28 de mai de 2007

Cap 14: "A hora do encontro é também despedida"

Trilha sonora da cena


Apesar de ter sido delicioso meus últimos dias com Caio, era chegado o dia da despedida. Nunca gostei dessa sensação e essa seria a primeira experiência de inúmeras.

A primeira é sempre a mais difícil, pois ainda não sabemos como lidar com ela. Era um dia muito quente e morto. Sabe, quando você olha na janela do seu apartamento e não vê ninguém passando na rua, parece que as pessoas desapareceram. Só um cachorro pardo sem dono fuçando um lixo.

_Bela, nós queremos conversar com você... _ minha mãe me chamou para sala e eu já sabia do que se tratava.

Tantas coisas boas aconteceram comigo no campo amoroso, que não tive tempo de contar o que se sucedera na minha vida acadêmica. Eu não fora bem no vestibular.

No fundo percebi, ao olhar os gabaritos, que ia levar bomba, mas não queria que meus pais vinculassem isso ao meu namoro com Caio, afinal, era apenas o resultado de um processo de um ano e não de alguns dias com ele. Mas pais, sabem com é? Na medida em que não encontram uma explicação sólida, se apegam a primeira que lhes passar na frente. Combinei com Caio de que manteríamos um certo sigilo sobre nós.

Eu tinha ficado mal nos últimos dias, mas especialmente hoje, que Caio vai embora, essa decepção deu trégua para eu me preocupar com algo mais momentâneo. Queria pedir para os meus pais um desconto, a fim deles adiarem esta derradeira conversa para outro dia, eu precisava poupar energias. Mas não havia jeito, eu tinha que caminhar sozinha, com minhas próprias pernas para o abatedouro.

Sentei-me no sofá, diante dos meus pais que já estavam no outro, prontos para me passarem um sermão. Era só eu me manter calada e agüentar firme.

_Bela, nós estamos muito tristes, nos esforçamos o ano inteiro para pagar uma escola boa, e cara! _ minha mãe, pôs toda ênfase no “cara” para não precisar acrescentar a acusação de que eu “estava jogando o dinheiro dela fora”.

_Eu também me esforcei para estudar. _ tentei me defender.

_Tentou nada!_ meu pai explodiu, ele não era homem de muito “tato”.

_Eu tentei sim. _ reafirmei. _ Mas é difícil. É competitivo! Tem reservas de vagas! Eu não sou negra, nem estudei no município. Na época de vocês não tinha isso, e ainda por cima menos pessoas faziam faculdade... _ tentei lembrar de todos os argumentos cabíveis, fossem éticos ou não, para salvar a minha pele, pois eu já sentia o cheiro de punição.

_Mas as suas amigas passaram. _ fatal, não havia outra coisa a se contrapor diante desta frase incisiva de meu pai.

_Claro, passar para letras com 500 vagas não é o mesmo que passar para Comunicação tendo que tirar 42 pontos! _ tentei ainda com um último suspiro agonizante naquela guerra mostrar que de números e estatísticas eu entendia, afinal, fazia parte das porcentagens dos que falharam.

_Você quer mesmo fazer publicidade? _ minha mãe falou com voz calma e olhar de pena.

_Quero, sempre quis! Eu me acho uma pessoa muito criativa e tenho tudo para brilhar...

_E agora? O que espera que eu faça? Me mate de trabalhar, feito um burro de carga naquela empresa para você me mostrar que não passou de novo? _ meu pai não estava querendo facilitar nem um pouco as coisas. _ Nós afrouxamos demais para o seu lado e olha no que deu? Eu cansei de ver você sair com suas amiguinhas para festas.

_Pai, eu preciso ter vida social, vida própria...

_Não precisa porra nenhuma... _ ele levantou-se e minha mãe o segurou.

_Sérgio, se acalma, assim não vamos resolver nada.

Resolver o quê? Já era, eu estava ferrada, não tinha como solucionar aquilo no grito ou na surra.

_Você me envergonha! _ ele disse e aquilo foi muito pior que um tapa na cara.

As lágrimas me vieram aos olhos e minha mãe entendeu que estava na hora de encerrar o assunto.

_Seu pai e eu decidimos ir a escola pedir para eles te darem uma bolsa para você repetir o terceiro ano lá, agora com suas notas no vestibular podemos tentar garantir que você será mais uma que dará nome a escola...

