31 de mai de 2007

Cap 17: Você que eu já não conheço mais

Trilha sonora da cena

Pela manhã, depois do café, Sara me levou até a sua sala no sóton e lá havia uma pequena porta. Nem tinha reparado nela. Eram tantas portas, tantos segredos se abrindo diante de mim. Um quartinho bem pequeno, com um computador em cima de uma mesa de madeira, uma poltrona ao lado de uma janela que tinha vista para um lindo campo verde e algumas prateleiras com mais livros.

_Sente-se aqui, querida. _ ela puxou a cadeira e ligou o computador no estabilizador.

O que ela iria me mostrar estava no computador? Isso me levaria a conhecer outras meninas que passavam o mesmo que eu? Comecei a ficar confusa.

Ela esperou conectar a rede e sentou-se na poltrona para me falar. Eu adorava ouvi-la, me fazia me sentir mais serena, menos culpada, mais paciente comigo mesmo e minhas limitações.

_Bela, é muito importante você se ouvir mais. Ouvir o que você sente e tentar aprender consigo mesma. Não vou estar ao seu lado sempre para te fazer se ver por dentro. Por isso, vou te ensinar uma técnica que aprendi com um psicólogo que era amigo do meu falecido marido. Ele me dizia para eu escrever tudo que eu pensava, meus segredos, minhas dúvidas e depois lesse em voz alta, porque eu iria assim descobrir muitas coisas sobre mim.

_E por que o computador? Você quer que eu escreva aqui? _ perguntei, sempre com muita curiosidade.

_Aí na Internet, se você pesquisar, vai encontrar muitas outras meninas que também passam por todo esse processo. Nunca parou para pensar nisso?

Não! Nossa, eu estava tão mergulhada no meu caos que não me toquei que na Internet não seria difícil encontrar pessoas vivendo essa realidade. Puxa, eu precisei sair da minha casa, vir para o campo e ouvir isso de uma pessoa mais velha? Como a vida dá tantas voltas para nos levar para o lugar onde devemos estar!

_Mas eu vou escrever para elas? _ fiquei confusa.
_Não, vai escrever para você! Há uma série de servidores gratuitos agora que disponibilizam páginas individuais. Tem no uol, na Globo.com, no Blogger do Google.
_Nossa! Você entende de tudo hen?_ ri, animada.
_Que isso! Eu aprendi isso com uma de minhas pacientes...
_Pacientes? _ franzi a testa.
_É. Até pouco tempo atrás eu tinha um pequeno consultório aqui na cidade, mas já estou um pouco cansada das minhas pernas para ir até lá... _ suspirou.
_Então, a senhora era psicóloga...? Hum...
_Pois é... _ ela sorriu.
_Eu estava então nas mãos certas. _ ri.
Ela me instruiu onde eu poderia encontrar um servidor gratuito.
_Mas eu não sei escrever muito bem. _ falei-lhe da minha limitação. _ A gente não escreve para ninguém gostar, você não é jornalista. Você vai escrever como quiser, é para você! _ ela advertiu-me.

Depois de me dar as indicações, ela me deixou sozinha e desceu. Eu vasculhei várias comunidades no orkut e deixei recado para muitas meninas que encontrei por lá. Aproveitei para seguir o conselho de Sara e criei uma página para mim. Enquanto estava lá entretida, a dor, a angústia, aquelas sensações ruins foram passando. Estar ali era o melhor retiro que eu poderia encontrar! Assim fiquei ao longo de toda tarde, só parando para almoçar a deliciosa carne moída com batatas de dona Sara.

