31 de mai de 2007

Cap 18: Proposta decente

Trilha sonora da cena

Eu precisava voltar a ser gente, vida de urso panda não me levaria a nada. Primeira atitude era sair e Débi foi minha companhia. Como ela mesmo diz, dentro de casa as coisas não acontecem. Nada muito além do convencional, um shopping, uma casquinha do McDonald’s e colocar os assuntos em dia. Quem estava com quem, quem cortou o cabelo, quem viajou, quem sumiu. Os outros. Os outros são o melhor dos assuntos, quando queremos afastar a hipótese de nos colocar em pauta.

_Débora? _ ouvimos uma voz ao nosso lado. Era um rapaz de cabelo castanho, bem vestido e, principalmente, com um perfume delicioso. Ele abraçou minha amiga e a salpicou com dois beijos na bochecha.

Continuei lambendo meu Chocomac, é estranhíssimo quando um desconhecido nos rouba a atenção de nossa companhia e ficamos com cara de bobocas.
_Essa é a minha amiga, Isabela. _ Débi me apresentou. _ Quer sentar aí, senta... _ ela ofereceu.
_Posso? _ perguntou já sentando.
_E aí? Trabalhando com sua mãe?_ Débi perguntou.
_É... Estamos fazendo agora uma reformulação na loja... Estou trabalhando com a área de marketing da empresa. Muito legal... _ disse.
_Que bom! _ Débi sorriu e explicou que ele cursava publicidade na mesma faculdade que ela, mas já estava no quinto período.
_Hum... _ limitei-me a mordiscar a casquinha.
_Você é modelo? _ ele perguntou, do nada.
_Eu? _ ri e me babei com o sorvete.
_É!_ ele me deu o guardanapo que eu havia deixado em cima da mesa.
_Não... Que idéia! _ tentei sem sucesso apagar a manchinha marrom que ficara na minha blusa.
_Não se preocupe, Bela, ele não está te cantando. _ Débi riu e me senti muito pateta. _ É que ele trabalhou em uma agência e acha que todo mundo fica bonita com um quilo de maquiagem e uma boa camada de Photoshop. Ele era “olheiro”, esses caras que...
_Eu sei o que é... _ interrompi._Não, nunca fiz trabalhos assim...
_E gostaria? Estou precisando de alguém para fazer uma foto para um grande painel que queremos colocar na frente da loja, esses de hipermídia, gigante...
_Eu? _ ri, sem acreditar que eu pudesse ser digna de parecer assim em tamanho mega.
_Você. Nós não podemos pagar uma modelo de elite, mas talvez o que oferecemos fosse bom para você e depois eu posso te compensar com uns contatos.
_..._ franzi a testa e Débi balançou a minha mão, para eu ter qualquer reação.
_ Por que não, Bela? Você é alta, magra, loira e seria divertido te ver bem grandona, quando eu voltasse da faculdade. _ brincou.
_De calcinha? _ levantei as sobrancelhas.
_Mas não será vulgar! Será de roupa íntima, bem feminina, delicado. Afinal, a imagem da empresa conta...
_Não sei se meus pais iriam gostar... _ pensei principalmente no meu pai, descobrindo que a filhinha dele não brinca de bonecas mais!
_Bom, aqui está o meu cartão, eu preciso da resposta até... amanhã. Fale com eles. E pode levá-los para a sessão de fotos. Não é roubada, fique tranqüila. _ garantiu.
_Hum-hum. _ educadamente peguei o papel.
Um celular começou a tocar e ele sacou o dele do bolso e atendeu:
_Alô? Eu to aqui no shopping. Onde? Hoje? Tá beleza, eu vou passar aí então... _ olhou o relógio. Desligou. _ Meninas... _ se dirigiu a nós. _ eu vou ter que sair... _ deu um beijo no rosto de Débi e no meu. _ Me liga. _ pediu.
Eu fiquei olhando-o partir pelo corredor de mesas da Praça de Alimentação.
_Você vai aceitar?
_Não sei. De lingerie?_ fiquei em dúvida.
_Ah! Pode pintar outras coisas. Nunca pensou nisso? _ ela se empolgou com a idéia.
_Vou ter que falar com meus pais. _ guardei o cartão na bolsa.

***
Tudo o que eu não espera era o impossível. Sabe quando seus pais têm um surto?

_Bom, você agora é maior de idade, se acha que deve fazer, faça.

Aquilo vindo da minha mãe, com o silêncio consentido do meu pai, parecia irreal. Até pensei que essa atitude era movida por pena. Já que eu passara uma fase ruim, eles permitiriam qualquer coisa que me trouxesse ânimo. Seja lá qual fosse o motivo, era mesmo assim surpreendente.

Procurei o cartão na minha bolsa e fui até meu quarto. Olhei o telefone. Pensei bem. Eu tinha que conseguir dinheiro para ser um pouquinho mais independente e por que não fazer um bico?

Tirei o aparelho do gancho e disquei.

_Alô? Oi, aqui é a Isabela, com quem você falou no shopping sobre a proposta da propaganda...

O encontro fora marcado e eu só pedira um dia a mais para poder me cuidar melhor. Fazer a unha, o cabelo, depilação e tudo que me deixasse em um estado mais fotográfico, digamos assim.

Antes que eu perdesse o papel, anotei na agenda do meu celular o número:

_Aqui está você... _ falei com o aparelho. _ Gus-ta-vo...

Suspirei e olhei para o computador. Entrei no meu blog¹ para ver se tinha algum comentário. Havia dois, um da Pandora e outro da Bruxinha Nany.

_ “Belinha achei seu blog no orkut da Débi... já vivi um amor militar como vc e sei o quanto ele dói... claro que tive momentos de intensa felicidade, mas infelizmente eles acabaram... mas torço por vc. Tudo vai dar certo! acredite!!!!”_Assinado: Bruxinha Nany.

É, pelo visto, eu não estava sozinha nisso. O que Caio fazia a essa hora? “Tive momentos de intensa felicidade”, a frase do comentário me veio a cabeça e deixei que minhas mãos recordassem um pouco destes tempo de felicidade no meu blog.

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Cap 17: Você que eu já não conheço mais

Trilha sonora da cena

Pela manhã, depois do café, Sara me levou até a sua sala no sóton e lá havia uma pequena porta. Nem tinha reparado nela. Eram tantas portas, tantos segredos se abrindo diante de mim. Um quartinho bem pequeno, com um computador em cima de uma mesa de madeira, uma poltrona ao lado de uma janela que tinha vista para um lindo campo verde e algumas prateleiras com mais livros.

_Sente-se aqui, querida. _ ela puxou a cadeira e ligou o computador no estabilizador.

O que ela iria me mostrar estava no computador? Isso me levaria a conhecer outras meninas que passavam o mesmo que eu? Comecei a ficar confusa.

Ela esperou conectar a rede e sentou-se na poltrona para me falar. Eu adorava ouvi-la, me fazia me sentir mais serena, menos culpada, mais paciente comigo mesmo e minhas limitações.

_Bela, é muito importante você se ouvir mais. Ouvir o que você sente e tentar aprender consigo mesma. Não vou estar ao seu lado sempre para te fazer se ver por dentro. Por isso, vou te ensinar uma técnica que aprendi com um psicólogo que era amigo do meu falecido marido. Ele me dizia para eu escrever tudo que eu pensava, meus segredos, minhas dúvidas e depois lesse em voz alta, porque eu iria assim descobrir muitas coisas sobre mim.

_E por que o computador? Você quer que eu escreva aqui? _ perguntei, sempre com muita curiosidade.

_Aí na Internet, se você pesquisar, vai encontrar muitas outras meninas que também passam por todo esse processo. Nunca parou para pensar nisso?

Não! Nossa, eu estava tão mergulhada no meu caos que não me toquei que na Internet não seria difícil encontrar pessoas vivendo essa realidade. Puxa, eu precisei sair da minha casa, vir para o campo e ouvir isso de uma pessoa mais velha? Como a vida dá tantas voltas para nos levar para o lugar onde devemos estar!

_Mas eu vou escrever para elas? _ fiquei confusa.
_Não, vai escrever para você! Há uma série de servidores gratuitos agora que disponibilizam páginas individuais. Tem no uol, na Globo.com, no Blogger do Google.
_Nossa! Você entende de tudo hen?_ ri, animada.
_Que isso! Eu aprendi isso com uma de minhas pacientes...
_Pacientes? _ franzi a testa.
_É. Até pouco tempo atrás eu tinha um pequeno consultório aqui na cidade, mas já estou um pouco cansada das minhas pernas para ir até lá... _ suspirou.
_Então, a senhora era psicóloga...? Hum...
_Pois é... _ ela sorriu.
_Eu estava então nas mãos certas. _ ri.
Ela me instruiu onde eu poderia encontrar um servidor gratuito.
_Mas eu não sei escrever muito bem. _ falei-lhe da minha limitação. _ A gente não escreve para ninguém gostar, você não é jornalista. Você vai escrever como quiser, é para você! _ ela advertiu-me.

Depois de me dar as indicações, ela me deixou sozinha e desceu. Eu vasculhei várias comunidades no orkut e deixei recado para muitas meninas que encontrei por lá. Aproveitei para seguir o conselho de Sara e criei uma página para mim. Enquanto estava lá entretida, a dor, a angústia, aquelas sensações ruins foram passando. Estar ali era o melhor retiro que eu poderia encontrar! Assim fiquei ao longo de toda tarde, só parando para almoçar a deliciosa carne moída com batatas de dona Sara.

À noite, desci e encontrei Sara na sala, sentada no sofá, ao lado do telefone, de costas para mim. Ela estava conversando com alguém pelo viva voz. Reconheci imediatamente quem era seu interlocutor:

_Como ela está, vó? _ Caio perguntou e pareceu-me que a ligação tinha sido iniciada há pouco tempo.
_Está melhor, superou minhas expectativas. Ela teve um colapso nervoso.
_Eu vi..._ respondeu.
_Caio, o que aconteceu com ela foi muito sério. Mais sério do que você pode imaginar.
_Vó, não entendo, não era para tanto! _ ele reclamou.
_Querido, cada pessoa tem um limite de suportar e reagir diante das situações. Ela guardou tudo para ela.
_Não entendo por que ela não me demonstrava nada! Me parecia tão bem...
_Caio, ela me disse que você a chamou de louca...
_Eu estava brincando...
_Caio, nem sempre que a gente fala as coisas brincando, a gente está brincando. Em momentos de fragilidades a gente magoa as pessoas.
_Ah, vóóóó..._ ele resmungou.
_Ela acreditou no que você falou. _ falou duramente e com voz firme. _ Você tem o dia inteiro aí e não poderia ter ligado algumas vezes? Você não acha que não teve nenhuma parcela de culpa? Que não precisava ser mais homem nessa relação?
_Desculpe, vó.
_Não é a mim que tem se desculpar, mas a você mesmo, porque você a perdeu, Caio.
_Eu não entendo, vó, ela se gostasse de mim, tinha que me deixar mais livre. Eu quero sair para zoar com meus amigos, eu quero viajar, não quero estar a todo momento com ela...
_Entendo sim. _ respondeu com um fino tom de ironia. _Você, então, que está no final da Escola Preparatória, pronto para sair daí, deixou tudo subir na cabeça e está seguindo a conversa dos seus amigos. Deixa eu adivinhar como vocês falam “não ser de ninguém”...
Caio calou-se, percebi que sua avó o conhecia muito melhor que eu.
_Caio, você queria colocar a Bela em uma caixinha, guardá-la. Sair, beijar várias meninas, ser irresponsável, ter menos coisas que te prendessem e depois tirasse ela da caixinha e ficasse com ela, porque ela é uma garota legal para você?
_... _ Caio silenciou mais uma vez._Eu estou meio confuso. Fiquei magoado com o jeito que ela me tratou e...
_Caio essa é uma desculpa para você conseguir aquilo que você arrastou para ter? A separação?
_... _ ele não respondeu, só podia-se ouvir a sua respiração.
Acompanhar a conversa daqueles dois era ver uma guerra verbal sendo travada.
_Caio, se a Bela te pedisse de todo coração perdão pelo que te falou, te dissesse que foi uma crise que ela teve de saudade, de carência, você queria perdoá-la também?
_Vó, eu...
_Você queria. Eu perguntei querer, porque querer implica em você voltar para ela.
_Vó, eu não quero que você diga isso a ela, por favor, mas eu quero ficar na minha. Sei lá... Eu estou com vontade de experimentar ficar sozinho, para ver se é isso mesmo...
_Caio, me diz de todo o coração, você já está sentindo isso a quanto tempo?
_Alguns meses. Minha mãe também fica me colocando pilha na cabeça... Foi acumulando tudo, eu sei lá, quero respirar.
_Você sabe que na vida as chances nem sempre voltam a ocorrer, né?
_Sei. _ ele respondeu.
_Pois bem, então, que você se responsabilize por isso. Eu, como uma velha mulher, vejo de com mais experiência essa situação toda. Você é só um garoto, cheio de energia, querendo fazer parte de um grupo de amigos solteiros, que acha que sempre terá uma nova chance... Mas tem janelas que não voltam a se abrir.
_Eu acho que eu estou certo, vó. Eu cansei um pouco de viver distância, de tudo isso... Sei lá... To a fim de ficar na minha.
_Tudo bem, eu respeito isso. _ ela respondeu.
_Vó, eu tenho que desligar deu o toque, vou jantar.
_Vai lá. Beijos.
Sara ficou ainda sentada por um tempo e eu parada ao lado da porta, não conseguia me mexer. Todas aquelas palavras tinham me transpassado como lanças. Ao levantar-se, ela me olhou e em seu rosto estava escrita a pergunta “Você ouviu tudo?”

Eu não disse nada e ela entendeu que sim. Sara caminhou em minha direção e tirou o meu cabelo do meu ombro e colocou para trás.

_Eu sabia que eu não estava louca. _ sorri-lhe um sorriso quase morto. _ Eu sabia que tinha alguma coisa errada e não era apenas comigo. _ confessei. _ Eu acho que já estou pronta para voltar para casa. _ disse-lhe friamente.

***

A primeira que veio me visitar ao saber do meu retorno, fora Débi, minha fiel amiga e escudeira de todas as horas. Abracei-a com muito carinho por um tempo. Sentamos no sofá.

