem clube da luluzinha msm..rsrsr” (Let)

_ “Amigas eu sempre falava da distância e da saudade toda triste e ele me consolava e dizia assim: "aproveite este tempo para fazer as suas coisas". E listava um bando de coisas que eu precisava fazer do tipo me dedicar à faculdade, meu trabalho, aprender a cuidar das finanças (na época eu ainda estava começando a engatinhar nesse mundo), como viver sozinha, fazer todos os cursos que eu quero fazer, tirar minha carteira, organizar minha vida nos esportes, enfim... o que ele quis dizer é que eu preciso me preparar pra quando ele vier me buscar para ficar com ele. Não só fisicamente, mas emocionalmente e psicologicamente. Deus não faz as coisas por acaso e como meu love disse, "tudo isso é para nos preparar para as lutas que podem surgir no futuro".(Lucy)

Gostei disso! “Eu preciso me preparar pra quando ele vier me buscar para ficar com ele. Não só fisicamente, mas emocionalmente e psicologicamente.” Se eu passasse a semana me amargando, estagnada no tempo, quando Caio chegasse aqui encontraria uma mulher seca, triste, definhada!

_ “bom como eu n tenho amigas aki com namoros a distância...acabo q fico um pouco em casa p n sair soh de vela..rs... se tem mais amigas ainda melhor..acho legal vcs c reunerem am algum barzinho soh p bater papo tomar uma cervejinha...ver gente neh jogar conversa fora...
assim vcs tão saindo c distrainso mais n eh uma balada p os amores ficarem com ciumes neh...de vez em quando sair p dançar tb..mais nem sempre...pq ai ele vão ter razão em ficar com ciumes..mais de ves em quando n tem problema nenhum...juntar alguns amigos p ver um DVD..comer pipoca...ir ao cinema..ir á um rodizio de pizza..( mais soh de vez em quando tb pq c n engorda...rs...)essas coisas assim..e claro bater papo com agente na net;;...kkkkk” (Fefe Floft)

A Pandora também deixou uma listinha de idéias:

“-Sair com os amigos!(muito bom!)
-Jogar sinuca!(pessima)
-Ir a praia!(tostar)
-Conversar com a familia!(momentos unicos)
-Fazer social na casa dos amigos!(pior quando é a minha vez)
-Tentar aprender a cozinhar!(desastre)
-Estudar(chato,mais vale a pena)”

E a última a comentar no post, a Jane:

_“ Então, as aulas ocupam um bom tempo do dia de semana né? E na facul eu vejo minhas amigas, brinco com os amigos, xingo professor (hehehe), nem vejo o tempo passar! Na verdade até me apuro, querendo que o tempo volte quando tem prova xD ("Ai meu Deus, eu não sei nada!!!")
Mas tirando isso né...
À tarde eu ocupo meu tempo assim:
- estudo
- vou à academia
- aula de inglês
- net à noite
Basicamente só isso viu... Eu sempre quis aprender a cozinhar, mas vixe... hauhauhah eu destruo a cozinha 2 vezes antes disso!
No fds minha melhor amiga volta pra cidade e a gente vai ao cinema, aluga um dvd ou fica só jogada na cama botando todo o papo em dia!
O problema é quando tem feriado e ele não vem... “

Relacionamento, fiquei pensando com meus botões, implica em uma via de mão dupla. Mas se eu estou aqui em casa fazendo mil coisas sozinha e ele lá não sei aonde, então, parece que andamos paralelamente, cada um na sua. Me soa tão individual. Agora entendo o que motivou a minha amiga Débi a escrever no blog sobre o que determina um namoro ser ou não de verdade.

Legal mesmo foi a explicação das nossas queridas amigas, que nos visitam para as perguntas de Débi. Minha amiga havia perguntado:
1-Eu posso chamar de namoro de verdade um relacionamento de 4 anos de distância?
2-Nós não vamos ficar completamente desconhecidos com o tempo?
3-Como eu vou ter certeza que ele me liga porque gosta, ou não me liga porque não está nem aí? Qual a diferença?
4-Eu vou ter que sempre mudar a minha vida para se acoplar na dele, feito brinquedo de lego? Tipo, eu nem quero imaginar quantas vezes e em que situações isso acontecerá?!!!!
_“ 1-claro que pode chamar de namoro..se amam..quando estão juntos é td de bom, e quando distantes, um torcendo pelo outro...só é um namoro diferente..foge do padrão..mas idaí?? se são felizes é oq importa..
2- não vão ficar desconhecidos.... um exemplo meio feio , mas olha só: quando vc convive com uma pessoa e ela está engordando, vc nem sente..só depois de um tempo vc vai pensar: nossa como ela tá gorda. mas se vc não convive com ela vc vai olhar e vai perceber na hora que ela tá gorda...
eu vejo meu namorado uma vez por mês e descubro coisas novas tds as vezes..ele tá amadurecendo, crescendo..e isso é muito bom...sempre alguma coisa pra gente aprender com eles..
3-pode ter certeza que vc vai sentir quando ele não tiver nem aí...
só uma coisa, nao confunda a falta de tempo com a falta de interesse dele.. principalmente no primeiro ano, é muito difícil pra ele.. uma garota que vai ksar em dezembro, pq o amor dela tá no último ano me disse que se ela fosse mais madura no primeiro ano do amor dela na aman, ela teria apoiado mais e cobrado menos...
ele precisa do seu apoio..quanto menos neura melhor..eu sei que é difícil, mas..” (Let)
_ “1. sim, vc pode chamar de relacionamento de verdade um relacionamento de 4 anos de distância! meu irmão namorou a distância por 5 anos. Ela estudando Direito e ele Medicina. Depois que se formaram ele foi para Campo Grande - MS e ela ficou em Londrina - PR
Agüentaram firme a distância e depois de dois anos ele conseguiu voltar para Londrina e ela passou num concurso em Mirasselva - MT. outra vez eles foram separados e suportaram a distância. casaram-se em 2006 e meu irmão ficou em Londrina e ela foi transferida para Cuiabá - MT. Ano que vem meu irmão vai para Cuiabá e ela ficou estabilizada para poder ficar com ele. Toda essa história já fez 10 anos entre namoro e casamento! e eles estão super bem! então vc pode se dar bem sim! tenha confiança!
2. Não, vcs não vão ficar desconhecidos. tudo é questão de manterem o sentimento de amor como meu irmão e minha cunhada fizeram!
3. Se ele estiver afim de vc mesmo! vai te ligar! agora falo por mim mesma! quantas vezes falei com meu namorado dormindo no telefone! é normal! sei que é chato, mas vc tem que aprender a conviver com essa rotina! é estressante mas vc da conta!
4. e quanto a mudar sua vida pela dele! putz! complicado! mas vc tem a opção de ser professora, pelo menos terá emprego com mais facilidade! ficar parada pode te deixar depressiva! tenho amigas que depois de exercerem por muito tempo a profissão de "mulher de militar" entraram em depressão e depois correram atrás do prejuízo. Hoje são vendedoras autônomas - podem vender para onde se mudarem ou professoras! essa é a parte mais difícil, a sua carreira não será totalmente desenvolvida, pois de dois em dois anos seu amor será transferido, disso vc terá que ter consciência! vc vai ter mesmo que rever a sua carreira e saber abdicar sempre! espero não ser mal interpretada! mas é a realidade mesmo! mas por amor cara, a gente faz as maiores loucuras! eu estive a ponto de me mandar pro amazonas por um amor! então aposte no seu amor! felicidade sempre!” (Bruxinha Nany)
_“Acho que essas perguntas são as mesmas de todas nos no começo de namoro...eu tenho pouco tempo de namoro, apenas 10 meses e to começando a achar as respostas...
1-segundo o dicionário namoro é
Namoro-1.ato de namorar.2. Relação de interesse amoroso recíproco.
Não tem nada que me diga que namoro é estar 24 horas ao lado do seu amado!!!Namoro é você querer aquela pessoa, é abrir mão do individual e querer compartilhar seus momentos...Ah claro,tudo isso com muito beijo na boca! ;)
2- eu tinha esse medo...e ainda tenho...medo de não conhecer o meu menino ou dele não me conhecer...mas isso não é uma coisa de namoros a distancia, você pode namorar um cara que mora na sua frente e não conhecê-lo o bastante...mas uma coisa que minha irmã sempre me fala " a convivência é uma merda" , você só conhece a pessoa quando você vive com ela, porque uma hora ela acaba mostrando quem é!Eu conheci melhor meu amor quando ele passou a ficar mais aqui em casa, descobri coisas horríveis dele e ele de mim, como por exemplo que nos dois adoramos arrotar!!kkkk Que vergonha!!!
3-Não é um telefonema que vai me mostrar se ele gosta de mim, mas o dia a dia e suas atitudes!
4- Não posso responder isso com tanta certeza,mas eu acho que quando você aceita essa situação , você sabe quais as regras do jogo, mas esse jogo so funciona se ambos cederem, não daria certo eu abrir mão de todos os meus sonhos para estar ao lado dele,não seria prazeroso, mas quando os dois estão juntos no jogo os sonhos podem serem realizados juntos!
Espero que as minhas respostas tenham te ajudado!!” (Pandora)

É, pelo visto a definição do dicionário não me dizia que eu não estava vivendo um namoro irreal, já que eu necessariamente não preciso estar com ele 24 horas, mesmo que no fundo eu quisesse, claro. Decidi que tentaria pegar um cinema com a Débi. Ah! Mas talvez não daria, ela provavelmente sairia com o seu namorado e eu não ficaria de vela. Nossa, como é difícil! Porque não apenas ele é punido, eu também! E ainda mais essa agora, a cada vez que eu perdesse um fim de semana com Caio estaria perdendo mais um, pois ele teria que antes ir ver seus pais! Que droga! Hunf!

Minha mãe bateu na porta do quarto e me perguntou se Caio ia querer batata-frita para a janta, porque ela podia ir ao supermercado comprar batata pronta cortada para fritar. Ela achava desnecessário, porque já tinha batata cozida na carne ensopada.

_Mãe, ele não vem mais, não se preocupe com isso._ interrompi-a.
_Não?_ o olhar de pena da minha mãe sobre mim foi algo que eu gostaria que ao menos o destino me descontasse. Me doía muito ver os outros me achando exageradamente um pobre e infeliz ser humano.
_Ele ficou punido. Acabou de ligar. Mas não tem problema não. Estou ótima. Depois no próximo fim de semana ele vem. _ garanti, com um falso sorriso feliz no rosto, só para ela não se aproximar mais e começar a me beijar e abraçar. Pois este “efeito mãe” é demolidor e eu acabaria cedendo e chorando. Precisava também acreditar na minha própria falsa felicidade para que ela fosse tão verdadeira que acabasse virando real.
Se minha mãe imaginasse que o próximo que eu me referia era “o meu próximo”, o que não significava necessariamente o próximo do calendário. E esse tal próximo poderia ser adiado e adiado, serviço após serviço, punição após punição.
Ela me olhou longamente e depois saiu.
Respirei fundo. Conseguira.
A partir dali eu fui aprendendo a guardar o que eu sentia para mim ou apenas para conversar com as pessoas que sabiam o que era um namoro militar. Para os outros eu acho que é melhor esconder. Desse modo, me preservo mais.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