_Estudar de novo lá?_ perguntei.

_O quê? Quer ficar em casa vendo seriado na Net e mexendo no seu orkut, bibelozinho?

_Sérgio! _minha mãe o olhou com repreensão. _ É melhor que tentar pagar um cursinho. _voltou a me dar atenção. _Lá você já conhece os professores...

_..._ não respondi nada.

Eu estava muito mal por não ter ido bem no vestibular, por saber que eu teria que voltar a escola com a palavra fracassada na testa, mas não tinha como tirar da cabeça que hoje Caio iria para São Paulo.

Abri a porta da rua para sair, eu havia combinado de levá-lo até o ponto de ônibus.

_Onde vai, mocinha?_ A voz do meu pai soou do canto da sala, onde ele lia o jornal de esportes Lance.

_Eu preciso dar uma saída._ respondi com voz de cordeirinho e cara de Gato de Botas do filme Shrek.

_Não, não precisa. Pode começar a estudar, eu não acho que está no direito de perder tempo._ sentenciou.

Respirei fundo para não gritar de raiva. Meu Deus, ele não esperava que eu fosse naquela hora pegar a apostila de física e calcular o empuxo da gotinha d’água para a prova do ano que vem?! Sim, era o que ele queria.

Procurei com os olhos pela minha mãe, mas a luz da cozinha estava apagada. Meu pai leu meus pensamentos, sabia a filha que tinha, e me informou que ela havia saído para ir até a casa de uma cliente fazer limpeza de pele.

Eu ainda estava com a mão na fechadura. Não tinha jeito, que não conseguiria dissuadi-lo. Não sem minha mãe por perto para segurar o leão.

Fui para o meu quarto com vontade de pegar a primeira coisa quebrável pela frente e arremessá-la na parede. Isso, contudo, não me levaria até Caio. Ele não podia pensar que eu o tinha esquecido. Esse dia era fatídico para ele.

Sentada na cama, olhei pela fresta da minha porta meu irmão no quarto dele, diante do computador. Não acredito que precisaria contar com aquele pestinha. Era hora de apelar para tudo.

_Betinho... _ entrei em seu quarto e sentei em sua cama. _ Eu quero fazer um acordo com você...

Ele imediatamente desgrudou os olhos da tela do computador e vi seu bonequinho sendo morto, com as tripas e sangue espirrando para tudo que é lado. Eu conseguira tirar sua atenção do jogo online.

_E o que eu vou ganhar com isso?_ ele mostrou que naquele lance a seguridade consistia em eu dar uma boa oferta para livrar a minha cabeça.

_Como era o nome daquele jogo que você entrou para ver no shopping, naquela loja? Lembra? A loja ao lado daquele cyber...

_É uma expansão do Half Life, se chama Source.

_Eu te dou ela, mas você vai ter que me ajudar a sair de casa. Meu pai resolver me prender aqui, porque eu não me dei bem nas provas...

_Viu? Isso é para ver como eu me sinto...

_Tá! _ eu não tinha tempo para ouvir um sermão daquele fedelho sobre o quanto éramos iguais. _ É o seguinte: o Caio vai embora hoje para São Paulo.

_O Caio vai para São Paulo?

_Fala baixo! _ tampei a boca dele com minha mão com força. _Você quer ganhar o jogo não quer?_ perguntei e ele balançou a cabeça afirmativamente. Destampei sua boca._ Então, coloque seu celular no modo vibrar e fica com ele na mão, não pode tirar da sua mão! _instruí. _ Eu vou trancar a porta do meu quarto e para todos os efeitos eu estou lá dentro dormindo, chorando, qualquer coisa assim.

_Tá, mas para que o celular? _ ele ficou confuso.

_Porque quando eu voltar, vou te ligar e você vai tirar o papai de casa. Pede, implora, ajoelha para ele e fala que quer muito que te leve para jogar lá na pracinha.

_Mas eu posso ir sozinho..._ lembrou-me.

_Eu sei... Ah! Diz que quer muito que ele vá.

_Ele vai dizer que está cansado.

_Ai... _mordi a unha. Ele estava me deixando mais nervosa, mas estava certo, eu não poderia contar que o plano seria tão infalível assim. _ Tudo bem, diga que o pai do Fabinho vai também e que você queria mostrar pro pai dele que sabe jogar bola melhor que ele. O meu pai vai adorar te exibir.