_Você me parece bem melhor! _ ela sorriu e apertou a minha mão.
_Estou sim, essa viagem foi muito boa. _ confessei e contei a maioria das coisas que tinha se sucedido na casa de Sara.
_É bom saber que ela não defendeu o neto, nem te colocou na posição de malvada. Ela soube separar bem as coisas e ser mais imparcial... _ comentou.
_Eu não sei quem foi culpado, foi uma sucessão de coisas. Para resumir, esse ano foi muito ruim. Eu tento não me sentir responsável... Mas lá no fundo tenho a sensação de que estraguei tudo, porque parece que eu aqui tinha que agüentar tudo, me entende?
_Entendo sim. _ ela balançou a cabeça afirmativamente. _ Bela, eu que estou de fora posso te falar... _ Débi pareceu dona Sara, me dizendo que as pessoas “de fora” conseguem enxergar coisas que não queremos ver. _... eu vi você sofrer, ficar sozinha. Lembro de você me ligar contando que ele preferiu viajar com os amigos, que não respondia suas mensagens, que não fazia esforço nenhum para te dar um feedback. Eu sei que ele lá tem mil responsabilidades, que ele tem compromissos, mas até que ponto isso basta? Até que ponto isso dá o direito da pessoa se eximir de tudo? De não fazer um sacrificiozinho? _ ela franziu a testa, parecia muito mais duro para Débi entender o que vivi. _ Até que ponto, meu Deus, há uma “licença poética” para esse “amor militar” de que você me fala? Por que você que está do outro lado é a fraca, a ruim, a vilã, por que simplesmente teve vontade de mandar isso tudo pra puta que pariu? _ riu e me fez ri também de seu jeito de narrar as coisas.

_Eu nem tento entender mais... _dei de ombros. _ Eu só queria ter aquele amor antigo, eu só queria ter meu amigo por aqui, vindo em casa todos os dias como antes... Mas ele mudou tanto, ele está tão frio. Ele fala de um jeito que eu desconheço, como se ele estivesse falando com os argumentos e idéias de outro!

_E agora? _ ela perguntou.

_E agora... vou levar. Tenho que fazer o vestibular, já estamos quase no fim do ano e eu tenho que ser o que era antes.

_Você ainda gosta dele, né?

_Gosto, mas todas as vezes que eu lembro me recordo do que foi ruim, me marcou muito.

_Vai ficar tudo bem... _ ela sorriu e me abraçou.

_Te adoro, miga! _ ri e ela riu também. _ Nem te contei, bem fiz um blog¹.

_É? _ ela franziu a testa e a levei até o quarto para mostrar.

Conversamos por toda a tarde e a noite, antes de dormir escrevi mais uma vez na minha página. Havia lá um recado de Débi, que deve ter chegado em casa e ter entrado mais uma vez no blog. Estava escrito assim:

_ “Você é forte, sei que vai superar. Só os que estão perto, bem perto dos que sofrem, conseguem enxergar o que os outros não podem. Eu sei que não foi fraca. Beijos da sua amiga Débi.”

Sorri.


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Nota1: Você agora pode acessar o Blog da Bela. Entre e faça parte da estória. Crie um pseudonome para você e converse com a personagem através dos comentários. Já imaginou um livro em que você pode entrar nele e ajudar a mudar o curso dos acontecimentos? Pois agora será assim!

**Só não deixem de comentar aqui! ;) É muito importante para mim.

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30 de mai de 2007

Cap 16: Um longo caminho de volta a si

Trilha sonora da cena

Débi entrou no meu quarto e a primeira coisa que vi em seus olhos foi pena.

_Oi, garota. _ ela passou a mão na minha cabeça e beijou-a.
_Oi._ sorri e segurei sua mão com força.

Minha amiga deitou na cama ao meu lado e me abraçou:

_Estou aqui tá?_ disse e fez carinho no meu rosto.
_Eu não sei o que aconteceu comigo... _ falei-lhe.
_Sua mãe me disse que você há uma semana não fala com ninguém, nem quer comer, você está nos assustando.
_...Nada foi fácil. _ falei-lhe segurando sua mão.
_Eu sei! _ ela franziu a testa. _ Eu via que você só estava tentando parecer forte, mas não foi a melhor maneira._Bela, nós queremos que você fique bem e volte a ser o que era antes... _ ela me disse tudo com muita calma e senti que estava me preparando para algo. _ Eu trouxe uma pessoa aqui para ajudar você. _ ela soltou a minha mão e se levantou. Por uns segundos achei que era Caio, mas depois de tudo ele não ligou,nem me procurou mais. Ele eu sabia que já perdera, só precisava me encontrar.
Débi abriu a porta e nunca esperava ver ali em meu quarto aquela pessoa, que me trouxe um sorriso com sua presença inimaginada!
_Oi. _ a senhora Sara fez um sinal para que Débi nos deixasse a sós e fechou a porta.
_Oi._ sorri-lhe.
_Posso me sentar?_ ela pediu e eu fiz que sim com a cabeça.
Ela tinha vindo de sua fazenda até a minha casa só para me ver?
_Ele te mandou aqui? _ perguntei.
_Ele me contou o que houve por telefone e eu achei que deveria vir. Ele me deu o telefone de sua amiga.
_Obrigada... _ falei baixinho._ Eu precisava muito disso mesmo... _ confessei, era bom saber que nem todos naquela família me detestavam agora.
_Eu vim lhe fazer uma proposta. Já conversei com seus pais e eles aceitaram. Seria muito bom para você.
_O que é?
_Eu queria que você fosse para a fazenda comigo. _ propôs.
Fiquei muda. Meus pais deixaram eu ficar ainda mais tempo longe da escola, na casa de um estranho?
_Mas...
_Ele não vai estar lá, te prometo, será só nós duas por algum tempo. _ ela me assegurou com veemência.
_Eu queria mesmo ficar longe por um tempo. _ falei-lhe. _ Antes que eu faça alguma besteira...
_Vamos, então? _ ela me perguntou.
_Tenho que arrumar as minhas coisas...
_Eu tomei a liberdade de arrumá-las com sua mãe, enquanto você dormia.
_Nossa, nem vi. _ estranhei o fato delas terem entrado no meu quarto, feito barulho e eu nem ter acordado. Os remédios realmente eram muito fortes.

Na sala, meu pai e minha mãe se levantaram assim que eu apareci no corredor. Eles me pareceram aliviados por eu ter me levantado da cama e ter decidido viajar com a senhora Sara.

O caminho foi silencioso. No carro, Sara ao meu lado não falou nada. Ficamos as duas, cada qual em sua janela olhando a paisagem. O motorista ouvia uma música caipira baixinha e melosa. Tudo ia se tornando estranho, na medida em que as ruas e minha cidade ficavam para trás na estrada.

_Vamos parar para tomar um café?_ Sara anunciou mais para mim, que para o motorista, que precisou ouvir outra vez o seu pedido.

Ela e eu entramos em um pequeno e aconchegante restaurante de beira de estrada com um lindo estilo colonial. Sentamos em uma mesa de madeira e tomamos uma xícara de café.

_Viajar é bom, dá um senso de liberdade. _ ela falou com os olhos ainda brilhantes. _Já viajei muito. _ disse saudosa.
_Eu posso dizer que já estou me sentindo até um pouquinho melhor... Ainda um pouco lerda com esses remédios...
Ela tocou em minha mão e sorriu em apoio. Eu não sabia o que a movia para estar ali comigo, mas eu jamais teria como agradecer por ela ter me tirado de lá para fazer um hiato em minha vida. Eu tinha que me desgarrar do passado e me conectar com um novo eu.
Chegamos na fazenda na hora do almoço e ela me conduziu até o quarto onde eu havia ficado da última vez. Eu olhei fixamente para a cama e fiquei parada na soleira da porta.
_Tem outros quartos...? _ perguntei.
_Claro, lá em cima, se não se importar de subir escadas. _ disse-me.
_Eu prefiro._ pedi, constrangida.
_Tudo bem... _ colocou as mãos nos meus ombros e fomos lá para cima para acomodar as minhas coisas. _Vamos preparar nosso almoço? _ ela sugeriu, eu não estava com fome, mas queria ser o mais educada possível e acompanhei-a até a cozinha.
Sentei-me à mesa e a observei tirar algumas folhas de cebolinha da geladeira. Picou o vegetal minimamente e depois veio a cebola, o tomate e ela começou a preparar peito de frango grelhado. O cheiro de condimentos encheu todo o ambiente.
_Você já viu o filme “Como água para chocolate”?¹ _ ela me perguntou subitamente.
_Não. _ respondi.
_É um filme muito interessante em espanhol. Eu tenho aqui em casa, à propósito poderíamos ver. Ele trata de uma jovem que tem o poder de passar todos os seus sentimentos para a comida que cozinha. Desde pequena ela foi prometida por sua mãe a cuidar dela até na velhice e não poderia se casar. Então, ela consegue atingir todas as pessoas com a comida que faz. É muito interessante. _ contou-me e eu senti curiosidade e vontade de assistir o filme, da maneira entusiasmada com que ela me narrava.
_Acha que a gente tem o poder de passar o que sentimos para a comida?_ perguntei-lhe.
_Tudo o que sentimos passamos através das mãos e da proximidade com os outros. Umas pessoas mais sensíveis que outras percebem isso.
_Os ciganos não permitem pelas tradições que uma mulher durante o período menstrual cozinhe. _ lembrei do que havia assistido na televisão certa vez. _Não sei se é verdade.
Ela nos serviu de comida e o papo estava tão interessante, que eu me forcei a comer um pouco.
_Sabe que aqui no ocidente nós temos a mania de abraçar, beijar. Lembra a vinda desse novo Papa ao Brasil? Falaram muito do modo como nosso presidente pegava o braço do Papa e o arrastava para lá e para cá como um boneco... _ riu-se. _ Em países orientais isso não acontece. Se na Tailândia, por exemplo, ou no Japão, você chegar perto de uma criança bem pequena, nem pense em sair apertando as bochechas. Os pais vão lhe dar uma bofetada! Não!
_Por quê? _ franzi a testa.
_Porque você estar roubando as energias puras e positivas que existe na criança. Estará sugando.
_Nossa! Que forte!_ levantei as sobrancelhas e continuei mastigando. _Você se interessa muito pela cultura oriental, não é mesmo?
_Sim. _ ela sorriu e enfiou o garfo em um pedacinho de frango rosado. _ Com a Internet, fica ainda mais fácil a gente ler coisas, procurar, estudar...
_Internet?
_Sim, senhorita! Ou acha que eu não sou uma excluída digital? _ ela colocou as mãos na cintura e riu.
Ri também e pedi desculpa pelo meu preconceito.
_Tenho um computador lá na minha sala, mas talvez você não tenha visto.
_Hum, sim. _ disse-lhe.
Após o almoço, fomos assistir ao filme na sala. Depois eu acabei dormindo um pouco e quando acordei já anoitecia. Procurei-a pela casa e não a achei. Vi a porta que levava ao sóton entreaberta.
Subi bem de vagar e encontrei a senhora Sara sentada em uma toalha grande e quadrada em posição de lótus. Parecia meditar.
_Pode entrar. _ ela abriu os olhos.
_Não queria atrapalhá-la.
_Não está. _ ela levantou-se e pegou uma outra toalha dentro de um armário com portas e a estendeu no chão, entendi que era para mim. _Sente-se aqui.
Sentei-me, com muito cuidado para não encostar no candelabro próximo a nós.
_Você gostaria de aprender a meditar?
_Meditar? _ perguntei, mais curiosa que com vontade. _ Nunca fiz isso. _ ri constrangida.
_Primeiro, sente-se como eu. _mostrou-me. _ A meditação é uma técnica milenar de prestar atenção na nossa mente. Um mestre indiano chamado Nisargadatta Maharaj ensina que: “Nós conhecemos o mundo exterior de sensações e ações mas, do nosso mundo interior de pensamentos e sentimentos, nós conhecemos muito pouco. O objetivo primário da meditação é que nos tornemos conscientes e que nos familiarizemos com a nossa vida interior”.
Concentrei-me em sua explicação.
_Nosso corpo é como um copo de água cheio, não deve movê-lo durante a meditação para não entornar a água. _ avisou. _ Mantenha a postura ereta para não comprimir o diafragma e preste atenção na sua respiração. Se vier um monte de pensamentos que desencadeie outros pensamentos, não procure conectá-los, apenas olhe como se fosse um vídeo clipe. Por enquanto é só... As cores, os símbolos e as outras técnicas eu ensino da próxima vez.
Ela levantou-se, puxou meus cabelos para trás e delicadamente o enrolou.
_Vou deixá-la a sós para ficar mais tranqüila.
Talvez uma música de rock metálica fosse bem menos inquietante que o silêncio de estar sozinha comigo mesma. Pois era um quadro em branco pronto para ser preenchido. Imediatamente minha mente foi invadida por flashs de memória e todos eles eram muito inquietantes. Caio no hospital, a sensação de raiva e revolta que senti, meu descontrole.
Tentei lembrar das instruções de Sara para simplesmente ver as cenas, sem me concentrar nelas, só ver.
Encontrei-a novamente na sala, sentada no sofá, vendo um álbum pequeno. Ela me sorriu e fez sinal para que eu me sentasse ao seu lado.
_Como foi?
_Angustiante._ ri, com medo de desapontá-la.
_E por quê?
_Porque eu vi o que estava fazendo força para esquecer... _ minha voz soou um tanto triste. Abaixei a cabeça.
_Bela, você sabe quem é essa garota? _ ela me mostrou o álbum.
Eu me surpreendi. Eram minhas fotos com meus amigos em festas, em viagens, sorrindo, feliz, maquiada, bonita.
_Sou eu, lógico. _ achei engraçado como ela tinha aquilo, provavelmente pedira a minha mãe.
_E onde está ela agora?
_Aqui? _ franzi a testa.
_Aqui. _ ela tocou com a ponta do dedo no meu coração._ Muitos acontecimentos ai dentro fizeram essa garota se esconder. Você quer conversar sobre isso?
_É tanta coisa, que nem sei por onde começar...
_Comece por qualquer ponto e quando achar necessário volte, vá a frente. _ deu de ombros.
_Eu não sei o que deu em mim naquele dia do hospital... _ falei-lhe sobre a impressão mais forte que tinha sobre todos os eventos. Caio provavelmente deve ter-lhe contado. _... Parece que um vulcão se apoderou de mim e eu perdi o controle. Comecei a gritar, a ter vontade de esganar o Caio...
Senti-me muito envergonhada pelo que estava revelando.
_E por que ele merecia isso para você? _ perguntou-me friamente, sem ter em seu tom de voz qualquer juízo de valor.
_Porque eu queria que ele sentisse um pouco de dor. Eu queria machucar ele. _confessei e me assustei com as minhas próprias palavras._ Eu sofri durante um tempo sozinha, na minha casa e ele não me deu atenção. Eu sei que ele tinha mil coisas para fazer lá na Prep, mas eu queria que ele me ligasse, me mandasse mensagens, só que nada. Então, eu queria naquele dia no hospital que ele sentisse meu desprezo.
_Quando você começou a sentir essa vontade?
_Então, como estou te contando, quando ele não me deu mais atenção. Eu o via todos os dias e, de repente, ele estava a quilômetros de distância, nem aí para mim... _ não consegui falar mais, aquilo era sufocante.
_Bela, você sabe bem sobre seus sentimentos, mas será que sabe sobre os sentimentos do outro?
_Era o que ele me repetia, que me amava muito e que eu é que não conseguia enxergar isso, porque precisava toda hora que ele demonstrasse. Eu não queria ser assim, mas é da minha essência. Tentar mudar isso, ouvir dele que eu estava enlouquecendo, de fato me tirou do eixo. Eu pirei totalmente...
_Você chegou em um ponto importante. Sua essência. Eu gostaria de falar-lhe sobre isso. Mas queria que você abrisse a sua mente e se livrasse dos preconceitos para ouvir.
_Claro. _ eu estava disposta a ouvir qualquer coisa que me levasse a rearrumar aquele quebra-cabeças.
_Você nasceu no dia 10 de julho. A data do nosso nascimento influi sobre a nossa personalidade. Você é do signo de câncer.
Já viu qual o símbolo desse signo?
_Um caranguejo. _ respondi.
_E o que os caranguejos fazem quando estão acuados? Se escondem dentro do buraco e ficam lá, enfiados em suas casas, para não se deparar com o perigo. Assim são as pessoas desse signo, extremamente instáveis e que se fecham quando se sentem ameaçadas.
_Eu sou um pouco assim. _ concordei.
_Os cancerianos são muito emotivos e sentem na pele todas as vibrações. A imaginação deles é muito fértil e ficam mirabolando em suas cabeças mil possibilidades. Só que lembre-se, querida, a maioria dos problemas só existem em nossas cabeças e nunca virão a se tornar realidade.
Ela poderia estar certa, eu por muito tempo pensei que meu namorado não me amava, mas talvez fosse apenas coisa da minha cabeça e da minha imaginação.
_Cada signo tem um ponto sensível no corpo e os do signo de Câncer é o estômago.
Aquilo fez todo o sentido para mim, eu desencadeara um distúrbio alimentar que me fizera emagrecer muitos quilos e a me dar gastrite.
_O canceriano ama intensamente e se acomoda no amor, mas quando sente que não está sendo correspondido, que alguém está traindo sua confiança, isso pode se tornar irreversível. A mesma força do amor do canceriano é de seu ódio, pois ele não consegue perdoar com tanta facilidade, ele guarda no baú da memória e mata a pessoa dentro de si. É raro chegar a esse ponto, pois a essência do canceriano é ser amoroso e doce, mas quem atinge esse ápice com ele, está perdido... _ avisou.
_Eu nunca acreditei em nada disso. Minha mãe arrancaria minha mão se me visse lendo horóscopo no jornal. Mas algumas coisas batem.
_Horóscopo de jornal não é estudo de signos, são jornalistas de início de carreira brincando de inventar premunições. Acho que existe mais explicações sobre a vida do que pode uma só religião abarcar, ou apenas a ciência elucidar. Porque certos grupos de pessoas cismam em julgar que o modo delas é a única e melhor “visão de mundo”? Essa é uma característica muito antiga de dominação dos povos e está ligada a dinheiro, muito dinheiro. Mas não vamos falar disso e desviar do assunto.
_Você falou com Caio, não é mesmo? _ quis saber.
_Sim, ele me ligou. Caio é um bom menino, mas como disse, é um menino ainda e não sabe lidar com certas situações... Ele me disse que não teria tempo de ficar por perto e queria que alguém tentasse te ajudar e perguntou se eu poderia fazer isso, já que, segundo ele, você teria tido grande empatia por mim.
_Apesar das coisas boas que lembro, a maior parte é de sensações ruins, de solidão e eu não sei se posso lidar com isso. Você acha que devo tentar de novo?
_Você sente que pode?
Calei-me.
_Caio não gostou muito da conversa que tive com ele... _ ela riu.
_Por quê?
_Porque ele quis se colocar na posição de vítima e você de algoz. Mas eu não vejo as coisas assim, com esse maniqueísmo. Um relacionamento não é uma história feita da polaridade positiva e negativa. Um é o bem e outro o mal. Um fez tudinho certo e o outro foi o mostrinho perverso. _ ela caricaturou a situação para que eu pudesse entender melhor. _ Eu falei para ele, que não é só aquilo que a gente faz que pode alterar os sentimentos de outras pessoas. O que a gente também não faz, o que a gente negligencia, também tem uma ordem de potência. Se omitir é uma forma de agir, é uma escolha, é uma ação.
_E ele? Deve ter ficado confuso.
_Ele disse que até eu estava contra ele._riu._ Eu falei que não, que não estava nem do lado dele, nem do seu, mas do amor de vocês.
_Sara, por que existe essa atração e repulsão entre nós desde o início, onde está o equilíbrio que eu não acho? Por que comigo e Caio é assim? Porque simplesmente não ficamos bem e pronto, por que é tão difícil?
_Bela... _ ela encostou sua mão na minha e demorou alguns segundos para responder. _ Você e o Caio têm uma ligação muito forte, que já vem de muuuito tempo. Mas vocês estão vibrando com intensidades diferentes. Você vai sentir isso ainda mais com o tempo. Você vai viver umas experiências aqui fora, ele vai viver outras lá dentro e nem sempre vão estar em mesmo grau de maturidade. Muitas vezes isso poderá provocar um choque.
_Eu sinto que preciso ficar um pouco sozinha. _ falei.
_Eu sei... talvez isso seja o melhor agora. _ ela concordou. _ Para ele também. Por mais que para ele seja ainda mais doloroso.
_Eu sei que me afastar parecerá fraqueza, mas eu assumo que estou fraca e preciso me fortalecer.
_Eu entendo. Bela, eu já estive no seu lugar. _ ela sorriu e entendi o que ela quis dizer. _ Eu sei como é. E ninguém precisa criar as mesmas estratégias de lidar com as situações. Cada mulher saberá e descobrirá como ajustar a sua vida ao seu amor militar.
_É bom demais falar com alguém que me entenda, que eu não pareça louca ou idiota.
_Mas você não está sozinha, querida. Já pensou quantas meninas passam pelo mesmo que você?
_Não conheço nenhuma.
_Eu tenho então uma proposta para te fazer. Outra, nossa, te fiz tantas hoje. Poderá te ajudar a encontrar-se com essas pessoas que vivem igual a você...
_Claro! Fale! _ estava louca para ouvir. Eu me sentia muitíssimo melhor e queria mais e mais a achar meu equilíbrio. Estava interessada em saber o que a senhora Sara queria me propor.