27 de jun de 2007

Cap 40:Uma estranha no ninho

Após o tratamento de choque do trote, conheci algumas outras calouras mais a fundo. Nós aproveitamos muito a primeira semana de aula, em que poucos professores compareceram para dar uma volta em um shopping perto do campus. Estávamos reunidas em uma lanchonete comendo um hambúrguer, quando decidimos fazer um leve “jogo da verdade” para animar e trocarmos informações.
Em lugar do chinelo para girar no chão, usamos uma caneta mesmo. As revelações não eram tão absurdas assim. Descobrimos que uma das garotas, chamada Tânia, uma morena baixinha, já tinha uma filha e trabalhava como garçonete em uma boate. Outra, a Verônica, nunca trabalhara e sonhava em terminar a faculdade de letras, que tentaria conciliar concomitantemente com a nossa faculdade de comunicação. E finalmente eu fui escolhida pela Paula para mudar o foco do assunto:
_Vamos falar agora do coração. Isabela, você está amando? _ fez uma voz muito dramática, depois de demorar em formar alguma pergunta.
_Sim.
_Hummm... Ãnh..._ o grupo sugeriu um suspense e todas rimos.
_Bom, eu conheci o meu namorado já no colégio e agora ele está longe. Mas nos amamos muito sim.
_Longe? _ Verônica franziu a testa.
_É. Ele mora em São Paulo com os pais, se mudou recentemente, o pai dele foi transferido para lá por causa do trabalho.
_Nossa! Que horrível! E vocês vão continuar juntos?_ foi a vez da Paula perguntar, também curiosa, deixando de lá a brincadeira por uns instantes.
Eu me sentia um bichinho exótico sendo catalogado para estudos.
_No que depender de mim vamos ficar grudados. Ele estuda em Resende, fica perto de Penedo. Não sei se já foram... Então, ai nos vemos nos fins de semana.
_Ah! Cara, não dá para mim! Eu tenho que ver meu namorado todo dia. Esse tipo de namoro não serve para mim mesmo, é muito pouco. Imagina! Eu toda carente tendo que esperar até o fim de semana, não conseguiria jamais. Por isso que não topo essas coisas. _Tânia tomou as dores para si. _Mas vamos continuar a brincadeira. _ girou a caneta.
O meu cérebro ficou dando voltas como aquele objeto rodopiando na mesa. Pedaços da frase se repetiam alternadamente em minha memória:
“Não dá para mim!”
“Eu tenho que ver meu namorado todo dia.”
“Esse tipo de namoro não serve para mim mesmo, é muito pouco.”
“Imagina! Eu toda carente tendo que esperar até o fim de semana, não conseguiria jamais.”
Eu me arrependi de ter sido tão profunda na resposta. Sentia-me agora uma idiota, fraca, que aceita qualquer coisa em troca de sofrimento. Porém, eu sabia que o Caio era minha preciosidade e por ele valia todo sacrifício. Elas não sabiam, e será que eu deveria impor minha opinião? Temi ser grosseira logo de início. Seria pedir demais fazer com que os outros compreendesse o que eu passava.
Era uma verdadeira sensação de falta de segurança. Aos poucos eu moldaria meu modo de agir e reagir, de enfrentar, de argumentar. Como um bicho frágil que ganha a carapaça com o tempo, eu amadureceria. Pensei no meu Caio, e ele? Estaria em transformação lá dentro também?
Mal podia esperar para vê-lo amanhã. Só de pensar, fico toda feliz e ansiosa!

Autora: Li



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26 de jun de 2007

Cap 39: Um dia daqueles

Liguei para uma amiga que ia de van comigo para escola a fim de lhe perguntar como era a faculdade. Eu não queria ser deslocada, nem pagar mico. Ela me explicou que no primeiro período as matérias formariam uma grade pronta e eu não teria muita alternativa, apenas seria possível trancar alguma. Depois do terceiro período, eu poderia escolher as habilitações da área de comunicação, como jornalismo, publicidade, rádio e tv, produção editorial e teatro. Ela me aconselhou a não ir com uma roupa nova no trote, pois depois eu teria que jogá-la fora.

Recordei-me dos alunos calouros pedindo dinheiro na frente do metrô de Copacabana e não achei que seria algo demais, afinal, uma sigla na testa e na bochecha, além de umas manchas no braço não me matariam. Escolhi uma calça relativamente “boa”, nem nova, nem acabada, um tênis mais para novo e uma blusa de manga um pouco comprida. Senti um frio enorme na barriga, quando entrei na universidade. O prédio era de estilo colonial, com chão de tábua corrida, teto muito alto, praticamente da altura de dois andares do meu apartamento, azulejos portugueses nas paredes do corredor e janelas de madeiras muito compridas e pesadas. Lindos jardins por toda parte, com chafarizes, árvores, pássaros. Belíssimo e aconchegante. Tão diferente daquela minúscula escola cheia de regras, moral e ordens.

_Você é caloura? _ uma garota me encarou no corredor. _Já para aquela sala. _apontou.

Eu ri, sem jeito e segui suas ordens. Lembrei-me da explicação de minha amiga de que eu tinha passado para a segunda carreira mais competitiva, só perdendo para medicina por cinco pontos, com uma quantidade de vinte oito candidatos disputando cada vaga. Em conseqüência disso, o meu batismo seria tão inesquecível quanto minha vitória.

Assim que entrei, vi que a sala estava lotada de pessoas. Escolhi um lugar ao fundo e me escondi abraçada a minha bolsa-mochila.

_Silêncio!_ três rapazes bateram com força na mesa e berraram. Todos se calaram. _Vou fazer a chamada! _ anunciou e começou a perguntar nome por nome.

No final, ouvimos o barulho de muitos murros do lado de fora da porta e pessoas gritando. Era o início da pressão psicológica. Fiquei apreensiva. Duas meninas ao meu lado sorriram, também angustiadas.

_Todo mundo tirando o sapato e colocando no fundo._ mandou um dos veteranos baixinho e marrento. _ Meninas, coloquem a bolsa de vocês no outro canto também que vamos trancar a sala._ explicou.

Tirei meu tênis e fiquei descalça. Dobrei a barra da minha calça jeans até alcançar o joelho.

_Agora, todo mundo aqui na frente fazendo uma fila de “elefantinho”, é isso aí, abaixa e enfia a mão por debaixo da perna, dá para sua amiga de trás, isso! Agora a outra mão dá para a da frente. Isso mesmo. Vamos lá pessoal, é para hoje!_ gritou.

Assim fizemos e de repente alguém puxou com força o primeiro da fila e andamos rapidinho, até chegar no corredor. Quando vi, havia um corredor polonês com veteranos e veteranas cheios de potões de guache de todas as cores. Antes que eu soltasse a minha mão, uma delas esfregou tinta azul na minha cara. A fila andava mais rápido e eu só sentia aquela coisa gelatinosa se espalhando por toda parte. Limpei o olho na manga da blusa, quando chegamos em um pátio. Ali fomos obrigados a sentar no chão em círculo e ficar bem quietos.

Os veteranos colocaram água gelada e um pouco de tinta guache em garrafinhas com furinhos na tampa. De repente, senti um jato de água entrar pela gola da minha camisa nas costas e dei um gritinho.

_Tá maluco?!_ reclamei.
_Caloura rebelde!_ um garoto bateu palmas e quatro meninas se aproximaram de mim e me mandaram sentar.
Elas derramaram guache amarelo e azul e fizeram uma massagem capilar em todo o meu cabelo, esfregando bem na raiz. Quando me dei conta, vi que todas as calouras estavam recebendo o mesmo tratamento, não tinha como escapar.

Depois, passaram tinta preta nos braços, pernas, pescoço, rosto, orelha, dentro da orelha, pés, entre os dedos dos pés, unhas. E? Purpurina em cima para “empanar”.

_Agora gata, molha a mão na tinta e aperta vai! _ o veterano pediu com uma voz laciva.

Eu franzi a testa, mas não perdi a esportiva, apertei meus seios e minha bunda para ficar a marca das mãos por cima da blusa e do jeans.

Os meninos sem camisa, além da tinta, foram enrolados com papel higiênico.

_Bom, pessoal! Agora nós vamos dançar, ok? _ o veterano anunciou e escolheu algumas garotas para subirem em cima do chafariz e dançar ao som das palmas. Eu me neguei a ir e eles não forçaram.

Pronto, pensei, é só lavar o rosto com o sabonete que eu trouxe e voltar para casa!

_Agora o nosso trote vai começar. _ um deles explicou.

O nosso trote vai começar?, como assim, aquilo fora só um ensaio?

_Vocês vão ser divididos em grupos de cinco. Cada pessoa tem até o anoitecer para arrecadar 100 reais para a nossa chopada, quem não conseguir vai perder a bocada. E olha só, nem adianta querer as bolsas e mochilas, porque estão trancadas. Ah! Todo mundo descalço mesmo, antes que alguma patricinha pergunte.

Caminhamos pela rua de trás da faculdade e já em bandos de cinco, ouvimos nosso líder:

_Todo mundo comigo, repetindo o que eu digo e fazendo pó-de-chinelo! _ bateu palmas. _ 1, 2, 3, nesse trote é minha vez. 4, 3, 2, 1, a pública não é para qualquer um.

Assim fomos gritando e pulando por uns quatro quarteirões. Andamos cerca de seis quilômetros por ruas, praças, avenidas, calçadão da orla da praia, tudo descalços. Consegui arrecadar 45 reais. Ouvi coisas inconvenientes de homens perguntando quanto era o meu programa, quanto eu cobrava para chupar isso e aquilo... Deprimente. Depois, mendiguei moedas na saída do metrô e no fim nenhum ônibus parou para mim. Foi preciso retornar a pé, arrasada, acabada, morta de cansaço para a faculdade.

Peguei minha bolsa, dei o dinheiro na mão deles e não pensei mais em nada além de lavar meu rosto, jogar a blusa no lixo e vestir aquela que eu havia trazido. No telefone, quinze ligações da minha mãe. Lembrei-me que não ligara para ela dizendo que tinha chegado bem e acertado o ônibus. Meu pai brigou comigo, perguntou se eu queria matá-la do coração.

Mais duas horas de trânsito e eu cheguei em casa um caco. Minha mãe lavou minha cabeça com um vidro de xampu no tanque da área de serviço e eu me esfreguei com uma bucha nova de lavar louça. Estava tão cansada que não podia me mexer.

Liguei para o celular do Caio, só queria ouvir sua voz como compensação para aquele batismo. Contei-lhe que fora meu dia de trote:

_Isso não é nada, tem que ver o que a gente passa aqui tendo mil funções, mil tarefas, isso é que é difícil, isso que é responsabilidade, isso é que é sanhaço, tá!

_Ok, boa noite. _ desliguei e fechei os olhos.

Eu aprenderia com o tempo que Caio sempre acharia que seus sofrimentos e suas provações eram as únicas e as piores do mundo. Ele não conseguia enxergar que aqui fora também havia vida pensante. Eu precisava dormir, meu cérebro não tolerava mais qualquer análise.


Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

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25 de jun de 2007

Cap 38: Eu era um coração pulsando

Caio que lia o jornal me perguntou: "Você viu isso aqui?"
_O quê?_ perguntei por educação, sem muita vontade de saber.
_Uma empregada doméstica estava ontem, às 5 da manhã, esperando um ônibus, quando quatro mauricinhos da Barra da Tijuca riquinhos desceram do carro e espancaram a mulher. _Caio mostrou a foto e eu fiquei horrorizada com o rosto deformado da senhora, todo roxo e inchado.
_Nossa, eles são ricos, para que roubar a bolsa dela? Para que espancar uma mulher por diversão?
_Ah! Um deles falou que era porque acharam que ela era prostituta.
_E daí? Se fosse? _perguntei, retoricamente._Em que mundo nós estamos?! O que esses playboyzinhos pensam que são?
_Eu achei interessante o que o pai da empregada falou, na simplicidade dele. Ele disse que é muito preocupante os pais estarem enchendo os filhos de dinheiro, mas não dando nenhuma educação e disciplina a eles. Que dinheiro não é tudo.
_Agora imagina a vergonha para os pais verem seus filhos com os rostos estampados em todos os jornais? Tomara que sejam presos. Mas sendo ricos, já viu né?
_Podem pegar até 15 anos de prisão._ Caio comentou, olhando para o jornal. _ Viu também o casal de tenentes que foram feridos ao passarem por uma blitz? Metralharam todo o carro. A mulher morreu, o marido ficou muito ferido e o sogro saiu do carro com as mãos para o alto implorando para pararem de atirar.
_Ai, amor, se cuida. _ de repente, senti um medo de perder o Caio. Sentei na cama e o abracei com força. _ Eu não quero ficar sem você nunca! Eu suporto qualquer distância que tenha um tempo para acabar, mas não suporto uma distância eterna. _beijei-o.
_Não vai acontecer nada, Bela. _ ele riu para tentar me descontrair.
Meu telefone começou a tocar. Levantei para atender. Era uma amiga professora de matemática, avisando que daria aula às cinco horas para o Betinho.
_Está tudo bem?_ me perguntou.
_Está, só estou ainda com muita raiva da Telemar, mas não vou falar disso. Você que não me parece bem com essa voz.
_Eu estou muito chateada. Vão me mandar embora da escola.
_Por quê?
_Porque o coordenador disse que pagou, passou. Que eu não posso reprovar, que eu tenho que passar trabalhinhos. Exigiu que eu berrasse. Mas dar aula para quatro turmas de 50 alunos no mesmo dia é muito desgastante. Ai, hoje eu também mandei bilhetinho para todas as mães que os alunos não tinham feito dever de casa e ele não liberou o carimbo, disse que eu estou errada, que eu tenho que aprender a dar aula para a parede. Eu não agüento mais, que país é esse?
_É o caos. _ respondi._ É um provedor de internet que vende um serviço que não funciona, são policiais que atiram em dois tenentes, é uma empregada doméstica espancada por riquinhos da zona sul... E você tem que dar aula para a parede?
_Pior! Eu perguntei o que ele achava do filho dele estudar lá e eu dar aula para a parede. Ele falou que esse não era um problema meu.
_É? Que absurdo!
_Que absurdo mesmo. E que cidadãos são esses que vão se formar?_ reclamou.
_Eu não sei. O filho dele vai passar até a oitava, porque pagou, passou. Depois ele vai fazer uma faculdade e dar aula no colégio do pai, porque lá ele também vai dar aula para a parede.E o mundo vai girando nessa bola de neve._ conclui.
_Eu estou frustrada. Acabada. Eu já decidi, não vou terminar a faculdade, vou largar. Eu gosto de música, vou tentar vestibular de música. Não posso acabar com a minha saúde.
_Ai, miga, nem sei o que te dizer. Lamento. Mas então tá, vou avisar para o meu irmão sim.
Desligamos.
_Vocês também estão se estressando demais, Bela, relaxa._ Caio estava fazendo o jogo dos sete erros no jornal com a minha lapiseira rosa choque.
Olhei para ele e pensei que era melhor não insistir, nem brigar. Caio não entendia. Ele viveria 4 anos da vida dele trancado em um lugar seguro. O mundo aqui fora continuaria girando e ele pararia no tempo. Ganhar conhecimentos técnicos de armas e táticas de guerra não o amadureceria em relação a sobrevivência aqui fora. Lá dentro era outra coisa, um outro Microcosmos.
Voltei para o meu problema com o provedor de internet.
Peguei o telefone e cheguei ao estágio Operador 2 e descobri que agora tinha uma nova: o operador 3, chamado de “Suporte Avançado”. Então, quer dizer, que sempre existiu o operador 3, e os clientes só eram informados disso depois de terem ligado umas cinco ou sei vezes?
Eu já não tinha uma gota de paciência e depois de repetir todos os comandos solicitados e ouvir a conclusão de que o problema era do meu computador, eu explodi:
_Eu pago por um serviço que não funciona, por uma porcaria de assistência e vocês...
Um bom tempo depois o operador me informou finalmente que enviariam um técnico, mas que eu pagaria uma taxa simbólica de 29 reais, porque a “Oi só cobra essa taxinha”.
_O quê? _ falei mais uns minutos de reclamação, menti que estava gravando tudo e que os colocaria no Procon.
Anotei o número do protocolo que o técnico me pediria, quando chegasse a minha casa e desliguei. Eu estava com o rosto quente e o coração disparado.
_Bela, você vai esperar, nós temos um churrasco hoje, esqueceu?
_Não, claro... Meu irmão vai receber o cara. Eu vou falar com ele que a professora vem as cinco e explicar tudo para ele, dar esses números aqui... _ Fui até o quarto do Betinho e lhe passei todas as instruções.
Eu estava tão estressada, que não queria nem um pouco aturar churrasco de quartel. Mas por amor, eu faria qualquer coisa. Tomei um banho e me arrumei.
_Nossa, como você está linda. _ Caiu disse, já com o controle remoto do Playstation na mão, jogando Devil May Cry 3, sabe-se lá o que era isso, mas que estava escrito na capa do CD em cima do braço do sofá.
Lembrei-me da vez que ele viera me levar a uma festa e nós nem éramos namorados. Agora ele ali, me admirando e eu tão apaixonada por ele.
_Amorzinho, larga isso aí e vem comigo?!_ puxei-o pela mão.
_Ah, Bela, só mais um pouquinho?! _Betinho implorou.
_O Caio vem depois..._ argumentei.
Caio olhou-me. Ele hoje iria embora para São Paulo. Quando voltaria? Não podia dar essa garantia ao meu irmão.
_Caio, nós queremos falar com você. _ minha mãe veio da cozinha. O “nós” provavelmente deveria ser alguma mensagem que ela anunciaria como porta-voz do meu pai.
_Claro. _ele levantou-se.
_A Bela me disse que sua família vai para São Paulo.
_Você vai se mudar? _Betinho fez uma cara de tristeza.
_Vou, rapaz..._ Caio sorriu, mas triste também. _É... _ ele olhou para minha mãe. _Meu pai também é militar, como a senhora sabe. Então, ele já acabou o tempo de ficar aqui no Rio. Minha mãe quis escolher se mudar para São Paulo.
_E como vão ficar as coisas?_ minha mãe perguntou.
_Bom, eu vou continuar estudando na AMAN, em Resende, é meu primeiro ano lá agora. E nos fins de semana eu vou para casa. São umas três horas de viagem.
_E eu? _ perguntei, abraçando seu braço.
_Bom, eu posso pedir para dormir na casa de uns amigos aqui no Rio.
_Caio, eu sei que minha filha está muito feliz contigo. E já que vocês querem realmente ficar junto, nós não queremos também atrapalhar, né?
_Obrigado.
_Então... Toda vez que você quiser, pode ficar aqui com a gente. Vou arrumar um colchão para colocar lá no quarto do Betinho.
_Eeeeh! _meu irmão pulou do sofá e abraçou o Caio.
_Pronto! Perdi o namorado pro Playstation! _ri, com os olhos cheios de lágrimas. Aquele era o maior milagre. Meus pais acolhendo o Caio aqui em casa totalmente. Eu sabia que tinha a mão divina que nunca me desampara.
_Viu que bom, meu amor? _Caio me abraçou sorrindo, muito feliz.
_Que ótimo! _ concordei radiante.
De repente, aquele mundo de caos não era tão ruim assim. Havia muitos bons motivos para alegrar. Não era perfeito o fato de Caio ir morar em São Paulo por causa da transferência do pai militar. Mas eu só tinha a agradecer por ele poder vir para cá, mesmo enfrentando duas horas de viagem até o Rio de Janeiro. Nem tudo sai como a gente quer, mas pode mesmo assim ser bom.
Fomos para o churrasco. Chegando lá, a primeira coisa que vi foi um enorme campo de futebol gramado cheio de bolas coloridas, brinquedos e muitas crianças se divertindo. Dois animadores coordenavam as brincadeiras ao microfone, enquanto um aparelho de som tocava músicas infantis em alto e bom som.
Descemos por uma pequena trilha e na frente de uma mata fechada um grupo de música gaúcha vestidos a caráter tocavam seus instrumentos típicos. O cheirinho de churrasco levou meus olhos a encontrarem uns espetos grandes à minha direita, onde a carne farta girava. Nossa, ali havia um boi e vários porcos inteiros.
As mesas já estavam cheias de gente, por quem Caio foi passando e cumprimentando. Sentamos em uma e ficamos de mãos dadas. Ele foi me indicando as pessoas por alguma característica para que eu as identificasse e descreveu suas profissões, postos e habilidades.
_Hum, que legal... _ comentei.
Mas o que me chamou a atenção foi o fato de algumas mulheres tão bonitas nunca terem trabalhado. O que elas fizeram então ao longo de suas vidas? Pensei na minha mãe, tão cansada das massagens e limpezas de pele, sempre andando milhas com sua mala de troços de beleza. Ela não era tão bem conservada, nem poderia ter aquelas unhas de porcelana gigantes. Senti um tanto de pena e ao mesmo tempo muito orgulho da minha mãezinha.
Quatro amigos de Caio se sentaram a mesa. Eram também da Aman. Eles começaram a travar um papo que transcendia a minha linguagem.
_Pô, tem um alfaiate que coloca umas espumas no...
Enquanto eles tagarelavam os “Bizus” que outros veteranos lhes deram, meus olhos percorriam o ambiente. Um grupo de mesas estavam forradas de cores diferentes. Todas em vermelho. Supus que deveriam ser de militares de patentes maiores. Reparei que mais ao fundo. Mas bem ao fundo mesmo, havia no alto de uma pedra, uma churrasqueira grande. Homens vestidos de uniforme faziam os seus churrascos. Eles e suas famílias ficavam em outra parte, muitíssimo mais ao fundo. Deixa eu ficar clara: praticamente tão longe que eles pareciam formigas. Supus que seriam de uma patente mais baixa. Não havia uma mistura. Uns de um lado, outros de outro.Mas isso eu só fui concluindo sozinha, com meus botões.
De repente, senti que estava sendo olhada. Era um rapaz loiro, que não parava de me encarar.
_Que é aquele? _ perguntei bem displicente para Caio.
Era nada menos que o filho do General. Hummm, tá. Mas por que me olhava tanto? Troquei de lugar com Caio e fiquei de costas. Ele não entendeu nada. Nem eu iria explicar.
Quando percebi, estávamos uma hora naquele estado: Caio e os amigos falando de nós de corda, aparelhos de escalar montanha, capacete e etc e eu muda. O que eu tinha para comentar?
Senti uma sensação de ser aquele peixe fora d’água se estrebuchando, como Débi mencionara um dia.
Enfim, nos servimos e eu mexi a minha boca ao menos para comer. Caio não fizera por mal. Ele estava tão empolgado com os amigos que eu estava feliz por ele estar feliz. Feliz também por estar apenas ao seu lado, segurando sua mão.
Seus pais nos anunciaram que estava na hora e voltamos de carro. Quando desci na frente da minha casa, senti um aperto no peito. Caio desceu também.
Nos olhamos com os olhos cheios de lágrimas. Vi embaçadas as coisas na mala do carro através do vidro: porta-retratos, fotos, fardas, coisas de valor sentimental, que disseram não poder colocar no caminhão da mudança porque nenhum seguro pagaria.
_Já sabe, né? Pode vir para cá que a casa é sua. _ eu falei.
_Eu sei sim. _ fez um carinho no meu cabelo. _ Eu vou vir sempre que puder. Pensa só, um casal não se vê todo dia durante a semana, se a gente somar a quantidade de horas grudados no fim de semana e dividir por 7, dá quase ou mais que um namoro normal!
_É. _ ri daquela sua lógica maluca._Eu te amo muito. _ beijei-lhe a boca e o abracei com muita força.
_Eu também te amo demais. _beijou-me e se afastou.
Ainda um adeus e entrou no carro. Meu coração foi sendo deixado para trás aos poucos, enquanto o carro se distanciava. Digo coração, porque ele batia com tanta força que eu era um coração grande e vivo, pulsando no corpo todo.
Tantas perdas e danos, e eu ainda estava ali de pé. Firme, forte.
Limpei as lágrimas dos olhos, apoiei a mão na grade da portaria. Respirei bem fundo.
É hora de se preparar para a frente de batalha.

Autora: Li



*Blog da Bela e da Débi

* Comunidade do livro no orkut!

O livro ganhou o troféu "The Best!" do mês, no site A Gazeta dos Blogueiros!

22 de jun de 2007

Cap 37: Enfim sós

_Bela, eu quis esperar um melhor momento para te dizer... _ Caio parecia desconcertado. Não estava entendendo para quê tanta cerimônia. _Mãe, podemos mudar de assunto? _ Caio pediu.
_Claro! _ o pai de Caio tomou partido.
_Gente, vocês vão me desculpar, mas para que isso? _ a priminha resolver opinar. _ Ela não quer ser uma mulher de militar? Tem que está preparada para isso, é normal...
_Preparada para o quê? _ eu perdi a paciência.
_O Caio vai se mudar para São Paulo, o tio vai ser transferido para lá pertinho de casa. Eu também vou me mudar, é normal, já me acostumei.
Eu senti que o mundo girou por alguns segundos mais de vagar.
_Ah! Era isso? _ eu ri e ninguém riu. _ Puxa, vocês querem me matar do coração?! _ fingi um falso alívio. As pessoas me olhavam abismadas. _ Claro que não tem problema nenhum, não é, amor? _ olhei para Caio, que também parecia bem chocado. _ Nós nos amamos, vamos ficar para sempre juntos, nada, nem ninguém. _ olhei para a tal prima em cheio. _ irá nos separar.
Débi estava de boca aberta e eu poderia ouvir o zumbido de um mosquito que passasse ali.
_Você já sabia, então? _ minha sogra pareceu frustrada.
_Não tínhamos conversado profundamente, mas não é um assunto que vai abalar a harmonia e a força da nossa união. _ sorri.
Aos poucos as pessoas voltaram a comer. Caio ainda ficou me olhando.
_Eu amo aqueles shoppings de São Paulo! _ a tia de Caio começou um papo fútil com minha sogra.
_Nunca pensei que você fosse encarar tão bem... _ Caio comentou e me deu um beijo nos lábios de leve. _... Eu te amo muito, nada vai nos separar, vamos dar um jeito.
_Claro que vamos!_ apertei sua mão.