_Meu Deus, garota, você é diabólica! Você vai para o inferno! _falou assustado. Que ótimo! Eu estava dando a pior imagem e o pior exemplo para o meu irmão. Mas não era hora de eu pensar em minha pontuação de comportamento com São Pedro com o tempo passando.

_Ok, mas me diz uma coisa, você vai passar pela porta para sair como? Se jogar do quinto andar da janela? _ ele tocou em um ponto importante.

_Se você fosse fazer, como faria?

_Ah! Eu vou chamar o meu pai para ver um site de futebol aqui, tem uns lances em vídeo, aí você aproveita e sai de fininho...

_É por isso que você é meu irmão, é pior que eu! _ pisquei o olho. _ Então, vamos colocar o plano em ação.

_O Source custa 56 reais. _ informou-me.

Meu Deus! Eu teria que vender bala no trânsito com aqueles ganchos cheios de saquinhos de Torrone e jujuba pendurados para comprar esse jogo! Não duvidava nada que meu pai também me cortasse até o dinheiro do lanche, quem dirá minha mesada. Já estava até ouvindo a voz dele “Leva ovo cozido para a escola!”

E assim foi feito. Meu pai foi para o quarto atraído pela isca do meu irmão e quando percebi que ele estava de costas para a porta, eu deslizei pelo corredor e consegui sair, fechando a porta muito de vagar.

Eu não tinha dinheiro para um táxi e era nesse momento que entrava Débi para me socorrer. Pelo menos ela eu não teria que subornar. Contei-lhe o que estava acontecendo e minha amiga me disse que o único jeito era acordar o irmão dela para me levar. Eu enfatizei que aquilo era muito importante. Apesar das reclamações do irmão, que pude ouvir do celular, ele aceitou me quebrar essa “árvore de jequitibá”!

Assim foi, eu cheguei com o coração na boca e não demorou muito para reconhecer os pais de Caio. Mas ele não estava lá.

_Pode ir, eu fico aqui, eu odeio ver despedidas... _ o irmão de Débi ficou no carro e eu abri a porta e corri para ver se ainda estava em tempo de me despedir de Caio.

_Ele já entrou. _ a mãe dele me informou com um ar de desprezo, me culpando silenciosamente por um possível esquecimento.

Não pensei duas vezes, peguei o celular e disquei.

_”Você não possui créditos promocionais, para adquirir novos créditos digite 1”..._ ouvi a voz mecânica da operadora.

Meus dedos tremiam. Disquei a cobrar para o celular de Caio. Ele atendeu:

_Você esqueceu né? _ ele me acusou.

_Eu nunca esqueceria, estou aqui do lado de fora.

Eu não ouvi mais nada, ele desligou. Segundos depois, ele pediu licença para um menino que estava subindo no ônibus e apareceu na porta. Me encontrou com os olhos e desceu. Corremos um em direção ao outro e nos abraçamos.

_Eu vou sentir muito sua falta. _ falei.
_Eu pensei que não vinha. _ me beijou a boca.
_Não sabe o que tive que fazer... Mas depois eu te conto... _ segurei seu rosto com minhas duas mãos. _ Boa viagem!
Nos beijamos com vontade e nos abraçamos com força.

O motorista ligou o ônibus e ele soltou a minha mão no ar e virou as costas. Eu fiquei ali em pé, anestesiada. O ônibus dobrou a esquina e desapareceu.

_Nós já vamos... _ ouvi a voz do padrasto de Caio atrás de mim e senti sua mão em meu ombro. _Você quer uma carona?

_Não precisa, tio. Obrigada. Eu vim com um amigo e se meus pais perguntarem, eu não estive aqui... _ pedi e voltei em direção ao carro do irmão de Débi.

_Que barra, hen! _ ele comentou.

_Tudo bem... _ sorri e limpei o rosto.

Perto de casa eu liguei para o celular do meu irmão e torci para ele ter lembrado da instrução que eu lhe dera de não esquecer o celular. Esqueci, porém, de dizer para ele não estar perto do meu pai, quando tocasse.

_E aí? Cheguei... _ falei baixinho.

_Você está com sorte, meu pai foi dormir! _ ele informou. _ Mas não pense que por isso eu perdi meu jogo não hen?!

_Tá. _ ri daquele desejo infantil e mercenário. _ Eu sei. Valeu.