Nota1: Cenas do filme “Como água para Chocolate”



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29 de mai de 2007

Cap 15: O que me importa agora?

Trilha sonora da cena


Débi não demorou muito para me ligar, seu irmão deve ter lhe dito como foi a despedida e a maneira arrasada que eu voltei no carro dele.

_Está tudo bem. _ menti. _ Pode ficar tranqüila, isso fará parte, eu vou suportar muito bem tudo isso. Vou tirar de letra.

_Tem certeza? _ desacreditou.

_Tenho sim! Pode ficar descansada, eu só estou meio mal com meus pais, que estão pegando no meu pé, não posso sair, porque não conseguir passar nas provas... Enfim, resumindo, tá ruim, mas essa maré vai passar. _ falei confiante.

Desliguei antes que minhas palavras já não soassem com tanta convicção. A parte em que eu afirmava que suportaria tudo com gol de letra não fora tão simples assim e conto por quê.

No primeiro mês, eu sabia que não podia esperar muito retorno, havia a adaptação, toda a gama de transformações que ele sofreria. Ou seja, existiam desculpas sólidas para eu me manter de pé e colocar em um canto do meu coração os problemas empilhados.

Mas uma hora a prateleira começa a pesar e não sustentar tantos sentimentos sufocados. Isso começou a ficar bem mais evidente, quando me dei conta de que o mínimo me faltava. Já que não podia ver, tocar, ao menos gostaria de falar com Caio. Ele não era uma pessoa que gostasse de telefone, MSN, orkut ou afins. Sempre fora um pouco tímido e introspectivo. Eu, então, tomei partido e decidi atravessar as noites frias de maio à procura de um orelhão para ligar para ele.

Encolhida no agasalho tremula, ansiosa voltei muitas vezes com o coração vazio. Cada dia uma nova desculpa. Estudando, tirando serviço, dormindo e outras variantes. Os desencontros estavam tão constantes que começou a me bater uma dúvida cruel: ele me amava mesmo? Nos ver uma vez no mês estava sendo suficiente para ele manter o que sentia por mim com o mesmo vigor?

Quando eu perguntava, ele respondia piamente que sim, que amava e que eu é que estava ficando muito neurótica com isso. Para corroborar ainda mais que a obsessão vinha apenas da minha cabeça, argumentava que era mais fácil ele ter ciúme e sentir falta, já que eu estava solta aqui e ele preso lá.

Por alguns segundos eu concordava e me achava uma boba, uma idiota. Mas água que bate na pedra tanto bate até que fura, ou sei lá como era mesmo o ditado.

Muitas coisas eu não lhes contava, porque o magoaria. Calei tantos infernos em mim para privá-lo e protegê-lo. Eu, por exemplo, sentia um pouco de vergonha de dizer que namorava à distância, porque sempre depois precisava ouvir um sermão das pessoas de como elas eram mais felizes vivendo amores reais e próximos. Eu não estava, porém, diante de nenhuma escolha simples, conforme os outros faziam parecer. O meu amor assim me foi dado pela vida: distante.

Eu, desse modo, só tinha duas alternativas cabíveis: ou deixava ele viver a vida dele de PREP e admitia que não suportava aquele amor “de mês”, ou me debateria contra a parede, insistindo que poderia sair como heroína dessa prova de fogo. Não preciso nem dizer qual opção escolhi né?

Minha amiga Débi, certo dia me perguntou que dieta eu estava fazendo. Achei engraçado aquela curiosidade dela.

_Eu não estou fazendo dieta nenhuma, pelo contrário, sai até da academia, estou sem tempo, só estudando, meu pai vai me matar se eu não passar esse ano.

_Nossa, você está emagrecendo muito... _ comentou comigo e através do olhar dela, que usei como espelho, pude enxergar que essas operações e transformações brutais também estavam atingindo meu corpo e não apenas minha mente e coração.

Caio não tinha como perceber isso, porque ficávamos tanto tempo longe, que nossos mundos praticamente não tinham mais aquela área de intercessão que nos permitia enxergar os mínimos detalhes. Cada volta dele era para eu me deparar com um garoto virando homem, diferente, muito diferente nas atitudes, no falar, no pensar, nos sonhos, nas metas.

Tudo era a sua carreira. O assunto era seus campos, suas provas, suas, suas coisas... Eu certa vez resolvi fazer o mesmo e contar-lhe sobre algo do meu cotidiano. Foi bem no início. Narrei como fora meu primeiro dia de volta as aulas. Um episódio mexera muito comigo. Um aluno que eu conhecia e que também não havia passado direto me pedira para retirar uma dúvida. A professora disse alto e em bom tom:

_”Não é para tirar dúvida dele não, você aí. Você é a professora? Se fosse boa você tinha passado no vestibular!”

Aquilo acabara comigo, aquela professora sabia enfiar a faca no ponto fraco. Continuei descrevendo outros fatos que me incomodavam e Caio simplesmente me cortou:

_Ai, não quero falar disso, vamos mudar de assunto? _ levantou-se e foi para seu quarto, estávamos sozinhos em sua casa.

Eu fiquei ali sentada no sofá, olhando para a minha imagem na tela da televisão desligada. Senti um nó na garganta. Ele simplesmente não conseguia lidar com o sofrimento, não conseguia me ouvir. Eu nunca vou esquecer, peguei minha bolsa e sai. Deixei ele no quarto, achando que em algum momento eu iria atrás dele.

Mas sempre Caio me aparecia com suas fortes convicções de que EU, e sempre EU, estava agindo assim porque sob forte saudade não enxergava que o amor dele era o mesmo e ficava exigindo além da conta.

A bola de neve vinha descendo da montanha então com toda força, tornando-se cada vez maior, apanhando toda a neve que se unia a ela, enquanto descia penhasco abaixo.

Por amor a gente suporta o imaginável. Consegue esconder de todo mundo as desventuras de nosso relacionamento e finge com um merecimento de Oscar da Academia que somos as pessoas mais desapegadas do mundo e que nada disso mexe com a gente. É um forte mecanismo de varrer a pena das pessoas para bem longe. Quanto mais gente ao redor sentindo pena, mais nos damos conta da grande droga e bagunça que está nosso lado amoroso da vida.

É chegado um feriadão e junto com ele uma linda viagem de Caio e os amigos. Eu disse Caio e os amigos, Belinha não estava inserida no meio. Sim, por hipótese de eu me oferecer a ir, estaria em uma casa de praia com 20 cuecas e só eu de menina. Definitivamente não entraria na cabeça de papi, nem de mami, muito menos era meu projeto de “viver um namoro normal em alguns dias”.

Só que, segundo o meu namorado de quem vos falo, eu estava sendo um pouquinho egoísta. Ele tinha o direito de rever os amigos, de matar as saudade e eu por AMOR, vejam bem como o Amor é usado para desculpas, tinha que dizer amém.

Eu disse amém, para que não me atirem a pedra de condenação de que não fiz tudo, tudo mesmo para segurar as pontas. Só que esperava ao menos que ele me ligasse. Nada, nem um toque, nenhuma mensagem. Ai, nessas alturas, amigas, a pedra rolando, lembra dela? Era uma mega bolota de neve pertinho da minha cabecinha.

A justificativa? Lá não tinham tomadas suficientes na casa, as mochilas estavam empilhadas e o carregador... Ah, o carregador se misturou com os outros... Engula e chupa essa manga com caroço!?

Beijos, amor, sexo bom, carinho, o mix de tudo isso é capaz de calar a nossa boca, quando acontece o perdão. Mas as coisas não se apagam, elas ficam lá dentro da gente, se acumulando.

Preciso relatar a parte dos meus pais. Era inevitável que eles ficassem sabendo. Foi uma questão de três fases. A primeira: adoraram. Por incrível que pareça, só o fato de eu estar com um militar era sinal de que eu tinha um bom futuro com um homem íntegro. Fase dois: dúvida. Eles perceberam que não era justo eu ficar sozinha, deixando minha vida pessoal em stand by, porque Caio estava estudando fora. Fase três: certeza, eles não queriam que eu sofresse tanto.