***

_Bela, eu não sabia que você sabia que... _ Débi fechou a porta do nosso quarto no hotel e foi logo tocando no assunto.
_Eu não sabia! _ desmoronei no sofá e enfiei as mãos no rosto. _ Isso não está acontecendo, é um sonho, eu vou acordar...
_Você pelo menos foi uma ótima atriz.
_Débi, o que queria? Que aquela esmilinguida passasse como a “futura – mulher- perfeita- de – militar” e eu ganhasse o atestado de “fraca”? Não, de jeito nenhum. Minha vontade era de enfiar o garfo com força nos dois olhos dela, um em cada olho.
_Ai, eu estou com medo de você! _ Débi afastou o rosto para trás.
_Pára de bobeira!_ ri. _ Eu não mato nem uma formiga.
_Bela, presta atenção, eu não sou boa para conselhos, afinal, estou no mesmo barco. Mas acho que é como você disse, vocês vão dar um jeito para superar! E agora não é hora de viver o dia de amanhã, curtam esse dia juntos! Eu vou sair com o Ribeiro e você fica aqui, com a suíte só para vocês dois!
_Tá. _ sorri._ Será uma boa. Mas e vocês? A gente pode dividir o tempo...
_Nem é preciso... _ ela olhou para os lados. _ Ele ainda não faz isso.
_Como assim? _ arregalei os olhos.
_É, o meu problema é mais colossal. Eu namoro um cara virgem!
_Quê?_ me assustei. _Não!
_Se fosse esse o problema, é fácil. Afinal, para tudo tem a primeira vez e todas as outras centenas que vem depois. Mas quando ele quer a primeira depois de subir no altar...?
_Ãnh?
_Maninha, curte seu love, porque hoje para mim será só pipoca com guaraná!
_Tá... Mas... e aí?_ franzi a testa.
_Eu não sei. _ ela encolheu os ombros e sorriu, não parecia triste.
Peguei meu celular, suspirei e liguei para Caio. Falei para ele vir até o meu quarto. Pediu alguns minutos e logo estava batendo na porta.
Abri. Ele fechou atrás de si e me olhou. Já de jeans e camisa azul clara.
_Desculpe por ter sido daquela forma, ali na frente de todo o mundo..._ ele enfiou as mãos no bolso e olhou para o chão._ Eu queria ter te contado com calma. Eu sei que eu errei.
Eu cheguei bem perto, passei a mão no seu rosto e ele me abraçou com força:
_Você não vai desistir de mim agora, não é mesmo?_ perguntou.
Eu senti o cheiro de roupa limpa, seu perfume, seu xampu, sua pele, seus braços, podia senti-lo inteiro.
_Claro que não._ respondi._ Mas agora eu não quero mais falar nada._ puxei-o pela mão até o quarto.
_Eu não tenho aqui...
_Eu comprei._ pisquei o olho e ele riu malicioso. _ Eu sou uma mulher muito eficiente. _ puxei sua camisa para cima.
_Você é muitas coisas além de eficiente. _ ele caminhou bem de vagar até a beirada da cama.
_É? _ mordi seu queixo.
_Hum-hum._ beijou-me e caímos sobre a cama.
A saudade era tão grande, que a explosão parecia me arrebatar para outro mundo. Aquela massa de homem toda me abraçando, me cheirando, beijando, amando era melhor que qualquer filme, qualquer conto. Era a união perfeita.
Ficamos toda a tarde nos curtindo com beijos, mordidinhas, carinhos, abraços. O amanhã, o futuro era para depois, além daquela porta. Enquanto isso, eu só queria estar nos braços dele.
_Caio, como você foi namorar aquela ridícula?
_..._ ele riu alto. _ A gente não é perfeito...
_Credo!_ grunhi e fiquei de braços cruzados olhando o teto.
_Hum, que linda, bravinha... Não faz assim que eu fico louco._ beijou meu pescoço.
_Lá vem você. Você acha que consegue tudo com um beijo?
_Tudo não, mas 99% sim.
_Ah! É?!_ ri e o envolvi com meus braços._ Então, vem cá, meu lindo.
_Te amo muito..._ me encheu de beijos.
_Eu também..._sorri.

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21 de jun de 2007

Cap 36: O que todos sabem que eu não sei

_O que está pensando?_ Débi me olhou esperando que eu fizesse um vestido aparecer em sua frente por abiogênese, como uma fada madrinha faria, mas infelizmente eu não era dotada dessas capacidades.
_Você terá que ir com a calça jeans que veio na viagem. Ela está em bom estado.
_Mas, Bela, eu vou sair nas fotos de jeans? Que horror, e lá todos ficarão me olhando, vou me sentir super “out”!
_Não temos mais tempo, precisamos tomar essa decisão agora, ou então não pegaremos um bom lugar para vê-los lá._ apressei-lhe.
_Será o maior mico. _ ela cruzou os braços e balançou a cabeça para os lados.
Eu conhecia muito bem a minha amiga, ela não arredaria o pé dali. Eu não iria perder a chance única de ver meu namorado entrar, nem também a deixaria mofar naquela sala. Fui até o quarto, peguei a minha calça jeans que estava em cima da cama e a blusa que eu viera. Entrei no banheiro e com muito pesar tirei o meu vestido.
Enquanto me via nua no pequeno espelho, lembrei-me do acidente. Meu corpo desfalecido no chão, o sangue, a sala de operação, eu desacordada na maca. Tantas mudanças de estado de espírito, que eu estaria sendo muito pequena em deixar de curtir a vida por causa de um vestido. Ao tirá-lo, eu me despi da vaidade e da tentativa de querer ser melhor. Ali, ao contrário, eu precisava ser a menor para poder ajudar uma pessoa.
_Não, você não precisa fazer isso. _ ela riu de nervoso quando me viu, incrédula.
_Mas você precisa!_ joguei a sua calça jeans em cima de Débi.
_Bela, seu vestido é lindo.
_Débi, o Gustavo me ensinou que as pessoas bonitas não precisam estar bem arrumadas, elas podem vestir qualquer saco de batatas e uma havainas e desfilar, que as pessoas vão olhar para elas, por isso, nós que somos bonitas, estamos na classe das que podemos! Anda logo! _bati palmas.
Finalmente, minha amiga foi até o banheiro e se trancou lá. Eu suspirei de alívio, a metáfora do saco de batata era meu último recurso. Só houve uma pequena mudança de contexto. Não era bem em uma passarela que eu vestiria um saco, mas em uma cerimônia formal.
Retocamos a maquiagem e fomos esperar meus sogros no sofá da recepção. Ali sentamos e Débi me disse que não estava acreditando que eu poderia ter feito aquilo só para lhe dar apoio moral.
_Um dia eu estava muito mal em cima da cama e você foi me visitar na minha casa, lembra? Você me disse que eu não estava sozinha... Eu nunca vou esquecer._ falei-lhe.
_Nossa, assim, eu fico emocionada..._ ela riu, muito sensível também deixou os olhos marejados de lágrimas.
Nos levantamos, quando os pais de Caio se aproximaram. Vi uma garota com eles e mais um casal, que me pareceu pela semelhança seus pais. Meu coração praticamente parou, quando ela retirou os óculos escuros.
_Já conhece minha sobrinha?_ a mãe de Caio me apresentou a ex-namorada do meu atual namorado: sua prima.
_Não._ estendi a mão maquinalmente.
_Vamos?_ o pai de Caio sabia muito bem que aquele era o pior dos encontros e senti em seu olhar que não estava concordando muito com isso. Ao contrário de sua mulher, que era bem possível ter convidado de propósito aquela garota para me provocar.
A dita cuja da “ex” me olhou de baixo em cima e eu me senti uma mendiga de calça jeans. Fiquei tão constrangida, tão péssima, tão mal. Como podem essas convenções sociais nos deixarem tão, mas tão mal?
_Você está muito bonita, Débi. _ o pai de Caio me deu um abraço e aquilo doeu no meu ego, porque ele estava fazendo isso por pena, para eu não me sentir inferior.
_Obrigada._ limitei-me a sorrir.
No carro, Débi me pediu desculpas baixinho e eu não respondi, minha voz não saia.
Após estacionarmos, corremos para achar um lugar próximo ao portão. Meu salto atolou na grama úmida, eu fiquei toda suada, com sede. Uma droga. Mas tudo se amenizou, quando os portões se abriram e vimos os meninos marchando. Tudo tão perfeitinho. Aliiii, vi meu Caio e meu coração disparou de felicidade.
Uma jornalista da Globo de Resende filmou todo o discurso do General e foi tudo tão emocionante que será inesquecível para mim! Valera toda a pena ter feito tanto sacrifício para ver aquele belíssimo desfile. Depois, fomos até o teatro acompanhar uma palestra. E antes de entrar, eu achei o meu Caio na multidão de meninos. Nos abraçamos com força.
_Meu Deus, que saudade._ sorri-lhe e segurei sua mão com força. Contei-lhe rapidamente o motivo da calça jeans e ele pouco ligou. Achou engraçado.
_O importante é você estar aqui. Estou tão feliz.
_Eu também!_concordei.
_Oi, Caio._ ouvi uma voz atrás de mim.
_Oi... _Caio ficou muito surpreso, quando viu sua ex. _Você aqui?
_Não gostou? _ ela abriu os braços.
_Hum, legal. _ ele simplesmente balançou a cabeça e não a beijou, nem abraçou.
A raposa da minha sogra observava tudo da escada, mais na frente.
_Então, ta... _ ela voltou a ficar perto dos pais.
Caio tocou no meu rosto.
_Desculpe te fazer passar por isso, Bela.
_Eu sei que não foi culpa sua. _ dei de ombros.
_Você agora, e sempre foi, né, a mulher que eu amo.
_Que bom ouvir isso._ sorri radiante.
Ficamos ali nos olhando, loucos para nos agarrar de paixão, mas tínhamos que manter a postura e a distância que o lugar e a ocasião pediam.
Após a cerimônia, fomos almoçar em um restaurante muito grande, que servia churrasco e todo tipo de comida a quilo. Não lembro o nome, acho que o nome tinha algo a ver com “celeiro”. Em volta de uma enorme mesa, composta por muitas mesas juntas, começamos a conversar animadamente. Eu nem estava mais tão brava por causa da calça, nem da ex, nem da minha sogra. Só podia estar muito feliz com Caio segurando minha mão com força.
_Bela, o Caio já te contou a novidade? _ouvi a voz da minha sogra do outro lado da mesa.
Todos silenciaram.
_Não, ainda não..._ Caio a cortou, respondendo por mim.
_O quê?_ fiquei curiosa, mas pela cara de todos e principalmente de Caio, eu senti que não era uma noticia animadora._ O que não me contou? _ falei baixinho para que só ele me ouvisse. _ O que todo mundo sabe que eu não sei?

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20 de jun de 2007

Capítulo 35: Chega o dia tão esperado!

Eu estava já no ponto de explodir de saudade, no cúmulo de dormir agarrada ao meu ursinho tamanha carência. Pense agora o que a Débi estava também passando, marinheira de primeira viagem que só! Eis, que chega o dia de viajarmos para Resende.

Eu não conseguira dormir, de tanta ansiedade. Tenho esse problema, quando estou na véspera de um acontecimento importante perco completamente o sono. Melhor, tenho sono, mas não consigo relaxar.

Sentia-me por isso cansada. Quando cheguei à rodoviária, encontrei com Débi, já a minha espera na porta, carregando sua mochila. Como eu, parecia à beira de uma crise de nervos:

_Estou muito ansiosa! _ ela me abraçou.
_Eu também. _ ri e fomos comprar alguma coisa para eu beber.

Pedi um suco de lata, que me custou 3,50! Sim, eu fiquei arrependida de não ter comprado água. Como uma coisa industrializada podia custar tanto?! Bebi com vontade, depois de ter pagado uma fortuna por um suco artificial de maracujá!

Débi já havia comprado no cartão de crédito nossas passagens para o ônibus de sete e quinze. Aproveitei, enquanto pagava o suco- mais-caro- que – já- bebi, para tirar o dinheiro da carteira. Custara 31 reais e 45 centavos, mas eu lhe dei 31, 50 redondo.