À noite, desci e encontrei Sara na sala, sentada no sofá, ao lado do telefone, de costas para mim. Ela estava conversando com alguém pelo viva voz. Reconheci imediatamente quem era seu interlocutor:

_Como ela está, vó? _ Caio perguntou e pareceu-me que a ligação tinha sido iniciada há pouco tempo.
_Está melhor, superou minhas expectativas. Ela teve um colapso nervoso.
_Eu vi..._ respondeu.
_Caio, o que aconteceu com ela foi muito sério. Mais sério do que você pode imaginar.
_Vó, não entendo, não era para tanto! _ ele reclamou.
_Querido, cada pessoa tem um limite de suportar e reagir diante das situações. Ela guardou tudo para ela.
_Não entendo por que ela não me demonstrava nada! Me parecia tão bem...
_Caio, ela me disse que você a chamou de louca...
_Eu estava brincando...
_Caio, nem sempre que a gente fala as coisas brincando, a gente está brincando. Em momentos de fragilidades a gente magoa as pessoas.
_Ah, vóóóó..._ ele resmungou.
_Ela acreditou no que você falou. _ falou duramente e com voz firme. _ Você tem o dia inteiro aí e não poderia ter ligado algumas vezes? Você não acha que não teve nenhuma parcela de culpa? Que não precisava ser mais homem nessa relação?
_Desculpe, vó.
_Não é a mim que tem se desculpar, mas a você mesmo, porque você a perdeu, Caio.
_Eu não entendo, vó, ela se gostasse de mim, tinha que me deixar mais livre. Eu quero sair para zoar com meus amigos, eu quero viajar, não quero estar a todo momento com ela...
_Entendo sim. _ respondeu com um fino tom de ironia. _Você, então, que está no final da Escola Preparatória, pronto para sair daí, deixou tudo subir na cabeça e está seguindo a conversa dos seus amigos. Deixa eu adivinhar como vocês falam “não ser de ninguém”...
Caio calou-se, percebi que sua avó o conhecia muito melhor que eu.
_Caio, você queria colocar a Bela em uma caixinha, guardá-la. Sair, beijar várias meninas, ser irresponsável, ter menos coisas que te prendessem e depois tirasse ela da caixinha e ficasse com ela, porque ela é uma garota legal para você?
_... _ Caio silenciou mais uma vez._Eu estou meio confuso. Fiquei magoado com o jeito que ela me tratou e...
_Caio essa é uma desculpa para você conseguir aquilo que você arrastou para ter? A separação?
_... _ ele não respondeu, só podia-se ouvir a sua respiração.
Acompanhar a conversa daqueles dois era ver uma guerra verbal sendo travada.
_Caio, se a Bela te pedisse de todo coração perdão pelo que te falou, te dissesse que foi uma crise que ela teve de saudade, de carência, você queria perdoá-la também?
_Vó, eu...
_Você queria. Eu perguntei querer, porque querer implica em você voltar para ela.
_Vó, eu não quero que você diga isso a ela, por favor, mas eu quero ficar na minha. Sei lá... Eu estou com vontade de experimentar ficar sozinho, para ver se é isso mesmo...
_Caio, me diz de todo o coração, você já está sentindo isso a quanto tempo?
_Alguns meses. Minha mãe também fica me colocando pilha na cabeça... Foi acumulando tudo, eu sei lá, quero respirar.
_Você sabe que na vida as chances nem sempre voltam a ocorrer, né?
_Sei. _ ele respondeu.
_Pois bem, então, que você se responsabilize por isso. Eu, como uma velha mulher, vejo de com mais experiência essa situação toda. Você é só um garoto, cheio de energia, querendo fazer parte de um grupo de amigos solteiros, que acha que sempre terá uma nova chance... Mas tem janelas que não voltam a se abrir.
_Eu acho que eu estou certo, vó. Eu cansei um pouco de viver distância, de tudo isso... Sei lá... To a fim de ficar na minha.
_Tudo bem, eu respeito isso. _ ela respondeu.
_Vó, eu tenho que desligar deu o toque, vou jantar.
_Vai lá. Beijos.
Sara ficou ainda sentada por um tempo e eu parada ao lado da porta, não conseguia me mexer. Todas aquelas palavras tinham me transpassado como lanças. Ao levantar-se, ela me olhou e em seu rosto estava escrita a pergunta “Você ouviu tudo?”

Eu não disse nada e ela entendeu que sim. Sara caminhou em minha direção e tirou o meu cabelo do meu ombro e colocou para trás.

_Eu sabia que eu não estava louca. _ sorri-lhe um sorriso quase morto. _ Eu sabia que tinha alguma coisa errada e não era apenas comigo. _ confessei. _ Eu acho que já estou pronta para voltar para casa. _ disse-lhe friamente.