Até o meu pai, olha isso! Até meu pai veio um dia no meu quarto perguntar se eu queria ir ao aniversário de uma das minhas amigas que tinha deixado um recado no telefone para mim. Eu lhe disse que não muito. Ir sem Caio ia ser estar exposta a azaração. Pasmem: ele insistiu para eu sair do quarto. Claro, que para me empurrar para fora dali havia um ótimo respaldo. Minhas notas estavam maravilhosas, dignas de um elogio pessoal da diretora, que o chamara até lá para dizer que era com muito prazer que me concediam a bolsa que ele havia se humilhado para pedir para mim.

_Se você não vier, eu vou até aí te arrastar! _ Débi me ligou e de tanto bater na tecla, cedi.

Procurei uma roupa menos careta que um pijama de flanela de elefantinhos e toquei para o lual, animada até, com perspectivas de estar perto de pessoas alegres e elevar o meu moral. Não posso dizer que foi tudo que eu esperava, nem pior do que temi. Coloriu um pouco com um tom de “Frida Kahlo” minha noite morta de sexta-feira.

O retorno fora no carro de um amigo de Débi, que insistira para eu lhe dar uma chance e ficar com ele. Nem adiantou dizer que eu tinha namorado, pois para ele um namoro a distância não era motivo de parar a própria vida.

Durante o percurso, ele permaneceu com o braço no encosto e falando coisas ao meu ouvido. Eu sei que pode parecer para quem ouve o que vou falar um crime, mas eu estava gostando. Não iria trair o Caio, mas fazia tanto tempo que eu não sentia esse calor humano, esse jeito de “provoco uma guerra por você”...

_Vai dizer que você não está com vontade também... _ ele falou.

_Não, não estou. _ falei enfática.

Era de manhã já. Tínhamos esperado amanhecer para ficar menos perigoso de voltar para casa. Saímos todos do carro na porta do meu apartamento. Antes disso, o cara de quem lhes falava, beijou-me a bochecha e tentou chegar na boca, mas eu o afastei. Débi viu pelo retrovisor e nada fez. Acho que ela estava torcendo para eu tirar Caio da cabeça.

_Bela, seu namorado anda armado? _ Débi perguntou e eu estranhei sua pergunta.

_Não. _ respondi, ainda fazendo cara feia para o espertinho que tentara me arrancar um beijo.

_Então, eu espero que ao menos ele seja bem míope e não tenha vista o beijo de vocês... _ Débi falou baixinho próxima ao meu ouvido.

_Eu não o beijei! _ reafirmei e olhei na direção em que Débi olhava. _ Ai meu Deus... _ sussurrei.

Era Caio na janela da minha sala, de farda. Ele deve ter vindo direto para minha casa, bem cedo, me fazer uma surpresa e vira tudo. Mas tudo o quê? Eu empurrei o cara!

_Eu te ligo depois, boa sorte... _ Débi entrou no carro.

Os olhos de Caio ainda estavam vítreos, olhando para baixo. Impassível. Eu engoli em seco. Assim que sai do elevador, o vi na porta do meu apartamento se despedindo de minha mãe.

_Olha ela aí! _ minha mãe falou, mas Caio não se animou, apertou o botão para descer.

Fiz um sinal para minha mãe entrar, que a gente ia começar a ter uma crise ali e ela entendeu o recado.

_Caio... Eu fui em um lual da Sabrina, lembra dela?

_Pode deixar que disso que eu acabei de ver eu não vou nunca deixar de lembrar... _ a voz dele estava sarcástica, ácida mais que nunca.

_Não, Caio! Ele tentou me beijar, mas não encostou na minha boca, eu não deixei, eu falei que tinha namorado...

_Quem procura acha, Bela. E eu estou de saco cheio de você me perseguindo.

_Eu não te persigo! Não fala assim. _ me defendi.

_Você me fez passar o papel de idiota agora, eu lá acreditando em você...

_Caio, você pode acreditar em mim!

_Bela, eu não quero te olhar na minha frente nunca mais! Entendeu bem? _ falou alto e grosso comigo.

Vi o elevador fechar e minha mãe abrir a porta. Ela veio em meu socorro, mas não deixei que me tocasse... Caminhei para o meu quarto e lá fiquei, sem comer e sem beber.

A bola de neve finalmente encostou na minha cabeça e foi avassaladora. Fui fazer xixi no banheiro e no corredor senti tudo rodar... Ficou tudo escuro. Minhas mãos frias, um mal estar. Dormência na nuca.

_Manhê!_ só ouvi o grito metálico do meu irmão se ajoelhando diante do meu corpo que tinha caído. _ Corre, a Bela desmaiou...

Não vi mais nada. Fui mergulhada no escuro, no vazio absoluto e só vim acordar e me dar de volta no mundo em cima de um leito de hospital. Fios estavam presos na veio da minha mão.

Minha cabeça ainda parecia uma caixa cheia de cacos de vidros quebrados chacoalhando. Tentei fazer um esforço para sentar. Em que ponto eu chegara?

Caio me veio a mente. Ele não acreditara em mim, pensara que eu estava curtindo aqui e ele sofrendo lá. Ele não confiava em mim e me achava neurótica. Uma raiva muito grande foi batendo no meu peito. E parece que a força do meu sentimento foi tão grande, que o trouxe até ali. Caio tinha acabado de entrar no quarto.

Caio estava fardado. Por quê? Será que eu ficara tanto tempo ali, que já estava na hora dele ir embora de volta?

_O que você está fazendo aqui? O que resta de mim para você pisar? _ perguntei e agora já não havia mais nem um pingo de amor na voz.

_Eu...

_Eu não quero ouvir! Eu não quero ouvir nada! Já estou cheia, já estou farta de ligar para você mil vezes. De mandar mil mensagens de celular e você nunca me responder. De esperar um “eu te amo” e você desligar com um tchau. Sabe Caio, eu pensei que seria diferente. Eu não estava esperando nenhum mar de rosas, mas queria o mínimo. O mínimo, que me dissesse uma vez no dia o que sentia por mim. Mas não, eu sou a louca, eu sou a neurótica...

_Bela, você não está bem...

_Eu quero que você suma da minha vida! _ eu pedi, sentindo entalar de choro. _Caio, su-ma, vai embora. _berrei.

_Não precisa ser assim...

_Caio, você pode ir ficar com seus amigos. Fica mesmo com eles, sai com eles, aproveita tudo, vai para cama com eles, se comam, se amem, se fodam, se explodam! _ berrei e senti meus batimentos cardíacos se elevarem muito. _ Vai para o inferno!

_Bela... _ Caio estava tão assustado, que não saia do lugar, como se pregos estivessem grampeando os sapatos bem lustrados dele.

_Bela nada! Eu não quero mais ouvir a sua voz. Eu estou com raiva, raiva do modo displicente com que andou me tratando. Eu não tenho que tolerar mais isso.

_Você não está bem, garota, você está louca...

_Eu estou louca! Louca para te ver fora da minha vida e pegar toda essa bagunça, toda essa coisa entoxicante e ter de volta a minha paz...

_Eu não sabia que eu te fazia tão mal...

_Mas me faz. _ limpei as lágrimas dos olhos. _ Me faz muito mal ficar sozinha, me faz muito mal não ter fome, me faz muito mal ir para todas as festas sem ninguém do meu lado. Me faz muito mal ter que só ouvir o que você acha que é importante. Me faz muito mal... Ter que me colocar no posto abaixo da sua carreira e não ter nada em troca...

_Como nada em troca?

_Caio, chega, acabou! Você não quer acreditar em mim, então, acredite no que quiser! Enfermeira... _ berrei e senti que minha boca espumava de raiva.

Uma jovem mulher entrou correndo, muito assustada. Olhou para Caio e não entendeu nada. Pensou que alguém estivesse me fazendo mal. Mas como um homem tão bonito, impecavelmente fardado e com postura de estátua de guerreiro medieval poderia me fazer mal?

_Tira ele daqui._ pedi.

Ela não sabia como proceder.

_É o poder né? _ falei para ela. _ É o poder dele que assusta. Mas ele não vai te mandar pagar flexão não! _ ridicularizei-a.

_Bela, eu vou reconsiderar tudo que falou e pensar que você está assim...

_Caio, eu disse fora! Fora da minha vida! _ fiquei de joelho na cama e os fios do soro me prenderam.

Mais uma enfermeira entrou com uma seringa e elas me seguraram com força.

Eu senti aos poucos o calmante na veia fazer efeito e me bateu uma sonolência. O rosto de Caio ainda estava ali diante de mim, no meio do quarto, parado, impávido. Frio e gélido, como ele se tornou. Meus movimentos de lutar contra as enfermeiras enfraqueceram e eu não vi nada mais.

Só silêncio e paz.


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28 de mai de 2007

Cap 14: "A hora do encontro é também despedida"

Trilha sonora da cena


Apesar de ter sido delicioso meus últimos dias com Caio, era chegado o dia da despedida. Nunca gostei dessa sensação e essa seria a primeira experiência de inúmeras.

A primeira é sempre a mais difícil, pois ainda não sabemos como lidar com ela. Era um dia muito quente e morto. Sabe, quando você olha na janela do seu apartamento e não vê ninguém passando na rua, parece que as pessoas desapareceram. Só um cachorro pardo sem dono fuçando um lixo.

_Bela, nós queremos conversar com você... _ minha mãe me chamou para sala e eu já sabia do que se tratava.

Tantas coisas boas aconteceram comigo no campo amoroso, que não tive tempo de contar o que se sucedera na minha vida acadêmica. Eu não fora bem no vestibular.

No fundo percebi, ao olhar os gabaritos, que ia levar bomba, mas não queria que meus pais vinculassem isso ao meu namoro com Caio, afinal, era apenas o resultado de um processo de um ano e não de alguns dias com ele. Mas pais, sabem com é? Na medida em que não encontram uma explicação sólida, se apegam a primeira que lhes passar na frente. Combinei com Caio de que manteríamos um certo sigilo sobre nós.

Eu tinha ficado mal nos últimos dias, mas especialmente hoje, que Caio vai embora, essa decepção deu trégua para eu me preocupar com algo mais momentâneo. Queria pedir para os meus pais um desconto, a fim deles adiarem esta derradeira conversa para outro dia, eu precisava poupar energias. Mas não havia jeito, eu tinha que caminhar sozinha, com minhas próprias pernas para o abatedouro.

Sentei-me no sofá, diante dos meus pais que já estavam no outro, prontos para me passarem um sermão. Era só eu me manter calada e agüentar firme.

_Bela, nós estamos muito tristes, nos esforçamos o ano inteiro para pagar uma escola boa, e cara! _ minha mãe, pôs toda ênfase no “cara” para não precisar acrescentar a acusação de que eu “estava jogando o dinheiro dela fora”.

_Eu também me esforcei para estudar. _ tentei me defender.

_Tentou nada!_ meu pai explodiu, ele não era homem de muito “tato”.

_Eu tentei sim. _ reafirmei. _ Mas é difícil. É competitivo! Tem reservas de vagas! Eu não sou negra, nem estudei no município. Na época de vocês não tinha isso, e ainda por cima menos pessoas faziam faculdade... _ tentei lembrar de todos os argumentos cabíveis, fossem éticos ou não, para salvar a minha pele, pois eu já sentia o cheiro de punição.

_Mas as suas amigas passaram. _ fatal, não havia outra coisa a se contrapor diante desta frase incisiva de meu pai.

_Claro, passar para letras com 500 vagas não é o mesmo que passar para Comunicação tendo que tirar 42 pontos! _ tentei ainda com um último suspiro agonizante naquela guerra mostrar que de números e estatísticas eu entendia, afinal, fazia parte das porcentagens dos que falharam.

_Você quer mesmo fazer publicidade? _ minha mãe falou com voz calma e olhar de pena.

_Quero, sempre quis! Eu me acho uma pessoa muito criativa e tenho tudo para brilhar...

_E agora? O que espera que eu faça? Me mate de trabalhar, feito um burro de carga naquela empresa para você me mostrar que não passou de novo? _ meu pai não estava querendo facilitar nem um pouco as coisas. _ Nós afrouxamos demais para o seu lado e olha no que deu? Eu cansei de ver você sair com suas amiguinhas para festas.

_Pai, eu preciso ter vida social, vida própria...

_Não precisa porra nenhuma... _ ele levantou-se e minha mãe o segurou.

_Sérgio, se acalma, assim não vamos resolver nada.

Resolver o quê? Já era, eu estava ferrada, não tinha como solucionar aquilo no grito ou na surra.

_Você me envergonha! _ ele disse e aquilo foi muito pior que um tapa na cara.

As lágrimas me vieram aos olhos e minha mãe entendeu que estava na hora de encerrar o assunto.

_Seu pai e eu decidimos ir a escola pedir para eles te darem uma bolsa para você repetir o terceiro ano lá, agora com suas notas no vestibular podemos tentar garantir que você será mais uma que dará nome a escola...

_Estudar de novo lá?_ perguntei.

_O quê? Quer ficar em casa vendo seriado na Net e mexendo no seu orkut, bibelozinho?

_Sérgio! _minha mãe o olhou com repreensão. _ É melhor que tentar pagar um cursinho. _voltou a me dar atenção. _Lá você já conhece os professores...

_..._ não respondi nada.

Eu estava muito mal por não ter ido bem no vestibular, por saber que eu teria que voltar a escola com a palavra fracassada na testa, mas não tinha como tirar da cabeça que hoje Caio iria para São Paulo.

Abri a porta da rua para sair, eu havia combinado de levá-lo até o ponto de ônibus.

_Onde vai, mocinha?_ A voz do meu pai soou do canto da sala, onde ele lia o jornal de esportes Lance.

_Eu preciso dar uma saída._ respondi com voz de cordeirinho e cara de Gato de Botas do filme Shrek.

_Não, não precisa. Pode começar a estudar, eu não acho que está no direito de perder tempo._ sentenciou.

Respirei fundo para não gritar de raiva. Meu Deus, ele não esperava que eu fosse naquela hora pegar a apostila de física e calcular o empuxo da gotinha d’água para a prova do ano que vem?! Sim, era o que ele queria.

Procurei com os olhos pela minha mãe, mas a luz da cozinha estava apagada. Meu pai leu meus pensamentos, sabia a filha que tinha, e me informou que ela havia saído para ir até a casa de uma cliente fazer limpeza de pele.

Eu ainda estava com a mão na fechadura. Não tinha jeito, que não conseguiria dissuadi-lo. Não sem minha mãe por perto para segurar o leão.

Fui para o meu quarto com vontade de pegar a primeira coisa quebrável pela frente e arremessá-la na parede. Isso, contudo, não me levaria até Caio. Ele não podia pensar que eu o tinha esquecido. Esse dia era fatídico para ele.