_Você comprou o executivo, né? _ perguntei.
_Sim, por isso esse preço. _ explicou-me._ Pelo menos nesse calor, não vamos chegar suadas!
_Claro! Você pensa em tudo.

Sentamos em um banco para esperar e ao nosso lado um homem fumava igual uma chaminé. Olhei para cara de Débi e li na testa dela o letreiro “nós vamos chegar fedendo a fumaça!”. Levantei e fui até uma máquina de saque do banco Bradesco, bem ao lado do portão de embarque e minha amiga veio atrás. Olhamos o grande relógio com a propaganda da Malvin marcando dez para as sete.

_Acho que eu vou ao banheiro, tomei muito suco. _ falei-lhe e procurei uma nota de um real na carteira. Deixei minha mochila no chão para que Débi ficasse olhando e corri para fazer xixi.

Eu já havia tomado com o suco meu comprimido de Plasil para enjôo, pois eu sempre padecia nas viagens que eu fazia, sentindo ânsias durante todo o percurso.

Na fila de embarque, percebi que algumas garotas de vestido e salto alto estavam indo para a mesma cerimônia que nós duas. Deixei o motorista colar um adesivo na minha mochila e entrei no veículo. Procurei nossa poltrona, número 25 e 26. Sentei e abri a cortina para entrar a claridade.

_Será que não vamos nos perder? _ perguntei, com medo.
_Claro que não! A gente vai pegar um táxi e pedir para nos deixar no Hotel Vila Rica, onde estão os seus sogros. Qualquer coisa, ligamos para eles.
_E os pais do Ribeiro?_perguntei.
_Tão lá em Resende também, foram ontem. _ levantou as sobrancelhas.
_Problemas com eles ainda...?
_Não, pelo contrário, eles me tratam bem... Mas sabe quando num relance você sente um olhar de desconfiança, como se eu não fosse a melhor garota para o filho deles?
O motor foi ligado e o ônibus começou a andar.
_Ôh, se sei..._ ri. _Mas o que importa é que nossos namorados gostam da gente. _ arrematei.
_Com certeza!_ ela apertou o botão para a poltrona reclinar.
O que vimos no trajeto? Árvores, vacas, árvores, mais vacas, para variar, cavalo, árvores, cavalos e... vacas... Depois, começamos a medir a distância por alguns outdoors do Graal, que é uma espécie de gigante restaurante-bar em que as pessoas pesam o que se servem e ainda podem comprar uma série de coisas... Nestes outdoors havia a marcação de quantos quilômetros faltavam.

Daqui a pouco li uma placa que informava que a Academia estava próxima. Meu coração pulou e senti um frio na barriga.

_Olha o rio! _ apontei para o nosso lado direito. _ Caio falou que, quando passasse o rio, estaria perto.

_Que bom, porque eu já não vejo a hora de chegar na rodoviária para fazer xixi. _ ela resmungou.

E para felicidade de Débi e sua bexiga, o ônibus estacionou na plataforma 15 da rodoviária. Procuramos um banheiro para nos aliviar e depois fomos até o ponto de táxi ao lado do shopping.

_Sabia que esse Mc Donald desativado foi por causa de um menino que morreu picado de cobra?_ apontei para Débi.

_É?!Como assim? Tem cobras aqui?!

_Não sei como, mas tinha uma cobra na piscina de bolinha, a mãe não percebeu e o bicho picou o garotinho. Uma menina me contou.

_Nossa, que horrível! _ Débi fez uma careta.

_Pois é...

O táxi passou nas margens de um grande rio e logo nos deixou na frente do hotel. Débi e eu avisamos a recepcionista que já tínhamos feito reserva, mas a mulher nos informou que o quarto só seria liberado após o meio dia.

_Não pode ser! Nós temos que nos arrumar para uma cerimônia às nove! _Débi logo desesperou-se.

_Não tem nenhum quarto já disponível? _ perguntei.

_Vou verificar, enquanto isso, preencham essa ficha, já que é a primeira vez que se hospedam aqui.

_Claro. _ peguei o papel, vendo que Débi não estava em condições de escrever nada, super aflita.

_Temos um quarto sim. _ disse a mulher olhando em seu computador. _ Vocês podem usar a sala de computadores e nos quartos tem... _ ela começou a descrever as funcionalidades do hotel e nós escutamos tudo sem interrupções para que logo nos deixasse subir para nosso quarto.

Assim foi. Um rapaz de calça social preta e blusa branca nos acompanhou o elevador e abriu a porta para nós. Mais algumas explicações e pronto! Estávamos em Resende, em nosso quarto!

Havia uma suíte e uma sala com um sofá. Fui até a sacada e abri a porta. Respirei o ar úmido da manhã:

_Então, é aqui que meu amor vai passar 4 anos?_ perguntei para mim mesma, pensando alto.

_A cidade até que é bonitinha. _ Débi concordou.

Liguei para os meus sogros para dizer que eu havia chegado e eles pediram para nos encontrarmos em alguns andares mais acima, onde era servido o café da manhã.

_Eu achava melhor nos arrumarmos antes, porque assim não vamos correr depois. Que acha? _ Débi sugeriu.

_Pode ser... _ dei de ombros.

Vestimos nossos vestidos, passamos uma escova no cabelo e subimos. Cumprimentei os pais de Caio e fui até a mesa me servir. Débi e eu nos acomodamos e antes mesmo de iniciarmos qualquer assunto, aconteceu uma coisa horrível e inesperada!

Uma criança pequena, que corria dos pais, esbarrou no copo de suco de morango, que caiu no colo de Débi. Parece que eu vi a cena em câmera lenta.

_Olha o que você fez?! _ ela levantou-se e pensei que iria bater no garotinho.

_Me desculpe. _ a mãe do menino ficou atordoada.

_Meu vestido novo! Eu vou para uma cerimônia agora! _ Débi começou a chorar. _ E agora?

_Calma amiga! _ segurei-a pelo braço.

Meus sogros que estavam sentados, ali ficaram e senti um ar de reprovação do tipo “chegaram as barraqueiras”.

_Débi, vem comigo, a gente vai dar um jeito. _ puxei-a. O relógio estava contra nós. E ainda mais essa do vestido agora!

_Eu estou arruinada. _ Débi começou a chorar compulsivamente, sentada só de calcinha no sofá, enquanto eu no banheiro tentava lavar o vestido, mas a mancha não saia. A minha idéia era pedir um ferro de passar para o hotel. Mas com aquela rodela amarelada não dava!

_O que vamos fazer? _ perguntei, sentada ao seu lado.
_Pode ir sem mim._ ela limpou o rosto._ Explica para o Ribeiro.
_Não! Esse dia nunca vai voltar atrás para você vivê-lo de novo!
_Mas como você quer que eu vá, assim, de calcinha? _ironizou e riu de nervoso.
_Ia chamar bastante atenção. _ ri também._Só tem um jeito.
_Qual?_ Ela me olhou.

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19 de jun de 2007

Cap 34: Tempo morto

_Posso ajudar?_ a vendedora se aproximou de mim e da Débi no intuito de nos guiar, naquela selva de vestidos. Estávamos a procura de um adequado para a cerimônia de passagem pelos portões dos nossos namorados.
_Pode sim. Queremos um vestido longuete, até o joelho, sem brilho, uma coisa básica, é uma cerimônia de dia... _ expliquei-lhe.
_Entendi. Vamos ver aqui o seu tamanho.
_Eu vou querer um também. _ Débi levantou o dedo.
_Ah! Sim. _ a mulher sorriu e nos levou até a parte onde havia o tipo de vestido que queríamos. _ Fiquem à vontade. Ali estão os provadores, vocês podem me chamar quando quiserem, para fazer os ajustes.
_Tá, obrigada... _ falei, já passando vestido por vestido pela mão.
_Bela, você viu que as meninas comentaram no blog sobre o meu texto?
_Vi sim! Elas são uns amores. Mas até eu fiquei com aquelas dúvidas na cabeça depois que li, acho que todas nós sentimos isso._ confessei.
_É. Que tal esse? _ ela pegou um vestido vermelho e colocou na frente do corpo.
_Posso ser sincera? _ fiz uma careta.
_Ãnh._ riu tímida.
_Está um vermelho puro sangue! Vai acabar virando ponto de referência, como se fosse uma espinha ambulante.
_Nossa, não vou nem morta assim! _ Ela enfiou o vestido no lugar. _Você consegui acabar com a minha vontade de vestir vermelho! E esse preto? _ Débi pegou um de frente única, amarrado no pescoço.
_Hum... Preto não vai esquentar muito não? _ franzi a testa.
_Olha esse aqui para você que tem peito! _ dei-lhe um vestido tomara que caia branco, com um tecido meio amassadinho, com uma faixa amarrada abaixo dos seios.
_Gostei! Mas por que eu que “tenho peito”, me senti A Pamela Anderson! _ ela riu alto.
As vendedoras olharam para nós. Fizemos cara de novo de meninas comportadas.
Eu peguei um vestido creme e outro azul claro. Fomos para os provadores.
_Bela, você acha que a gente está namorando de verdade? _ Débi perguntou do seu provador.
_Como assim, nós?
_Nãão, sua boba! Nós com nossos namorados. _ ela riu.
_Por quê? Acho.
_Sei lá, se namoro é isso que todo mundo faz, a gente está fora dos padrões, certo?
_Onde você quer chegar? _ minha voz saiu abafada, por eu estar enfiando a cabeça na gola do vestido.
_É que a gente vai passar quatro anos vivendo tudo o que ninguém vive, me sinto um peixe se estrebuchando fora d’água. _ ela comentou.
_Essa sensação diminui com o tempo.
_Tomara. Eu não posso ligar para o meu namorado. Ele vive nervosinho. Eu não tenho ninguém para me fazer carinho durante a semana. As pessoas sentem a maior pena da minha atual vida amorosa. É, realmente, eu estou precisando me acostumar logo com isso.
_Você não vai se “acostumar”. Mas vai melhorando. _ disse-lhe, saindo do meu provador.
Nos olhamos.
_Uau! Você ficou linda! _ ela sorriu.
_E você então!
Rimos e entramos para vestir nossas roupas. Quando saímos das cabines e voltamos para loja percebemos que todas as vendedoras estavam olhando para nós. Elas deviam estar ouvindo. Tentaram disfarçar. Fiquei constrangida.
_Já percebeu uma coisa? _perguntei, andando lado a lado com Débi no shopping carregando nossas comprinhas. _Nada acontece de interessante. Nossa vida é feita de diálogos.
_Isso me faz lembrar a Nouvelle Vague. _ ela comentou.
_Que isso? Como diz meu irmão, é de comer?
_É um período do cinema francês. Uma das características destes filmes é o tempo morto. Os personagens passam o filme fazendo coisas inúteis. Conversando e penteando o cabelo. Parece que nada importante ocorre, entende?
_Mas perai! A nossa vida não pode ser assim não!
_Concordo!_ ela disse.
_E o que você sugere que a gente faça para mudar?
_Hum... Deixa eu pensar...


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18 de jun de 2007

Capítulo 33: Nem iogurte, nem tutifruti, orkut!