***

A primeira que veio me visitar ao saber do meu retorno, fora Débi, minha fiel amiga e escudeira de todas as horas. Abracei-a com muito carinho por um tempo. Sentamos no sofá.

_Você me parece bem melhor! _ ela sorriu e apertou a minha mão.
_Estou sim, essa viagem foi muito boa. _ confessei e contei a maioria das coisas que tinha se sucedido na casa de Sara.
_É bom saber que ela não defendeu o neto, nem te colocou na posição de malvada. Ela soube separar bem as coisas e ser mais imparcial... _ comentou.
_Eu não sei quem foi culpado, foi uma sucessão de coisas. Para resumir, esse ano foi muito ruim. Eu tento não me sentir responsável... Mas lá no fundo tenho a sensação de que estraguei tudo, porque parece que eu aqui tinha que agüentar tudo, me entende?
_Entendo sim. _ ela balançou a cabeça afirmativamente. _ Bela, eu que estou de fora posso te falar... _ Débi pareceu dona Sara, me dizendo que as pessoas “de fora” conseguem enxergar coisas que não queremos ver. _... eu vi você sofrer, ficar sozinha. Lembro de você me ligar contando que ele preferiu viajar com os amigos, que não respondia suas mensagens, que não fazia esforço nenhum para te dar um feedback. Eu sei que ele lá tem mil responsabilidades, que ele tem compromissos, mas até que ponto isso basta? Até que ponto isso dá o direito da pessoa se eximir de tudo? De não fazer um sacrificiozinho? _ ela franziu a testa, parecia muito mais duro para Débi entender o que vivi. _ Até que ponto, meu Deus, há uma “licença poética” para esse “amor militar” de que você me fala? Por que você que está do outro lado é a fraca, a ruim, a vilã, por que simplesmente teve vontade de mandar isso tudo pra puta que pariu? _ riu e me fez ri também de seu jeito de narrar as coisas.

_Eu nem tento entender mais... _dei de ombros. _ Eu só queria ter aquele amor antigo, eu só queria ter meu amigo por aqui, vindo em casa todos os dias como antes... Mas ele mudou tanto, ele está tão frio. Ele fala de um jeito que eu desconheço, como se ele estivesse falando com os argumentos e idéias de outro!

_E agora? _ ela perguntou.

_E agora... vou levar. Tenho que fazer o vestibular, já estamos quase no fim do ano e eu tenho que ser o que era antes.

_Você ainda gosta dele, né?

_Gosto, mas todas as vezes que eu lembro me recordo do que foi ruim, me marcou muito.

_Vai ficar tudo bem... _ ela sorriu e me abraçou.

_Te adoro, miga! _ ri e ela riu também. _ Nem te contei, bem fiz um blog¹.

_É? _ ela franziu a testa e a levei até o quarto para mostrar.

Conversamos por toda a tarde e a noite, antes de dormir escrevi mais uma vez na minha página. Havia lá um recado de Débi, que deve ter chegado em casa e ter entrado mais uma vez no blog. Estava escrito assim:

_ “Você é forte, sei que vai superar. Só os que estão perto, bem perto dos que sofrem, conseguem enxergar o que os outros não podem. Eu sei que não foi fraca. Beijos da sua amiga Débi.”

Sorri.


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Nota1: Você agora pode acessar o Blog da Bela. Entre e faça parte da estória. Crie um pseudonome para você e converse com a personagem através dos comentários. Já imaginou um livro em que você pode entrar nele e ajudar a mudar o curso dos acontecimentos? Pois agora será assim!

**Só não deixem de comentar aqui! ;) É muito importante para mim.

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--->Participe do fórum da Comunidade do livro no orkut!

12 comentários:

feriele disse...

me desculpe mais estou revoltada com o Caio..faz tanto sofreu tanto..correu tanto atraz e qlq tem..fala q n sabe c quer... caraca q raiva...mais eh bem aqssim msm...geralmente as mulheres pensam muito p ver c eh oq elas querem ponderam antes de entrar na elação para qnd entrar entrar p lutar...jah homem vai pelo impulso..ha vai dar certo!!! agente leva!!! e depois dah no q dah..coraçoes machucados...
desculpe mais estou revoltada...kkkkkkkk
soh eu msm neh..aki revoltada igual uma boba..como c eu fosse a bela..kkkk
bjs li...parabens menina..