Sentada na cama, olhei pela fresta da minha porta meu irmão no quarto dele, diante do computador. Não acredito que precisaria contar com aquele pestinha. Era hora de apelar para tudo.

_Betinho... _ entrei em seu quarto e sentei em sua cama. _ Eu quero fazer um acordo com você...

Ele imediatamente desgrudou os olhos da tela do computador e vi seu bonequinho sendo morto, com as tripas e sangue espirrando para tudo que é lado. Eu conseguira tirar sua atenção do jogo online.

_E o que eu vou ganhar com isso?_ ele mostrou que naquele lance a seguridade consistia em eu dar uma boa oferta para livrar a minha cabeça.

_Como era o nome daquele jogo que você entrou para ver no shopping, naquela loja? Lembra? A loja ao lado daquele cyber...

_É uma expansão do Half Life, se chama Source.

_Eu te dou ela, mas você vai ter que me ajudar a sair de casa. Meu pai resolver me prender aqui, porque eu não me dei bem nas provas...

_Viu? Isso é para ver como eu me sinto...

_Tá! _ eu não tinha tempo para ouvir um sermão daquele fedelho sobre o quanto éramos iguais. _ É o seguinte: o Caio vai embora hoje para São Paulo.

_O Caio vai para São Paulo?

_Fala baixo! _ tampei a boca dele com minha mão com força. _Você quer ganhar o jogo não quer?_ perguntei e ele balançou a cabeça afirmativamente. Destampei sua boca._ Então, coloque seu celular no modo vibrar e fica com ele na mão, não pode tirar da sua mão! _instruí. _ Eu vou trancar a porta do meu quarto e para todos os efeitos eu estou lá dentro dormindo, chorando, qualquer coisa assim.

_Tá, mas para que o celular? _ ele ficou confuso.

_Porque quando eu voltar, vou te ligar e você vai tirar o papai de casa. Pede, implora, ajoelha para ele e fala que quer muito que te leve para jogar lá na pracinha.

_Mas eu posso ir sozinho..._ lembrou-me.

_Eu sei... Ah! Diz que quer muito que ele vá.

_Ele vai dizer que está cansado.

_Ai... _mordi a unha. Ele estava me deixando mais nervosa, mas estava certo, eu não poderia contar que o plano seria tão infalível assim. _ Tudo bem, diga que o pai do Fabinho vai também e que você queria mostrar pro pai dele que sabe jogar bola melhor que ele. O meu pai vai adorar te exibir.

_Meu Deus, garota, você é diabólica! Você vai para o inferno! _falou assustado. Que ótimo! Eu estava dando a pior imagem e o pior exemplo para o meu irmão. Mas não era hora de eu pensar em minha pontuação de comportamento com São Pedro com o tempo passando.

_Ok, mas me diz uma coisa, você vai passar pela porta para sair como? Se jogar do quinto andar da janela? _ ele tocou em um ponto importante.

_Se você fosse fazer, como faria?

_Ah! Eu vou chamar o meu pai para ver um site de futebol aqui, tem uns lances em vídeo, aí você aproveita e sai de fininho...

_É por isso que você é meu irmão, é pior que eu! _ pisquei o olho. _ Então, vamos colocar o plano em ação.

_O Source custa 56 reais. _ informou-me.

Meu Deus! Eu teria que vender bala no trânsito com aqueles ganchos cheios de saquinhos de Torrone e jujuba pendurados para comprar esse jogo! Não duvidava nada que meu pai também me cortasse até o dinheiro do lanche, quem dirá minha mesada. Já estava até ouvindo a voz dele “Leva ovo cozido para a escola!”

E assim foi feito. Meu pai foi para o quarto atraído pela isca do meu irmão e quando percebi que ele estava de costas para a porta, eu deslizei pelo corredor e consegui sair, fechando a porta muito de vagar.

Eu não tinha dinheiro para um táxi e era nesse momento que entrava Débi para me socorrer. Pelo menos ela eu não teria que subornar. Contei-lhe o que estava acontecendo e minha amiga me disse que o único jeito era acordar o irmão dela para me levar. Eu enfatizei que aquilo era muito importante. Apesar das reclamações do irmão, que pude ouvir do celular, ele aceitou me quebrar essa “árvore de jequitibá”!

Assim foi, eu cheguei com o coração na boca e não demorou muito para reconhecer os pais de Caio. Mas ele não estava lá.

_Pode ir, eu fico aqui, eu odeio ver despedidas... _ o irmão de Débi ficou no carro e eu abri a porta e corri para ver se ainda estava em tempo de me despedir de Caio.

_Ele já entrou. _ a mãe dele me informou com um ar de desprezo, me culpando silenciosamente por um possível esquecimento.

Não pensei duas vezes, peguei o celular e disquei.

_”Você não possui créditos promocionais, para adquirir novos créditos digite 1”..._ ouvi a voz mecânica da operadora.

Meus dedos tremiam. Disquei a cobrar para o celular de Caio. Ele atendeu:

_Você esqueceu né? _ ele me acusou.

_Eu nunca esqueceria, estou aqui do lado de fora.

Eu não ouvi mais nada, ele desligou. Segundos depois, ele pediu licença para um menino que estava subindo no ônibus e apareceu na porta. Me encontrou com os olhos e desceu. Corremos um em direção ao outro e nos abraçamos.

_Eu vou sentir muito sua falta. _ falei.
_Eu pensei que não vinha. _ me beijou a boca.
_Não sabe o que tive que fazer... Mas depois eu te conto... _ segurei seu rosto com minhas duas mãos. _ Boa viagem!
Nos beijamos com vontade e nos abraçamos com força.

O motorista ligou o ônibus e ele soltou a minha mão no ar e virou as costas. Eu fiquei ali em pé, anestesiada. O ônibus dobrou a esquina e desapareceu.

_Nós já vamos... _ ouvi a voz do padrasto de Caio atrás de mim e senti sua mão em meu ombro. _Você quer uma carona?

_Não precisa, tio. Obrigada. Eu vim com um amigo e se meus pais perguntarem, eu não estive aqui... _ pedi e voltei em direção ao carro do irmão de Débi.

_Que barra, hen! _ ele comentou.

_Tudo bem... _ sorri e limpei o rosto.

Perto de casa eu liguei para o celular do meu irmão e torci para ele ter lembrado da instrução que eu lhe dera de não esquecer o celular. Esqueci, porém, de dizer para ele não estar perto do meu pai, quando tocasse.

_E aí? Cheguei... _ falei baixinho.

_Você está com sorte, meu pai foi dormir! _ ele informou. _ Mas não pense que por isso eu perdi meu jogo não hen?!

_Tá. _ ri daquele desejo infantil e mercenário. _ Eu sei. Valeu.

_Eu queria que alguém um dia fizesse isso por mim. _ o irmão de Débi comentou, entendendo por alto a situação.

_Que nada... Obrigada viu?

_Eu te cobro depois... _ riu.

Sai do carro e voltei para o meu quarto, onde agora de fato, eu consolidava o que havia pedido para meu irmão mentir. Como vê, não vou para o inferno tão rápido assim, afinal, eu teria toda a tarde para sentir aquela perda, sozinha.

Liguei o meu aparelho de som em cima da estante. Abri meu porta CD e tirei do compartimento o cd da trilha sonora da novela "Senhora do destino". Deitei na minha cama e me abracei ao meu travesseiro. Eu queria lembrar como era a música "Encontros e despedidas" de abertura da novela, ela tinha muito a ver com o dia de hoje:

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
Tô chegando

Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida ....

-----***-----

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27 de mai de 2007

Capítulo 13: Revelando segredos

Trilha sonora da cena

Eu não sabia como iria introduzir aquela pergunta, mas era essencial para eu ter a segurança de que rumo tomaria dessa loucura toda que estávamos vivendo em curto prazo. Aproveitei o momento em que estávamos abraçadinhos na beira do rio para perguntar-lhe isso:

_Caio, quais são os seus planos comigo?
_Como assim?
Aquela não era uma pergunta matemática, era simples:
_Ora, estamos aqui, vivendo todas as loucuras de amor, mas e depois?
_Depois? _ ele pareceu realmente confuso.
Estranhei, porque para mim tudo já estava encaixado na cabeça dele, ou será que só estava na minha?
_É, depois. Você vai querer namorar, ficar, enrolar...? _ tentei ser bem objetiva, mais didática que isso só desenhando com a ponta do dedo na areia.
_Eu pensei que você só quisesse ficar... _ ele comentou.
Quê? Eu fiquei desapontada.
_Então, você acha que eu só estou aqui para curtir e depois você nem vai levar nada a sério, vai...
_Bela, não, não é nada disso Belinha... _ ele tentou me interromper.
_Eu devia imaginar! E pensei que você era diferente! _ sentei e procurei meu biquíni, vesti-o outra vez. _ Como eu sou patética e idiota! _ fiquei de pé para amarrar melhor a parte de baixo da tanga do biquíni.
Caio começou a rir. Olhei-o agora sentado, com os braços apoiados nos joelhos.
_Do que está rindo? Ainda por cima está me ridicularizando?
Eu me senti tão ofendida, que vieram lágrimas nos olhos.
_Isabela?! _ ele levantou-se e me falou com um risinho no canto da boca. _ Você fica linda aborrecida...
_Não me vem com esse papinho, quero ir embora... _ olhei para o lado e vi que não seria tão fácil esticar o braço e chamar um táxi, ou fazer sinal para um ônibus. Só havia o Faísca regurgitando relva.
_Você não me deixa nem responder direito! Fica aí tirando suas conclusões, sem nem me dar uma chance!_ reclamou.
_Então, fala, estou ouvindo! _ cruzei os braços e meu pé direito ficou batendo levemente no chão.
_Eu só não perguntei logo se queria namorar comigo, porque pensei que V-O-C-Ê não iria querer. _ disse o “você” com ênfase e apontando o dedo em minha direção. _ Imagina! A garota mais gata do colégio, se não do bairro inteiro, aceita viajar comigo, me leva nas nuvens e... Sei lá... Achei que era sonhar demais te pedir em namoro. De repente, eu poderia tomar um nãozão na cara e quebrar todo o clima. Só poder te beijar, nossa, caramba, eu esperei tanto por isso, entende?
_Quem não sabe querer, fica sem! _ passei por ele emburrada, pronta para descobrir sozinha como se guiava o Faísca. Eu tinha feito toda aquele chilique a toa, mas não daria o braço a torcer.
_Vem aqui, que estou falando com você, mocinha. _ me puxou pelo braço e me fez dar dois passos para trás, como ele estava forte! _Ok, você quer assim. Então, tá?! _ olhou bem nos meus olhos. _Eu quero ser seu namorado e quero que seja minha namorada.
_Mas isso não é uma pergunta, é uma imposição!
_Aaaah! Perdi minha paciência com você... _ foi sua vez de caminhar até o Faísca.
_Vai para casa pelado é? _ peguei seu short em cima da manta e agüentei para não rir.
Ele se tocou e virou para trás, também não resistiu e riu.
_Eu vou dizer que fui atacado por uma ninfeta no meio do caminho. _ zombou.
_Ninfeta! Aaaahhhh! Seu... Seu...
Caio veio correndo e me abraçou:
_Brincadeirinha... _ riu._ Eu só te odeio por quase um segundo.
_Depois me ama mais? _ Olhei seus olhos de jaboticaba, de compridos cílios e sobrancelhas grossas.
_Você sabe que sim, mas gosta de me maltratar, né?
_Que injustiça! _cerrei os olhos e envolvi seu pescoço com meus braços. _ E respondendo a sua “imposição”, sim, eu quero ser sua namorada.
Ele sorriu e me beijou com muita vontade, pendendo meu corpo para trás, me abraçou forte.
_Ai! _ caímos sobre a manta outra vez. _ De novo?
_Ninguém mandou você me provocar...
_Eu?_ ri alto e o deixei me beijar todinha.
O céu estava alaranjado e a tarde nos envolvia quente e acolhedora.
_Meu Deus! Você sempre teve toda essa energia? _ perguntei beijando sua nuca, enquanto ele estava de bruços e olhos fechados, se recuperando, cansado de tanto me amar.
_E você, hen, mocinha... Acaba comigo!_ culpou-me.
_Que isso... _ ri e me levantei para mergulhar no rio. Nunca tinha tomado banho nua assim, como as índias.
_Já pensou se aparece uma sucuri aí?_ ele apoiou os cotovelos no chão e ficou me admirando.
_Tem cobras por aqui? _ me assustei.
_Tem uma aqui...
_Ridículo! _ joguei um pouco de água nele. _Estou falando sério. _fiquei com medo e voltei para a manta.
_Tem lá na Amazônia e quando a gente morar lá?
_A gente morar lá? _ repeti.
_É, ora... Na minha profissão eu vou ter que me transferir para muitos lugares do Brasil.
_Como é que é?
_Eu vou ter missões em vários lugares... E a mulher que estiver comigo vai ter que me acompanhar.
_Mas isso sempre?
_De dois em dois anos...
Eu fiquei muda, sabia que os pais deles moraram em vários lugares, mas não tinha conectado esse fato a minha pessoa!
_Se quiser voltar atrás no que acabou de me dizer...
_Eu quero namorar você... _ garanti, vendo que o tinha feito triste, por causa do meu desapontamento. _ Só é tudo muito novo para mim.
_Para mim também... _ ele abaixou a cabeça e eu o abracei por trás.
_Eu vou tentar fazer de tudo... Ouviu? _ beijei seus cabelos.
_Nós vamos... _ corrigiu. _ Agora acho que está na hora de voltarmos para casa. Acabaram as camisinhas mesmo...
_Seu tarado! _ dei uns tapinhas nele e caímos na gargalhada juntos.
Pegamos nossas coisas e fomos até o Faísca.
Enquanto o cavalo trotava pela trilha e nossos corpos sacolejavam no ritmo das ancas do animal, eu fiquei lembrando da minha conversa com Caio sobre as transferências. Ao mesmo tempo me veio a cabeça as palavras da avó dele sobre missão. Seria essa a tal missão?

***

Encontrei os pais de Caio sentados na sala assistindo televisão, depois de eu ter tomado banho. Perguntei por Caio e a mãe dele não me respondeu. Seu padrasto me disse que estava com a avó no sóton.

_Você vai até lá? _a mãe dele rompeu o silêncio, quando me viu caminhar até a porta.
_Vou, será que irei incomodar...?
_Não, que nada, vai lá, minha filha. _ o padrasto me deu apoio e indicou com a mão para que eu continuasse meu caminho.

A porta estava destrancada. Assim que apareci na soleira da outra porta entreaberta, vi Sara e seu neto sentados no sofá.