Trilha sonora da cena (clique aqui)


Débi e eu nos aproximamos ainda mais. Parece impossível, já que somos muito amigas, mas foi incrível como a entrada de Ribeiro em sua vida nos tornou mais cúmplices. Como nossas aulas na faculdade ainda não tinham iniciado, ficávamos longas tardes conversando. Nessa tarde em especial, eu tinha a tarefa de animá-la:
_Oh, Bela, não é possível, você não está preocupada? _Débi enfrentava uma crise de nervos, por causa da falta de contato com seu namorado na semana de adaptação do primeiro ano.
_Estou, mas é que eu já sabia um pouquinho como era tudo isso... e eu sei que vai ficar tudo bem, tenta se tranqüilizar, ficar assim não adianta nada, Débi!
_Mas eu quero ouvir a voz dele, eu quero saber se estão tratando ele bem!_falou alto.
_Débi, escuta, vai ser difícil conseguir telefonar para ele. Não pense que ele não gosta de você, que não está nem aí. O que acontece é que estão indo dormir muito tarde. São muitos exercícios, muitas coisas para aprender rápido...
_Bela, será que estão judiando dele? Massacrando meu amor?!
_Bom, ele deve estar fazendo bastante exercícios... _ eu ri, tentei ao máximo não mostrar para ela que eu também me preocupava. _Olha só, miga, eles lá não estão no meio de uma selva de canibais, tem gente supervisionando, não é uma bagunça total. Há uma certa ordem, regras a cumprir...
_Tomara mesmo... Eu fico com aqueles filmes americanos na cabeça..._ ela me pareceu uma criancinha desamparada. Abracei-a.
_Depois ele vai lembrar de tudo isso e até achar graça de como ficava perdido no início.
_Pode ser... Mas agora eu não to achando nada engraçado!_resmungou.
_Eu também não. _confessei. _Queria muito poder ouvir a voz do meu Caio._ falei._ Eu tinha até uns problemas para resolver com ele.
_O que houve? Vocês não estavam bem quando ele foi para AMAN?
_Sim, claro. Mas é que entrou um perfil fake no meu orkut e fica toda hora mandando scrap queima filme. Não estou suportando mais. Fico naquela neurose de apagar a tempo...
_Que droga! Será a “ex” dele?
_Eu também acho. Mas eu pedi um conselho para as meninas do meu blog e elas falaram algumas coisas muito certas. A Menina Volúvel me aconselhou a comentar pro Caio que eu ando recebendo uns scraps de perfis falsos, mas ela não acha que devo falar que estou desconfiada da ex dele, porque pode ser que ele fique chateado e ache que estou perseguindo ela. E tem mais! A Fefe Floft me disse que é bem melhor contar do que outra pessoa chegar e comentar com ele e ele ficar chateado por eu não ter contado. A Lucy é que está certa: somos um casal agora e devemos ser cúmplices e confiar um no outro. Portanto, qualquer coisa que aconteça comigo o Caio precisa saber exatamente para não haver surpresas.
_Elas têm razão. _Débi concordou._ Eu se fosse você, faria um orkut falso. Pega todos os e-mails das pessoas que são seus amigos, copia e manda um e-mail em massa dizendo seu novo orkut. Assim, quem quiser, te adiciona de novo. Vai levar menos tempo que você mandar um scrap para cada um. Pena que vai perder os depoimentos.
_Que droga! Essa é a parte ruim, eu não gosto disso de ter que ficar fazendo modificação no meu modo de vida por causa do Caio. Mas não vai ter jeito. Esse foi um conselho que a Bruxinha Nany, uma menina também do blog, meu deu. Ela já teve orkut 3 vezes e agora ta com um orkut falso porque ficou de saco cheio de gente fuçando orkut e ferrando a vida dela.
_E você queria falar tudo isso para o Caio? Como, se eles tão lá incomunicáveis? Quando você contar, vai ser igual matéria de jornal, já vai ter caducado.
_Pois é!_ concordei.
_Olha, faz o seguinte. Acaba com isso logo, antes que dê mais problemas. Ai, quando no futuro, tiver tempo de falar com o Caio, você fala. E se esse assunto tiver morto nem fala mais nisso. Agora se ele perguntar porque você mudou, ai você conta tudo, mas de maneira assim sem interesse, como se não tivesse mais importância.
_Vou fazer isso._achei boa a idéia.
_E vem cá? Gostei dos conselhos das suas amigas. Ainda está de pé a idéia de nós duas dividirmos o blog?
_Claro! Eu já até falei isso para as meninas no post de ontem.
_Ai, que bom. Eu vou escrever um texto e te mandar.
_Ok. Mas fica tranqüila, daqui a pouco a gente vai estar lá na entrada deles. Já pensou no vestido?
_Vestido?
_Como assim, Débi! Temos que comprar um longuete bem legal para a cerimônia de entrada.
_Entrada para onde? Eles já não estão lá?
_Nãooo. _ eu ri._ É que você vai ver, há uma carga enorme de simbolismo em tudo que eles fazem. Vai ter uma cerimônia de passagem pelos portões. E nós vamos!
_Jura? Nossa, estou completamente por fora!
Nós rimos juntas. Eu também estava por fora de muita coisa, mas nós tínhamos tempo para aprender.


Nota1:Blog Novo da Bela

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16 de jun de 2007

Cap 32: Amor de mãe

Trilha sonora da cena (clique aqui)


_Senhora Solange?_ eu ainda estava surpresa com a visita, desde que o porteiro avisara quem estaria subindo. Não entendia o que a mãe de Débi estaria querendo comigo naquele horário, que deveria estar trabalhando. _Pode entrar, por favor... _ fiz sinal para que se sentisse à vontade e sentasse.
_Você está sozinha? Estou te incomodando?
_Não! Que isso... Estava na Internet mesmo e meus pais sairam.
_Ah! Sim..._ ela ficou apertando sua bolsa entre os dedos e me olhando, receosa de falar.
_Aconteceu alguma coisa com a Débi?_ franzi a testa, aquilo estava me assustando.
_É sobre ela que vim falar... Mais precisamente sobre ela e esse novo namorado dela.
“Esse novo namorado dela”, essa não (!), será que ela não gostara do rapaz?
_Por quê? Em que posso ajudar?
_Sabe, querida, meu marido e eu estamos muito preocupados! A Débi está muito diferente..._ Solange ajeitou uns cachos de cabelo que lhe caia nos olhos e suas pulseiras titilaram._ Você conhece bem a minha filha, ela adora sair, ir para festas, boates. Mas agora ela deu para ficar em casa! Eu não quero vê-la perder sua juventude enfurnada no quarto no orkut o dia todo e se entupindo de biscoito.
_Sei como é... _ sorri, mas procurei não interromper, senti que ela precisava desabafar.
_Nós até conhecemos o rapaz, ela é muito bonito, educado, mas ela podia ter escolhido alguém a altura dela. Um homem de verdade, não um... Moleque!
_Quando a senhora conheceu o seu marido, a senhor o escolheu? Olhou para ele e pensou: quero esse porque é funcional, rico, limpo e moral?
_Não...
_Não, né? Porque não foi você que o escolheu, mas o seu coração e o coração tem razões que a própria razão desconhece._ falei-lhe.
_Ah! Minha filha, vocês duas são tão jovens, ingênuas, têm tanto o que aprender com a vida e não queria que minha menina sofresse com cabeçadas que eu dei.
_Tenho certeza que sua mãe também não queria, na sua época. Mas ela precisou permitir que você sofresse por sim mesma para aprender a criar sozinha as suas defesas e assim se tornasse a mulher que é hoje, pronta para suportar os problemas da vida, uma vez que já teve a sua época de “criar os anti-corpos”.
_Eu estou vindo aqui, Bela, porque eu queria pelo menos que conversasse com a minha filha, saísse mais com ela, já que eu não tenho como impedir esse namoro, ao menos eu quero que ela suporte tudo isso com o apoio de alguém... Porque eu não quero que ela termine como...
_Como eu?_ conclui a frase para ela.
_... Não se magoe com isso. Mas vi toda a dificuldade que sua mãe passou.
_Dona Solange..._ falei com voz paciente e com piedade daquela mulher perdida em tantas dúvidas._ ... Os dedos das nossas mãos não são iguais. _ lembrei da frase da avó de Caio._ A sua filha tem com ela os próprios limites de resistência e a relação dela com o Ribeiro serão muito típica deles, cada casal tem os seus problemas. Nem todo mundo sofre assim como a senhora está pensando por namorar um militar.
_Mas você não acha sofrer ver minha filha ir três, quatro vezes no orelhão para ela poder ligar para ele e voltar frustrada? Lá em casa a gente não deixa ela fazer interurbano exatamente para tentar controlar isso. Mas vou ter que ceder, porque assim ta pior...
_Dona Solange, Dona Solange... _ interrompi-a._ Me ouça... _pedi._ Não será sempre assim, te prometo isso. É que ... Deixa eu explicar. _ tomei fôlego e procurei uma melhor posição. _ Vou te contar um pouquinho a lógica da coisa, para a senhora entrar mais a fundo na questão. No primeiro ano eles começam com uma semana de adaptação, como estão superocupados e cansados, não dá para falar com a gente. É um pouco estressante, mas vai passar, vai ver. E nós namoradas ficamos muito ansiosas, preocupadas, é impossível relaxar por completo.
_Para que isso tudo?
_Dona Solange... _ procurei as palavras. _ Lá é uma escola de líderes e nem todas as pessoas estão preparadas para liderar pelo simples fato de quererem liderar. Algumas privações são importantes para descobrir que é mesmo capaz de superar os próprios limites. Assim, com o tempo, vão se formar os guerreiros. Eu não disse vão se fazer os guerreiros, porque não se faz ninguém, ela nasce. Mas precisa lapidar, instruir. Sua filha não está com um drogado... _ comecei a enumerar. _ ... não está com um vagabundo, não está com um cara sem perspectivas. Ele agora nesse minuto esta lutando pela carreira, por um objetivo, não é isso que a senhora queria para um namorado de sua filha?
_É..._ concordou. _ Mas não queria que por outro lado fosse tão difícil.
_Sempre tem um outro lado. Se a senhora olhar bem vai ver que no namoro da filha de todas as suas amigas também tem um outro lado que talvez as mães escondam para parecer que as suas “filhinhas” fizeram a melhor escolha.
_Nossa... _ ela arregalou os olhos. _Nunca vi esse seu lado tão madura. Uau!_ tomou fôlego.
_Pois é, eu aprendi muito... _ sorri timidamente._ E tenho muiiiito a aprender também e sei que esses quatro anos vão ensinar a mim e a sua filha. Pode deixar, que eu vou falar com ela. Confie em mim.
_Eu irei. Afinal, que escolha eu tenho?_ abri as mãos no ar e encolheu os ombros._ Só queria que não comentasse nada com ela... Você entende que só quero o melhor para a minha, Débi, não é mesmo?
_Sim, claro! Entendo. Minha mãe já fez isso também por mim um dia._ disse-lhe.
Eu tinha agora um compromisso com Dona Solange de não deixar que sua filha trilhasse perdida pelo mesmo caminho que eu de jeito nenhum. Pedi que a minha amiga viesse me visitar e nem precisou muito para ela tocar no assunto do seu namoro. Eu estava sentada no computador e ela no chão do meu quarto escolhendo um Cd de música para ouvir.
_Poxa, eu sou tão tapada. _ comentei. _ Quando fiz meu blog novo, não desabilitei esse recurso aqui que só deixa os usuários cadastrados comentarem. Que burra eu sou. Tadinha das meninas, será que elas tentaram comentar e não conseguiram? Logo vi que tinham poucos comentários... _ fiquei falando com o computador.
_Quem são essas pessoas que você conheceu?_ ela perguntou.
_São namoradas de militares também que moram por todo o Brasil. Elas entram no meu blog e comentam, dividem as experiências delas comigo. Estou até recebendo vários e-mails... Bem legal...
_Hum... Às vezes, dá a sensação de que é só comigo, que só eu estou me sentindo sozinha...
_Não é não, Débi! Já pensou em dividir o blog comigo? A gente podia postar e assim você vai conhecê-las também.
_É? Mas eu não escrevo bem..._ ela comentou.
_Foi o que eu disse antes de criar o meu... Só que não tem essa... Vai ser maneiro.
_Tudo bem, posso tentar... Eu preciso ocupar minha cabeça... _ ela encostou-se na parede. _Não estou me reconhecendo, nunca fiquei assim por nenhum outro cara!
_Ele te fisgou mesmo. _ ri.
_Eu já sou um peixe mais que fisgado, dentro do cesto!_ ela riu também.