Tita disse...

Ai que máximo! Adorei a idéia do blog da Bela!! =D

Mas vem cá... Fala sério o Caio hein?! Po, ficou lá se fazendo quando ela nem sabia que ele existia direito agora dispensa assim. Aiai... Homens... ¬¬
uahuaha *adorando*

Beijooo

Aninha disse...

nossa... agora vc realmente mexeu numa ferida que a maioria das mulheres prefere ignorar... não é fácil quando ele acha que precisa se sentir livre... ouvir a frase "não sou de ninguém" da pessoa que a gente ama é pior do que um tapa, do que uma agressão, isso fica ressoando como um eco na cabeça e no coração... adoro a sua versatilidade em abordar esse lado ruim do amor militar... vc sabe de tudo que eu passei então entende porque escrevi tudo isso né ?! te adoro!!

Lucy disse...

ow, é verdade... essa frase do "preciso me sentir livre" é realmente dolorosa... acho q a pior parte é estar com alguém e agir como se não estivesse... agindo como se não fosse namorado (pois se agir como se fosse, é natural cobrar pelo menos o mínimo)... dói demais essa dicotomia: estando numa situação e agindo como se estivesse em uma situação oposta.

Enfim... a estória está atraente demais. E que venham os próximos capítulos...

Ah! o blog da Bela é lindo!!!

Nathy disse...

é... conheço um caso parecido...

sem palavras pro capitulo de hj!

:~~

Bjos!

ps. FELIZ NIVER, Li!!!

Nati disse...

Ei..bom..peguei o livro ontem pra ler e hj ja estava aki agarrada nos capitulos,que me prenderam ate as ultimas linhas...mto emocionante a historia,ja chorei mto..hehehe..prncipalmente nos ultimos cap..hehe..ta d+ o livro..parabens,estou ansiosa pra continuidade da historia..hehehe..é um prazer novamente ler outro livro seu..Parabens pelo talento!rs..bjs

Nathy disse...

Comentario pra um comentario de uma CERTA pessoa no post abaixo!

~ niver de 15 anos neh??!?!?
hauaiahaha...

15 em cada perna neh?!
to zuandooooooo!!

Vc naum tah de bom humor?!
Intaum...

^^

hahahahaha!

Bjoss!!

li disse...

hahahha 15 em cada perna, né? hahah

Nathy, obrigada por vc existir... Aprendi muuuito contigo e vc sabe o que isso quer dizer... o livro diz...


Beijo!

li

mell disse...

eu conheço essa historia de outro lugar... =/
me identifico mto com a historia, altos e baixos!

tudo lindo, tudo, tudo, tudo² (L)

Jana disse...

oi, estou colocando a leitura em dia. Muito boa a ideia de criar um blog da Bela :-) Parabens pela iniciativa.
bj

THATI BESSA disse...

MEU DEUS QUE HISTÓRIA, ESTOU ESTARRECIDA, EM VÁRIOS MOMENTOS ME DEPAREI COMIGO MSM....NOSSA LI VC NÃO NEGA SUA PROFISSÃO ESCREVES MUITO BEM, E SOU FELIZARDA DE TÊ-LA AO MEU LADO POIS SEI QUE MESMO A DISTÂCIA E SEM MUITO CONTATO ATRAVÉS DO SEU LIVRO VC AINDA CONSEGUI FALAR AO MEU CORAÇÃO....TE ADOROOOOOOOO QUE DEUS TE ABENÇOE E CONTINUE ILUMINANDO ESSE DOM, LINDO, O DA ESCRITA....XERÃO

Cinthia disse...

Que engraçado, né?! 4 anos e 2 meses depois desses comentários, a história se repete... já passei por isso também! e foi uma fase que doeu quando ele quis "ser livre"... mas passou! estamos felizes... vou continuar lendo! ;)