_Olha quem chegou! A sua namorada. _ a mulher disse, muito animada, provavelmente deve ter ficado feliz com a notícia que Caio lhe dera recentemente.

_Atrapalho? _ perguntei timidamente.

_Eu que digo isso! _ ela levantou-se.

_Não, fique a vontade. Não queria interromper. _ falei.

_Eu vou olhar o jantar, se está tudo pronto e depois chamo vocês. _ disse, colocando a mão docemente no meu ombro e nos deixou a sós.

_Você está tão cheirosa. _ Caio me puxou pela mão e sentei ao seu lado no sofá. Ele também tinha tomado banho e estava com a pele gelada, cheirando a sabonete e ao desodorante .

_Esse lugar é tão acolhedor. _ confessei. _ Seu avô devia ser um homem muito culto...

_Posso te contar um segredo?_ perguntou.

_Claro! _ respondi louca de curiosidade. Nada mais seria surpreendente, naquela casa cheia de mística. Nem me assustaria em encontrar o Papai Noel e o coelhinho da Páscoa na mesa de jantar, quando descêssemos.

_Meu avô era maçom. _ revelou, esperando minha reação.

_Já li um pouco sobre isso, lembra que me emprestou o livro Código Da Vinci?

_Lembro. Ele se reunia sempre com outros maçons e estudava tudo que pode imaginar sobre filosofia, culturas, religiões...

_Hum... Isso explica tudo isso...

_A maçonaria não é religião, nós não matamos cabritinhos e chupamos o sangue deles. O povo criou vários mitos e diabolizou demais...

_Você disse... “nós”?

Caio ficou mudo, parece que essa parte não estava nos planos dele revelar.

_Eu não participo ainda das reuniões... _ ele abaixou a cabeça. _ minha mãe me proíbe. Ela não consegue nem ouvir falar nessa palavra... Finge que meu padrasto sai com os amigos todas as sextas para beber. Não é muito fácil para a sua cabeça de carola conceber que ele acredite em outras coisas...

Agora todas as peças se encaixavam. Por isso ela não gostara que eu me dera bem com a avó de Caio. Estava explicado porque me ignorara e não me informara que seu filho estava aqui no sóton.

_Eu fui aprendendo muita coisa com meu avô. Ele me ensinava muito. E passava muita coisa para minha avó também. Mas temos uma regra de não contarmos isso as pessoas.

_Por que esse segredo?

_Porque as pessoas vão zombar de você, quando começar a mostrar tudo que sabe. É melhor a discrição. Não usamos o que aprendemos para ser superior, pisar nas pessoas, não! Aprendemos para o nosso crescimento pessoal!

_Puxa, bonito isso! _ disse. _ Por mim, não há problema nenhum...

_Que bom... _ ele pegou na minha mão e sorriu. _ Você é perfeita. _ me deu um beijo._ Os gregos tinha uma explicação bem legal sobre o universo. Imagine um pequeno círculo. _ desenhou com o dedo no ar. _ Quando nascemos nosso círculo é minúsculo. Vamos supor: do tamanho de uma laranja, tá? Tudo que está dentro é o que você sabe e tudo que está fora, o que você desconhece. Cada vez que você aprende uma coisa, ela passa para dentro do círculo e aumenta ele. Vamos dizer que agora ele é do tamanho de uma melancia. Toda vez que as coisas entram, o perímetro do círculo aumenta, certo?

_Certo. _ acompanhei seu raciocínio.

_Por isso, quanto mais você aprende, mais a sua superfície de contato com o que você não sabe aumenta. Mais partes da melancia toca a parte de fora incompreensível.

_Lógico. _ entendi.

_Daí a máxima grega: “tudo que sei é que nada sei”.

_Ah! Eu já ouvi falar disso! _ minha boca se entreabriu como se tivesse descoberto um truque de mágica. _ Que legal!

Abracei Caio e ficamos ali namorando, no silêncio do acolhedor sóton, que diga-se de passagem é mais bonito à noite, com seus candelabros acesos, e os cristais pendurados no teto brilhando. As janelas abertas nos permitiam ver as estrelas. Apesar da luz elétrica, as velas e o fogo davam uma energia no ambiente que eu não sei explicar com palavras.

Aquele final de semana prolongado por causa do feriado fora perfeito. Mas a realidade estava por vir e agora a nossa estória começa de verdade.

Autora: Li

26 de mai de 2007

Capítulo 12: Missões e premunições

Trilha sonora da cena


Acordei com uma deliciosa sensação de ter dormido um sono profundo e tranqüilo. Sorri e me encolhi de baixo do lençol. Eu ainda estava nua, Caio provavelmente saíra apenas quando eu dormira. Fechei os olhos novamente e me senti feliz e completa. Fora delicioso tê-lo completamente unido a mim, em alma e corpo.

A primeira coisa que fiz ao levantar foi procurá-lo pela casa. Sua avó me informou que tinha ido com o padrasto até a cidade buscar algumas compras para ela, juntamente com sua mãe. Eu sentei-me à mesa e pus para mim uma xícara de café, que estava mais forte do que eu estava acostumada a beber. Destampei o pano de prato que protegia o bolo e tirei um pedaço para mim.
_ Gostaria de conversar com você, querida. _ ela falou, após tirar a panela de cima de um fogão à lenha. Achei esquisito, se havia um fogão elétrico, porque ela cozinhava no movido à lenha?

_Claro, pode falar. Não tivemos tempo para conversarmos ainda... Eu cheguei de visita na sua casa...

_Pode terminar seu café, vamos para um lugar mais tranqüilo. _ ela anunciou.

Eu a segui pelo corredor e em um dos cantos da sala, ao lado de uma cristaleira, havia uma porta. Eu não tinha me dado conta daquela porta, nem para onde ela dava. Era o que descobriria naquele momento. Sara, como se chamava a avó de Caio, abriu a fechadura com uma grande chave preta, presa por uma corda da mesma cor. Havia apenas uma parede, ao entrar e olhar para a esquerda, me deparei com uma escada de madeira com degraus baixos e curtos. Era preciso subir de vagar para não tropeçar. Ela tomou o devido cuidado de fechar a porta. Só dava para uma de nós subir por vez e ela passou na minha frente, pois bem acima havia outra porta, que ela iria abrir com a mesma chave. Senti-me em uma cena de filme de magia, e isso porque eu mal imaginava o que iria contemplar dentro de instantes.

Em nenhum momento ela me falava, nem instruía com palavras, apenas indicava com gestos como eu deveria proceder. Sara, então, esticou o braço para que eu pudesse entrar. Eu estanquei e meus pés estavam cravados no chão, mas meus olhos ágeis percorreram cada detalhe do amplo sóton. Era uma espécie de quarto sob o telhado, podia-se ver as telhas e os fachos de luz do sol entrando pelo lugar e iluminando o assoalho de tábua corrida.

Um sofá de três lugares branco estava coberto por uma manta vermelha e no braço direito havia outra manta amarelo estendida elegantemente. Em uma das paredes, um grande mapa astral com minúsculos números, signos, retas que se interligavam e no centro um olho azul. Uma mesa ampla, de aproximadamente quatro jardas minhas estava repleta de livros, folhas, pequenos cristais e um candelabro de nove hastes permanecia apagado, mas com velas gastas pela metade. Imaginei como seria aquele lugar à noite.

Nas minúsculas janelas quadradas, que ficavam na altura do meu busto, cortinas brancas de renda balançavam delicadamente ao sabor do vento. Supus que ela já teria vindo ali de manhã para abrir as janelas. O mais impressionante era a enorme quantidade de livros que se apertavam pelas prateleiras. Eles cobriam as paredes, dando um colorido heterogêneo. Quem teria lido tudo aquilo e por que tantos livros ficavam escondidos ali, longe das pessoas que chegassem na casa? O que falavam aqueles livros que nem todo mundo poderia ter fácil acesso? Aquele próprio lugar era uma resposta para isso.

Senti um cheiro de incenso e reparei que Sara acendera um em cima de um suporte cromado em formato de folha.

_Esse cheiro lembra uma tia minha, ela é macumbeira... Eu nunca entendi bem a religião dela... Não entra na minha cabeça para que dar comida para os santos. _ comentei displicentemente me aproximando da estante para ver o título dos livros, mas antes que eu pudesse me ater a alguma obra, ela se pôs ao meu lado e sua figura em si tinha um poder penetrante de concentrar nossa atenção.
_Os “santos” que chama, não comem. _ corrigiu, gentilmente. _ As forças da natureza podem sentir o aroma da vida. A sua tia não dá de comer aos “santos”. Ela oferece o aroma.
_Hum, não sabia. _ balancei a cabeça afirmativamente.
_Podemos sentar? _ ela esticou o braço e indicou o sofá, onde sentamos lado a lado. _ Caiu me falou de você.
_É? _ surpreendi-me. Ele estivera comigo a todo momento, quando tivera tempo de falar com sua avó? Dei-me conta de que seu amor por mim era muito antigo e que talvez ela já sabia de longa data quem eu era.
_Faz tempo que eu espero a sua chegada. _ ela sorriu e pela primeira vez, desde que eu entrara naquela casa, ela me pareceu simpática.
_Como sabia que eu viria?
_Eu sabia... _ ela sorriu e ficou me olhando.
_O que ele falou de mim? _ perguntei curiosa, sem conseguir olhá-la diretamente, meus olhos não paravam de buscar significado para aquela atmosfera mística.
_Que você é especial. _ resumiu. Nisso ela era bem parecida com ele, simplificava as coisas.
_Ele também é um cara muito especial... _ comentei.
_Sim, é... _ ela cruzou os dedos das mãos e com um braço apoiado no encosto pareceu viajar no tempo. _... Ele chegou aqui em casa muito pequeno, com um boneco de super herói nos braços e um bico enorme. _ riu alto. _ Um garotinho muito emburrado e triste... _ ela levantou as sobrancelhas e respirou fundo. _ Mas ele se encontrou.
_Eu conheci o Caio, quando ele entrou na minha escola. Ficamos muito amigos, estudávamos juntos, fazíamos parte da mesma turma, mas nunca tinha o visto com olhos... _ não sabia como explicar.
_Com olhos do coração?
_É. E agora parece que vou conhecendo outra pessoa, que sempre esteve ali dentro dele, mas que eu não via.
_Ou ele não mostrava...
_Isso! _ senti que ela poderia me entender perfeitamente. De repente, estava tendo uma conversa sincera com uma desconhecida. Conversa que sempre desejei ter com a mãe dele, mas que era inviável ante aos pré-conceitos que nutria sobre mim.
_O avô dele também iria adorar te conhecer. Caio falou muito de você para ele, quando te conheceu.
_Jura? _ ri, envergonhada. Aos poucos eu ia dimensionando a importância que tinha na vida de Caio.
_Acho que só quem não gosta muito de mim é a mãe dele... _tomei a liberdade de confessar-lhe.
_Ela tem medo.
_Medo de quê? Qualquer menina no meu lugar poderia ou não dar certo com ele. Por que eu tenho que ser perfeita? Eu estou errada?
_É que ela ainda não tem certeza se você está preparada para sua missão. _ ela segurou na minha mão, da mesma maneira que a mãe de Caio havia feito naquele dia. Parecia que a cena se repetia.
_Que missão? _ assustei-me mais uma vez.
_Isabela... Você sabe que ele escolheu um caminho agora.
_Sei, ele quer ser militar como seu filho foi...
_E você terá uma missão.
_Mas que missão é essa de que tanto fala? Assim fico com medo. _ me senti acuada.
_Você vai descobrir, por ora, não vamos pensar nisso... Viva cada dia e viva o que o tempo lhe reserva. _ aconselhou-me e tirou sua mão de cima da minha, mas não a soltou, apenas revirou a mão para cima e acariciou com o dedão as linhas da minha palma.
_Desculpe perguntar, mas você lê mão? É que esse lugar...
_Não... _ ela soltou minha mão e me pareceu que aquele “não” era mais para um “não posso lê-la”, por algum motivo que acabara de ver e não queria me dizer, que um “não sei ler”.
Levantei-me e a segui até a mesa onde ela sentou. Havia um pano azul de minúsculas estrelas brancas e um baralho de cartas.
_É um baralho cigano? Você é cigana?
_Você faz muitas perguntas. _ ela pareceu-me atordoada e até jurei que por alguns segundos a senti arrependida de ter me trazido até ali.
_Abre as cartas para mim? _pedi para que jogasse tarot¹ e me sentei em sua frente.
Ela embaralhou as cartas, havia um grande anel verde em seu dedo indicador direito.
_O que você quer saber das cartas?
_Eu quero saber sobre meu futuro com Caio. _ falei o que mais me angustiava.
Ela me olhou e abriu o baralho sobre o pano estralado.
_Escolha três cartas. _ pediu.
Escolhi uma mais próxima de mim, uma no canto direito do meio e outra no início, mais próxima a ela.
_Você vai ser impulsionada a jogar todas as peças nesse novo relacionamento. Um impulso tipicamente jovem. Você vai ter muita coragem para lutar. _ ela falou e antes de continuar, se incomodou com alguma coisa que viu e não quis me dizer. _ Você terá um grande rompimento que te tomará muitas energias. _ Ela me pareceu vaga demais. _ E por último você vai voltar ao equilíbrio e ficar bem.
_Sei... _ eu não tinha visto nada de concreto no que ela falava. _ Qual o nome dessa carta? _ apontei para a minha primeira escolhida.
_”O Mago”, ele é a expansão da consciência pela tentativa e erro.
_E essa?
Ela não me respondeu, pulou para a última carta, sabendo que eu acabaria perguntando sobre essa também.
_Essa aqui é a “Temperança”.
_Que significa?_insisti.
_Que você entrará em equilíbrio, é a transmutação do líquido que passa de uma jarra à outra e lembra a transformação da água em vinho.
_Qual o nome dessa carta?
_ “Sem nome”, me respondeu.
_Como assim “sem nome”?
_É que o nome verdadeiro da carta é cercado de muitos tabus e mitos...
_Como ela se chama?
_A Morte.
Senti um calafrio.
_Mas essa morte não quer dizer necessariamente uma morte física. Ela é a premissa do renascimento.
_Hum... _não perguntei mais nada, não queria mais saber do futuro.
_Você terá que abandonar as idéias do passado e renascer, é o que a carta lhe diz.
_Então, vou dar tempo ao tempo... _ eu completei.
Ouvimos barulho de pessoas chegando de carro. Sara fechou o baralho e sorriu:
_Vamos ver o que eles trouxeram de bom? _ propôs e me senti uma criancinha de cinco anos.
Descemos pela escada e ela abriu a porta. A mãe de Caio não gostou do que viu. Seu sorriso fechou, quando percebeu de onde nós duas tínhamos vindo. Sara percebeu isso e a chamou para a cozinha a fim de ajudá-la a arrumar as coisas. Caio veio ao meu encontro e me deu o primeiro beijo do dia.
_Minha avó gostou mesmo de você.
_Acho que sim. Mas por que está dizendo isso?
_Ela te levou até lá?
_É. _ achei que aquilo não tinha nada de tão importante.
_Ela deve ter sentindo alguma coisa boa em você... _comentou.
Instantaneamente me lembrei do aperto de mão forte, quando eu havia chegado. Teria sido naquele momento?
_Sabe o que eu estava pensando em fazer, só nós dois, juntinhos?
_Ãnh? _ sorri, tentando me esquecer os efeitos das revelações das cartas. Não daria bola para nada daquilo, eu era muito descrédula.
_Tomar banho de rio! Trouxe roupa de banho?
_Claro!_ respondi.
_Tem um rio lindo aqui no sítio, que passa dentro da nossa propriedade, é super silencioso e só nosso, ninguém vai nos atrapalhar e podemos ficar juntinhos... _ ele falou no meu ouvido.
_Quando iremos?
_À tarde, já que o almoço está para sair e eu sinto o meu estômago colado nas costas!_ disse.
_Tudo bem. _ encolhi os ombros, adorei a idéia.
Separamos em uma mochila uma manta grande, algumas coisas para comer e uma garrafa com suco para beber. O passeio não poderia ser mais delicioso, pois pela primeira vez eu montei em um cavalo. Caio foi conduzindo lentamente o trote do animal e meia hora depois estávamos no meio do nada, sozinhos, curtindo o sol e a água morna do rio.
_Eu nunca vou me esquecer desses dias... _ ele comentou, nadando perto de mim.
_Nem eu..._ sorri e o abracei. Nos beijamos e as mãos de Caio por de baixo da água fizeram carinho nas minhas costas...
_Você por acaso trouxe... _ perguntei.
_Hãnhãn... _ ele balançou a cabeça em sinal de sim.
_Ah! Eu imaginava! _ ri alto e o afundei na água.
_Você vai ver... _ ele correu atrás de mim e caímos sobre a manta que tínhamos estendido.
_Não tem risco de ninguém chegar por aqui? _ perguntei, sempre com medo dos olhos alheios.
_Só o Faísca mesmo. _ apontou para o cavalo amarrado em uma árvore a alguns metros de nós.
Caio ficou me contemplando e sua boca molhada se encontrou com a minha. Ele afastou o meu biquíni de curtininha e beijou meus seios, depois os sugou, o que me fez cócegas e me provocou o riso.
Nos beijamos na boca e eu mesma desenlacei atrás o nó do biquíni e o deixei ao meu lado. As mãos de Caio me percorreram e antes que eu perdesse a lucidez, o lembrei de pegar a camisinha, que estava no bolso da frente de sua mochila. Ele hesitou por uns instantes, como se lembrasse de algo e eu li seus pensamentos e desejos. Desci meus beijos por seu pescoço, seu peito e ele fechou os olhos para não ver o sol e poder sentir todo o prazer que eu podia lhe provocar. Depois disso, ele colocou a camisinha e apoiou os braços no chão para não pesar todo seu corpo sobre o meu.
_Você é incrível... _ eu disse e levantei meu pescoço para encontrar sua boca.
Caio me beijou com vontade e eu estava ainda mais relaxada que ontem. Estar ali no meio da natureza, amando-o deliciosamente, era a imagem mais perfeita da plenitude da vida.
Ficamos abraçados por um tempo ouvindo o barulho dos pássaros. Fiz carinho em seu peito e ele brincou de fazer círculos com a ponta do dedo em meus mamilos. Aquilo me provocou cócegas e eu afastei gentilmente sua mão.
_Sua avó tem tantos livros... _ comentei, aquele encontro de manhã não me saia de jeito nenhum da cabeça.
_A maioria era do meu avô. Ele era um homem muito estudioso. _comentou.
_Hum... _apoiei minha cabeça no braço. _ Caio, queria te fazer uma pergunta muito importante.
_Qual?