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15 de jun de 2007

Cap 31: Perdendo a paciência

Trilha sonora da cena (clique aqui)

Débi e eu precisávamos colocar o papo em dia e nada melhor do que passar na padaria, comprar pão e fazer o lanche da tarde com ela. Dessa vez, em sua casa.
_Quer dizer, que você correu, correu e voltou ao ponto de partida? _ ela se referia a eu ter reatado com Caio, após o acidente. _Como se meio mundo não soubesse que vocês foram feitos um para o outro._ ela revirou os olhos e passou manteiga na sua fatia.
_E somos mesmo! _ eu fiz um olhar perdido. _ Ai! Nós fizemos tanto amor, tirei todo o atraso._ dei uma risada gostosa. _Nossa, menina, pensei até que tinha ficado virgem de novo... _ falei baixinho. _... Até senti uma dorzinha.
_Você virgem? _ela deu uma gargalhada muito alta, ecoando pelos azulejos de sua cozinha. _Pô, assim, você ta me chamando de quê? _ ri também. _ É que fazia muito tempo, né...
_Mas você e o Gustavo... Nada? Como não?!
_Ah! Não rolava... _ fiz uma careta. _Ai! O Caio é maravilhoso... _ suspirei._ Menina! _ dei um gritinho e um tapinha na testa. _Você não sabe a merda que eu fiz!
_Ai, meu Deus!..._ ela virou o rosto para o lado, já assustada, sem eu nem falar.
_Se bem que tipo, eu acho que eu estava no meu direito...
_Ainda aquela estória da garota que viu falando com ele no cinema?_ relembrou o que eu havia contado a ela por telefone.
_Não! Aquilo ali é cachorro magro...Ela era uma daquelas galinhas que ficam ciscando por aí._ desdenhei._ Pior, a “ex”! E você sabe que “ex” é igual a vírus. Não tem como você arrumar uma cura para ele, porque está sempre em mutação, prontinho para te baixar!
_O que ela, ou melhor, você fez contra ela?
_Débi, eu estava abrindo meu orkut e tal... Ai eu tive vontade de olhar o scrapbook do Caio. Não é ciúme, nem vigiar não, eu cuido do que é meu, é diferente. Então, fui lá olhar e o que vejo? Scrap daquela V-A-C-A!
_E o que ela dizia? _ Débi riu, enchendo meu copo com o suco de morango de caixinha, já que eu não era tão fã de café.
_Não era um scrap, eram váááários!
_Mas não era antes de vocês voltarem?_ perguntou.
_Débi, eu vi a data!
_Tá, e daí? O que tinham eles demais?
_Ela estava dizendo para ele “que estava com saudade”. _ fiz uma voz lânguida. _ “que tinha muito boas lembranças”, “que não entendia como ele podia tão rápido ter encontrado alguém”... _ bufei e fiz uma cara de raiva. _ Essa lambisgóia não pensa que ela vai se meter na minha vida e vai tirar lasquinha do meu Caiozinho, né? Porque se esse é o intuito dela, eu vou levar essa vaca pro abate!
_Bela, calma! _Débi tomou a faquinha de pão da minha mão. _Só não entendi que “merda” você fez...?
_Ah!_ recostei-me na cadeira e fiquei com vergonha de dizer. _Eu fui no orkut dela...
_E o que você disse para ela, sua maluca?_ ela ficou de boca aberta.
_Eu disse: “Querida, o meu namorado está muito feliz e bem resolvido, eu sinceramente espero que você respeite isso e encontre alguém para quem mandar scrap”.
_Belinha..._ Débi me olhou com reprovação.
_Ahhhh, Débi!_ esperneei. _Eu não quero aquela éguinha pocotó dando uma de coitadinha pro meu Caio ficar com peso na consciência!
_Tá, ok, mas a merda foi que ele viu ou soube?
_Pior! Porque ele ficou meio chateado por eu ter me metido... Mas agora você vai me entender porque aquela “Vaca Louca” precisa sumir das nossas vidas! Ela ligou para a mãe dele e adivinha?
_Essa não! _Débi bateu com a mão na testa._ Nem me fale... Já estou até vendo...
_Isso mesmo, minha cara amiga, a lambisgóia foi contar para minha sogra que a Belinha aqui é barraqueira, que “magoou os sentimentos dela”... Pronto, agora mesmo que a mãe do Caio deve estar confeccionando aquelas bonequinhas de pano para ficar me alfinetando.
_Mas ela não é...
_É ainda tem isso! Ela não ia fazer bonequinhas, ela vai é pedir para toda a igreja dela se reunir em um estádio de futebol, levantar as mãos para céu e clamar “Céus, faz a Bela virar poeira cósmica e evaporar da vida do meu sagrado filho”.
Débi deu uma risada, achando tudo muito engraçado e desnecessário:
_Ela não pode te detestar tanto assim, é impressão sua.
_Impressão? Você não conhece a cascavel. Quando ela está por perto eu posso até ouvir o guiso..._ cruzei os braços.
_O que importa é que você estão juntos._ ela tentou me fazer olhar pelo lado bom.
_Isso é... Estamos muito bem. Mas daqui a pouco vai começar essa loucura toda... _ fiz uma careta de dor e afoguei meu rosto nos meus braços. Abaixei a cabeça em cima da mesa.
_Eu acho que vou saber como é. _comentou.
_Não vai nada... Você nem sonha o que é ficar longe, enquanto ele está embolhado, entubado naquele lugar..._ minha voz saia abafada por eu estar de cabeça baixa.
_Bom, mas terei que aprender...
_Aprender? _ levantei o rosto e vi que Débi estava com um sorrisinho de quem precisava me contar alguma coisa.
_Eu conheci um militar, isso não é ótimo?
_..._ eu fiquei sem fala e de boca aberta.
_Eu fui te visitar um dia no hospital e encontrei o Caio.
_Ãnh...?
_Ai... ele estava na recepção com um amigo dele, que veio dar um apoio moral. Como só podia entrar uma pessoa por vez no quarto de preferência, ele entrou e eu fiquei na recepção conversando com o tal carinha...
_Que vergonha! Pegando no hospital! _ zoei-a, sem esconder minha surpresa.
_Não, né?! Mas a gente ficou conversando sobre como é difícil alguém se amar assim como vocês. Ai ele me disse: “Eu queria que alguém fizesse tudo isso por mim também.” Ai eu disse o mesmo.
_Caramba! Bendita morte minha hen?! Vocês praticamente fizeram farofa e bobó de camarão e serviram em cima do meu caixão!_ brinquei.
_Bela! Deixa eu contar!
_Tá, desculpe.
_Então... _Débi estava com os olhinhos brilhando. _Ai ele pegou meu telefone, com a desculpa muito esfarrapada de receber notícias...
_Suas, é claro, minhas que não era..._ ri.
_E aí ele me ligou! E ficamos conversando e ele perguntou se eu não queria sair com ele.
_Nossa, que rápido!_comentei.
_E saímos, e ficamos e ele me pediu em namoro. _resumiu.
_Isso é o que eu chamo de rápido!
_Nós também achamos, mas ele disse que na vida dele não tem muito tempo para pensar, que deve aproveitar cada segundo. Eu, então, decidi ir em frente.
_Que ótimo! Nossa, que bom mesmo você estar feliz!_disse.
_Só tem um probleminha...
_Qual?_franzi a testa.
_Ele é mais novo que eu quase dois anos!_contou.
_Aaaaah!Papa anjo!!!_ ri alto.
_Você acha que é tão ruim assim?_semicerrou os olhos.
_Claro que não, sua boba! E no mais, o que ele não souber, você ensina!_sugeri.
_É._ ela riu também._ Que loucura isso, né?
_Loucura ainda vai começar! Já contou para seus pais?
_Não... Estou com medo, sei lá..._ encolheu os ombros e fez uma bolinha de miolo de pão._Só tem uma coisa que me preocupa um pouquinho mais que isso...
_O que, miga?
_Nós não temos a mesma religião.
_Shiiiii, as histórias só mudam de casa mesmo. Caio também passou por isso.
_Ah!Mas eu acho que posso respeitar a religião dele e ele a minha e a gente conviver muito bem.
_Com certeza!_ apoiei-a._Feliz?
_Muito._ ela sorriu.
_Eu também! Tirando a vaca.
Nós rimos.
Débi e eu ainda tinhamos muito o que aprender. Lembrei-me, então, do que a minha amiga virtual me aconselhou no meu novo blog¹:

_"...aproveita cada momento como se fosse o último e não se esqueça de lutar para que as adversidades q apareçam não separe vcs novamente, ok??? Lembre-se que cada momento com ele é especial pq não se sabe o dia de amanhã, então vamos valorizar o q é realmente importante e o q não for, deixa os outros (que tem mais tempo) se preocuparem com coisas pequenas.

Namoro com militar é namoro de grandes coisas, grandes eventos, grandes encontros. É um relacionamento de emoção a cada minuto, não dá pra descansar e se dar ao luxo de perder tempo, entende? Eu tenho entendido isso a cada dia, e quanto mais convivo com meu amor, mais entendo a importância de sempre dizer tchau com um "eu te amo" assinado, e também sempre dizer o qto sou feliz por estar com ele, e não apenas palavras, mas atitudes, sabe? Não basta dizer, temos q fazer, por isso que falamos sempre e agimos ainda mais!"

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13 de jun de 2007

Cap 30: Vitória

_O que aconteceu, mãe?_ atendi o telefone já aflita.
_Adivinha?_ perguntou ela com voz animada.
Revirei os olhos de alívio e cocei a testa. Que bom! Não devia ser nada sério, para ela estar pedindo para eu adivinhar.
_O quê?_ perguntei para mostrar interesse.
_Você está sentada?
_Não, não estou. _ respondi, gesticulando para Caio que também ficara preocupado que não era nada demais. _ Pronto, sentei. _ disse-lhe, de fato sentando no braço do sofá.
_Você passou no vestibular!
_Quê?_ quase dei um grito. _Jura? Jura?! _ perdi a voz e tampei a boca.
_Juro, minha filha! Vimos seu nome no site do jornal na Internet, saiu antes que a edição impressa!
_Meu Deus! _ Eu não sabia se gritava, se chorava, se ria._ Eu passei! Eu passei!
Caio entendeu o que estava acontecendo e veio me abraçar compartilhando da minha felicidade.
_Filha, você está bem aí? _ ainda pude ouvir a voz da minha mãe no fone.
_Estou ótima, mãe, acho até que vou passar mais uns dias para descansar aqui.
_Tudo bem, você merece._ ela concordou.
_Mas logo eu estarei aí para a gente comemorar em família!
_Ah! Sim, vai ser muito bom!_ ela estava muito radiante de felicidade. Um ano com aquele grito engolido na garganta como Copa do Mundo.
Caio foi correndo contar para os pais, para a avó, para todo mundo que eu tinha passado. Eles vieram me parabenizar e eu estava exultante!
Por fim, minha comemoração foi à dois, abraçadinha ao meu Caio. Podia ouvir as pancadas do seu coração com a minha cabeça apoiada em seu peito, no sofá da sala.
_Eu estou tão feliz, amor..._ confessei.
_Eu estou muito muito muito feliz também. _ me abraçou com carinho e me beijou._ Sabe o que a gente pode fazer amanhã?
_Hum.
_Ir até a cidade, dar uma volta, beber alguma coisa.
_Não poderia ser mais perfeito! _ sorri e segurei seu rosto com as minhas mãos.
Era tão mágico ver seu rostinho tão perto do meu, seus olhos, seu nariz, sua boca, cada traço que eu amava com tanta devoção.
_Caio, eu te amo tanto, tanto..._ senti as lágrimas virem aos meus olhos e embargarem minha voz. _ Que eu nem sei como suportei ficar tão longe de você, me senti tão desprotegida...
_Agora está tudo bem, Bela. _ Ele afastou meu cabelo e segurou minha nuca com sua mão._ Estamos juntinhos, não estamos?_ sorriu seu sorriso lindo.
_Estamos!_ não cansei de beijá-lo.
Fizemos como havíamos combinado e na noite do dia seguinte fomos até a cidade dar uma volta. Aproveitamos para comprar entradas para um filme que ainda não tínhamos visto, no pequeno cinema que havia ali.
Era tão bom voltar a rotina de eu comprar a pipoca, enquanto Caio cuidava das entradas.
Peguei o saco, roubando umas pipocas quentinhas e melando a mão de manteiga. Equilibrei na outra mão o copo descartável de Coca-Cola.
Procurei com os olhos por Caio e o encontrei conversando com uma menina. Ela estava de frente e ele de costas para mim. Mas, claro, que eu poderia reconhecê-lo de costas, de lado, de cabeça para baixo, dentro do Maracanã que fosse. Mas quem era aquela “indivídua”? Senti uma farpada bem na minha vaidade.
Pelo seu sorrisinho faceiro, não devia saber que ele tinha uma namorada, ou ao menos que voltara com ela. Nunca imaginei que os passos de distância que nos separavam era suficiente para dar tempo de minha mente cruzar uma enorme gama de possibilidades.
Ele podia muito bem ter ficado com ela na minha ausência em sua vida. Mas perai! Caio não estava namorando? Essa era a namorada? Bom, se era prima, podia morar perto. Mas se era namorada e tinha terminado, então, não estaria tão feliz assim em vê-lo, ou estaria? Bom, pode ser que sim. E se fosse outra, ele traia a namorada? Então, ele me trairia um dia também? Pára tudo! Ora, Caio pode ter ficado com ela antes da “ex” e de voltar comigo. Ouuuhh! Esse avançadinho estava tão galinha assim?
Quando eu cheguei ao lado deles já estava com as palavras na ponta da língua, ia perguntar se ela não tinha medo de ser um “corpo que cai”.
_Oi, amor. Não vai me apresentar sua amiga?_ passei-lhe a pipoca, a Coca e deixei as mãos livres para poder entrelaçar o meu braço no seu.
_Ela não é minha amiga. _ Caio estava muito sem graça.
_Ah! Não? Você é o quê? _ perguntei para ela.
A menina que vestia uma calça jeans e botas fez um ar de desdém e se afastou.
_Que foi? Não tem código de barras, mas tem dona, ta legal? _ falei um pouco alto demais para os níveis de educação daquela pequena população conservadora.
_Não precisa fazer um escândalo. _ Caiu pediu.
_Um escândalo? Que isso, amor!_ sai batendo o pé na frente, mesmo sabendo que eu não podia ficar andando tão rápido. Estava irada de ciúme.
Caio entregou os ingressos para a mulher da bilheteria e seguimos lado a lado sem nada falar. Ele não gostava de brigas e quando eu motivava uma, se trancava dentro de si e escondia a chave.
Aquela menina conseguiu estragar totalmente o clima. Eu sei que tinha sido ciumenta, mas poxa, que que ela tinha que ciscar bem no meu território?!
Caio ligou o carro para voltarmos e não propôs nenhum alongamento da nossa comemoração. Ok! Aquilo não passara de um velório! Não teve nada de exultação ou júbilo pela minha vitória.
_Desculpe. Mas eu também não vou deixar que me faça me sentir culpada, Caio. Você ia gostar de ver eu ficar dando trela para uns carinhas que se aproximassem de mim?
_..._ ele não respondeu, em sua tática de mudo.
_Tudo bem, você não quer desculpar, não quer falar sobre isso, então, a gente não fala! _ abaixei minhas armas e fiz sinal de paz fechando os olhos e fingindo meditar em todo caminho de volta para a fazenda. Não tinha muito o que olhar pela janela mesmo, naquela escuridão no meio do mato.
_Bela..._ ouvi a voz de Caio no meu ouvido.
Abri os olhos, eu havia adormecido. Já tínhamos chegado, o casarão estava bem em nossa frente e o cachorro latia, anunciando nossa chegada.
Ele estendeu os braços e me ajudou a descer, como se pegasse no colo uma bonequinha de pano.
_Eu estava muito cansada..._ falei.
Caio conferiu se as portas do carro estavam trancadas e depois veio em minha direção.
_Vamos entrar..._ me deu a mão.
Só havia sua avó em casa. Seus pais já tinham voltado de viagem. Fomos assim juntinhos até a porta do meu quarto.
_Você está com raiva de mim?
_Não..._ passou a mão na nuca.
Eu percebi que as palavras tinham estragado totalmente a nossa noite. Não precisava mais delas. Olhei-o longamente e o puxei pela mão bem de vagar para dentro do quarto e fechei a porta.
Toquei seu abdômen por cima da camisa e subi lentamente até segurar seu rosto com minhas mãos. Ele me olhou ainda relutante, frio.Trouxe-o para me beijar e ali se deixou perdoar. Senti sua boca no meu pescoço, sua respiração já arfante próxima a minha orelha.
_Você tem que...
_Tá aqui já..._ ele entendeu que eu me referia a camisinha, pelo visto já trazia uma na carteira.
Puxou a blusa para tirar e me levou delicadamente até a cama, onde deitei. Caio me ajudou a me despir do vestido e nos amamos com o cuidado de quem lida com as pétalas para não estragar a fragilidade da natureza, visto que ainda tinha alguns curativos. Por fim, o vi dormir, sereno e pesadamente, com as costas molhadas de suor. Sorri e olhei-o o quanto pude, até o sono vir.
_Amor... _ acordei-o. _ Você tem que ir para o seu quarto.
_Eu sei..._ ele se espreguiçou e sentou.
_Eu te amo... Me desculpa por eu ser assim desajeitada, escandalosa, torta...
_Você é perfeita..._ ele se abaixou e beijou meus lábios.
_Você também é..._sorri e fechei os olhos.
Éramos perfeitos, feitos daquela perfeição incongruentes dos amantes fiéis.