_Eu queria que alguém um dia fizesse isso por mim. _ o irmão de Débi comentou, entendendo por alto a situação.

_Que nada... Obrigada viu?

_Eu te cobro depois... _ riu.

Sai do carro e voltei para o meu quarto, onde agora de fato, eu consolidava o que havia pedido para meu irmão mentir. Como vê, não vou para o inferno tão rápido assim, afinal, eu teria toda a tarde para sentir aquela perda, sozinha.

Liguei o meu aparelho de som em cima da estante. Abri meu porta CD e tirei do compartimento o cd da trilha sonora da novela "Senhora do destino". Deitei na minha cama e me abracei ao meu travesseiro. Eu queria lembrar como era a música "Encontros e despedidas" de abertura da novela, ela tinha muito a ver com o dia de hoje:

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
Tô chegando

Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida ....

-----***-----

--->Participe: Comunidade do livro no orkut!

10 comentários:

Li disse...

A Lucy no penúltimo capítulo me perguntou "qual a sua próxima surpresa Li?"

Eu responderei nos próximos capítulos... Não percam!

Opss... Não posso contar. rs.

Só posso adiantar que... vocês poderão participar do livro e entrar dentro da estória ainda mais...

Comoooo??????

Ah! Não vou contar tudo né!

Beijinhos da Li

Nathy disse...

Ai q aperto no peito!!
Xorei e tdo!

Lembrei do msmo dia q meu amor foi, akele onibus... akela coisa... akele sentimento... aih q coisa ruim de sentir...

Hj o capitulo foi triste...
snif...

Bjos meninas!

Lucy disse...

lágrimas torrenciais... sem comentários...

droga, Li... dói demais... :'(

mell disse...

lagrimas, lagrimas, mtas lagrimas =/

Li disse...

:( num chorem!

titta_* disse...

logo hj que tenho tempo pra comentar, a srta me faz chorar?!
=~~

sei q não foi a intenção..mas é inevitável! barulho de avião decolando eh de apertar o coração...=/
bom mesmo é a espera da chegada! =)

o livro ta lindo,Li!!
tão felizes...pena que os dias de prep chegaram...

bjo =**********

Tita disse...

Aaai que barra hein... Deu um aperto no peito de ler esse capítulo! (lembrando que a academia que ela fazia provavelmente não fará mais né? - ela vai ter crises na frente do espelho?!) quero muito muito continuar a acompanhar aqui! Todo dia quando volto das aulas eu entro aqui pra ler! Adoro muito!
Beijos meninas e Li!

Luma disse...

Sem comentários esse livro está mil, me lembrei de há 5 anos atrás dele indo embora  e a gente sem saber o que nos reservava, não sabíamos de qto em qto tempo poderíamos nos ver , uma situação horrorosa .... eu chorava demais, minha sogra e minha mãe não conseguiam me acalmar de jeito nenhum... só parei no momento em que ele me disse me abraçou e disse “ espera que eu volto” e estou nessa vida esperando sempre pelo nosso reencontrooo...

Meninas deixa eu dividir uma coisa com vocês?
Vou pra Gramadoooooo ficar com ele... tem lugar mais romântico? Anciosa ao cubo!!!! E alem do mais ele disse que vai ser um fim de semana de surpresas... mas ainda faltam mais de 1 mês p esse dia... imagina a expectativa.......e ficarei lá 40 dias na casa dela...

Nossa ..... nem acreditoo... meu pai deixou mas tah se arrascando de ciúmes da princesinha dele afinal nunca fiquei tanto tempo fora de casa e o mais legal sem mentir q estou com ele!!!nao queria contar pelo orkut por que tive uns probleminhas com pessoas invejosas rs***

Desculpa roubar o espaço do livro...

Ameiii li..... e mais uma fez to viciadaaaaaa

luma disse...

" CASA DELE"
" MEU PAI TA SE RASGANDO"

EITA ERROS DE PORTUGUÊS

Ana Paula disse...

ai Li... quase me fez chorar em pleno horário de expediente... aproveitei uma folguinha dos anjinhos pra dar uma olhada no capitulo novo e o que consegui foi segurar as lágrimas... ai meu Deus... e agora ? o que vai acontecer ????

*Luma, estou muito feliz por vc!! de verdade!!!!! um mês passa logo!!! vc vai ver!!!!! bjus mil!!!!