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Nota1: Para jogar o Tarot (sem ajuda de uma intérprete), clique aqui (Obs=Não jogue mais de uma vez no dia.)

25 de mai de 2007

Capítulo 11: Quero ter você bem mais que perto

Trilha sonora da cena


Convencer os pais a deixar que as coisas cogitem ao nosso favor é uma arte.Na hora da janta, após pedir para passar a salada de macarrão com maionese, falei displicentemente sobre a viagem.

(Regra nº 1: Não escolha nenhum momento especial demais, já que quer parecer que não se trata de algo importante).

_Os pais do Caio vão passar o fim de semana no sítio da avó do Caio e me chamaram.

(Regra nº 2: Minta com um certo limite, tudo que eles vão adorar saber é que terão pais por perto.)

_É? Quando?_ meu pai perguntou.

_Esse fim de semana. _ repeti, eles não se cansariam de confirmar os dados, mesmo que eu já estivesse anunciado.

_Hum. _ minha mãe mostrou que não gostara muito.

_Eu disse que sim, não tenho muita coisa para estudar esse fim de semana e nem vamos ter prova, porque a escola será detetizada. _ cortei o bife calmamente, sem mostrar entusiasmo. _ Ele é meu grande amigo, somos quase irmãos, vou ser bem acolhida lá e aproveito para esfriar a cabeça para as provas que virão. Acho que mereço.

(Regra nº3: Se achar que pode arriscar, arrisque.)

_Não temos dinheiro para dar... Espero que entenda, minha filha. Mas temos que pagar a parcela da casa, do carro e seu pai já gastou quase todo o salário do mês.

_Ih, mãe, nem se preocupa, porque eles não vão para hotel, mas para o sítio, lá tem muitos quartos. Não acredito que me cobrem pelo prato de comida. E no mais vou de carona com eles. No máximo, levo a minha mesada, mas acho que nem isso vou precisar... _ comentei arriscando todas as fichas.

_Se é assim... Acha que tem algum problema amor? _ minha mãe perguntou.

Meu pai continuou mastigando sua carne. Me estudava com os olhos.

_Betinho, meu filho, vem! _ minha mãe gritou. _ Sai desse computador, garoto! A comida ta na mesa, vai esfriar. _ avisou. _ Esse menino ta muito viciado, eu tenho que cortar essa internet dele!

Essa não, Roberto estava vindo e isso era um péssimo presságio. O meu irmão enxerido ia querer colocar a mão no mel e eu tomaria as ferroadas das abelhas.

Aqueles segundos do veredicto final não poderiam parecer mais intermináveis.

_Eu só não queria que ficasse tarde para confirmar com eles, porque fica tão deselegante ligar altas horas... _ comentei tentando dar uma pressãozinha.

_Tudo bem. Já que os pais deles vão. _ meu pai permitiu.

“Yuuuuuhuuuuuuuuuuu Yuuupi! Eeeehhhhhhhhhh Viva!”, comemorei internamente e antes que o assunto continuasse e Robertinho viesse dar o pitaco dele, sai da mesa com a desculpa de que queria ver o meu seriado de tv, quando na verdade eu estava louca para ligar para Caio.

_Alô?_ ele atendeu o celular.
_Oi, sou eu.
_Oi! E aí? Dobrou as feras? _ riu.
_Sim! Eles deixaram! _ minha voz era exultante, mas baixa para que meus pais não ouvissem.
_Ótimo, vou falar com meus pais.
_Como assim falar com seus pais? Você ainda não falou?!
_Calma!
_Caio, eu disse que eles tinham me convidado.
_Tsi Tsi... Que coisa feia, hen? Pregando mentirinhas! Meninas assim vão para o inferno.
_Caio, não é hora para brincadeira!
_Bela, já te disse que sempre admirei sua cara de irritada?
_Caio... _ tentei ser doce._ É que não sabe o quanto demandou uma operação de inteligência para convencer meus pais de que não tinha nada demais de viajar com vocês.
_Você não confia em mim?
_Confio, o que eu não confio é no destino, que quando quer só cogita contra mim.
_Eu não acredito em destino, acredito no que podemos mudar com nossas mãos.
_Me liga para dizer que está tudo ok? Não vou conseguir dormir.
_Tá. Daqui uns vinte minutos te ligo. Eles estão na sala conversando...
_Certo, vou esperar. Mas liga mesmo ta? Beijos.
Desliguei o celular. Eu tinha que me manter ocupada para não ter uma crise de ansiedade. Não sou um tipo de pessoa capaz de esperar. Procurei minha mala, já empoeirada de baixo da cama. Busquei uma meia velha do meu irmão no quarto dele, molhei na pia da cozinha e tentei melhorar o aspecto do preto todo cinza de poeira.
Pronto, agora eu precisava lembrar de tudo que eu usaria. Abri uma folha da agenda e escrevi uma lista extensa. Aos poucos fui enchendo a mala e me dei conta de que havia colocado coisas demais.

E biquíni? Será que lá tinha piscina ou rio? E se tivesse? Droga! Eu nem estava depilada. Olhei minhas pernas com uns pelinhos apontando. Droga! Essa não! Respirei fundo e fui até o banheiro. Coloquei o chuveiro no quente. Peguei um creme de cabelo e passei nas pernas. Aquela operação emergência não é recomendada, mas naquelas alturas, só isso seria a solução. Desencapei um aparelho de barbear descartável e não demorou muito tempo para eu estar lisinha.

Menos um problema!, pensei. Voltei para o meu quarto e procurei um hidratante para passar na pele. Enfiei a lâmina dentro da mala, para alguma outra situação que eu precisasse.

Nessas alturas o meu celular tocou.
_E aí?
_E ai que...
_E ai que o quê? Caio não faz suspense...
_Você quer mesmo ir?
_Ai, Caio, eu vou matar você! Odeio me sentir em programa de auditório competindo por audiência.
_Eles deixaram. Minha mãe fez um baita interrogatório, mas deixou.
_Será que ela vai gostar? Você disse o que sobre a gente?
_Que estamos ficando.
_Ela entendeu o que é “estamos ficando”?_ perguntei.
_Entendeu, depois de umas explicações que eu dei... mas o que contou mesmo foi o aval do meu padrasto que está louco para me ver tomar atitudes de homem “É isso aí, ele tá certo!” _ imitou a voz dele.
_Ai, eu vou dar um beijo no seu padrasto!
_Não vai nada que eu vou ficar com ciúme.
_Hum... Bobinho, eu vou dar em você também.
_Acho bom! _ ficou emburrado. _Então, Belinha, amanhã passamos aí para te pegar às 7 horas, assim a gente chega na hora do almoço no sítio. Ta bom o horário para você?
_Tá ótimo, claro! Vou tentar dormir, então. Nossa que bom que conseguimos!
_Eu disse que podia confiar em mim... _ lembrou.

***
Às onze e meia chegamos no sítio. Era uma casa grande feita de madeira pintada de branca, com as molduras das portas e janelas de azul marinho, bem no estilo colonial. Uma fumaça cinza saia pela chaminé e o primeiro a perceber a chegada do carro foi um cachorro grande e preto.

_Barão!_ Caio fez um carinho na cabeça do animal e eu me mantive longe, receosa, não era muito boa com os bichos.

A avó de Caio não era exatamente o que eu tinha imaginado. Não era uma velhinha gorda, de óculos e cabelos presos com grampo fazendo compotas de doces. A mulher era magra, alta e tinha o cabelo grisalho liso e solto. Vestia uma calça jeans azul marinho e calçava umas botas de couro marrom escuro. A blusa branca por dentro da calça ficava contrastante com seu largo cinto de couro marrom claro.