Nota1:Blog da Bela

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12 de jun de 2007

Capítulo 29: Uma criatura muito feliz

Trilha sonora da cena (clique aqui)


Olhei para Caio me pedindo mais uma vez em namoro e pensei que não tinha como agradecer a vida por essa nova oportunidade de ser feliz com a pessoa que realmente me completa.
_Que foi? Desistiu?_ ele perguntou, por eu ter demorado a responder.
Segurei seu rosto com a mão e acariciei sua bochecha com o dedo polegar. Sorri.
_Só se for para vida toda.
_E para além da vida também?_ ele se referiu a um amor eterno, transcendendo até as barreiras físicas.
_Sim. _ beijei-lhe delicadamente e entrelacei meus dedos entre os seus.
_Eu senti tanto a sua falta..._ Caio revelou. _... Eu tentei procurar outra pessoa para preencher o vazio, mas foi inútil._ disse, olhando para baixo. _ Me doeu muito pensar que você estava se entregando para outro...
_Eu não fiz isso.
Ele me olhou nos olhos e entendeu o que eu quis dizer.
_Mas...
_Eu não transei com o meu “ex”, se é isso que quer saber...
_Não?
_Pena, que eu não tenho essa mesma certeza sobre você.
_Por mais que eu tenha feito... _ ele encolheu os ombros. _ ... Não era tão perfeito como era com você.
_Ela não era tão recatada? _ desdenhei com ciúme.
_Era... _ ele se recostou na cadeira e fez uma careta ao passar a mão na nuca, incomodava-o só de lembrar. _... Mas acabamos fazendo. Só que foi pior, porque virou um inferno. Ela ficou neurótica. A mãe dela foi dizer para ela que aquilo era um absurdo, porque a mulher digna deve ir virgem até o altar, que ela estava impura, porque aquilo não era uma vida de santidade, que era uma mundana...
_Perai! Você tirou a virgindade dela?
_Não! _ riu. _Agora vai dizer isso a mãe dela, nem sei se ela está pensando que sim... Também não importa! Eu já estava sufocado com tantas paranóias!
_Vamos falar só de nós dois... _pedi, deixando a perceber que não queria tocar no passado. _ Eu preciso fazer os curativos, tomar banho.
_Eu posso te ajudar. _ ele se ofereceu.
_Eu vou querer sim. _ sorri.
Caio pegou toalhas limpas, colocou o chuveiro para aquecer e foi todo atencioso comigo. Depois do banho, trancou a porta do quarto e me olhou só de toalha.
_Seus pais não vão achar que nós estamos...
_Bela. _ ele me olhou nos olhos e mexeu no meu cabelo molhado. _Eu já não me importo com mais nada que pensem.
_Hum, estou gostando disso... _ beijei-o de leve.
Ele roçou os lábios no meu pescoço e depois lentamente puxou a toalha, me despindo.
_Eu não posso fazer muito esforço. _ disse-lhe, fazendo um charme. Eu não ficara tanto tempo longe para voltar assim tão “facinho”.
_Tudo bem. _ ele suspirou e eu deitei na cama.
Ele pegou as luvas e as colocou na mão. Depois, tirou umas gases do envelope e umedeceu no líquido do frasco de remédio.
_Eu nunca mais vou poder fazer fotos._ comentei, olhando para o teto, enquanto ele limpava meus pontos do pescoço. _Ficarão cicatrizes.
_Mas para mim você será sempre linda. _garantiu._ Isso te faz ficar triste?
_Não ser modelo? Não. Era legal, mas nunca foi meu grande sonho. Quero estudar, me formar.
_Você vai sim se formar. _ pegou mais gases e cuidou da minha perna. _ Eu lembro como se fosse hoje o dia que te vi naquela propaganda.
_É? _ ri e o olhei. _ Como foi? _ fiquei curiosa.
_Eu estava voltando da rodoviária com meus pais e de repente olho para o alto e te vejo em proporções gigantes! _ gesticulou. _ Meu coração quase parou. _Minha mãe ficou botando pilha, dizendo que isso era um absurdo, que era coisa de... Você sabe que minha mãe não mede palavras. Ela praticamente te mandou para o inferno. Mas, enquanto isso eu pensava: “Que mulher gostosa!”
_Caio! _ bati no seu braço. _Isso é jeito de falar?!
_Pô, Bela, eu sou homem, né?!
_Tá eu sei... _ ri.
_Que queria que eu pensasse? A textura dessa rendinha aqui do sutiã... _ fez voz feminina, cheia de frescuras. _Não, né?! Eu pensei: “eu perdi essa mulher toda?” Tô lascado, como diz um amigo meu de quarto lá do Ceará, o Gonçalves. Sem falar que todo mundo ia ver você! Isso me deixou alucinado.
_Nossa, não pensei que eu mexia tanto contigo. _ fiz um ar de falsa surpresa.
_Bela, não voltei só porque eu te acho linda. _ ele tirou as luvas, ficando ainda com as mãos cheias de pó branco. _Mas porque eu te amo. _ deitou-se do meu lado, tendo terminado de enfaixar minha perna e de colocar o curativo no pescoço. _ Eu estou tão feliz... _ me beijou e tocou no meu seio.
_Caio, eu ainda estou tão fraquinha... _ fiz um doce e pedi um outro vestido que eu havia trazido na bolsa.
_Tá... _ ele falou com a voz abafada da cara enfiada no travesseiro. Mordi os lábios e agüentei para não rir.
Eu me vesti e enquanto penteava o cabelo, ele me admirava deitado de bruços.
_Que tanto você me olha?
_É para eu lembrar, quando estiver longe.
_Eu vou fazer uma miniatura daquela propaganda para você colocar no bolso.
_Não fala daquilo! _bateu com a mão no rosto.
Eu dei uma risada e sentei na cama ao seu lado. Passei a mão na sua nuca. Os cabelos espetados tinham aquela deliciosa textura aveludada dos bichinhos de pelúcia.
_Você parece um cachorrinho.
_Cachorrinho?!_ ele fez uma careta teatral. _Vou embora depois dessa.
_Tô falando do cabelo, é espetadinho...
_Cachorrinho. _ repetiu. _Você vai me levar para passear? _ cruzou os braços.
_Não! Vou te levar para comer! _ levantei e ofereci a mão para ele segurar.
Caio estendeu a mão dobrada, como a patinha do cachorro.
_Caio, você é muito bobo mesmo, hen?! _ virei as costas. Zoá-lo dava nisso, ele me devolveria em dobro.
_Bela... _ ele correu e me abraçou delicadamente por trás. _Você vai demorar muito para ficar boa mesmo?
_Hum... Bastante. Um mês, dois... _ menti.
_Acho que eu vou me enclausurar em um monsteiro. _abriu a porta e eu dei uma tapinha em suas costas.
_Não vai agüentar! _ desdenhei.
_Não vou mesmo._ me abraçou de novo e me deu um beijo.
_Bela, vou fazer uma comida bem leve para você, tá? _ a avó de Caio nos encontrou no corredor.
_Não quero dar trabalho. _ eu disse.
_Que isso?_ Caio brigou comigo. _ Tem que dar trabalho sim, você está doentinha. _me tratou como criança.
_Nossa! Nunca vi essa criatura tão feliz. _ a avó de Caio saiu, balançando a cabeça para os lados.
Depois de comermos o bolo de laranja com café, fomos lá para fora, na varanda, pegar um ventinho, pois o calor de dezembro estava muito forte.
_Está ansioso para começar a academia?_ perguntei, olhando o horizonte. As montanhas verdes estavam circuncidadas por uma áurea amarelada e o céu alaranjado se confundia com o azul da noite que chegava.
_Estou. Mas dizem que é difícil, mais puxado.
_Você vai conseguir. _ segurei sua mão.
_E você também vai?_perguntou-me sobre a distância.
_Farei de tudo para dessa vez sim.
_Eu vou precisar muito do seu apoio.
_E vai tê-lo.
Caio afastou meu cabelo para trás, inclinou o rosto para o lado e me beijou. Seus lábios quentes deslizaram entre os meus, sua língua na minha, saliva, amor, ternura e...
_Isabela?_ ouvi a voz da mãe de Caio na janela.
Senti um pulo no coração.
_Oi._ respondi.
_Telefone. Sua mãe, ela disse que é muito urgente. _ informou-me.
_Ai, Meu Deus..._ levantei-me assustada._ O que será?


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