_Vó, essa é a Isabela. _ Caio me apresentou.
_Olá! _ ela me sorriu e se limitou a estender a mão e inclinar a cabeça com muita elegância. Sua mão segurou a minha por alguns segundos a mais do que o normal e nesse período seus olhos ficaram muito fixos dentro dos meus, como se me lesse. Depois eu iria entender o porquê disso.
Um empregado da casa vestindo macacão e botas levou minhas malas até o único quarto que ficava no andar de baixo. Suas botas batiam no assoalho fazendo um barulho que trazia vida aquele ambiente. Tudo produzia som, tinha um cheiro agradável.
O quarto era simples. Com uma cama de casal forrada por um lençol branco de minúsculas flores vermelhas cheirando a alfazema. Da janela podia se ver árvores carregadas de laranja e o cachorro entre as galinhas que ciscavam pelo terreiro de barro.
Senti-me tão feliz de estar naquele lugar. Era mergulhar em um livro de época de Machado de Assis ou José de Alencar.
Em cima da penteadeira de madeira escura duas toalhas brancas dobradas, com uma caixa de sabonete Lux branco em cima me diziam que aquilo tudo havia sido preparado para mim especialmente antes da minha chegada.
_Alguém perdida aqui? _ Caio apareceu na porta.
_Oi... _ sorri e ele veio me abraçar gostoso. _ É lindo esse lugar! É tão aconchegante.
_É. Você ia adorar conhecer meu avô... _ ele fez uma pausa.
_Ele morreu?
_É, faz dois anos. _ respondeu e percebi que o assunto o fazia ficar muito triste. _ Vou te mostrar... _ Caio me pegou pela mão e me levou até uma pequena saleta onde havia dois sofás de couro apenas um de frente para o outro. Era uma ante-sala entre o quarto onde eu estava e uma varanda que dava para a entrada da casa. Na parede, havia muitos retratos do avô de Caio vestido de farda. Uma bandeira do Brasil e muitos quadros de condecorações.
_Essa é a bandeira da cavalaria... _ Caio apontou.
_Você quer ser cavaleiro?
_Ainda não sei... _ me respondeu._ Ainda é cedo para escolher, só poderei escolher daqui a três anos.
_Você quer ser como ele?
_Se fosse pelo menos metade... _ disse com humildade.
O almoço foi servido na mesa da sala. Enquanto os pratos estavam sendo colocados pela avó de Caio e sua mãe, que dispensaram minha ajuda, fiquei fotografando mentalmente o lugar. Era tudo muito bem decorado.
Flores naturais por toda parte coloriam o ambiente. As paredes por dentro eram de pequenos tijolos que davam um tom de avermelhado. Meu apartamento praticamente caberia dentro daquela sala. Aquela sala deveria ser muito antiga mesmo, pois era de costume das famílias nobres terem casas grandes com salas enormes para poder receber a sociedade.
Após almoçarmos a deliciosa carne assada com farofa e arroz quebradinho, todos foram tirar a cesta, menos Caio e eu, que nos deixamos ficar no sofá.
Deitei em seu colo e peguei uma almofada para apoiar na barriga.
_É estranho...
_O quê? _ ele perguntou mexendo no meu cabelo, como adorava fazer, puxando com os dedos os fios até soltar eles no ar.
_Estamos a tão pouco tempo desse jeito... e parece que é assim desde sempre.
_Mas nós estamos a muito tempo juntos. _ ele corrigiu. _ Não é preciso apenas beijar na boca para ser íntimo de alguém. Nós sempre fomos grandes amigos.
_É... Pode ser... _ fiquei mexendo na franja da borda da almofada. _ Desde quando você sentiu atração por mim. Digo atração mesmo?
_Desde a primeira vez que te vi, mas se você só podia me dar a amizade, então, eu teria que me contentar com isso...
_E você? Nunca teve vontade alguma de sei lá... Experimentar me beijar?
Eu sentei no sofá e olhei para ele. Confessaria ou não?
_Já! Mas eu tinha medo de chegar a uma conclusão negativa e aí perderia sua amizade, porque as coisas não seriam iguais outra vez.
_Ufa, que bom que passamos desse estágio! _ brincou juntando as mãos em sinal de oração que me fez rir.
_Eu estou adorando passar esses últimos dias com você.
A palavra “últimos” saiu sem querer e pelo meu rosto pensativo, Caio percebeu logo que eu mais uma vez pensava na futura despedida.
_Tudo tem um preço... _ comentou.
_Eu não queria que fosse alto demais.
_Assim o retorno seria na mesma proporção... _ lembrou-me.
_Não vamos falar disso? _ foi minha vez de pedir.
_Claro, ainda estamos aqui..._ abriu os braços para eu voltar para seu colo.
_Acho que eu vou dormir aqui... _ comentei.
_Então, deixa eu deitar no outro sofá para você ficar mais acomodada. _ ele ligou a televisão baixinho e deitou no outro sofá.
Eu fiquei por um tempo observando-o, mas meus olhos não demoraram muito para se fecharem e eu adormecer. Tinha acordado muito cedo e dormido mal de ansiedade.
Só fui despertar horas depois, com o cheiro forte de café e os risos das pessoas que se reuniam na mesa.
Caio não estava no sofá, mas não demorou muito para ele vir para perto, quando eu sentei e cocei os olhos para procurá-lo.
_Quer bolo de fubá? _ ele ofereceu e eu sorri.
_Quero, mas vou antes vou lavar meu rosto. _ calcei meu chinelo e fui até o banheiro.
Assim era aquele lugar, tranqüilo e pacífico. Todos dormiram cedo e mais uma vez só restou Caio e eu. Ele trouxe da sua bolsa seu mp3 e voltou para sala.
_Vamos ver as estrelas lá fora?
_Ver estrelas? _ franzi a testa.
_É, meu amor! _ ele disse puxando-me delicadamente pela mão.
“Meu amor”... eu nunca havia sido chamada assim por ninguém.
_Nossa, são lindas mesmo, lá na cidade não conseguimos ver tantas como aqui. _ comentei sem conseguir parar de olhar o céu.
_Eu ouvi essa música aqui e achei tão legal. Baixei para te mostrar. Sei que é boiola... _ridicularizou-se.
_Pára com isso! _briguei pegando um dos fone de ouvido. Coloquei na minha orelha direita.
Sentei encima de uma mureta de cimento da varanda e Caio se aproximou, ficando entre as minhas pernas.
_Estou mais alta que você...
_Alguns centímetros e já se acha poderosa né? _ riu. _ Escuta só a Música._ pediu.
Quando começou a tocar eu reconheci:
_Eu conheço... _ falei baixinho:_
Nas ruas de outono
Os meus passos vão ficar
E todo abandono que eu sentia vai passar
As folhas pelo chão
Que um dia o vento vai levar
Meus olhos só verão que tudo poderá mudar

Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada
Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto

Daria pra escrever um livro
Se eu fosse contar
Tudo que passei antes de te encontrar
Pego sua mão e peço pra me escutar
Seu olhar me diz que você quer me acompanhar

Eu voltei por entre as flores da estrada
Pra dizer que sem você não há mais nada
Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto

Quero ter você bem mais que perto
Com você eu sinto o céu aberto...

Caio ficou me ouvindo cantar e por fim lhe perguntei por que havia escolhido essa música para me mostrar:

_Porque eu vou voltar... _ ele resumiu com seu grande poder de sintetizar tudo.
_Eu queria ter você sempre perto. _ abracei-o.
_Vou buscar uma coisa para a gente. _ ele entrou e me deixou com os fones no ouvido. Escutei mais uma vez a música da Ana Carolina.
Ele apareceu com dois cálices e uma garrafa de vinho.
_Era do meu avô, muito antiga. Estava no armário.
_E você vai abrir?! Sua avó pode não gostar...
_Ele me deu.
_Ele te deu uma garrafa? _ franzi a testa.
_Você vai rir, mas ele me disse... Meu filho, as mulheres são como os vinhos... Deixa o tempo para elas ficarem melhores...
_Hummm...
_E ele me disse que essa garrafa era para eu tomar em um momento especial.
_E esse momento é especial? _ perguntei, me vendo de jeans, sentada em uma mureta de cimento sem comemorar data nenhuma.
_É. _ ele abriu a garrafa e bebeu um pouco.
_Eu não sabia que você bebia, sempre me pareceu tão certinho.
_Você não sabe muitas coisas sobre mim.
_Não é? _ bebi o vinho da minha taça que ele havia enchido.
_Vamos aproveitar que estamos sozinhos para curtir a noite... _ me beijou.
A garrafa cálice a cálice chegou até a metade.
Meu corpo com o álcool ficou mais quente, ou seria o calor produzido por nossos corpos? Os beijos se tornaram mais intensos e as mãos mais ligeiras. Até o ar começou a faltar. Caio beijou meu pescoço todo e eu senti que já não era mais tão fácil resistir.
_Vamos ficar um pouquinho no seu quarto. _ ele pediu.
_E sua avó? Seus pais podem acordar... _ lembrei.
_Eles estão dormindo, relaxa. Minha avó toma remédio e dorme feito pedra, meus pais estão cansados. Não se preocupe. Para você não ficar com medo, vou trancar a porta do meu quarto de chave e a do seu também. E aí, ninguém vai poder entrar, mesmo que queira bisbilhotar.
_Você planejou isso antes?
_Eu penso rápido, gata. _ piscou o olho e me ajudou a descer. _ Aqui está muito desconfortável...
Fechamos a porta da sala e fomos para o quarto. Aquilo não era o moralmente certo, mas entre nós não parecia nada demais. Tirei a sandália e me estiquei na cama. Caio deitou ao meu lado, depois de deixar o vinho na penteadeira.
_Onde eu parei... _ ele me beijou a boca e com os braços me trouxe mais para perto.
Minhas pernas ficaram entre as dele e minhas mãos fizeram carinho em seu cabelo.
O que aconteceu depois de mais vinho eu não sabia, só acordei com uma leve dor de cabeça e muita vontade de fazer xixi.
O primeiro impulso foi olhar se eu estava vestida. Estava. Onde eu estava com a cabeça? Levantei da cama e fui até o banheiro no corredor. O meu relógio no pulso marcava sete da manhã e eles já estavam reunidos na mesa do café da manhã? Eu poderia perfeitamente dormir até meio dia!
E o que alegaria para pedir um remédio para dor de cabeça? Dizer que o suco de laranja do jantar não tinha me caído bem?
Perguntei a avó de Caio, onde seu neto estava e ela me indicou o estábulo.
_Lá? _ calculei, olhando da janela da sala, que de sandália meu pé atolaria na lama.
_Vou te dar uma coisa para calçar. _ ela pegou em um quartinho da dispensa um par de botas de plástico, semelhante as que usam os açougueiros.
Caio estava montando em um cavalo. Pulou alguns obstáculos feitos com troncos e parou quando percebeu que eu me aproximara da cerca.
_Bom dia. _ sorri.
Ele desceu do animal e o amarrou. Deu a volta e me encontrou do outro lado da cerca.
_Nunca pensei que gostasse tanto de vinho, hen? Quase me bateu pelo último gole. _ zombou.
_Mentira!_ fiquei com as bochechas vermelhas.
_Mas não se preocupe, minha avó não contou para os meus pais o que ela viu.
_O que ela viu? E o que que ela viu? _ repeti aquilo sentindo um frio percorrer minha espinha!
_ Ah, a gente estava lá fazendo carinho... _ ele coçou a cabeça._ Só que você se descontrolo eu começou a fazer strip tease.
_Eu? Impossível...
_Eu disse que você bebeu demais!
_Ai você quis correr até a cozinha nua para pegar mais vinho. Eu insisti que não tinha nada na geladeira, só suco. Mas você não queria acreditar.
_Você está me zoando!
_Sério! Ai, você foi até a cozinha, eu tentei te levar de volta para o quarto, mas você começou a me abraçar e ai a gente foi para mesa e pronto, já era...
_Você ta tirando sarro da minha cara!
_Você não reparou que minha avó estava séria com você?
Eu parei um segundo para pensar...
_Ai meu deus! Meu deus, não!!!!! _ bati com a mão na testa e senti falta de ar. _ Nós dois? Na mesa da cozinha?
_Mas o pior de tudo é que... Eu nem lembrei da camisinha... O vinho sabe como é.
_Quê? Você não lembrou? Ai meu Deus! _ eu definitivamente ia ter um ataque do coração.
Caio não se agüentou e começou a rir.
_Ah! Seu cachorro! _ enchi ele de tapinhas, mas segurou as minhas mãos e colocou meus pulsos para trás.
_Isso é coisa com que se brinque? _ falei com muita raiva.
_Eu não costumo fazer amor com mulheres inconscientes.
_Eu não estava inconsciente!
_Ah! Não?_ riu.
_Eu também não vou fazer mais nada! _ fiz jogo duro.
_Deixa de bobeira. Era só para ver sua carinha de ódio de mim.
_Vou tomar café, estou com dor de cabeça. _ sai pisando fundo na lama. _ E eu não estava inconsciente!_ falei e voltei a andar.
Ele riu e não deu bola.
Passamos o dia assim, eu emburrada e ele sem me dar bola, nem correr atrás. Viu televisão, conversou com o pai, montou a cavalo. Só mesmo à noite que eu pensei em deixar de charme.
Tive a idéia de ir até seu quarto. Mas se eu entrasse no quarto errado? Já pensou? O que eu iria alegar? Desculpe, estava querendo um edredom nesse calor?
Torci para que a pessoa que estivesse passando no corredor fosse Caio. Abri a porta e o vi na cozinha.
_ Bebendo seu leitinho?_ falei carinhosamente.
_É. Eu bebi muita Coca Cola com limão. Não me caiu bem.
_Hum...
Fui até ele e o abracei por trás.
_Cansou?
_De?
_Ficar de pirraça. _ deixou a caneca de alumínio na pia.
_Ah! É que eu fiquei me sentindo uma idiota... Não devia nem ter ido lá para o quarto com você...
_Por que não? Bela, seja livre, você é muito presa a regras, a o que os outros escrevem como certo naqueles livrinhos patéticos para mulheres.
_Pode ser... Mas é que eu me senti fazendo algo errado.
_Ah! Isso é normal. As pessoas sempre diabolizaram o contato físico.
_... _ fiquei encostada na mesa, ao lado dele sem nada dizer.
Caio me beijou pela primeira vez, desde de manhã. Ficamos ali por uns quinze minutos.
_Vamos sair daqui, gosto de privacidade. _ ele me puxou até o quarto.
Fechamos a porta atrás de nós e eu deitei na cama. Mas dessa vez Caio não queria ficar longe, manter distância. Ele sabia o que tinha vindo buscar. Nunca imaginei que esse Caio existisse.
_Você pode me mandar embora agora... _ ele falou em meu ouvido.
_Eu devo?
_Você não quer?
_Não sei se devo...
_Perguntei se quer. _ repetiu.
_Quero..._ respondi sinceramente.
Ele ficou de joelhos e tirou a camisa, deixando-a cair no chão, ao lado da cama. Minhas mãos percorreram suas costas largas quando veio sobre mim beijar meu pescoço.
_Você é maravilhosa... _ falou ofegante e eu estava na linha limite de perder a consciência e agora não mais pela bebida, mas pelo extinto animal.
_Você também... _ disse, sentindo-o abaixar as alças do meu sutiã. _ Ai...
Caio caiu de boca nos meus seios e seus lábios quentes me sorveram.
_Eu tenho medo de alguém chegar... _ falei baixinho quando ele se livrou do meu sutiã, jogando-o para o lado.
_Confia em mim. _ pediu e abriu a calça.
Meu coração disparou de uma forma que eu podia senti-lo como um sapo entalado na minha boca coachando.
_Nossa, como isso está apertado! _ riu e o achei tão doce, que de repente aquilo me pareceu normal, como se fossemos irmãos, a vergonha foi passando.
_Droga! _ lembrou-se de algo. _ A camisinha está na minha carteira... Vou lá buscar, vestiu a calça de novo e abriu a porta.
Pronto! Eu tinha o tempo que fosse para pensar. Podia até ouvir o grito de Débi, quando eu lhe contasse “Você transou com o Caio!?”
Mas eu estava segura de mim, eu já o conhecia há anos, tudo bem, beijar não fora a tanto tempo assim, mas eu necessitava daquilo. Não me importava o quanto aos olhos da religião que minha mãe tanto tentava enfiar na minha cabeça eu estava condenada a fogueira do inferno.
_Desculpe..._ ele voltou. _ Eu tinha esquecido... _ fechou a porta.
_Tudo bem... _ disse fria.
Ele percebeu que o clima tinha sido cortado e largou o pacote azul. Veio me beijar outra vez. Meu corpo não demorou muito para querê-lo de novo.
Caio, então, abriu o pacote e era minha vez de me livrar do meu short. Ai a minha calcinha! Tentei lembrar a que eu estava usando. Mas não precisei ficar com mais de alguns segundos com ela. Foi indiferente.
_Você me deixa louco. _ ele me beijou com muita vontade e eu perdi o fôlego.
_Então vem... _ disse e Caio gentilmente se uniu a mim e dali em diante já nem me importava mais ninguém fora daquela porta. Só nós dois.
Nos amamos com muita vontade, suor, paixão, volúpia. Segurei com as mãos para trás a cabeceira da cama e ele me olhou com olhos de fervor. Mordi os lábios.
Caímos mortos, cansados, anestesiados. Só sobrou força para nos abraçarmos. Seu corpo estava molhado de suor e eu beijei levemente seus lábios.
_Você vai voltar sempre?... _ perguntei baixinho.
_Vou..._ ele fez carinho no meu cabelo.
Fechei os olhos. Eu não sabia o que o futuro me reservava. Só queria curtir aquela noite perfeita e deliciosa com ele.


Autora:Li